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Enfeites para um Natal sem enfeite nenhum

11 de Dezembro de 2012, por Evaldo Balbino

Outro dia um amigo chegou a minha casa e, vendo que os meus vizinhos enfeitaram suas portas com um Merry Christmas lânguido, perguntou-me por que eu não fizera o mesmo. Sua pergunta me fez pensar um pouco em por que meus Natais são sempre sem enfeite nenhum. Se ele hoje me perguntasse isso de novo, eu lhe diria que o que não parece belo não deixa de ser belo e que é possível extrair das dores alguma plenitude, umazinha que seja.

Hoje, por exemplo, o dia é de chuva fina e de lembranças. Belo Horizonte está chuvosa e, o que é raro, tranquila. Isso é apenas hoje, porque, neste fim de ano que se aproxima, a cidade tem se movimentado mais. Hoje, entretanto, a chuva delicada e tímida, aliada a um domingo, tem esse poder de quietude. E como todo silêncio é propício aos rumores sutis, acabo por ouvir, de mansinho como a chuva caindo lá fora, os meus passados Natais.

Eu ficava feliz com duas coisas nos fins de ano: os desenhos natalinos que me eram dados na escola para colorir e os desenhos animados de Natal vistos na TV.

Eu não acreditava em Papai Noel, pois sabia da vida árdua de uma família de tecelãs e pedreiros. Não acreditava nele, mas com que garbo o coloria nas épocas de Natal! Fazia a barba mais longa e mais branca, a barriga mais gelatinosa e pendente, e o saco estava sempre cheio de brinquedos e promessas.

Nos desenhos, eram árvores de Natal belíssimas, daquelas que não vingam em nossas paragens. Copiando modelos de países setentrionais, nós, os tupiniquins, amamos pinheiros excelsos, altíssimos em sua plenitude. E eu gostava mesmo era de colorir a grande estrela que no cume do pinheiro reinava como rainha absoluta.

Meus pais diziam que aquilo era idolatria e que por isso eles não decoravam nenhuma árvore em casa para o Natal. Mas, sem freios, eu cometia minhas idolatrias. Pegava os lápis de cor e tocava a enfeitar as árvores que as professoras me davam. E se faltava entre as bolotas e a estrela um pouco mais de vida, eu desenhava anjos em revoadas pelos galhos das árvores. Eram anjos tortos, pois eu não sabia desenhar direito. Olhava para os bonequinhos malfeitos, mas acabava me apaixonando por eles. Afinal, todo mundo é torto mesmo, pensava. Qual é o problema de os meus anjos serem desse jeito? Eu já pressentia que debaixo do sol não havia perfeição. Mas o que dizer dos anjos: não eram seres celestiais, vivendo para além do sol? Na verdade, o garoto que eu era não gostava de imaginar anjos no muito além. Meus anjos eram bem da terra. Eu não conseguia e não queria me livrar dos anjos terrestres. Desde cedo me veio um amor pelas pequenas coisas terrenas. Não se pode abrir mão da vida, desta vida que é nossa garantia.

Dos desenhos animados de fins de ano, era a turma do Zé Colmeia que me dava alegrias infindas. Repetia-se todo ano o episódio “O primeiro Natal do Gasparzinho”. E ao invés de me apaixonar pelo menino-fantasma, era do Assombroso, um espectro supostamente assustador, que eu me enamorava.

Os animaizinhos simpáticos e mambembes, chefiados pelo Zé Colmeia, perdiam-se numa estrada cheia de neve, pela qual iam à procura de um hotel para a comemoração do Natal. Encontravam uma casa antiga e mal-assombrada, condenada para demolição. A casa era imensa e fria. Nela, o simpático Gasparzinho convivia com o fantasma Assombroso, também boa-praça, que tinha a mania de considerar-se um monstro temível. Zé Colmeia e os amigos se uniam e começavam uma faxina pelo casarão. Cortavam um pinheiro, enfeitavam as paredes e a árvore, removiam o pó de todos os móveis, varriam o chão com rapidez e felicidade, pegavam lenha no porão e acendiam a lareira.

As lareiras sempre foram minha paixão. Como em Resende Costa fazia muito frio, e ainda faz, lareiras eram e são bem-vindas por lá. Mesmo assim nunca tive lareiras, e com elas sonho até hoje.

Eu amava ver toda a turma do Zé Colmeia transformando um ambiente cheio de más sombras e maus aspectos num lugar apetecível. O episódio caminhava de um ambiente enfeitiçado e embruxado para um lugar luminoso e alegre, e tudo isso com a ajuda do Papai Noel.

E hoje, depois de eu crescido, aqui agora nesta tarde silenciosa e com chuva insistente e fina, vem-me a inegável pergunta: onde está o Papai Noel? Talvez cansado de voar pelos ares e de dar presentes para pessoas cada vez mais interessadas em presentes, ele tenha se aposentado. Talvez ele já esteja, em verdade, de saco cheio deste nosso mundo.

Nos fins de ano brasileiros, sem neve, porque em nossa região pelo menos nunca as houve, a frieza é tamanha. A frieza é mais fria do que a neve. E tanta frialdade me faz pensar em coisas ásperas.

É mais um fim de ano que se aproxima, e as pessoas no mundo se atordoam de um lado para o outro. Correm exasperadas com pacotes de compras e mais compras. A vida deixa de ser vida, se não contemplar as vitrines cheias das lojas e dos mercados. O formigueiro humano tem fome e sede, não de justiça, mas de dinheiro e de supostas lembranças a serem dadas na Noite Santa. E em meio a tudo isso, eu, menino sempre, ainda me pergunto pelo Papai Noel e tento desenhar no ar uma estrela guia, daquelas bem grandonas, para enfeitar a minha fantasia.

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