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Santa Maria, rogai por nós!

15 de Fevereiro de 2013, por Evaldo Balbino

28 de janeiro de 2013. São seis horas da manhã, e o avião, roncando, já começa seu passeio pelo campo de decolagem do Aeroporto Internacional de Confins. Destino: Rio de Janeiro. Algo me incomoda, mas esse algo ainda não veio para o meu consciente. Sei que algo me incomoda, contudo ainda não sei o quê. Uma noite mal dormida, virando de um lado para outro, o corpo dolorido, um sono irrequieto. Algo me incomoda, e ainda faltam umas duas ou três horas para eu perceber exatamente o que me incomoda.

O avião levanta o voo, e o meu coração sofre um pouco com a velocidade exorbitante, com a máquina buscando as nuvens como se leve fosse. Não é costume esse meu estresse, esse medo de avião. Algo, no entanto, me incomoda. Sobrevoamos os céus da Grande Belo Horizonte. As nuvens estão cinzas, anunciando chuva. Uma chuva triste, duradoura. Em alguns momentos, a aeronave atravessa nuvens compactas, plenas de água na iminência de desaguar. Turbulências pequenas me fazem lembrar que a vida é frágil. Basta um quê de nada e ela, a vida, deságua como a água da chuva, desaba para um precipício final. Logo após, servem-nos um amendoim enjoativo, mas um suco de laranja me salva.

Sobrevoando agora, uns 40 minutos depois, o céu também cinzento do Rio de Janeiro, o que primeiro vejo é o Cristo de braços abertos. Ele parece querer abraçar a cidade inteira, e em mim a sensação de que ele não consegue isso. A aterrissagem me assusta um pouco. O Santos Dumont sempre me parece pequeno, como se fôssemos todos mergulhar nas águas turvas do oceano. Albatrozes às avessas, faríamos uma imersão sem retorno.

Faríamos, mas não fizemos, pois agora, já com a bagagem no hotel, estou na Cinelândia caminhando entre pessoas apressadas. Olho para a Biblioteca Nacional, edifício por que sempre me apaixono. Vou na direção do Theatro Municipal. Carros, garoa, pessoas de um lado para outro, turistas, camelôs, bancas de jornal lotadas de observadores olhando para as notícias do mundo. Nunca gosto de namorar as bancas, de ver os espetáculos que a mídia nos joga nos olhos.

Algo brilha, de repente, em minhas retinas. Um reflexo, uma luz dolorosa, apesar da garoa. No Rio, mesmo quando chove, o tempo é abafado, quente, úmido. A pouca luz é suficiente para incomodar meus olhos frágeis. O que joga reflexos em meus olhos é um pequeníssimo objeto no chão da Cinelândia. Abaixo-me e vejo que é um pingente de prata. É uma prata que faz doerem os olhos. Entretanto, o que mais me dói é ver o que o pingente representa: o Sagrado Coração de Jesus. Um coração que nos punge, um coração ardendo e envolto por uma coroa de espinhos. Recolho o objeto sagrado e o guardo no bolso da calça.

Decido-me ir até à Rua da Carioca, para comprar alguns livros num sebo meu conhecido. Na entrada da livraria, o primeiro livro que me vem às mãos é o Entardecer, de Menotti Del Picchia. Como é um poeta de que gosto muito, compro a brochura, e dou de cara com estas palavras: “Todos na vida temos um ‘entardecer’. / Somos como as árvores. / A infância é verde. / A mocidade um festivo explodir / de brotos e de flores. / É na hora melancólica da tarde / que surgem e amaduram os frutos”. Tais versos me incomodam, de tão lindos e tristes. Volto para o Largo da Carioca pensando neles. Quando viro para a direita, percebo o que nunca percebi antes: o Convento de Santo Antônio. Pasmem, podem rir de mim: um edifício imenso como esse, e eu nunca o vi antes. O seu nome me leva às terras do meu Ribeirão de Santo Antônio, o santo casamenteiro.

