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Discurso de um ruminante amoroso

14 de Agosto de 2013, por Evaldo Balbino

Fazer literatura, como tudo na vida, é um dom. É uma dádiva poder juntar palavras e construir imagens, surpreendendo os olhos, os ouvidos e a mente do leitor ou do ouvinte. Escrevendo, levo as pastagens que recolho nas planícies da vida para os olhos de leitores que também necessitam dessas pastagens.

É dom sim o ato de escrever, que, no entanto, deve ser trabalhado ao longo da vida como qualquer outro dom. Escrever é uma sina, é fatalidade, mas sem dúvida alguma é uma constante procura.

Uma crônica, por exemplo, não se faz assim, de pronto. Ela é algo que se constrói aos poucos, um bocadinho a cada dia. Isso se pode dizer de uma crônica, de um poema, de um conto, enfim de todo e qualquer texto, mormente daqueles em que a vida vibra. Em todo escrito em que se deseja a vida vibrando, a construção é lenta, morosa, sem fim. Tudo é um romance inacabado. Tanto a vida quanto a escrita são infindáveis.

Quando se senta para escrever, as ideias incansáveis no ato de ruminar já pastaram e estão pastando as coisas da vida, de todas as vidas. E como são longos os pastos! Estendem-se para longes inalcançáveis, para horizontes que não terminam em corcundas montanhas. Para além, sempre mais para além, os pastos da vida se nos dão, se nos ofertam fartos de coisas para nos alimentarmos regalados. E o nosso alimento há de ser tão vário: a delícia e a dor são o nosso cardápio, o nosso pão cotidiano.

Já que estamos na vida, somos gados em seus pastos, e não há como nos destacarmos da relva, dos cerrados, das estepes ao longe compondo um cenário a ser lido. Ler o mundo e escrevê-lo é também ler a nós mesmos.

E se os pastos se chegam tão pertos de quem escreve e de quem lê, é porque suas lonjuras, suas distâncias que nossas mãos não pegam, são tão nossas que reverberam no que somos, no que sentimos. Tudo reverbera em nós e, apesar disso, não se pode segurar o que é tão confuso.

Incapazes de tocar o que aparentemente está perto, nossas mãos também não pegam as distâncias. No entanto insistem no afã de pegá-las, pois queremos sempre nos entender. Escrever e ler são, entre outras coisas, busca de entendimento. São atos pelos quais palmilhamos os caminhos tortuosos da vida numa tentativa de planuras, de linhas retas para compor nossos passos. Eu sei que todo esse desejo de geometria é só desejo, pois tal meta é inatingível. Mas que importa essa consciência, se o que vale é escrever, e ficar na tentativa mesma de entender? Vale o ato de nadar em águas profundas, mesmo sabendo que o que vemos são as superfícies de tudo, as nossas cascas tão pobres, tão cheias de falta de conhecimento.

Os que escrevemos estamos no mundo também para isto: para levar aonde possível for o que é belo como a arte e necessário como a vida. Falo aqui da beleza da arte, que engloba também toda a feiura da vida. Se não for assim, a própria vida não tem sentido. Por isso também escrevo. Por isso sempre faço da escrita uma possibilidade de amor, um jogo de criança infindável e inabalável.

Para escrever é necessário ter disposição. A escrita não vem a esmo, à toa, como se um espírito estivesse ditando algo lá no nosso inconsciente. Isso deve ocorrer, imagino, na psicografia. Para fazer literatura, contudo, o escritor tem que dominar a escrita, tem que saber do que está falando. É lógico que alguma coisa sempre vai escapar, que o texto sempre vai dizer mais do que o autor quis dizer. E o dito a mais sempre é mais do que se esperava. No entanto, apesar do que lhe escapa, o escritor busca dominar o que escreve, tenta olhar para cada palavra, escolhe uma e não outra. Às vezes, são as palavras que o dominam. Mas isso não importa.

Não importa que às vezes as palavras me dominem, pois entre seres amantes não pode haver esses negócios de discriminação. Os comércios do amor determinam, mesmo que não queiramos, todo tipo de desordem. E assim, nos interstícios das relações amorosas, caça e caçador, dominador e dominado são uma coisa apenas. E se tais funções não chegam a se confundir em alguns momentos, elas certamente, na maioria das vezes, alternam-se no ato de amar.

Pois do mesmo modo escrever é isto: um ato de amor. Um amor conturbado, mas pleno. Um ato solitário quando estou aqui, fazendo minhas garatujas. Um ato ermo e só, porém tão perto dos bulícios do mundo! Não posso me afastar, como já sugeriu uma vez o nosso Olavo Bilac, do “estéril turbilhão das ruas”. As ruas não são estéreis, e o nosso poeta já bem o sabia. Tudo são artimanhas do discurso, que sempre diz mais e mais. As ruas são produtivas nos seus rumores.  E escrevendo, neste meu ato solitário e solidário de amor, desejo comungar com o mundo inteiro a vibração maravilhosa da vida.

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