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Palavras a uma jovem (II)

11 de Fevereiro de 2010, por Evaldo Balbino

Sinuosos são nossos caminhos, e ramificam-se. Como tentáculos querendo agarrar todas as possibilidades, perdem-se nas mesmas. Por exemplo, as sendas da religiosidade: este campo necessário ao homem, desde quando, intimidados, passamos a enterrar nossos mortos, a tratá-los como se faz com seres tão nós mesmos, mas tão estranhos, pois portadores de muito daquilo que desconhecemos e que nos causa medo e atração. Todo abismo tem gosto de lábios.

E até mesmo o gosto dos lábios é vário. Não me refiro apenas ao paladar, às sensações que um beijo maravilhoso e sensual proporciona. Falo também das palavras que os nossos lábios proferem. Necessárias como a vida, elas portam sabores e saberes. Até os que não falam com palavras possuem a necessidade de simbologias. E muitas vezes sofremos, por desconsiderarmos o fato de que tudo é atravessado por símbolos. Um pouco de sofrimento é necessário, pois com ele aprendemos a viver sem as monotonias perigosas. Como já dizia Drummond: “O corpo exige cruz”. Porém refuto aqui sofrimentos demasiados, que podem ser desnecessários quando combatidos. Deixemos de naturalizar o que é cultural.

Se ultimamente tens sentido muita angústia com essa culpa cristã, com essa impossibilidade de ser coerente com os ensinamentos, não te preocupes. Busca vencer a dificuldade de ser tantas coisas ao mesmo tempo. Pratica a arte de ser desnorteada.

Argumentas ser muito difícil tudo, quando as pessoas amadas nos amam apenas condicionalmente. Mas quando somos amados e amamos de outro modo? O ser amado existe para me satisfazer. Posso preocupar-me com ele, desejá-lo, querê-lo mais que a tudo nesta vida. Ao fim, restam os meus desejos, a inevitabilidade de que preciso do outro para eu mesmo existir. Seria possível, então, falarmos de amor desinteressado? Perdoem-me os credos e as religiões. Inclusive o nosso amor por Deus está eivado de interesses. Mesmo professando amar a Deus sem nenhuma intenção outra que a de simplesmente amar, mesmo acreditando amar o amor pelo amor, no fundo o que busco é suprir uma carência minha. Sem amor nada serei, isso já foi dito e repetido diversas vezes.

Se há condições para o amor, faço da distância um escudo. Deixo-me assim, sem sonhos impossíveis. Interpões que “a distância é uma conquista importante, mas nos dá a sensação de incomunicabilidade, fazendo-nos sentir cada vez mais sozinhos, centrados em nós mesmos”. Na ponte da distância, digo-te, posso sentir o gosto amargo e doce da saudade. Posso sentir a possibilidade de continuar amando, sem espinhos inevitáveis a espreitar qualquer amor.

Dizes que “desejar a aprovação do outro é uma necessidade instintiva”. Tenho medo desse “instinto”, pois não sei se é termo adequado para o que sentimos. De qualquer modo, sou escravo disso também. Os meus textos, quando os publico, não seriam um modo de me colocar para o outro e demandar dele uma aprovação? Falas ainda que te sentes bem com teus livros e tuas leituras, mas que no fundo ficam resíduos das coisas que não foste, das pessoas que decepcionaste. Insisto, contudo, que temos de encarar as angústias e a vida, aceitando que somos o que somos e não nos prendendo aos discursos classificatórios que não chegam a lugar nenhum. É necessária a dura aprendizagem de que tudo são construções humanas a demandarem revisões, outros modos de se dizer e viver.

Não queiras ser Deus, no sentido de unidade, de coerência, de leis, de regras, de verdades. É um equívoco superestimarmos Deus. As representações que fazemos dele são espelhos de nossos sonhos, reflexos de nossos desejos. Totalizamos o que não conseguimos apreender. “Mas as definições encerram Deus em um reino egoísta, onde todas as coisas são alternativas. Ou fazemos a vontade dele ou o traímos. Havendo traição, somos desprezados em alguns momentos da vida. Esse discurso é pesado, denso. Age sobre o corpo, provoca os sentidos, obstrui a inteligência”.

Ora, se Deus é um enigma, que ele seja vivido sem neuras, sem ideias de posses, de leis instransponíveis. Não permitas que te façam viver de acordo com o que acham ser Deus. Pega as definições e embaralha todas elas, retorça-as, revira-as, provoca nelas revoluções. Joga com a linguagem, com essa linguagem através da qual nos impõem Deus. Eu faço isso. O que, se não me salva, pelo menos me ajuda a viver. Podemos ser menos conturbados, e deus pode nos conceder isso, não o Deus com d maiúsculo, mas o deus que nos habita, retorcido como nós, amante e amado.

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