Estamos em 1969. Beto Rockfeller começa o namoro com Lu. O jovem da classe baixa frequenta agora a alta sociedade. Luís Gustavo e Débora Duarte estão impecáveis. A mocinha e o mocinho na roda da vida, para que algo aconteça. Tomadas aéreas, o Engov atuando nas bebedeiras de Beto, notícias e fofocas comentadas pelas personagens e diálogos dando um tom de realidade às fantasias. E as músicas? A voz de Erasmo geme um “onde a tristeza e a saudade de você ainda existem” e apela para um “preciso lembrar que eu existo”. Do outro lado da tela existe esta canção e existe todo um mundo a que ela faz referência. O que a letra diz não é simplesmente verbo. Em preto e branco, “carros, caminhões, poeira, estrada, tudo, tudo” está encarnado. Os abraços, os beijos e até mesmo os enganos são coisas palpáveis, bem ali ao nosso lado.
E eu nem era nascido em 1969. Mas outro dia a conversa com um amigo mais velho fez com que eu voltasse a um passado que não é meu, e tão de mim mesmo. As cenas escritas por Bráulio Pedroso ganharam vida, vieram do fundo de um baú ao mesmo tempo recente e antigo. Interessaram-me nas palavras do meu amigo as peripécias por que passavam alguns capítulos das telenovelas. Levados de avião da grande São Paulo para Belo Horizonte, eles chegavam atrasados. E quando muitas vezes a TV Tupi reprisava episódios, era porque algo tinha acontecido. E o meu amigo, menino entre ansiedades, punha-se desolado por não saber o quê. Assim se estendiam as esperas, mas pelo menos permanecia o gostinho do “vale a pena ver de novo”.
Esses luxos de atrasos eu não conheci. Mas o aparelho em preto e branco, esse sim foi meu parceiro desde 1984. Era uma bolota engraçada, de cor creme, um bojudo ser com mundos para me dar. Era birrenta aquela televisão, aparelho comezinho e magnífico que o meu irmão tinha comprado não sei onde e por que preço. Chegou dizendo que estava barata e que tinha valido a pena. Lembro que fizemos festa na casa.
E que pirraças tinha aquele dispositivo abaulado? Mesmo com uma antena fincada em cima da casa, a gente tinha que usar uma anteninha bem arrebitada na sua bunda. Era um desbunde a nossa TV! E como as imagens não pegavam direito, o jeito era pôr uma palha de Bombril na ponta dessa anteninha. Meu irmão vinha com umas explicações científicas sobre o fenômeno que se dava, o porquê de aquela palha de aço funcionar, e eu não me interessa por nada disso. Queria mesmo era entrar na caixola da televisão, no seu universo em preto e branco cheio de vozes coloridas.
Queria entrar ali porque ela me trazia mundos. Queria viver neles. Ela me trazia o Sítio do Picapau Amarelo, aquela versão deliciosa com Zilka Salaberry. Até hoje não conheço outra Dona Benta tão benta como aquela. E a Jacyra Sampaio , a Tia Nastácia com seus quitutes? E que direi da Emília? Quem melhor do que a Reny de Oliveira para representar a nossa boneca? Há os que apontam a Dirce Migliaccio, também perfeita, é claro. Mesmo assim ainda fico com a minha Reny, a minha eterna boneca de pano, desconjuntada, agitada, cheia de invencionices.
Tempos depois já não passava mais o Sítio, pelo menos nas emissoras a que eu tinha acesso em Resende Costa. Com que decepção, entretanto, não fui reconhecer a Cuca em 1995, quando cheguei a Belo Horizonte? Ao ligar a TV Minas e dar de cara com aquela jacaroa esverdeada, não pude deixar de sentir saudade da minha Cuca cinza, menos enfeitada de cor, mais terrível, mais assombrosa. Engraçado que, no início dos anos 80, eu sequer imaginava que um jacaré fosse verde. Será mesmo dessa cor? A minha Cuca, de qualquer modo, é cinza até os dias de hoje, sempre escurecendo e encantando os meus pesadelos.
Eu me deliciava com as invenções da Emília. Sei que os tempos mudam, mas também sei que existem coisas eternas. Que mudem nossos olhares, que outros valores passem a grassar pelo mundo. Porém os sonhos não têm idade. Chegam a ultrapassar a história. Não entendo como uma criança de hoje pode passar pela infância sem ler as Memórias da Emília, sem ler aqueles acontecimentos, aqueles modos de criar histórias e de contá-las.
A Dona Lilia do Zé Clodino, por exemplo, era doidinha com o Sítio, e também amava novelas. Viúva e idosa, não gostava de perder nenhuma e ia lá em casa para ver tudinho. Amor com amor se paga foi a sua paixão. Acho até que ela era muito parecida com o Nonô Correia. Sovina como ele! Uma vez, quando o teimoso aparelho em preto e branco não pegava, ela arregalou os olhos para mim e disse: “Você pensa que não sei de tudo, meu filho? Quando isso aí não pega, é porque tem um homem num lugar bem longe. Eu sei que ele cuida dos sinais que vêm pelo vento. E então, é só brigar com a mulher dele, e pronto: controla os sinais pra se vingar dela. Marido, tem hora que não presta mesmo! O Zé que me perdoe e que Deus o tenha!”
Pronunciou convictamente essas palavras, benzeu-se e virou os olhos para o alto, devota, atravessando com a alma o telhado lá de casa. Eu me lembro disso e percebo como os acontecimentos maravilhosos daquela caixola também sucediam no meu mundão de Resende Costa. Bem ali na Várzea mesmo, ao meu lado! Aprendi desde cedo (com a telinha pequena, com os ecos de Lobato, com as peripécias contadas...) a amar o maravilhoso que existe na própria vida.