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Por quem os sinos dobram

16 de Agosto de 2009, por Evaldo Balbino

O que se esperaria dum bronze não é muita coisa. Na sua dureza e insensibilidade, o que desejaríamos dele seria apenas servidão. Como nosso servo, nosso escravo, o bronze estaria à nossa mercê. Serviria às nossas necessidades, a nós que já não mais vivemos na era das pedras, que já passamos por toda uma odisseia ainda não findada, uma odisseia às avessas. Que ele ficasse inerte, indecifrável aos nossos anseios e necessidades de leitura, seria algo tão natural como nuvens que sobrevoam nossas cabeças. Seria tão fácil, então, conceituar o bronze, ou melhor, defini-lo. Tão fácil quanto usá-lo.

Mas nossas cabeças pensam e sonham, e assim inevitavelmente leem. Ler não é um verbo intransitivo. É um ato que requer um objeto. Folhas de papel, mesmo em branco; um olhar, ainda que sob pálpebras fechadas; roupas desfilando, transparentes ou não, em corpos que, mesmo escondidos, se mostram; olhos que nos olham diretamente ou de um jeito enviesado; pedras no caminho de retinas tão fatigadas e sonhos, indecifráveis, mas oferecidos à nossa fome de entendimento. E o bronze, é claro, pois este também é lido.

Deslumbrava-nos manusear lá em casa, em tempos idos e tão presentes, aquela bacia de bronze, imponente no seu canto e sem nenhuma função. Era na de lata em que tomávamos banho. Naquela bacia de bronze, pesada, meu mundo seria um mar sem fim. E creio que isso não se deveria ao meu tamanho franzino. É que os sonhos, em certos momentos e lugares da vida, são desmedidos. Quieta ali no seu canto, a bacia de bronze me sussurrava sempre, chamando para o mergulho nas profundidades do oceano.

E o sino da Igreja da Matriz, lá na minha cidade? De propósito, parece, construíram aquela igreja no ponto mais alto de Resende Costa. Não sei de projetos arquitetônicos, das mentes que decidiram plantar ali aquela altivez no centro de um adro. Nem o sino da Igreja do Rosário se me mostrava tão altivo como aquele. Eis o poder das alturas. O sino da Igreja da Matriz, de bronze, como que se prendendo nas vestes de Deus, pairava sobre todos nós.

Subindo para o centro da cidade, meu coração entrava em descompasso quando ouvia o sino. Se o da Matriz ou o da Igreja do Rosário, não me lembro. Era simplesmente o sino, na sua brônzea voz. Que avisos ele estaria me trazendo, na sua frieza de bronze, naquela matéria tinindo, como se não estivesse sendo comandada por mãos humanas? Os sinos das igrejas têm dessas coisas. Presunçosos, dão-se ares de independência. E com suas vozes querem dizer muitas coisas, segredos, novidades, voos altíssimos sobre nossas mentes.

Subindo ali pela Rua do Rosário, meu coração, aos sons do sino, disparava. A língua seca me dizia da frágil durabilidade da vida. Se pelo menos fosse a hora do Ângelus, grata hora que ainda me visita no edifício onde resido, eu poderia me dar poses de místico e ouvir uma Ave-Maria triste e sublime, de uma tristeza muito alegre, de uma pesada leveza. Pois é: na Belo Horizonte de agora ainda existem dessas coisas. Da minha janela vejo e ouço o sino se movendo. Nada de discos, CDs, gravações que pretendem enganar a vida e a morte. A mim não me enganam.

Mas ali, quando eu subia aquela ladeira de Resende Costa, geralmente não era às seis horas da tarde que o sino conversava comigo. Eram horas outras, abarcando as tarefas que eu tinha de cumprir. Ir à escola, pagar contas para minha mãe na extinta Caixa Econômica, ir com ela à “limpadeira do Vantuir” ou comprar no pequeno comércio algum artefato necessário à vida. Nesses momentos em que o sino falava, eu não podia fingir que tudo estava bem e que, ao som suave exalando, os fiéis estavam naqueles exatos instantes entrando para a igreja num ato de louvor. E isso porque, desde pequeno, aprendi a discernir os diferentes avisos do sino.

Na maioria das vezes o que ele dizia era o que eu não queria ouvir. Mas eu escutava calado, o coração se movendo por mim, acelerado entre uma curiosidade sádica e anúncios de melancolia.

Hoje ainda fala comigo o sino lá de Resende Costa? Seus modos e tons parecem tratar-me como a um estrangeiro, mas se iludem, por certo, quanto aos meus sentimentos. Tento, através das montanhas de Minas, principalmente nos entardeceres desse belo horizonte, ouvir sua voz, o anúncio de que um canto será entoado, de que uma Ave-Maria me confortará.

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