Trilha sonora

A Cidade Música: Nashville

16 de Setembro de 2016, por Renato Ruas Pinto 0

Já escrevi sobre Conservatória, a cidade da seresta. Na ocasião eu disse que não sabia de um lugar que fosse tão dedicado à música até que pude conhecer aquela que se autodenomina “a cidade música”, Nashville. Localizada no sudeste dos EUA, é a capital do estado do Tennessee e também, com todos os méritos, a capital da música country, além de estar ligada intimamente a outros estilos musicais como o rock e blues. É também um importante centro da indústria fonográfica norte-americana, com grandes estúdios de gravação, e ainda é a sede da tradicional fabricante de guitarras Gibson.

A cultura country, maior do que a música em si, reflete um estilo de vida de uma região que foi importante no desbravamento do oeste americano e grande entreposto comercial. Ao se andar nas ruas e ver tanta gente com chapéu de cowboy e bota de couro, tem-se a sensação de estar em um rodeio todos os dias. Quanto à música country em si, ela é o coração que bate na cidade. É impossível entrar em um estabelecimento – seja loja, saguão de hotel ou restaurante – onde não esteja tocando. Porém, mais impressionante é andar pela principal avenida turística, a Broadway, e testemunhar as dezenas de bares com música ao vivo praticamente todo o dia. Com formações que vão desde o artista sozinho com seu violão até grandes bandas, a rua é uma amostra da riqueza e diversidade de estilos que compõem a música country.

A origem do country está ligada aos primeiros imigrantes europeus que levaram consigo para o interior dos EUA instrumentos como o violão, banjo, mandolin e a rabeca (o violino). Os primeiros registros fonográficos datam dos anos 20 e o nome de Nashville está ligado ao estilo desde então. Tendo o rádio como um dos principais divulgadores, data de 1925 o show “Grand Ole Opry”, um programa de auditório no qual desfilam vários artistas em um espetáculo de cerca de duas horas transmitido ao vivo de Nashville e que existe até hoje. É o programa de rádio mais longevo dos EUA e possivelmente do mundo, com transmissões às sextas, sábados e terças. A existência desse programa por quase um século ilustra a resistência da música country e sua capacidade de se transformar. Desde artistas e grupos tradicionais como Gene Autry, Hank Williams ou os fundadores do estilo Bluegrass Bill Monroe e Earl Scruggs, até o estilo ser declarado por críticos, no fim dos anos 80, como destinado ao esquecimento, ele se reinventou e teve um renascimento pop nos anos 90 e 2000, vendendo como nunca e arrastando multidões para ver artistas como Shania Twain, Garth Brooks e Blake Shelton.

A cidade paga vários tributos ao country, a começar pelo fabuloso museu do Country Music Hall of Fame, onde os grandes nomes são celebrados e se ensina sobre sua história, suas vertentes e a influência sobre a música pop moderna. Apesar de ser um ritmo associado principalmente aos brancos sulistas, o estilo exerceu forte influência sobre artistas negros ligados ao blues e gospel e dessa fusão vieram o rock e o soul. Não é de graça que nomes associados ao rock como Elvis e Johnny Cash têm suas placas no hall da fama do museu. Bob Dylan declarou que se ele teve uma influência musical, essa veio da lenda country Hank Williams. Assim, ainda que Nashville seja o centro de referência da indústria fonográfica para o country, os estúdios da cidade sempre atraíram músicos de outros estilos interessados em colocar em suas músicas o sabor country com a ajuda dos talentosos músicos de estúdio e produtores locais. Por lá gravaram Paul McCartney, Simon e Garfunkel, Neil Young e o próprio Bob Dylan, que registrou quatro álbuns em sequência por lá, incluindo o icônico “Blonde on Blonde”.

