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Relembranças II

13 de Junho de 2012, por Evaldo Balbino

(Continuação de crônica iniciada na edição 109, maio/2012)
 
Tempos depois, quando meu pai comprou lá em casa uma geladeira de segunda mão, eu já era adolescente, mas não hesitei em me esbaldar nos chup-chups. Quase me matava de tanto Q-suco congelado. Era de groselha, de limão, de laranja, de morango, de tudo. Até mesmo de pêssego, que era meio sem graça. Eu gostava mesmo era do de uva. A língua ficava vermelha e, mesmo já sendo um cavalão, ficava junto com a meninada mostrando a língua vermelha, fazendo caretas esquisitas, e rindo de tanta vida que se vivia.

Lembro-me de que certa feita, quando eu estava na quinta série em 1988, a professora Fatinha deu um trabalho de Português. O meu grupo tinha que teatralizar o texto bíblico “O bom samaritano”. E eu, todo feliz por já ser andarilho pelas bíblias, ofereci-me para compor o elenco e ser a vítima socorrida pelo samaritano benfeitor.

A discussão foi grande para decidirmos nos ensaios como daríamos um efeito mais real à violência que os salteadores infligiram ao pobre rapaz. Então tive uma ideia, brilhantíssima – disseram. No momento em que eu tomasse um soco na boca, de mentirinha é claro, morderia num saquinho de chup-chup feito de uva, um saquinho bem pequeno, e assim deixaria o líquido vermelho escorrer pela boca sofrida, ultrajada. Como minha personagem não teria que falar nada, pois havia sempre um narrador nos bastidores contando tudo, não me seria difícil encenar com o saquinho de suco de uva na boca, bem escondidinho.

No dia da apresentação da peça, só Deus sabe como sofri.

Pouco antes da aula de Português, uma cantineira da escola fez o Q-suco para o nosso grupo, mas se esqueceu de colocar açúcar. Colocou muito pó e pouca água, para dar efeito mesmo de sangue, bem pastoso. Entretanto nada de açúcar ela pôs, nem uma pitada sequer.

Na hora em que tomei o murro, simultaneamente mordi no saquinho. O líquido amargo e horrendo, aquele sangue espesso de dar medo em qualquer pobre coitado, desceu mais pela minha garganta do que para o queixo. Era um sangue alarmante, digno de um filme de terror, desses que são vermelhos até na capa dos DVDs, que são rubros até mesmo nos cartazes. Desses filmes que, quando os vemos, saímos do cinema encharcados de suor e sangue.

Não me chamem de exagerado, por favor! É que minha garganta doeu tanto, o amargor me sufocou de tal modo, que não encontro aqui outra descrição melhor. Além disso, a arte tem suas vantagens, e uma delas é permitir os exageros. Continuo, então, com as minhas demasias.

O sangue que escorria pela minha boca, e que também eu engolia, era aquele tipo de sangue que faria inveja a um Freddy Krueger ou a um Jason Voorhees. Doía minha goela, e já que a cena era muito séria e ao mesmo tempo jocosa pelo que eu passava, citemos aqui aqueles filmes horrorosos aos que não faltam sangrias. O sangue que me escorria era digno de uma cena, por exemplo, de um Jogos Mortais, de um O Massacre da Serra Elétrica, de Viagem Maldita, dos Jogos Sangrentos, ou de A Casa de Cera. Digno até mesmo de um Exorcista – o início. Com aquela mulher endemoniada, que mais parecia um vampiro sequioso de sangue e mostrando uma língua obscena, o filme até nos causa risos.

E se não causei risos no dia da apresentação do trabalho de Português, foi porque segurei firme. Fiquei ali, deitado no chão, esforçando-me para não tossir, praticamente engasgado. Fiquei aturando aquele amargor, e torcendo para que o maldito bom samaritano me pegasse logo pelos braços e me socorresse daquele sofrimento realíssimo, daquele suplício que não terminava. Deu vontade até de mudar o bendito texto, encurtá-lo. Já não me interessava mais ficar ali deitado, padecido, e ouvindo um monólogo cristão de um samaritano tão bonzinho assim. Ora essa!! Ele não estava sofrendo como eu, aquele atorzinho! Não estava comendo um saco de sal, ou melhor, bebendo um saquinho de Q-suco sem açúcar, como eu estava.

Eu queria brilhar como ator, não queria? Além disso, me tinham dito que minha ideia era brilhante. Ora, o que brilhou de fato foi minha cabeça, pois saí da peça vendo estrelas, tonto, sufocado por tanto sangue artificial. Mas, como dizem, não desci do salto, continuei desempenhando o papel de quem está sofrendo. Não foi difícil, pois estava mesmo.

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