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Crônica de um educador

14 de Marco de 2011, por Evaldo Balbino

Assisti outro dia a um evento na Universidade Federal de Minas Gerais. Tratou-se da entrega de diplomas e medalhas a alunos vencedores da Olimpíada Mineira de Química de 2010: a OMQ, sigla entre outras siglas, esta mania de batizar, num relâmpago, muito do que existe.

O que pude presenciar desde o início da cerimônia foi um triste índice. Triste e óbvio para as mentes antenadas de hoje. Não me lembro aqui de números, mas digo do que presenciei. Falou-se da quase ausência de escolas do lado norte de Minas Gerais nas Olimpíadas. Para cima de Belo Horizonte, praticamente nenhuma instituição de ensino marcou comparecimento no processo.

Tudo bem que se discutiu sobre futuros projetos nos quais buscarão a entrada de tais estabelecimentos na OMQ. Sobre outro fato, no entanto, ninguém nada comentou. O de que praticamente 100% das escolas premiadas são da rede privada de ensino e, espantosamente, situadas em Belo Horizonte. Centramentos políticos e outros centramentos andam de fato juntos.

Nomes conhecidos de escolas desfilaram perante os olhos e os ouvidos da plateia, composta em sua maioria por alunos e seus familiares. Não cito nomes, pois talvez isso não seja politicamente correto. Além disso, propagandas como as que presenciamos são insuperáveis. Basta dizer que são escolas da nata econômica da capital mineira. A exceção ficou por conta de algumas poucas escolas estaduais e uma municipal.

Diplomas de honra ao mérito, medalhas de bronze, prata e ouro foram distribuídos. Não faltaram, em alguns momentos, cumprimentos característicos entre alunos de colégios militares e um professor também militar. Confesso que, diante de tais saudações, eu teria me emocionado se tudo tivesse acontecido sob os auspícios parnasianos do Hino Nacional. Nada contra o Hino, que é belíssimo a despeito de suas ideologias equivocadas. Mas miro sempre de soslaio essas pantomimas engraçadas que andaram inventando no passado e que ainda hoje muitos papagaios repetem. É sinal de respeito, defendem. E fico me perguntando o que entendem pelo verdadeiro respeito.

As exceções são sempre atraentes. E eis que um desses alunos militares quebrou o protocolo, passando pelo professor militar e cumprimentando-o educadamente como fazem os mortais: deu-lhe apenas um aperto de mão.

Falando ainda das exceções, cheguemos agora à escola municipal, a bendita fruta entre as “maiores”. Ao final do evento, uma professora, que doravante é a coordenadora da OMQ, fez uma homenagem às escolas cujo maior número de alunos obteve diplomas e medalhas. Citou a Escola Municipal Paula Assis, cravada no povoado onde nasci há 34 anos, o Ribeirão de Santo Antônio. E falou das condições da zona rural, da ausência de telefone e de outras modernidades, fatos esses que não impediram o mérito de um aluno ali ter obtido uma medalha de bronze. O nome da escola, diferentemente dos demais nomes, foi projetado todo ele em letras maiúsculas numa tela diante dos nossos olhos. Quando a diretora Virgínia foi pegar o troféu dado à escola, a plateia bateu palmas mais fortes e mais duradouras.

Confesso que neste momento, o das palmas destacadas, me emocionei muito. E não se trata aqui de bajular o meu sobrinho Rodrigo, o ganhador da medalha de bronze, a Eunice, sua professora de Química também homenageada, nem a Escola Paula Assis, que recebeu um bonito troféu. Eles não precisam disso, e tampouco eu preciso me sujeitar a tal atitude. O que busco é parabenizá-los como se faz a uma equipe que trabalha. E o mesmo faço em relação a todas as escolas públicas do país. Essas escolas, computando aqui as minhas eternas Escola Estadual Assis Resende e Escola Estadual Conjurados Resende Costa, contam com professores e alunos que realmente querem chegar a algum lugar e que estudam para isso.

Esta crônica não vem apenas das mãos de um parente do aluno premiado ou de um conterrâneo da escola galardoada. Do mesmo modo ela não vem de um binarista, que sai por aí acusando escolas particulares de Lobo Mal e defendendo as escolas públicas como se fossem pobres cordeiros. Toda escola é bem-vinda e não sou de um marxismo reducionista. Esta crônica vem é das mãos de um educador. De alguém que acredita em sonhos possíveis. De alguém com a consciência de que para sonhar não se paga, bastando apenas (o que já é muito) arregaçar as mangas e correr atrás dos sonhos. E tudo isso, apesar de tudo. Um tudo que se resume nos descasos que vêm sofrendo nossas escolas públicas há tempos.

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