Para quem gosta de música, a cidade e sua história são fascinantes. Mesmo eu, que pouco conhecia de country, pude aprender muito sobre a diversidade do estilo e, principalmente, entender como ele influenciou outros ritmos até chegar no rock e se tornar parte quase indissociável do seu DNA. Essa história do nascimento do rock, porém, fica para um próximo capítulo.

Música com coragem

18 de Agosto de 2016, por Renato Ruas Pinto 0

Tenho sempre escrito que a música brasileira vai bem. E criativa e moderna graças aos novos nomes. Eles louvam e reverenciam os grandes mestres, mas seguem um caminho próprio. Bem, talvez seja até bondade chamar de caminho, já que me parece mais uma picada aberta na raça em uma mata fechada de rádios e mídias dominadas por jabá e música pop de qualidade questionável, sem qualquer apoio de gravadoras ou gerentes de carreira, além dos poucos espaços que se abrem para divulgação de trabalhos autorais. Mas ainda assim seguem em frente e bem, como se vê em lançamentos que têm ocupado minha vitrola por esses dias, os álbuns “Camaleão Borboleta” do grupo Graveola e Lixo Polifônico e “Ó” de Juliana Perdigão.

O grupo Graveola e o Lixo Polifônico está na ativa há um bom tempo e lança o seu sexto disco, “Camaleão Borboleta”, produzido pelo experiente Chico Neves (Lenine, Skank, Paralamas e outros) e que ainda conta com a participação especial de Samuel Rosa. Nesse disco o Graveola capricha nos arranjos e nas bases muito bem arranjadas pelos seus integrantes. Os vocais ficam a cargo de José Luis Braga, Luiz Gabriel Lopes (sobre o qual escrevi aqui a respeito do disco solo “O Fazedor de Rios”) e Luiza Brina (que também faz parte do coletivo ANA, a Amostra Nua de Autoras, também tema dessa coluna). Em termos de estilo, nesse disco o Graveola faz um trabalho totalmente apoiado em ritmos brasileiros como o frevo, maracatu e influências afro como o ijexá. O clima do disco é leve e de alta energia, mas sem perder de vista a relevância das letras, assinadas em sua maioria pelo trio de cantautores. É impossível ouvir “Camaleão Borboleta” e não fazer um paralelo com “Os Novos Baianos”, influência que a própria banda faz questão de citar, seja pelo time de compositores reunidos sob a mesma bandeira, seja pelo entrosamento e coesão do trabalho. Resumindo, é música brasileira vibrando na intensidade máxima e, principalmente, original e livre de clichês.

Juliana Perdigão tem forte ligação com o Graveola, já que fez parte do grupo, mas voa solo há um bom tempo. É uma música versátil e completa: cantora, compositora e exímia clarinetista e flautista. O seu segundo disco, “Ó”, coloca Juliana em um time de artistas que traz a música brasileira para um patamar diferente de sonoridades e, principalmente, de ausência de rótulos. Dessa nova música brasileira vêm as participações especiais de Rômulo Fróes (que assina a direção artística com Juliana), Tulipa Ruiz, Ná Ozzetti e Luiz Gabriel Lopes. Apoiada pelo seu competente grupo “Os Kurva”, Juliana passeia pelo rock, música eletrônica e outras praias de modo que seu trabalho não conhece fronteiras. Nesse caldeirão de influências e estilos, Juliana colocou na praça um disco autêntico e calçado em interpretações corajosas. Totalmente fora daquilo que se chamaria de um álbum convencional, ela intercala as faixas com textos e poesias que surpreendem. E as próprias letras seguem esse espírito livre de formato, já que são poesias que em várias ocasiões rompem com o que seria tradicionalmente chamado de canção. Em suma, Juliana caprichou em um disco que pode ser chamado de tudo menos de óbvio. E de quebra, ainda dá uma bela cutucada nas convenções ditas corretas da sociedade com letras inteligentes sintetizadas pela última música, o “Hino da Alcova Libertina”. E na ousada arte do disco. Mas dessa arte não vou falar aqui e deixo a surpresa para quem quiser conhecer o disco.

