Com vocês um produto refinado. Trata-se da mais alta tecnologia desenvolvida nas grandes cidades brasileiras. Não sei falar de muitas metrópoles, mas sobre Belo Horizonte, por experiência cotidiana, posso discorrer. Posso dizer de belezas e maldades, concretos e verduras, amizades e assaltos, paz e sequestros. Posso falar de ruas, becos ou até mesmo de algumas quebradas, para utilizar aqui a gíria dos malandros, dos boys e de muitos marginais. Posso discursar sobre as serras no entorno da cidade, as chamuscadas por barracões verticais, casebres de concreto sem acabamento ou de madeira gasta, sem pintura. Também sobre as verdes serras, como a do Curral, as exceções que me acalmam.
Mas voltemos às ruas da cidade, que a natureza merece discurso próprio.
É nessas ruas que medram fábricas da intolerância. Até nossas sombras guerreiam entre si por um naco de espaço. Parafraseando Sartre, pode-se dizer que sempre se esquecem de que a liberdade tem limites. Não pensando que a liberdade de um termina onde começa a do outro, atropelamo-nos nas ruas nossas de cada dia.
Querem um exemplo mais específico de tanta intolerância plantada e colhida com um esmero muito estorvado? Volto a apresentar-lhes a alta tecnologia de que lhes falava. Quem já teve a graça de empoleirar-se nos lotações de Belo Horizonte? Aos atropelos entramos neles, os lotações nossos de cada dia, e que não são nossos! São motores roncando e lataria sacolejando, a estragarem uma noite já mal dormida e a anteciparem outra noite de um sono também atropelado. Galinhas entre telas e telhados usufruem de melhores condições nos galinheiros. Elas são equilibristas. E sempre me espantaram essas bípedes apoiadas num só pé quando dormem! Quanto a nós, pobrezinhos bípedes desengonçados, não temos tal poder.
Entre braços levantados tentando imitar macacos, axilas nem sempre agradáveis, apertos que podem até excitar alguns e que sinceramente não excitam este que lhes fala, seguimos todos aflitos com a chegada a um destino sem fim. E aquelas pessoas que adoram falar aos celulares? E gritam, pois certamente do outro lado o interlocutor seja surdo. Ou, na melhor das hipóteses, são elas que se equivocam e gritam, gritam, porque no meio de tanto barulho também acham que o seu ouvinte não esteja escutando nada. Já me perguntei muitas vezes se essa falação alta com boca grudada em tais aparelhos não seja também um modo de extravasar uma raiva por tudo, pela carga que somos em carros tão cheios. Como não nasci para gritos, escrevo esta crônica, este modo meu de gritar.
Bancos apertados, lixeirinhas exíguas que mal abarcam um papel de bala ou chiclete mascado por dentes nervosos. Sem falar nos educados cidadãos que ainda insistem em jogar lixo pelas janelas. Uma vez ouvi um cara dizendo que joga mesmo tudo lá fora, pois isso é um modo de empregar garis. Com as ruas sujas, não faltará emprego. Santa ignorância! Santa e irresponsável!
Ultimamente, o que mais me tem irritado é o comportamento que vejo em alguns motoristas e trocadores. Fui perceber isto por agora, eu com esta mania de não ver podridão em frutos bonitos postos em bancas limpas. Faz dois meses mais ou menos que um trocador me disse com a cara mais lavada do mundo: “Fica aí na frente, não precisa passar pela roleta não. Me dá só R$2,00; o chegado aí vai te deixar descer na frente”. Fiquei estarrecido! Não que eu seja um santo, mas também com que cara eu desceria pela frente? Todos me olhando e se perguntando por que eu estaria fazendo aquilo. Não, eu não queria levantar suspeitas sobre minha pessoa. Deus me livre! Respondi que não, que passaria pela roleta e pronto. Paguei R$2,45. O trocador levantou os ombros e me deixou passar como se eu fosse ninguém. Vi os olhos do motorista no retrovisor, seu olhar me fulminando.
Depois disso passei a observar mais as pessoas passando ou não pelas roletas. E pude constatar que tal prática (a de pessoas que não pagam ou que pagam menos para descerem pela porta da frente) não é pouco comum. Nos pequenos pontos da vida, sempre há algo que foge a certa engrenagem. Por que não buscar outros modos de contestação ao abuso no valor das passagens? É, parece que cada um sobrevive como pode.
Certa feita brinquei com um amigo: “ainda vou comprar um ônibus só pra mim. Somente eu terei o direito de passar pela roleta, pagar e andar sozinho no meu lotação”. Mas depois dessa experiência, acho melhor não. E se o trocador me subornar outra vez?
Sardinhas enlatadas e pirataria em alto trânsito
12 de Julho de 2011, por Evaldo Balbino
Leitor do JL - 21/09/2011