Voltar a todos os posts

Hoje me convém pousar em tua casa

15 de Maio de 2013, por Evaldo Balbino

Hoje venho pousar em teus olhos, leitor. Venho fazer isso através destas linhas. Peço licença para entrar em tua casa, através de palavras tantas e tontas, pois demasiado e tonto sou nesta vida. Sempre estou rodopiando na existência, transitando entre passados e presentes e desejando futuros. Deixa-me entrar na tua casa, para mais uma vez falar da criança eterna que há em todos nós.

Crianças têm suas manias. Suas virtudes e seus defeitos como qualquer adulto. E mesmo assim há quem diga que criança tem um par de asas levitando sobre o tempo. Ora essa, eu já fui criança, no sentido exato do termo! Digo “exato”, pois recorrentemente escrevo que ainda sou criança. Tudo o que escrevo é, na verdade, uma brincadeira com palavras. Continuo brincando como fazia quando era pequeno.

Hoje, não muito grande, não sou mais criança exatamente, não tenho mais a pequenez de um menino. Meço aproximadamente um metro e sessenta e nove centímetros, medida essa que me denuncia. Tudo bem que muitas vezes minto a minha altura quando sobre ela me perguntam. Respondo convictamente que tenho um metro e setenta. E o pior é que chego a acreditar nisso! Não sei o motivo dessa mentira que digo a todos e me digo. Se pela praticidade do arredondamento dos números (que me salve a matemática!) ou se simplesmente para me querer mais alto, não sei. Por via das dúvidas, fiquemos com as duas explicações juntas.

Pois bem, quando eu era pequeno, lá no Ribeirão de Santo Antônio, fui acostumado desde cedo a ir para a igreja. Uma igreja evangélica, de muitos louvores e orações. A estrada era íngreme para menino tão catatau, mas eis que meu irmão Elton e minhas irmãs e meus pais me levavam no colo. O Elton, muitas vezes, me levou sobre o seu pescoço. E lá ia eu, boneco desconjuntado, sob um sol queimando ou debaixo de estrelas tantas. Que estas eram muitas lá no Ribeirão! Não havia eletricidade. Com a parca luz das lamparinas, sobravam visões de um céu estrelado. A estrada em escarpas não era nada para um menino sobre ombros e abarcado por braços tão cuidadosos.

Fui palmilhando desde cedo, pois, a vida de beato. Fui aprendendo orações e louvores a Deus sem a necessidade de usar meus pés infantis. E como era bom voltar da igreja em noites escuras, envolvido por colchas de retalho que mamãe tecia, e com as quais ela nos abarcava para nos proteger do frio lá no alto do Ribeirão. Lá onde imperava e ainda impera a capela, uma igrejinha católica.

E como eu gostava da igreja, a que eu frequentava! O cooperador (a que muitos chamam de pastor) ia pastoreando com palavras as ovelhas. Nem todas atentas, algumas até bocejando, mas todas no intuito único de buscar os céus, de angariar a divina existência. E lá na igreja eu ouvia as palavras, proferidas com fé, com ímpeto, numa exortação às vezes de dar medo, noutras de causar piedade e noutras de nos levar, em vida, para a vida eterna prometida pelas bíblias.

O cooperador Totonho, meu tio porque tio de meu pai, falou uma vez sobre uma passagem do Cristo Jesus por estrada cheia de gente, estrada onde pessoas se amontoavam no intuito de ver o Filho de Deus. E Totonho falou, porque leu nas bíblias, sobre um homem muito importante, um tal de Zaqueu. Era um homem baixo, de pequena estatura mesmo. E, numa vontade imensa de presenciar Jesus, Zaqueu subiu numa figueira brava para ver o divino ser passando. Eis que o nazareno ergueu os olhos para o homem baixo lá no alto da árvore e disse:

– Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.

Esta exortação foi um achado e tanto para mim e para uns primos meus. Tínhamos um colega, que também era nosso primo um pouco longe, o qual se chamava nada mais nada menos que Zaqueu. Foi uma festa! Todos os domingos, depois daquela exortação do Totonho, passamos a perseguir o menino no adro da igreja, dizendo-lhe as solenes palavras:

– Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.

E íamos repetindo a interpelação, num prazer sem remorsos, sagrado e mexeriqueiro. Íamos fazendo isso atrás de um menino que fugia de nós, que nos xingava, que proferia palavrões inadequados a um adro de igreja. E nós, meninos inocentes, anjinhos serelepes, julgávamos adequada nossa atitude. Afinal, usávamos as bíblias para mexer com o amiguinho. Sendo assim, o que fazíamos era sob os auspícios de Deus.

Mas eu gostei dessa passagem de Zaqueu não foi só por isso. É que também me deixava feliz, atônito até, um homem tão pequeno (eu o imaginava um anãozinho) fazendo a peripécia de escalar uma figueira brava para ver uma luz tão alta, uma luz tão bela.

E hoje, mais do que nunca, sei que posso, com um metro e sessenta e nove de altura, também ver tal luz. E posso do mesmo modo, é claro, pousar em tua casa, meu caro leitor! Na casa de teus olhos.

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário