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No armarinho da memória

10 de Janeiro de 2011, por Evaldo Balbino

Aquele homem sem uma das pernas estava no armazém. A tarde era quente, de uma quentura insuportável. Ele estava num canto à direita, bebendo cachaça e comendo pedaços de mortadela. O menino de braço dado com sua mãe entrou já temendo toda a cena, nem querendo pensar em tudo o que poderia acontecer. Não gostava de mortadela, da palavra e da coisa. Palavra feia, parecida com morte. Os seus irmãos tinham a mania de comprar aquelas fatias vermelhas com bolinhas brancas de gordura. Muitas bolinhas alternavam-se com caroçozinhos de pimenta ardida, sem vergonha. A alma do garoto ardia, sem sequer tocar naquelas quenturas. As bocas fraternas comiam com vontade a carne comprimida entre pães. As mãos movimentavam-se gulosas entre os sanduíches e goladas de café ou de refrigerante.

Olhou bem para o chão cascudo, perto da vitrine do balcão. Do lado de lá do vidro, alguns pães murchos insistiam em exibir-se. Na prateleira acima dos pães, marias-moles ostentavam sua lassidão, coloridas, esborrachadas e preguiçosas, querendo derreter-se por causa de uma faixa de luz do sol que entrava pela porta da venda. Rente a elas, às marias molengas, chicletes e balas sortidas estavam arrebanhados em caixinhas de cores diversas.

Enquanto a mãe entregava ao senhor do outro lado do balcão uma caderneta azul, os olhos do menino continuaram buscando salvações.

Uma balança Filizola, com bandeja de um alumínio sujo e gasto, estava bem à vista dos fregueses, sobre uma mesa de cimento liso que era uma belezura. Ao lado da balança, bexigas de mussarela, cabeças de alho entrançadas, caixas de fósforos a serem riscados. E no centro de tudo a mortífera mortadela! A lembrança da carne anunciando-se para bocas e olhos que pudessem desejá-la.

Ao lado, ainda o homem sem uma das pernas, carne inexistente. O menino desconfiou que estava sendo olhado por ele, por sua vontade de oferecer-lhe um pedaço da carne. Só não lhe daria cachaça, “a bebida de adultos” como o pai dizia.

Olhar para diante, para a Filizola imponente e determinadora dos preços e das facadas nos fregueses, seria o mesmo que olhar para o homem, para a ausência de uma perna e para o perigo de que lhe fosse dado por esse homem um pedaço daquilo que era gordura e carne e pimenta. Os olhos titubearam. Ficaram na dúvida do que fazer, de que trajeto, sempre o mesmo, deveriam seguir.

Os ouvidos, então, ouviram ansiosos a voz da mãe: “duzentas gramas de fermento e quatro quilo de farinha, a da Santa Luzia”. E nenhuma santa poderia ali salvar seus olhos. Ele não estava cego, e o homem sem uma das pernas lhe diria alguma coisa se atenção lhe desse.

As prateleiras à direita o resguardaram momentaneamente do que aconteceria. Gavetas abertas com retroses de linhas coloridas, sandálias havaianas e correias de sandálias, fumos de rolo como cobras escuras à espreita, botões de roupa, agulhas, colchetes, vidros esverdeados de óleo Singer, garrafas de querosene, lamparinas em forma de cone, tripas-de-mico e sacos de linhagem, almôndegas frias em pratos esmaltados e descascados, pacotes de Q-suco, latas de banha, açúcar batido e moreno em caixotes. Diversas conchas esperavam nos repartimentos sobre grãos de arroz, de feijão, de fubá de moinho d’água, grãos de café limpo e de café em coco...

O homem e sua muleta cumprimentaram a mãe. Uma perna apoiada no chão e a outra não existindo. Mãos sobre o balcão, preocupadas em levar à boca de dentaduras duplas e amareladas o tira-gosto terrível. O menino não o olhava, mas percebia: ao lado do homem sem uma perna descansava uma muleta. Encostada na parede, ao lado de sacos de ração, esperava por continuar desempenhando sua nobre tarefa, a de ser ela também uma perna.

O garoto quis de repente namorar a muleta, abraçar-lhe a existência, agradecer-lhe pelo que ela vinha fazendo com dedicação, mas aí teria que esbarrar na perna sem vida, naquilo que não existia, e num pedaço de mortadela estendido por mãos tão afáveis.

Após nova e dolorosa hesitação, um novo refúgio: o lado esquerdo da venda. Pacotes de polvilho, de farinha de trigo, de canjica; pacotes de sal refinado e sacos de sal grosso para gados nos pastos e pés cansados das pessoas em sua lida diária. Mais adiante, prateleiras com bobes, brincos de cabacinha, águas de cheiro, ruge, batom, leite de rosas. Tudo existências para tornar a vida possível, mais bonita, mais fácil.

Enquanto olhava perdido para as utilidades de todas aquelas coisas, não chegou a ouvir a mãe agradecendo o comerciante, mas pôde voltar a si quando a sua mão esquerda lhe tocou o ombro, chamando-o para que fossem embora.

Ao virar-se, continuou fugindo de olhar para o homem sem uma das pernas. O assoalho cascudo veio ao seu encontro novamente. Voltaria, por fim, ao mormaço que fazia lá fora. Passou com a mãe pela porta larga de madeira antiga, gigante. Atravessou a soleira como um vitorioso, mas triste consigo mesmo. Triste por não compreender o sentimento que acabara de ter diante da possibilidade de aceitar uma oferta daquele homem.

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