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Os sacrifícios desnecessários

10 de Janeiro de 2012, por Evaldo Balbino

Em novembro de 2011 ocorreu em Formosa, Goiás, um triste episódio: uma enfermeira matou a pancadas seu cãozinho de estimação. Irônico isso, pois o que é de minha estimação deve receber, no mínimo, respeito da minha parte. Não maltrato aquele ou aquilo a que estimo. Mas animal de estimação é tido, muitas vezes, como um objeto de posse, de troca e venda. Não é à toa que lucramos com as vidas. Muitos humanos sempre tiveram esta capacidade: lucrar com vidas. Muitas vezes lucramos e ainda o fazemos até mesmo com vidas humanas. Os sistemas escravocratas, os servilismos, as explorações da mão de obra, o trabalho infantil – tudo isso atravessa a história para comprovar o que estou dizendo.

Não entendo de leis. Portanto não falo aqui alicerçado em artigos, parágrafos, incisos, alíneas. Entendo de vida e de respeito pela vida. Do necessário respeito pela vida e da necessidade de punição daqueles que não a respeitam. Dirão a mim que a lei também respeita a vida. Sim, concordo. Mas também sei que a justiça é construção humana. É instituição daquele que olha para o próprio umbigo e esquece que o mundo, o universo, vai muito além de si mesmo. Vai muito além, sem excluí-lo, é claro! Haverá punição legal para a enfermeira que matou, diante da filhinha de dois anos, o seu cão? Essa pergunta não se cala.

Vejo muita coisa e não posso entender. Vejo muita coisa e não posso aceitar. Vejo muita coisa e me recuso a acolher. Vejo homens, mulheres, crianças, animais – vejo todos sofrendo, e muitas vezes de um sofrimento que poderia ser eliminado.

Corramos os olhos pelos açougues. Eles são apenas espaços de cheiro forte com cadáveres. As vidas que neles se mostram são as dos que vendem e dos que compram. Já com os cadáveres é outra história. Os sofrimentos, as dores, os espasmos, os olhos arregalados na iminência da morte, as contrações dos músculos, a revolta das vísceras, o desejo extremo de fuga sem nenhuma possibilidade – tudo isso se escoou com o sangue vivo, tudo isso se derramou com o sangue morto lá nos matadouros. E o que comercializamos já é sangue morto. Alguns até me dizem: “vamos comer, já está morto mesmo!” Comer a morte parece tão natural. Outros até falam: “matar eu não mato, mas comer é tranquilo”.

Estarei fazendo aqui apologia ao vegetarianismo? Quem sou eu, meu Deus, para tal façanha? Não posso impor a ninguém a minha filosofia de vida. Médicos, comerciantes, empresários, fisiologistas, cozinheiros, economistas, açougueiros, gastrônomos, chefes de cozinha, donos de matadouros – pessoas enfim, milhares de pessoas, me matariam por tal defesa.

E me defendo de todos. Não simplesmente apelando para a minha liberdade de expressão. O que escrevo nestas linhas parte de uma experiência própria, pela qual passei recentemente. Nunca fui dado a comer carne, pois algo sempre me incomodava quando o fazia. Ou seja, já existia em mim uma náusea, uma dor. Era isto mesmo: eu comungava a dor das vidas que me eram oferecidas em banquete.

Essa comunhão chegou à plenitude em março de 2011, quando passei pela experiência de ser sequestrado. Três cidadãos, seres da minha espécie, me tomaram no meu carro e me mantiveram durante toda uma madrugada em suas mãos. Coagido, sob ameaças com faca, revólver, olhos vendados para não ver as fisionomias daqueles seres tão da minha espécie, fui mantido deitado entre os bancos do meu carro, apertado a ponto de ficar com hematomas nos ombros, na cabeça, no rosto, os braços dormentes, as pernas também. Eles, os seres da minha espécie, usavam o meu carro como se fosse deles. Fumavam, riam. E cantavam. As cantorias alternavam-se com ameaças, empurrões no meu corpo, exigências das minhas senhas dos cartões de crédito – e tudo isso faziam ao som duma rádio aqui de Belo Horizonte, da qual nunca gostei e que, a partir daí, passei a detestar mais ainda: a Jovem Pan. Sei que a emissora não tem nada a ver com isso, com a minha trágica experiência. Mas é que esta se somou aos estilos musicais que a Jovem Pan toca e que nunca me agradaram.

Aqueles jovens – eram jovens, pois suas vozes mostravam isso – usavam meu carro e ouviam o rádio à vontade. Circulavam eu não sabia por onde. Mas eu ia percebendo aos poucos que estávamos entrando por matas densas, pois chovia, eu sentia cheiro de terra molhada, de barro, barulho de bátegas sobre plantas. Tive a sensação de que aqueles seriam os derradeiros odores e ruídos que eu sentiria na vida.

Encurtemos esse episódio, cuja descrição aqui já é dolorosa. Pararam o carro no meio de um mato. Levaram-me para uma casa em construção. Deitaram-me de bruços no chão, e com os cadarços dos meus tênis amarraram-me os pés e as mãos para trás. O cano de um revólver e a ponta de uma faca não descolavam de minha cabeça e do meu pescoço. Não me mataram, porque não reagi em momento algum. Deixaram-me ali e se foram cantando, como cantando estavam durante todo o tempo do meu lado. Fiquei sem o carro, sem documentos, fiquei dopado por um comprimido que me obrigaram a tomar, fiquei com prejuízos financeiros e psicológicos – mas fiquei com a vida, com a minha vida. Tanto que estou aqui, lúcido, escrevendo estas linhas.

Não sei dizer se tenho medo da morte. Mas sei dizer o que senti naqueles momentos, principalmente quando me amarravam. Senti-me como aqueles porcos que eu via os homens amarrarem quando eu era criança. Amarrarem e esfaquearem – uma pontada de ferrugem e aço no coração. E a gritaria dos porcos, cuja linguagem não era e não podia ser humana, a civilizada linguagem humana. Uma gritaria que ecoava nas redondezas amanhecendo e que por certo fazia muitos pensarem ainda em sua cama: “Que beleza, hoje vamos ter carne fresca!”. Quanto a mim, aquela era uma gritaria de me matar. Uma gritaria que doía muito e que ia diminuindo até não existir mais.

Eu era um porco sendo amarrado. Como também me encarnei agora naquele cachorrinho lá em Formosa, sendo pouco a pouco assassinado por sua “dona”, uma enfermeira, uma “cuidadora de vidas”.

Não posso suportar a dor, nem a própria nem a alheia. E o que não suporto mesmo é a dor causada intencionalmente ou por desequilíbrios pelos quais somos atravessados. Sou apenas, aqui, um ser humano frágil, um animal entre outros animais, ganindo contra tantas mortandades.

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