Meu sobrinho músico Luís Gustavo convidou-me outro dia para assistir a um belo espetáculo no Jardim Japonês do zoológico de Belo Horizonte. Ele tocaria na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, a qual faria, juntamente com o Coral Lírico de Minas Gerais, o acompanhamento orquestral da ópera Madame Batterfly de Giacomo Puccini.
Eu não gosto de zoológicos. Duas vezes em minha vida entrei nesse tipo de ambiente. A primeira foi em Belo Horizonte, há muitos anos, com minha irmã Ediceia e seus dois filhos. Por insistência dela, é claro, que queria dar um domingo de lazer para os pupilos. A segunda vez foi no Jardim Zoológico de Madri, quando na capital espanhola estive por nove meses. Lá eu dividia apartamento com uma senhora cubana. E também por insistência dela tive que fazer a indesejada visita. Somos assim, não é mesmo? Muitas vezes cedemos à vontade dos outros para satisfazê-los. É longo e árduo o caminho que nos leva ao amadurecimento necessário para que possamos aprender a ouvir nossas próprias vontades. Hoje em dia já me dou ao luxo de me ouvir mais, de me seguir melhor.
Por que não gosto de zoos? Porque para mim o lugar de animais selvagens é na selva. E poderão me perguntar como faremos, nesse caso, com os animais em extinção. Ora bolas, como faremos? Todo mal deve ser cortado é pela raiz. E se esse mal está lá nas selvas, é lá mesmo que ele deve ser combatido. Não é enjaulando tigres e elefantes que vamos salvar os animais. Defendo a liberdade plena, incondicional. Nada mais triste, por exemplo, do que ver um pássaro preso numa gaiola ridícula! Eu me canso de falar isso a conhecidos meus, mas não adianta. O ser humano muitas vezes é egoísta. Prefere o estranho e sádico deleite de ver um bicho trinando na prisão a ver asas explorando os ares, os galhos das árvores, as copas supremas da vida livre. Isso de preferir a nossa felicidade à felicidade alheia é terrível. E é mais terrível ainda quando nossa felicidade se constrói sobre o alicerce da prisão do outro.
Na noite da ópera de Puccini, no entanto, o zoológico mostrou-me outra face. A noite estava fria, e o caminho que levava ao Jardim Japonês estava nublado e silencioso entre árvores. Funcionários guiavam-nos com lanternas até o nosso destino. Os animais deveriam estar dormindo, e talvez bem longe desses bulícios humanos que gostamos de fazer. Surpreendi-me com a decoração do jardim que até então eu desconhecia. E fiquei emocionado, pois nada mais perfeito do que uma ópera ao ar livre! E mais perfeito ainda é um jardim com decoração japonesa para ser o cenário de uma história acontecida no Japão na segunda metade do século XIX. Uma história na verdade inventada, mas que recupera o momento histórico da invasão dos Estados Unidos naquele país. Toda invenção é real, eu sempre digo, porque nos fala da própria vida.
Como tragédia da expansão e do domínio norte-americano no mundo, Madame Butterfly singularmente nos conta sobre o estupro dos sentimentos de uma gueixa que, iludida por um tenente americano, Pinkerton, vê apenas no suicídio a única maneira de recuperar sua honra maculada. O marinheiro ama o exotismo e a beleza da gueixa, toma-a por esposa nos rituais japoneses, passa uns tempos com ela, parte do Japão e lhe promete voltar na primavera seguinte. As primaveras, contudo, sucedem-se, e o marido não volta. Ela, grávida, tem um filho de Pinkerton e vai afundando cada vez mais na miséria. A despeito de tudo, ela insiste em acreditar num amor inabalável e espera incondicionalmente pelo marido. Este, quando retorna três anos depois, já vem casado “de verdade” com uma “verdadeira esposa americana”. A paixão volúvel do marujo é atravessada por remorsos, e mesmo assim ele e sua “esposa verdadeira” arrancam o filho da gueixa. Fazem isso porque pensam que somente os dois têm condições de “educar um filho”, e não uma cantora e dançarina a serviço do entretenimento de homens. O drama em construção precipita-se quando a gueixa se mata. A história dessa gueixa, cujo nome é Cio-Cio-San, é a de alguém que se lança de um navio em chamas nas ondas terríveis de um mar impiedoso.
Apesar de todas essas coisas ásperas da vida, naquela noite no zoo eu pude ter momentos de suavidade e salvação. Um zoológico encarcerando animais selvagens, o frio que nos cortava a todos no Jardim Japonês, o desrespeito de diferentes culturas pela mulher e pela gueixa e a volubilidade dos sentimentos humanos não foram elementos suficientes para fazer desabarem meu mundo e minha vontade de amor. Foram três atos de puro sentimento e expressividade. Música de fina orquestração, num requinte que nos levava aos píncaros de sentimentos sublimes. Chorei em diversos momentos da ópera. Apesar de todas as coisas ásperas da vida, eis que a arte entra em cena e nos faz encarar tudo o que é feio com mais discernimento e beleza.