Como se pode ver e ouvir nesses dois álbuns, escassez de talento está longe de ser problema na nossa música brasileira. São dois trabalhos ousados, bonitos e inovadores e que merecem ser escutados com atenção. Trabalho de artistas que fazem música com coragem e sem preocupação de amarras comerciais, formatos ou imposições.

Dicas sobre esses e outros artistas você vê lá na página no Facebook. Visita lá:

https://www.facebook.com/TrilhaSonoraBR/

Ele ainda faz

14 de Julho de 2016, por Renato Ruas Pinto 0

Mais um bom lançamento nas prateleiras, de um dos maiores guitarristas do rock, Eric Clapton. O setentão Clapton vem com o álbum “I Still Do”, “eu ainda faço” em uma tradução livre. E faz mesmo. Eric Clapton é um artista que viveu as glórias do rock e os horrores dos seus excessos de drogas e álcool. Em 1966, com apenas 21 anos já era considerado um dos grandes guitarristas da Inglaterra, quando surgiu no metrô londrino a famosa inscrição “Clapton is God” (Clapton é Deus). Daí para frente teve uma carreira pontuada pelo virtuosismo e inspiração da sua guitarra. E também marcada pela sua devoção ao Blues, estilo que o inspirou desde quando empunhou um violão pela primeira vez até os dias de hoje.

Em “I Still Do” ele deixa isso bem claro. O Blues está lá em diversas formas, desde uma sonoridade mais purista como em “Alabama woman blues” até em versões mais eletrificadas como “Cypress grove”, que poderia muito bem ter sido gravada em seus tempos de The Cream. Clapton não fez desse álbum propriamente um tributo ao blues, até porque já fez homenagens explícitas como em “Riding With The King” (gravado com B.B. King) ou em “Me and Mr. Johnson”, dedicado ao seu maior ídolo, a lenda do Blues Robert Johnson. Aliás, é de Johnson a faixa “Stones in my passway”, com uma levada de Blues bem tradicional, mas eletrificada.

Neste disco Eric Clapton vai além do Blues. Até porque é um disco de poucas faixas autorais e aparecem desde canções dos anos 30 até uma faixa de Bob Dylan. O mais curioso é que Clapton conseguiu imprimir seu toque nas músicas e, em uma primeira audição e antes de ler os créditos, eu tive impressão que ele estava fazendo uma espécie de retrospectiva das sonoridades que explorou em sua carreira. E sobre as sonoridades, ele passeia sobre períodos interessantes da sua carreira, como em “Can’t let you do it”, que remete aos seus álbuns clássicos “461 Ocean Boulevard” e “Slowhand”, de 1974 e 1977, respectivamente. Ainda lembrando essa grande fase temos “Somebody’s knockin’”.

Na faixa “I will be there” ele resgata o clima de suas baladas que estiveram em evidência na virada dos anos 90 para 2000, como “Change the world”. Ainda na onda dessa época vem a bonita canção “Spiral”, na qual Clapton usa sua guitarra em um dueto consigo mesmo, fazendo contrapontos interessantes com a sua voz. Eric Clapton, blueseiro de coração e alma, já declarou sua admiração pela bossa nova e a batida de João Gilberto. Embora essa não seja sua praia, percebe-se a influência no acompanhamento sincopado de “Catch the blues”, uma das poucas faixas assinadas por Clapton. E falando de praias diferentes, Clapton até se arrisca em uma balada com uma pitada jazzística “Little man, you’ve had a busy day”. Saindo do jazz, Clapton mostra que não quer se prender a estilos e flertar com o Country em “I dreamed I saw St. Augustine” de Bob Dylan. Em mais uma visita ao passado, “I’ll be alright” nos faz lembrar de “Unplugged”, o seu show acústico na MTV que no começo dos anos 90 o apresentou para gerações mais novas e o levou de volta ao topo das paradas. Para fechar bem o disco, Clapton faz as vezes de crooner em “I’ll be seeing you”, um standard de jazz bem costurado.

