Desfilavam perante seus olhos bois, carneiros, cabeças de pássaros. Quando não eram animais, apareciam aquelas cruzes iguaizinhas às que ele via em cemitérios ou à beira de estradas. Também via nas nuvens flores, árvores sem raízes, rostos de homem ou de mulher. Eram de mulher, tinha certeza, quando os cabelos se mostravam fartos e longos. Tudo bem que mulheres também cortam o cabelo. Mas no seu mundo o que ele conhecia eram mulheres de cabelos longos, como véus descendo pelo pescoço, abraçando as espáduas, chegando à cintura. Algumas vezes a pergunta: e o que fazer com as mulheres de cabelos curtos, as poucas que ele via de relance em alguns momentos pelas ruas? Como vê-las voando nos altos céus? Bem, nesses casos, optava pelo mais fácil: as feições de cabeças com cabelos curtos eram de homens. Não haveria de complicar a vida ali transmudada em nuvens. A vida por si mesma já era difícil. Então queria ver a simplicidade nas metamorfoses aéreas.
Muitas noites também buscou contar carneirinhos, como os que via voando nos céus, as nuvens fugitivas. Quando as noites eram escuras, e o sono tranquilizador não vinha para aplainar os medos, principalmente da morte, então procurava contar carneiros. Mas eles não vinham. Não se mostravam enfileirados, saltitantes, como os que ele via nos sonos tranquilos das personagens dos desenhos de televisão.
Certa vez sua tia insistiu em dizer que tinha visto entre as nuvens o Sagrado Coração de Jesus. Ele não duvidou. Dessas coisas não se duvida. Sua tia andava de um lado para outro, gesticulava, falava alto, animadíssima com o êxtase que experimentara. Juro que vi, gente, juro que vi! – berrava aos quatro ventos e ainda acrescentou: aposto que é pelas provas que já passei na vida; já sofri tanto, que Jesus se mostrou pra mim!
Para ele Jesus nunca se mostrara. Desde bem pequeno ouvia falar desse nazareno andando pelos caminhos, curando cegos, levantando mortos, fazendo andarem os paralíticos. Ouvia falar desse homem que pregava boas novas, mas não o conhecia. Em sua igreja não se aceitavam imagens de santos. Quando um dia, depois da relutância de sua mãe, foi para uma outra igreja – também evangélica – para estudar num catecismo aos domingos, foi que viu Jesus pela primeira vez: cabelos longos, barba imensa por fazer, olhos azuis como os de um escandinavo, vestes longas. Andava na simplicidade, mas com uma brancura de corpo e de alma que dava gosto – pelo menos era isso que dizia a catequista.
Chegou à sua casa espevitado depois desse primeiro dia de catequese. Foi logo dizendo à mãe que vira Jesus. A mãe o olhou, sem espanto, e perguntou com tranquilidade:
– Ah, é? E como é ele?
Foi dizendo tudo, descrevendo a grande personagem, detalhe por detalhe. Mas a mãe foi dura:
– Que mentirada, meu filho! Cristo não tinha cabelos longos nem olhos azuis. Ninguém aqui viu ele pra sair desenhando assim não! Vê lá se o Filho de Deus ia usar cabelo grande!
O menino ficou triste, frustrado. Será que a professora catequista havia mentido mesmo para ele?
Mas criança, se não esquece tudo, sabe pelo menos mudar de um problema para outro, fantasiando cada dificuldade com outras brincadeiras. E o garoto não mais se preocupou com aquela “mentira”. Tempos depois, quando lhe apresentaram na escola um desdenho do mártir Tiradentes, pensou: ou esse enforcado é irmão gêmeo de Jesus ou então tá todo mundo mentindo de verdade!
Continuou por sua vida afora buscando Jesus, principalmente nas nuvens. Querendo ver, se não aqueles cabelos longos e barba imensa, pelo menos um homem com ares divinos. O problema é que ele não saberia nunca distinguir como é que é um ser divino.
Ainda era cedo, e o menino não tinha descoberto até aquele momento que Deus está é dentro da gente e não fora. Se ele aparece nas nuvens, são nossos olhos que o projetam lá: projetam as nossas próprias almas.
Estátuas aéreas
09 de Abril de 2012, por Evaldo Balbino