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Educar um filho

16 de Abril de 2013, por Evaldo Balbino

Li meses atrás a triste notícia de que um pai fora preso no Mato Grosso do Sul após haver espancado sua filha de nove anos. À época, foi postado um vídeo na internet, gravado por um vizinho, mostrando o modo terrível como o homem "educava" sua filha. Surrava-a porque ela havia retirado um ímã da geladeira!

No dia em que li essa triste notícia, escrevi estas notas: “Estou indignado! Lamentável tudo isso. Que os responsáveis paguem pelo que fizeram. Que a justiça seja feita. E que a garotinha espancada possa, se Deus quiser, superar essa situação terrível da vida e oxalá possa livrar-se desses adultos que deveriam educá-la, e que deveriam fazê-lo com carinho e amor”.

Hoje, tempos depois, volto a essa minha nota, hábito que tenho desde sempre. Minha vida de leitor e de escritor se perfaz em idas e vindas ao que leio e ao que escrevo.

Por exemplo: esta semana mesmo travei contato com o nosso Antônio Torres, escritor já consagrado nas letras brasileiras. Para mim isso foi uma alegria, pois é bom falarmos com quem admiramos. Falando com o autor, mais uma vez voltei ao seu romance Adeus, velho, que eu li há muitos anos, ainda adolescente, em Resende Costa. E naquela época, me lembro, fui marcado de imediato já nas primeiras páginas do livro. Primeiro, com as duas epígrafes de abertura; depois, fui tomado pela primeira frase do narrador se referindo a um “velho e carcomido cruzeiro dos montes”.

Uma epígrafe foi retirada de João Cabral de Mello Neto – poeta delicioso: “Para os bichos e rios / nascer já é caminhar”. Outra, o autor buscou no poeta espanhol Antônio Machado – poeta que, obviamente, eu ainda não conhecia à época, pois o máximo a que eu já tinha chegado, até então, eram os poetas portugueses: “Caminante, no hay camino, / se hace el camino al andar”.

A primeira frase do narrador é esta: “Braços abertos contra o tempo, o cruzeiro voava”. Achei isso lindo à época. Esse negócio de resistir ao tempo é muito bom! Sou amante de cruzeiros, eu que sempre namorei o cruzeiro em Resende Costa, aquele que está plantado na saída para o Ribeirão de Santo Antônio. Gostei de ver a imagem, em Antônio Torres, do cruzeiro voando. Um cruzeiro voando, mesmo com um “pé preso à terra por dentro de uma pilastra de cimento”. Uma pilastra, completa o narrador, que “também servia de degrau para os joelhos dos pecadores”.

Meu Deus, que lindo tudo isso! Todos nós somos pecadores, eu já sentia isso na época. E que bom sermos assim, incompletos, buscando sempre completudes. Por tudo isso e muito mais, voltando agora à nota que fiz sobre o espancamento da filhinha pelo pai, é que posso dizer: errar é humano! Mas quando o erro é inconsequente, quando ele prejudica um ser tão puro e indefeso, a justiça deve ser feita. Para isso existem as leis, para isso nós, há muito mais que dois milênios, tentamos nos organizar em sociedade.

Nenhum espancamento é justificável, muito menos numa situação como a descrita! Que mundo é este, meu Deus? O homem espancando a filha, na cabeça, nas costas, em todo o corpo, e fazendo isso diante da irmãzinha dela, menor ainda! E a madrasta da menina? Coadjuvante do ato! Pois no vídeo ela era vista, calada, lá da porta da casa, vendo a tudo e silenciosa, sem nada fazer em prol da inocente vítima.

Defendo que se um homem e uma mulher sabem fazer filhos – e geralmente gostam de fazer isso –, que pensem também nas responsabilidades que envolvem a decisão de se ter um filho. Fazer é simples, é biológico, mas educar não é. Tudo que diz respeito a uma formação cultural é mais complexo, é mais difícil.

Volto aqui, nas minhas idas e vindas, às epígrafes do livro Adeus, velho e também ao próprio livro em questão. E faço isso com licença do João Cabral de Mello Neto e dos dois Antônios, o Machado e o Torres.

Volto às epígrafes e ao livro para dizer que nascer não basta, que a biologia por si só não nos serve. Caminhar é que é importante. Se tudo começa no nascedouro, se nós começamos como os bichos e os rios, também como eles devemos caminhar. As crias crescem, mas precisam enfrentar a vida. As águas correm, e atravessam em sua corrida muitas pedras, muitas quedas ferozes. E os nossos filhos? Eles crescem, amadurecem como frutos bem-vindos. Mas não deveriam eles lutar simplesmente na e com a vida? Com a linda, deliciosa e triste vida? E digo mais: deveriam os nossos filhos, lutando contra o tempo, voar como os cruzeiros de braços abertos. Voar para a vida, a qual é cheia de ares perigosos, mas aprazíveis.

O mais lamentável perigo é aquele que começa dentro de casa. Nesse espaço onde, com carinho e afeto, deveriam os nossos pequenos aprender a trilhar a vida. Não a violência da vida. Uma educação estruturada está alicerçada no amor. E o amor pode ser simplesmente isto: um respeito ao outro, incondicional. O meu filho é outro para mim e, como tal, merece meu respeito.

Comentários

  • Author

    Realmente professor Evaldo, Educação é fundamental. E o amor com certeza não pode faltar, pois se amo quero bem. Então citando Caetano Veloso " quem ama cuida", penso através de sua crônica sobre como estamos conduzindo a educação de nossos filhos, que amor atravessado é este que estamos a praticar. É algo para ser interrogado e melhor analisado.


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