Ao fim da audição o que se pode dizer é que é um disco muito agradável e bem produzido. Clapton fez um disco econômico em termos de arranjos, sem orquestrações grandiosas ou pirotecnias do gênero. Porém, é na simplicidade que os bons se destacam, quando não se tem toda a maquiagem sonora para esconder limitações. Além disso, Clapton se sai bem nos vários estilos em que passeia. Mas, tal como um estrangeiro que domina outras línguas, mas não consegue esconder o sotaque, o Blues vai ser sempre o idioma nativo de Eric Clapton e sua sonoridade sempre evidente. Resumindo, pode ouvir que não vai ter arrependimento.

Trilha Sonora

16 de Junho de 2016, por Renato Ruas Pinto 0

Apesar do título, não vou falar sobre a própria coluna, mas sim sobre trilhas sonoras. O que inspirou o nome da coluna foi pensar em trilha sonora como o pano de fundo musical sobre o qual se desenrola uma história, seja em um filme ou novela. Música e imagem andam juntas desde os tempos do cinema mudo, quando um piano ou orquestra eram executados ao vivo durante a exibição dos filmes. O primeiro filme falado “O Cantor de Jazz” tinha como trama um jovem que queria ser cantor e o estilo musical domina a película. Em outras palavras, a trilha sonora anda junto com o cinema e a televisão desde sempre, ora como fundo, ora no primeiro plano.

Alguém sempre irá se lembrar de trilhas de cinema, como as escritas pelos geniais Bernard Herrmann – criador da arrepiante orquestração de cordas para “Psicose” de Alfred Hitchcock – ou John Williams, que escreveu as trilhas originais de clássicos como “Guerra nas Estrelas” e “Super Homem”. Também fica na memória a seleção de músicas de filmes como “Forrest Gump” ou “Pulp Fiction”. Aqui no Brasil podemos lembrar de compositores de trilhas originais como Jaques Morelenbaum e David Tygel, do Boca Livre. Em termos de músicas selecionadas, é impossível esquecer a trilha de algumas novelas, como Roque Santeiro, que reuniu clássicos como “Dona”, “De volta para o aconchego” e “Vitoriosa”. Naquele ano o volume 1 da trilha da novela vendeu meio milhão de discos.

O mais curioso é saber que a inspiração para a criação de trilhas sonoras de novelas veio do México. O experiente executivo Andre Midani, após passar alguns anos dirigindo a unidade mexicana da gravadora Capitol, ao retornar ao Brasil e perceber a popularidade das novelas, propôs à Globo criar uma trilha dedicada para a novela “Véu de Noiva” (1969), com temas para os principais personagens. No projeto, que ficou a cargo de Nelson Motta, aproveitaram-se algumas músicas que estavam para ser lançadas, como a versão de Chico Buarque e Vinícius de Moraes para “Gente humilde” de Garoto. Ao ouvir a bela canção “Irene” de Caetano Veloso, Nelson convenceu a autora da novela, Janete Clair, a trocar o nome da personagem de Betty Faria, que se chamaria Lúcia, para Irene. O casamento música-personagem foi um sucesso e o disco foi um dos mais vendidos do ano. Depois de um ano de parceria com a Phillips, a Globo viu a oportunidade e criou sua própria gravadora, a Som Livre, para explorar esse mercado.

