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De animais e de gentes

14 de Fevereiro de 2011, por Evaldo Balbino

Cravada em terra úmida, uma cruz parece falar em silêncio. Sem nome, acabou de ser batizada com um número, 305. Mais um entre centenas de outros que registraram as mortes neste janeiro de 2011, na região serrana do Rio de Janeiro. Iniciamos o ano com tristes índices, que não se devem apenas a catástrofes naturais, mas que se relacionam ao crescimento desordenado de nossas metrópoles. As casas instáveis, à beira de barrancos e abismos, dizem das instabilidades humanas e, no caso, da vulnerabilidade econômica e social de muitas pessoas.

Voltemos à cruz com seu número. Ao lado dela, pelo que vejo numa foto que está circulando pela mídia, um maior silêncio jaz, deitado, com os olhos perdidos sabe-se lá onde e com as patas plantadas na terra molhada. Chamaram-no de Caramelo. É um cachorro bonito, vira-lata dos bons, rente à sepultura de Cristina M. C. Santana, supostamente sua dona, morta em consequência da catástrofe que atingiu Teresópolis.

Caramelo já foi adotado por uma família que vive na Barra da Tijuca. Esse nome tem mesmo a ver com sua cara, com sua cor de um marrom inequívoco. O cão já está a salvo e o drama é passado, segundo afirmam alguns. Mas a fotografia ficou. Tanto que ela deu o que falar pela internet.

Olhemos mais uma vez a fotografia. O silêncio do cão é mais rumoroso que o da cruz. Ela é de madeira, objeto sem vida sobre a morte. O cachorro é vida pura, silenciosa, velando a vida que não deveria ter ido embora. Velar a morte inesperada, desnecessária como muitas mortes, e assisti-la em silêncio como faz o nosso quadrúpede, é um ato que substitui qualquer discurso de dor e qualquer palavrório político. O cachorro fala com seus olhos e com seu corpo deitado sobre a terra. Diz sobre saudade, tristeza, apego, amor. Não interessa que falem tratar-se de um animal que não pertencia ao corpo da mulher ali inumada. Sabemos que é um cão, um ser velando a morte e lamentando a perda da vida.

Somaram-se às especulações sobre a imagem alguns comentários que o colunista Michel Blanco, no dia 25 de janeiro, postou na internet, mostrando-se indignado, e com razão, pelas mortes e pelos desalojados no Rio de Janeiro. O comentador, entretanto, pagando um tributo à defesa do ser humano, achou por bem execrar o que ele chama de humanização excessiva dos animais. Fala de uma “atenção exagerada aos cães desabrigados pela tragédia”, zelo que toma a cena do que deveria estar no centro do palco: o fato de que “quase três mil crianças estavam sem casa só em Teresópolis”. Ecoando o lema “troque seu cachorro por uma criança pobre”, da canção Rock da cachorra de Leo Jaime, o autor denuncia o pouco valor que damos à infância, já que “a cachorrada chegou antes à condição de vítima”.

Argumentando que “somos cada vez mais ridículos no trato com animais de estimação, elevados à condição de filho mimado”, o colunista alega que “humanizamos a relação com os bichos ao mesmo tempo em que é lugar comum da vida urbana queixar-se da deterioração de relações interpessoais”.

Comuns entre as gentes, tais ideias não me assustam. Blanco, pelo visto, pensa enfaticamente nas relações entre pessoas, esquecendo que todos nós somos também animais. Por que insistimos tanto em olvidar esse fato?

“Animalesco” é sinônimo de selvageria, vandalismo, estado regressivo no seio das evoluções. Assim caracterizamos a conduta de humanos em diversas situações: “aquele homem é um animal”, “sua atitude é animalesca”, e assim por diante. Agora, quando afirmamos “aquele cão age como gente, é educado, parece humano”, não estaríamos mitificando o comportamento humano?

Não estou execrando os cuidados com os humanos e defendendo apenas cães, gatos e bois. Somos também animais, gados entre gados. Se nos julgamos mais preparados para entender a vida (suas vulnerabilidades físicas, psíquicas e espirituais), eis aí um motivo para endossarmos aquilo que chamamos de humanismo, humanidade ou seja lá o que for.

Protejamo-nos uns aos outros, mas também amemos as outras vidas que comungam conosco as felicidades e as adversidades da existência. Todos nós animais possuímos coração e sentimento, temos dor biológica e psíquica. Existindo como todos nós, os amigos animais podem também provar que somos bons. Afinal, como afirmou o filósofo Arthur Schopenhauer, “a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”.

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