Tomado de saudades, de uma tristeza errante, erro pelas escadas de acesso ao convento e chego a uma capela, onde estão começando a celebrar uma missa em memória de São Tomás de Aquino. E fico sabendo que hoje a Igreja Católica relembra a figura de um dos maiores doutores que ela já consagrou. De repente, a ajudante do padre começa a leitura do Salmo 98. E na liturgia a que assisto, as palavras iniciais do texto “Cantai ao SENHOR um cântico novo, / porque ele tem feito maravilhas” me tomam. Elas me tomam, pois são transformadas em estribilho repetido a cada versículo pelos fiéis que estão ali condoídos e buscando uma ligação com o sagrado. Um homem, de joelhos à minha frente, segura nas mãos vários santinhos. Não de políticos, mas de santos mesmo: São Jorge, Santo Expedito, São Judas Tadeu, Santo Antônio com o Menino Jesus nos braços, São José também com o Menino Jesus e um ramo florido de lírios. O homem pega um a um dos santos, beija-os, e chora, e murmura palavras que não consigo entender. Ele parece triste, mas de uma tristeza sagrada.

Assisto à missa e saio do convento. Olho para o céu ainda cinza, e sinto ainda uma dor imensa, uma dor vinda não sei de onde. Caminho pelo Largo da Carioca em direção à Rio Branco. Tenho dificuldade de trânsito ao lado de uma banca. Muitas pessoas lendo jornais tampam o caminho. Vou pedindo passagem, e escuto o comentário: “Pra que tanta morte, meu Deus!?”. Então olho para as capas dos jornais e vejo estampada em todas a tragédia ocorrida em Santa Maria, RS, onde um incêndio matou mais de 230 pessoas, a maioria de jovens, na boate Kiss no dia anterior.

Ontem, dia do triste episódio, eu aparentemente estava fora do planeta. Ocupado com uma amiga que recentemente perdera o marido e com os preparativos para a minha viagem, não liguei a TV nem o rádio nem a internet. Leio agora algumas manchetes dependuradas na banca, escuto murmurações, e meus pensamentos vão fazendo pontes, cruzando fios, enlaçando-se como aquela coroa de espinhos no coração de Jesus.

Tantos santos nesta manhã desfilaram perante meus olhos. Tantos santos e o medo. O Cristo Redentor, Jesus e o seu Sagrado Coração, Santo Antônio, São Tomás de Aquino, Deus na liturgia que presenciei, São Jorge, Santo Expedito, São Judas Tadeu, São José e o Menino Jesus. Para coroar tudo isso, para além da coroa de espinhos, veio-me o ramo de lírios, florescido. Mas agora me vem Santa Maria, não a cidade e sim a santa mesma, e com ela também me chega a coroa de espinhos no coração de Jesus.

De que me adiantam os lírios de José, os que anunciam núpcias, se não estou agora para casamentos, mas para o choro?!

E choro e clamo a todos os santos, mormente a Santa Maria. Rogai por nós, ó mãe de Deus! Rogai pelos que amanheceram mortos em Santa Maria e pelos que ainda morrerão. Rogai pelos sobreviventes e pelos parentes vivos dos que morreram. Rogai pelos nossos medos de incêndios e aviões. Rogai pela juventude que não “explodiu em brotos e flores”, mas que “entardeceu”, não “na hora melancólica da tarde”, e sim numa madrugada agônica e escura. E mais que tudo, Santa Maria, rogai por nós, que somos um gado perdido, manada condoída espalhada pela Terra, cada rês seguindo seus pares, aturdida, em dores compartidas aos quatro cantos do mundo...

Comentários

  • Author

    O cronista, Evaldo Balbino, que um dia disse que tem medo da crônica, agora se supera, mais uma vez, e nesta oportuna peça faz uma bela oração pelas almas dos que pereceram em Santa Maria. Ele, arguto e talentoso se apercebe da coincidência do sinistro, como dizem os autores de contos policiais, e dai, num crescendo, ora a Deus pelos que pereceram. Belo e emocionante. Parabéns Evaldo.


  • Author

    Professor, poeta, cronista e amigo Evaldo Balbino. Amigo de todas as gentes, de todas as dores... Que não apenas Santa Maria, mas os santos e Deus pai nosso todo poderoso possam olhar por nós nessas mazelas da humanidade. Linda crônica! Parabéns!


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