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Raimundo Mundo

11 de Outubro de 2011, por Evaldo Balbino

Os pés sujos em alpercatas, feitas com suas mãos vacilantes. Pés encardidos pela poeira das estradas nas quais iam e vinham. Calça amarrada acima da cintura. Camisa de gola cinzento-amarelada e com mangas compridas sob um paletó marrom. Um casaco de outras eras, alcançando os quadris lentos e com os bolsos sempre derramando rapé. Unhas grandes, sempre limpas em dedos longos, finos, como os de tocadores de pianos. As mãos trêmulas, que seguravam canecas esmaltadas de café com leite ou que ficavam passando e repassando palhas e fumo. Suas mãos agiam com o esmero dos que obram como se na vida tudo tivesse que ser talhado, bem cuidado, para que possamos um dia também partir meticulosamente, sem pressa nenhuma.

Chapéu de palha, ele não usava. Para a cabeça buscava coisa mais grã-fina. Levava sempre um borsalino surrado, com suas abas largas levemente viradas para cima e com uma concavidade na copa. Fazia questão de dizer, numa pequena manifestação de vaidade (quase nenhuma tinha), que o feltro utilizado na confecção do seu chapéu era especial, de pelo de lebre e não de coelho.

Barba sempre por fazer, um rosto meio que parecendo o de um judeu e com uma voz estranha, mais para dentro do que para fora, ele contava coisas que me deixavam extasiado. Suas histórias pareciam verdadeiras, convincentes, mesmo que cheias de invencionices. Criava mundos como fazia o Teotônio. Mundos em que nós pudéssemos entrar e viver. Língua peregrina como suas pernas, cambaleante e lenta, a me levar a tramas que me emaranhavam.

Raimundo Mundo. Assim o chamavam todos os compadres e comadres. E a criançada fazia eco com esse nome que já tinha em si o próprio eco. Só os animais é que não pronunciavam a alcunha. Refiro-me aos chamados irracionais. Mas com muita inteligência paravam para ouvir o Seu Raimundo, entendendo tudo o que ele dizia, tremulando olhos e meneando cabeças.

Raimundo Mundo não era reencarnação do São Francisco. Isso não era! Bastava olhar para o seu chapéu de lebre, que se notava isso. Porém contava daquilo que os animais sabiam, sentiam, viviam. Eram-lhe audiência os bois e as vacas, os ruminadores de ervas e palavras. Também compunham a plateia os cachorros e as cadelas, as galinhas com seus pintos, os galos de papo empinado e cujo canto parava diante das palavras do Raimundo. Os gatos mais esquivos se arrodeavam, escutando. Até os papagaios faladores paravam para ouvi-lo. Na casa da minha tia havia um, o Papaco, que efusivamente insistia em nos repetir a todos e que também gostava de bicar meus pés de menino que o incomodava. Do mesmo modo ardoroso, o Papaco recebia o Raimundo chegando de mansinho do outro lado da porteira.  Com Raimundo falando, o danado do papagaio parava para olhar e ouvir. Todos sustavam as próprias vidas e os próprios hábitos, para orelhar as falas antigas daquele homem, parecido com um judeu de voz oracular. Até nós humanos, pobres animais presunçosos, estacávamos perante as palestras estrangeiras e muito nossas.

Lembro-me das pessoas ouvindo tudo. Se com atenção falsa ou verdadeira, não sei. Quanto a mim, mesmo pequenino, frágil ser humano desde sempre e até hoje, eu fitava meus olhos vidrados de curiosidade na boca do Raimundo e nas suas dentaduras duplas com dentes claros, um dente encapado com ouro se destacando.

Eu fixava meus olhos nos seus gestos lentos, comedidos, pensados. Algumas coisas nele me intrigavam, como o hábito de cheirar rapé a toda hora ou de enrolar seu pito de palha que, me parecia, nunca estava enrolado. E as baforadas que dava? A fumaça subia, fazendo espirais que me deixavam tonto de tanto namorá-las. Eu via aquelas ondas encaracoladas e dizia para mim mesmo, só em pensamento, que um dia ainda iria fumar daquele jeito, iria tragar um pito com vontade e perícia. Sorveria a fumaceira e emitiria aquelas sinuosidades, a ponto de fazer inveja a meu pai que do mesmo modo fumava, mas que não produzia as ondulações perfeitas no ar.

O Raimundo vivia de trabalhar nas casas dos que o recebiam. Cortava lenhas, catava feijão, aguava a hort’couve, fazia cercas de taquara, tecia peneiras bonitas. Fazia tudo isso murmurando, falando consigo mesmo numa língua que ninguém entendia. Muitas vezes o vi varrendo o terreiro na casa da minha vó, e cantando enquanto o sol queimava o seu chapéu de lebre e a poeira se levantava em torno do seu corpo, enfeitando-o de mistério, de neblina.

Passou o tempo, e o Raimundo na sua solidão e na sua faina foi envelhecendo como todos nós. Disseram-me um dia, depois de anos da minha saída de Resende Costa, que ele morrera sobre os cuidados da Lili, minha prima.

Igualzinho a tudo e a todos, Raimundo Mundo era semelhante às ondas que ele fazia com suas baforadas quando pitava. As ondas de fumaça subiam, iam se ampliando, conquistando espaços, expandindo as possibilidades de existirem. Tanto cresciam, que se dissipavam após atingirem um ponto alto. Tornavam-se vagas, completamente invisíveis.

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