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Nós e os folhetins

13 de Novembro de 2012, por Evaldo Balbino

Assisti com afinco à novela Avenida Brasil em sua reta final. Confesso assistir a novelas, quando há nesses folhetins uma intriga que me instiga, principalmente quando neles são construídas personagens de tanto fôlego, como as que João Emanuel Carneiro arquiteta. Também confesso que não vejo as novelas desde o seu início. Falta-me paciência para ficar todos os dias diante de uma tela que, se eu não tomar cuidado, pode me deglutir. Não preciso fingir aqui que não vejo novelas. Vejo poucas, mas vejo. Já é badalada, nos meios que se dizem cultos da nossa sociedade, a postura de se execrarem a televisão, a rede Globo e companhia. Eu, de minha parte, não me dou aos luxos de uma postura assim tão radical e tão falsa. Cada um de nós tem um gosto vasto, e o meu chega a ser versátil em alguns momentos.

Mas não abro tantas concessões assim não! Gosto do Emanuel Carneiro. Não falo de todo o autor. Mas como resistir a uma Flora, em A favorita, e agora a uma Carminha?! Gosto no Emanuel Carneiro do que há nele de capacidade em erigir folhetins tão densos, tão dramáticos, e em certos casos até mesmo inverossímeis. Um pouco de inverossimilhança tem que existir na arte. Assim todo efeito de realidade é colocado em xeque, e se escancaram aos nossos olhos as artimanhas do enredo, com personagens de nos tirar o fôlego.

No último capítulo de Avenida Brasil, deveras me emocionei com a cena em que Carminha e Rita se abraçam. Após o abraço, durante o qual ambas choram, Carminha dá as costas à Rita e chora maravilhosamente. Na sua dureza, no seu caráter orgulhoso, a personagem sente uma dor, uma dor misturada com alívio. Adriana Esteves está perfeita, com uma interpretação digna de uma grande atriz.

E o que dizer quando ambas estão coando café, em pleno lixão na casa de Lucinda? Essa cena ocorre logo após o abraço das duas.

“Que destino caprichoso esse nosso, hein, traste! Sempre juntas”.

Com essas palavras, Carminha a seu modo está amando Rita. O “traste” sai de sua boca, como quem diz: “Se não há outro jeito, vivamos juntas, então!”. Rita se oferece para servir o café, e Carminha, com seu gênio quase indomável, vai logo dizendo: “Sabe como é que eu gosto, né?! Sem açúcar. É só o que me faltava: engordar”.

Na dureza das palavras, na empáfia que não se perde, temos outra face de Carminha, que não é a única, mas é outra face. Face outra que, durante vários outros momentos, nos capítulos a que assisti, veio à tona. Que veio à superfície inclusive na mesma cena, quando a vó Carminha segura o neto. Face outra que se amplia quando a Carminha mãe segura a mão do filho, o filho que anos antes ela mesma deixara no lixão.

Eu disse agora há pouco não ter uma postura tão radical. Por isso digo que amei essa cena, como gostei de Avenida Brasil. Negar plenamente algo, ser radical nesse sentido, é negar o que há de raiz em nós. Aí sim admito que inevitavelmente somos radicais. Estamos presos às raízes das paixões. E nada melhor do que personagens bem erigidas, complexas, com idas e vindas em suas atitudes e valores, para que possamos, numa maravilhosa e dolorosa catarse, olhar para nós mesmos. E assim, olhando-nos, passamos a nos compreender mais, sempre mais.

Essa busca de nós mesmos que fazemos não é de hoje. Desde tempos antigos, as pessoas se buscam. Nos rituais pré-históricos, nas danças tão eróticas, nas invocações aos deuses, na tragédia grega e também na comédia, no teatro de ontem e de hoje, na literatura que se fez e se faz – em tudo isso o que estamos fazendo é um exercício infindável. Para melhor compreender, escrevemos, interpretamos, ouvimos canções e somos plateia e telespectadores dos espetáculos que fingem ser a vida, não deixando também de sê-la.

Certamente muitas pessoas, as que tinham acesso aos jornais na segunda metade do século XIX, as que liam e as que ouviam as leituras feitas, todas elas se debruçavam sobre as peripécias e as paixões de seres feitos de palavras e inscritos no papel. Acompanhavam os enredos nos folhetins, e com isso acompanhavam a si mesmas. Com a mesma febre, muitos ouvintes depois passaram a ouvir as radionovelas, a ver as fotonovelas. E hoje, as telenovelas reinam quase absolutas.

Sem radicalismos, como eu já disse, portanto sem também plenas concessões, admito que muito do que se oferece na televisão é ruim. É ruim mesmo quando nada nos acrescenta. Se, entretanto, soubermos peneirar (de várias novelas uma novela, de várias cenas algumas, de personagens tantas outras poucas), aí sim concederemos à arte televisa o que ela pode nos conceder: a possibilidade, em nós, de tentarmos desatar os nós que nos habitam.

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