A mãe era certinha, gostando de tudo no seu lugar. Com simplicidade, que as posses eram exíguas, mas com organização. Até os remendos nos shorts eram feitos com capricho, e nem pensar em ir com eles para festas, para a escola. Para a igreja, então, nem se fala! Mais execráveis que os remendos seriam os shorts. Onde já se viu entrar na Casa de Deus com calças curtas? O Todo Poderoso não receberia ladainhas de um menino com pernas de fora. Nenhuma voz mendicante, por mais gritada que fosse, entraria nos tímpanos de Deus. Ele seria um surdo perante pernas escandalosas.
A mãe decidiu levar o filho naquela tarde à casa da Tia Graça. Uma visitinha de nada que versaria sobre coisas de escola. Dona Graça, que na verdade se chamava Maria das Graças, não era tia de ninguém, pelo menos de ninguém lá na casa do garoto. Mas e a mania que os aluninhos tinham de chamar as professoras de tias? Lembro-me de uma professora que chegou no primeiro dia de aula para todos nós, crianças encapetadas, e já foi logo berrando: “Aí de quem me chamar de tia! Tia, não, de jeito nenhum!”. Com olhos arregalados, pernas tremendo sob a imensa carteira, as mãos suando e sujando a brochurinha simples, fiquei olhando para a professora brava e já arrependido de ser aluno dela. Porém depois o tempo me ensinou a amar aquela braveza toda.
Tia Graça era professora no Ribeirão de Santo Antônio, num grupo rural onde todos os irmãos do menino tinham estudado. Um ano antes, 1981, a irmã do guri, dois anos mais velha que ele, tinha cursado a 1ª série com a mestra. E agora, a mãe, sempre solícita com a educação dos filhos, iria resolver algumas pendências. A família humilde acabara de mudar-se e estava morando na entrada da Vila, numa rua com nome bonito, 1º de Maio, o mês das noivas. Hoje o nome é outro, o de um homem conhecido na cidade. Quando mudaram esse nome, o menino já adolescente ficou triste. Tristeza pela perda da poesia.
Morando na cidade, outra escola, mais preocupações. A mãe queria pegar com a professora o boletim da filha. Quanto ao menino, ele ia entrando de penetra na história, pois nunca teve boletim, tinha acabado de completar sete anos e já estava borrando os shorts pelo tamanho medo de ter que enfrentar a escola, as lições, o alfabeto, os números. Teria que encarar tudo, aqueles hieróglifos que via indecifráveis nos cadernos e livros dos irmãos e que agora iriam entrar definitivamente na sua vida. Só de ouvir a mãe chamando para o banho, dizendo que iriam à casa da dona Maria das Graças, ficou massacrado, encolhido no seu mundinho de medo.
Banho tomado, roupa sem remendos assentada, um conga arrumadinho nos pés e com as meias três quartos combinando com tudo, lá se foi o garoto de mãos dadas com a mãe. Foi pensando que quem deveria cumprir aquele papel era a irmã, a folgadona que, ao invés de enfrentar a educadora, estava não se sabia onde.
Na varanda da casa da professora, sentiu-se num outro mundo. Azulejos do chão até a metade da parede. Amava azulejos coloridos que enfeitavam as casas e as vidas. Desejava morar numa casa assim um dia, ataviada. Teve vontade de não ser bem comportado, de largar as mãos da mãe e se esparramar no chão tão frio, gostoso, bonito. Havia ali flores entre ramos. Folhas que se completavam de uma peça para outra, um mosaico perfeito para se olhar. Contudo ele não pôde fazer isso. As mãos maravilhosas da mãe o seguravam com pulso firme. Certinhas, as que despejavam um amor rijo, uma canga suave no pescoço de bezerro indomado.
À mesa, a conversa foi se esticando. O menino ficou atento a tudo, apesar de não entender nada. Ficou de ouvidos abertos para ver se pronunciariam o seu nome, porque aí a coisa ficaria preta, pois aí já estariam planejando confiná-lo numa daquelas escolas tenebrosas, com corredores imensos e professores severos.
De repente os olhos infantis brilharam mais do que uma estrela maior. Flamejaram ao virem pedaços dum bolo amarelo trazidos por Tia Graça. Cintilaram de um modo diferente, com mais fulgor do que quando viram os azulejos.
Café servido numa xícara de louça, luxo para o menino que só usava copo americano, e a bandeja com as fatias amarelas chegou bem perto. Ele percebeu que dois pedaços estavam grudados. Olhou de soslaio as duas mulheres e, sonso, decidiu-se discretamente. Sua mão direita estendeu-se afoita, fingindo contenção. E eis que segurou o naco que trouxe o outro consigo. A mãe, de súbito, deu-lhe um tapinha no braço e rosnou “Que coisa feia, meu filho! Isso não se faz!”.
A vontade de chorar tomou conta do garoto. Dona Graça amainou a situação, segurando o outro bocado do bolo e dizendo que não tinha sido culpa dele. Sua boca pequena e ávida foi comendo a iguaria, mas os olhos não comiam nada, mergulhados que ficaram num lago raso de vergonha.
O bolo sem graça
17 de Agosto de 2011, por Evaldo Balbino
Leitor do JL - 21/09/2011