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Relembranças I

14 de Maio de 2012, por Evaldo Balbino

A meninada gritava muito, e corria de um lado para outro, feito barata tonta sendo perseguida, ou então feito boiada sem norte, sem rumo certo, sem destino traçado. Mas a criançada sabia o que queria, ah se não sabia! Todos queriam andar na roda gigante e rodar pelo ar naquela sombrinha engraçada a que chamam carrossel. E aqueles cavalinhos enferrujados não nos assustavam; estavam descoloridos, mas decolavam pelo ar, erguidos por correntes fortes de ferro, também meio enferrujadas.

E o medo do menino que eu era não me confundia. Era menor do que a vontade de voar sobre os cavalinhos, mesmo que velhinhos já, mesmo que oxidados. Naquela época eu não sabia que “ferrugem” era consequência de uma “oxidação”. Eu não era um menino pré-histórico, era simplesmente pré-conhecedor dos processos químicos, dessas parafernálias da ciência. Talvez era até mesmo mais feliz por isso mesmo. É muito bom esse negócio de beber água porque se tem sede, e não por se saber que dois átomos de hidrogênio combinados com um átomo de oxigênio são fundamentais à vida. Nada melhor do que viver por viver, sem consciência, sem muitas teologias.

E do mesmo modo que eu não sabia das propriedades químicas da água, que não sabia tratar-se a ferrugem de um processo de oxidação, também não sabia que o ar ventando em nossas caras era repleto de oxigênio, desse algo também imprescindível aos nossos pulmões. Eu apenas respirava, sentia o vento e o ar, porque eram gostosos, porque eram o ar e o vento, simplesmente. Faziam-me bem, sem cobrar de mim que os conhecesse cientificamente. Aliás, até hoje não me cobram isso; apenas pedem que os sinta, como se sente Deus. E assim eu vivo todos os instantes da minha vida: sentindo o ar, o vento e Deus.

A roda gigante eu não queria. Para mim era insosso ficar ali, num movimento lento, indo e voltando para o mesmo ponto, em câmara-lenta. No carrossel também tudo era circular. Voltava-se toda hora para o mesmo ponto, mas pelo menos se ficava tonto, sentia-se o vento mais forte, mais bulinador em nosso corpo. Minha irmã mais velha até dizia: “Ah, como é bom numa roda gigante, a gente ali sentados, namorando, o mundo lá embaixo e o amor acontecendo, rodando devagar!”. Isso tudo podia ser verdade. Mas como eu não pensava ainda em namoros, só queria a adrenalina (na época eu não conhecia esse tal nome “adrenalina”), continuei, então, gostando do meu carrossel, dos meus giros enlouquecidos pelo ar.

Quem me escuta falando assim até pensa que em Resende Costa, lá na minha infância, apareciam muitos parques, e também pensa que eu tinha dinheiro para ficar sempre pagando entradas em brinquedos gostosos. Não, nada disso! Meus pais não tinham condições para tais luxos.

Acreditam que até para comprar picolé era a maior dificuldade? Na época nem tínhamos geladeira. Pouquíssimas pessoas na cidade tinham. Passavam meninos com uma caixa de isopor na rua e gritavam esganiçadamente: “ôooo, picooolé! Ôooo, picooolé!!!”. De dentro de casa meus ouvidos namoravam esses gritos, mas o bolso não podia responder aos apelos. Raramente nós nos dávamos ao prazer de refrescar a boca com picolé nos verões de Resende Costa. Longe de mim ser a raposa diante das uvas maduras, aquela da fábula de Esopo! Mas afirmo, sem nenhum outro sentido, que os tais picolés não eram grande coisa. Eram pedras de gelo, feitas de Q-suco, aquele pó artificialíssimo e forte de matar.  E até que eu gostava desse sucozinho sem-vergonha, porém com muito açúcar.

Falando em picolé, o que mais se vendia nas ruas de Resende Costa, sob um sol que nos arrancava a pele, era chup-chup. Aqueles saquinhos – gelo puro também feito de Q-suco – atormentavam os pais que sofriam diante dos filhos pedindo dinheiro, chorando, esperneando. Também pudera! Todo santo dia passava alguém com a conhecida caixa de isopor gritando escandalosamente o nome da oferenda. E não há ouvido de criança que resista a isso! Nem ouvido nem boca.
 

(Esta crônica continua no próximo número deste jornal.)

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