Os imensos corredores da escola nunca terminavam para o pequeno e branquíssimo Manoel. Mas eles tinham fim para os meninos que iam à sala da diretora assinar o Livro de Queixa. Livro grande e grosso, capa azul, lombada desgastada pelo muito manuseio da inspetora, aquele livro era o terror de muitos. A escola era grande. Os meninos eram tantos e boa parte deles, bagunceiros.
Manoel, branco numa ausência plena de cores, olhos ardidos e ofuscados pela claridade, chegava a ficar vermelho de tanto correr na hora do recreio. “Branco desse jeito, você não deve correr!”; “Cuidado com o sol, garoto!”; “Sua pele é frágil, pode se romper!”. E o menino buscava seguir incólume sob as admoestações vindas dos que queriam protegê-lo na redoma da diferença.
No recreio vendiam-se lanches aprazíveis, frituras nada saudáveis, pastéis crocantes e coxinhas gordurosas. Apesar disso, grande parte dos alunos comia era na cantina mesmo. Uma farofa, uma carne seca e um arroz indeciso entre estar solto ou unido como um bloco de Carnaval. Mas o alvo Manoel gostava daquela comida, do mesmo modo como se deliciava em correr pelos corredores. Sem o feijão que comia em casa, tudo era uma secura de fazer durar a merenda. E depois ele entrando atrasado na sala de aula. Os professores bravos e ele com educação argumentando que a culpa toda era da seca comida, sem água, sem suco, farofa e arroz seco se demorando na boca, pregando-se no céu da boca, descendo grosso pela goela se esforçando.
Manoel brancamente corria e comia, daquele modo como a infância no mundo come e corre. Sem preocupações outras que não a de viver, mesmo sendo difícil a vida, a pele se queimando facilmente, mesmo tendo medo da morte.
Mas esse medo era só de noite, no escuro, quando sua mãe já estava dormindo. O medo não era o de morrer, e sim o de ver a mãe não se levantando pela manhã, a mãe grudada no escuro da noite como o grude colando o desenho de uma mulher encapuzada no papel do seu caderno. Um desenho horrendo, que uma vez a professora dera aos alunos para ilustrar a inevitável necessidade das religiões. Horrendo sim, porém delicioso de se colorir com lápis habilidosos. Colorir a morte era enfeitá-la de vida, de cores suaves ou fortes, todavia sempre alegres. Colorir o desenho da morte foi muito gostoso. E o garoto o fez com afinco. Mas admitir que a mãe se pregasse no escuro como a morte se pregara no seu caderno tão cuidado, tão bem encapado pelas mãos maternas, isso de jeito nenhum! A morte é inaceitável.
Manoel correndo, comendo e colorindo. A carne seca, os desenhos gloriosos, a farofa, os corredores, o arroz em bloco, a brancura transparente de sua pele, o Livro de Queixa, o caderno encapado pela mãe, o desenho da morte e a vida. A vida prosseguindo com suas lisuras e rugas.
Meses depois de sua entrada na escola, Manoel viu pela primeira vez aquela professora, rosto estranho, diferente. Pelo visto ela também era novata ali no estabelecimento de ensino. E o menino percebeu que ela era olhada por todos ou pelo menos por quase todos. Principalmente pelos alunos irrequietos. Manoel olhou-a, num misto de estranhamento, de compaixão e de identidade.
Estranhou o rosto deformado, retorcido para a vida tão madrasta às vezes. Tão linda a vida, mas requerendo muitas vezes duras penas, lições difíceis, paciências dolorosas. E as dores aumentadas principalmente quando a vida nos exige vivê-la em caminhos diferentes do que o senso comum julga normal. Caminhos tortos como torto era o rosto da professora tentando domar os alunos pelos corredores da escola.
Manoel teve pena ao perceber que aquela professora olhava mais para o chão do que para as pessoas. Ela chamava os alunos para a fila, insistia em educá-los, mas não os encarava. Conversava de viés. As paredes, os lados esquivos, o teto da escola escondendo um céu invisível – tudo isso era anteparo para os olhos dela se protegendo, resguardando-se do bulício da escola, dos barulhos da vida.
E com essa professora Manoel identificou-se de um modo singular. Também torto, caminhando brancamente pela vida, ele viu a professora como sendo seu próprio reflexo, sua imagem e semelhança. Identificou-se tanto a ela, que desejou ser seu aluno. Mas ele tão novinho, incipiente no mundo das letras, e ela trabalhando apenas com as séries finais do 1º Grau. Ele, não graduado ainda, mas já se graduando na vida, aprendendo as duras lições que a vida ensina. Ela, já graduada, não obstante aprendendo ainda indigestas lições.
Durante uns três meses, o menino passou a ter uma namorada, mesmo que à distância. Aproveitava cada ocasião que tinha para namorar a professora de longe, bem em silêncio mesmo. E ensaiava modos de se aproximar dela, querendo dizer-lhe o que sentia, que ele e ela eram iguais, que a vida os tinha unido para sempre.
Mais alguns meses, no entanto, e aquela nova professora saiu da escola e mudou-se de cidade. Diziam que ela não queria continuar no magistério. Manoel nunca mais a viu.
Hoje, muitos anos depois, a notícia: aquela professora morta! Manoel, antes meio dividido, sente-se agora partido ao meio, definitivamente.