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In (feliz) Ano Novo, aquele

09 de Julho de 2013, por Evaldo Balbino

A mãe mexia no tacho o arroz-doce quase pronto. Um cheiro bom subia para o ar e entrava nas narinas gulosas do menino. Enquanto a alquimia ia sendo milagrosamente realizada, ele olhava as mãos da mãe na faina e ia pensando que o doce daquele arroz no tacho só perdia para a doçura das mãos que o preparavam. As mãos da sua mãe eram mais doces até mesmo que o mel emanado da terra prometida no deserto para o povo hebreu em fuga do Egito.

O menino tinha nariz atento e ouvidos perspicazes. E ele se lembrava de ter ouvido várias vezes, na igreja, exortações sobre uma terra prometida muito antigamente para um povo nômade. Uma terra onde leões e cordeiros apascentariam juntos, as animálias e os humanos seriam companheiros inseparáveis, as árvores dariam seus frutos, a natureza reinaria plena e ninguém choraria suas dores nem as dores alheias. Essa seria uma terra onde não haveria choro nem ranger de dentes, pois as dores desapareceriam dela. Mesmo deslumbrado com terra assim tão doce, o menino à beira do tacho ainda achava que as mãos da mãe é que eram as mais doces de todo o universo.

E agora aquelas mãos faziam um arroz-doce, luxo a que se davam todos os da sua casa em dias de Ano Novo. Então, mais uma vez, a mãe foi para o fogão como sempre, e o menino ficou empertigado, esperando pela hora do manjar. E ali, aguardando, ele não saberia nunca dizer o que era mais doce: se acompanhar a feitura da iguaria ou se comê-la.

Desta vez a chuva caía fina lá fora. De mansinho, sem raiva nenhuma, abrindo um ano sem nenhum estardalhaço. Era uma chuva sem bátegas, mas goteiras contínuas desciam serelepes das telhas de barro da cozinha e iam bater no telhado mais abaixo lá da varanda sobre o quintal, um telhado sem-vergonha de amianto, bem chinfrim mesmo.

O menino ouvia a chuva cantando sobre a casa e lavando as ruas da infância, enquanto ele namorava a mãe e o arroz-doce. Vontade de caminhar e correr na enxurrada, ele não tinha agora. Sua vontade era mesmo estar ali, ao lado da mãe, esperando docemente pelo que era doce. Esperando, não pela Terra Prometida, mas aguardando aquele doce que lhe seria ofertado nesta vida mesma, neste nosso cotidiano maravilhoso.

A mãe cantava músicas sem fim. Cantava e também contava histórias para ele. Embalado por melodia tão sublime, o menino confundia a voz materna com o canto da chuva lá fora. Mãe e água eram uma coisa só, úmida e aconchegante.

Eis, entretanto, que de repente um som outro veio interromper a harmonia que reinava na cozinha. O pai do menino entrou espavorido, dizendo que o Carlinhos, um garoto da vizinhança, estava soterrado nas terras em lama do barranco de lixo. O pai buscava por uma enxada para ajudar os homens que, debaixo da chuva, tentavam tirar a vítima ainda viva daquele lamaçal.

O barranco de lixo era o cartão-postal que todos daquele bairro de periferia tinham que ostentar na cidade. Era o regalo que a Prefeitura dava cotidianamente aos moradores das margens. Ele, o menino, até que gostava do barranco, pois lá dentro já tinha achado muitos brinquedos, velhos na verdade, mas ainda prestáveis. E quem ousasse entrar no bairro tinha que atravessar uma nuvem de fumaça fedorenta, de lixo queimando sem cessar, de restos da cidade sendo carbonizados pouco a pouco.

O Carlinhos aproveitara a chuva contínua, o fogo do barranco meio apagado, e fora lá dentro do precipício para buscar pneus velhos com que pudesse brincar. E o que ele tinha encontrado foi uma catástrofe: a terra muito molhada passara por um deslizamento e descera sobre ele e sua infância.

Muitos da pequena cidade acorreram ao local. A chuva persistia, e mais desmoronamentos poderiam vir. Os homens lá embaixo trabalhavam com enxadas nas mãos, buscando pela vida perdida entre pedra, lixo e lama. Foram horas aquelas de terror e medo, de percepção de que a vida é mesmo frágil e de que a morte não escolhe idade. Tanto não escolhe, que o Carlinhos foi tirado morto de debaixo da lama. Um corpo já sem alma, enterrado vivo quando o que ele buscava era somente um brinquedo. Quando o que ele buscava era somente a vida.

Desfeita a confusão de pessoas, o menino, a mãe e os demais irmãos voltaram desolados para casa. O pai tinha ido com os outros homens, levando o corpo bambo do Carlinhos para a Santa Casa. Já estava morto, mas tinham que seguir alguns rituais de praxe. Seria feita até mesmo uma autópsia.

Chorando na cozinha, a mãe foi encontrar o arroz-doce esquecido e todo queimado no tacho. E ele, o menino que esperava pelo doce, foi para o quarto dos pais triste como nunca. Foi para lá e ficou olhando, sobre a cômoda da mãe, aquele grosso livro de capa preta prometendo uma terra que mana leite e mel.

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