O dia amanhecera triste e com uma luz intensa. Os raios do sol atravessavam as ramas, as rasteiras ramas espalhadas pelos pastos do Ribeirão de Santo Antônio. A folhagem brilhava como lâmina cortando nossos olhos, a poeira adensada subindo do chão sob o impacto dos pés que passavam. A tristeza levantava-se para o ar juntamente com a poeira. A tristeza também densa no meio de tanta luz, do mormaço que grassava naquela manhã. O mundo tem dessas coisas. Luzes intensas enfeitam certas tristezas. E fazem isso para que suportemos mais tudo nesta vida.
Recordo, então, que o dia era triste e de luz intensa. Segurando as mãos de minha mãe, as mãos de sempre me sustentando, eu fora conduzido pelo silêncio das trilhas que nos levavam do Ribeirão de Baixo para o Morro das Tabocas. Íamos todos para lá, meus irmãos e meu pai também.
Mais depois da venda do Nélson, numa estradinha ladeada por taboas no brejo, mamãe me puxava pelo braço. As espigas de taboa, aprazíveis na sua cor, me lembravam o café-com-leite das minhas manhãs ao lado dos meus irmãos. Num tom meio amarronzado, aquelas espigas, espocando crescidas à vontade ali no terreno pantanoso, vinham de hastes lindas fincadas no espelho d’água entre ramas. E os talos altivos, porém, balançando muito pouco, levados que eram pela escassa brisa daquela manhã.
Passadas a casa da Francisca do Tavico e a pinguela sob o bambuzal rangendo, subíramos ribanceiras entre flores e ramas outras, as trepadeiras dos barrancos. Prosseguíramos por caminhos sem fim para um menino tão franzino, tão pernas curtas como eu era. Avançáramos entre pedras entremeando arbustos. Poucos pássaros passavam por nós, em tímidas revoadas, ora brincando, ora em busca de comida ou então repouso na fuga do calor do dia. Nas pequenas grotas à distância, saracuras num canto duradouro, numas vezes esganiçado, noutras se esmaecendo no meio da mata. E o menino, desta vez, sem nenhuma vontade de passar pelas águas da cachoeira, de deitar em suas pedras lodosas sob água rasa. Uma beleza de mergulho para quem não sabia nadar! Deitava-se sobre as pedras, nelas se escorregava. E o calor do dia era apaziguado numa cama fresca e corrente de água. Não! Agora nenhuma vontade de água, que a secura da morte a tudo rondava. Nos desertos temos sede, mas ocorre que às vezes nosso desejo se dispersa, e nenhuma secura nos faz buscar o que a mataria, nem mesmo uma água fria e farta.
A Sá Nhica tinha morrido no início daquela madrugada. E estávamos indo para o seu enterro. Mamãe achou melhor não passar o velório na casa da defunta, e sim ir pela manhã mesmo, para ajudar no café, na arrumação das coisas. Pela manhã chegaria mais gente, com certeza.
Antes da venda do Nélson, tínhamos encontrado, bem em cima da ponte, com o Antônio Rita da Sá Isuis. E o homem, brincalhão, cumprimentou firme o meu pai com um aperto de mão e um tocar de ombros. Depois de um “Bom dia!” a todos nós, foi perguntando à minha mãe se era verdade que a Nhica tinha dito uma vez que gostava tanto dela que, depois de morta, apareceria para lhe fazer umas visitas. Sorrindo, numa alegria comedida por necessidade e por sentimento sincero do instante, mamãe confirmou o fato, ao que o Seu Antônio, rindo mais ainda, acrescentou: “Se ela falô, Sá, ela aparece mermo!”. Mamãe nem ligou para tais palavras, sabendo-as brincadeiras sadias de homem alegre num dia abatido como aquele.
Para bem depois dos cantos das saracuras, atravessáramos os currais das poucas casas. Uma aqui, outra acolá, outra mais longe ainda. Mugidos e cocoricós se entrelaçavam, como que buscando fazer da vida uma tessitura forte e incapaz de romper-se. Não apenas os galos, mas todas as vidas tecem as manhãs deste mundo, que renasce a cada raiar da luz com um novo fôlego. Mas enquanto as manhãs são enredadas, outras vidas, não poucas, se destecem.