Certa vez ocorreu um triste episódio em Ribeirão de Santo Antônio. Um povoado tranquilo, mas cuja memória tem muito a dizer. Quantas dores, meu Deus, quantos fatos terríveis já não se passaram ali! Contudo, isso não é privilégio do meu Ribeirão.
Lembro aqui aquele episódio contado por Chico Xavier em uma entrevista ao Pinga Fogo na década de 1970. Um episódio que, segundo ele, parecia uma anedota, mas não era: dentro de um avião que ameaçava cair, Chico começou a gritar junto com todo mundo, por medo, por terror. Eis que Emmanuel, seu guia espiritual, chegou calmamente e lhe perguntou:
– Você não deveria estar calado, orando, dando exemplo de sua fé?
À pergunta do guia, o médium interpôs argumentos que justificassem seus gritos. Afinal, todos ali estavam correndo risco de morte. Emmanuel, irritado e ao mesmo tempo irônico, respondeu-lhe que morrer não seria privilégio deles e que todos morreriam um dia.
Pois é isto: todos morreremos um dia. E morreremos de vários modos: alguns amenos, outros dolorosos; alguns quieta, outros alvoroçadamente.
Eu mencionei um episódio triste acorrido certa vez no Ribeirão. Tratou-se da morte de uma garotinha, uma criancinha começando a vida – morte que colocou a todos em sobressalto. Brincando no meio do pomar, a menina caiu em um córrego e acabou por afogar-se. Comungo com a sua família todas as dores. E tenho cá comigo a certeza de que esse anjinho está em outro plano, cumprindo outras missões e mais outras. Eu poderia estender-me sobre este fato, mas acho melhor não. Há dores em relação às quais devemos ser lacônicos. O luto deve amainar-se. É a sabedoria popular quem diz isto: ferida, quanto mais se mexe, mais piora. Pois, então, paremos aqui.
Mas esta crônica não quer parar. Não para porque outro episódio triste, acontecido no dia em que o nosso anjinho estava sendo velado, também me chegou ao conhecimento.
Uma pequeníssima caravana, creio que composta por uns três carros de passeio, seguia de Resende Costa para o Ribeirão. Todas as pessoas nesses veículos estavam indo para o velório na casa da vítima do afogamento. Numa estrada péssima, de terra, estreita e esburacada, um caminho onde eu mesmo outro dia não consegui fazer mais do que 20 ou 30 km/hora, um dos carros dessa caravana atropelou um filhote de gato!
Acidentes acontecem, dizem. Acidentes acontecem, constato e concordo. Mas também defendo, com unhas e dentes, que todo atropelado deve ser socorrido, independente de que espécie seja. Sendo vida, merece nosso respeito.
Porém, o que foi que aconteceu? Pararam o carro, desceram, pegaram a serzinho machucado e agonizando, e colocaram-no ao lado da estrada. Aos olhos dos demais viajantes, tudo isso foi feito, e ninguém parou para pensar em analgésicos, nas dores que no mundo poderiam ser evitadas, nas vidas que poderiam ter vias menos dolorosas do que aquelas em que se encontram. Ninguém desceu do carro para dizer coisas tais como:
– Esperem, gente, vamos socorrer este bicho! Vamos levar ele pro Ribeirão; lá a gente dá algum remédio pra tirar a dor, a gente cuida dele!
Ou então para decidir:
– Pode deixar, pessoal, que eu volto com ele pra Resende Costa. Lá tem um pouco mais de recurso. Vejo o que pode ser feito, compro um remédio na farmácia...
Ninguém falou nada disso. Todos estavam preocupados em chegar ao velório.
Existe vida após a morte? Eu, particularmente, acredito que sim. E isso não é coisa de se teologar, de se provar como se faz com dois e dois são quatro. Não é coisa disso não. Fé é sentimento, não é razão. Vive-se, e não se explica.
Mas é a razão quem agora, nesta crônica, me pergunta e me manda perguntar: de que adianta pensar em uma vida e esquecer a outra? Até quando vamos olhar para os próprios umbigos e vamos continuar não seguindo os simples exemplos como os de um Francisco de Assis?
Antes mesmo de Francisco haver demonstrado apreço pelos nossos irmãos animais, o Eclesiastes já havia dito, numa cultura também tortuosa onde se apregoavam sacrifícios de animais para um deus sequioso de carne e gordura: “(...) é por causa dos filhos dos homens, para que Deus possa prová-los, e eles possam ver que são em si mesmos como os animais. Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais; a mesma cousa lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego; e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para um lugar: todos são pó, e todos ao pó tornarão”.
Que somos todos vaidade, eu não concordo. Que somos todos vidas, e vidas que devem ser cuidadas, aí sim entra a minha concordância. Portanto, que uma vida e outra, sejam quais forem, biológicas ou espirituais, mereçam nosso respeito. E sempre!