Em tempos de música de qualidade questionável na telinha, fui surpreendido pela ótima trilha da novela “Velho Chico”. Desde a abertura, com uma regravação do próprio Caetano de “Tropicália”, até alguns resgates de artistas que passam longe do circuito comercial como Tom Zé, que vem com “Senhor cidadão” e mais duas músicas. Ainda estão presentes figuras carimbadas como Alceu Valença, Novos Baianos, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Marisa Monte, Geraldo Vandré e outros medalhões. Também se abriu espaço para nomes menos conhecidos do grande público, como Ná Ozzetti e Zé Miguel Wisnik, que emplacaram a belíssima “A olhos nus” do ótimo disco “Ná e Zé” (guardem o nome desse disco, é recomendadíssimo). Estão presentes também alguns nomes da chamada “nova MPB”, como Marcelo Jeneci e Tiê. Resumindo, um elenco e repertório surpreendentes para um espaço de tamanha visibilidade como uma novela das nove.

 

É uma vitória para a música, mas ainda assim cabe uma crítica pela falta de renovação. Como citei acima, reuniu-se um elenco “galáctico”, deixando pouco espaço para uma nova geração sobre a qual tenho falado sempre. Mesmo um ótimo representante dessa turma nova como Marcelo Jeneci, com um trabalho autoral consolidado, apareceu somente com uma regravação do clássico “Veja Margarida”. E é até de se estranhar que um clássico definitivo como “Tropicália” precisou ser regravado sabe-se lá por qual critério estético. Enfim, podia ser melhor, mas não deixa de ser um progresso. Em tempos nos quais a cultura é considerada gasto supérfluo e artista é tratado como vagabundo, vale uma comemoração.

O quinto Beatle

12 de Maio de 2016, por Renato Ruas Pinto 0

As crônicas sobre os Beatles sempre lembram as histórias daqueles que foram Beatles, mas que não fizeram parte da glória do grupo. Como Stuart “Stu” Sutcliffe, o baixista sem talento que logo abandonou o grupo quando ainda estavam em Hamburgo, Alemanha, antes da fama. Ou Pete Best, o baterista que acompanhou John, Paul e George na busca do primeiro contrato. Quando a Parlophone, subsidiária da EMI, se interessou pelo grupo, logo notaram que o baterista não era do mesmo nível dos demais e exigiu sua substituição por um melhor, impasse que os Beatles resolveram com a dispensa de Pete Best e o convite para Ringo Starr se juntar ao time.

A história do produtor dos Beatles, George Martin, que se encantou no último mês de março, é exatamente o oposto. Ele não era um Beatle, mas fez parte de toda história e glória do grupo. Tamanha foi sua contribuição para o som da banda que sempre foi lembrado como o quinto Beatle. George Martin se interessou por música ainda criança e na juventude estudou piano e oboé. Após se formar começou a trabalhar na Parlophone, braço da EMI. O selo andava desprestigiado quando Martin ajudou a reerguê-lo e assumiu sua direção. Martin buscava diversificar o catálogo e entrar na onda do rock, quando resolveu dar uma chance aos Beatles, que haviam sido recusados pela gravadora Decca. No primeiro instante Martin não se impressionou com os Beatles, musicalmente falando. Achou-os bons, mas se encantou principalmente com o carisma, humor apurado e energia do grupo. A primeira chance no mercado veio com o compacto “Love me Do”, que chegou ao 17º lugar nas paradas britânicas. Nada mau, mas ainda longe de ser um grande sucesso.

Martin garimpou músicas com chances de sucesso e ofereceu para os Beatles “How do you do it”. Eles gravaram, mas insistiram que queriam lançar uma música de autoria própria e mostraram ao produtor “Please please me”. Ao fim da gravação Martin profetizou: “vocês acabaram de gravar o seu primeiro ‘número um’ nas paradas”. E Martin provou-se duplamente certo. “Please please me” chegou ao primeiro lugar, assim como “How do you do it”, essa, porém, interpretada pelo grupo Gerry and The Pacemakers, que tinha o mesmo empresário dos Beatles, Brian Epstein. Começou aí um relacionamento com os quatro rapazes que duraria por toda a vida de Martin. Como Lennon disse em uma entrevista, foi também um aprendizado mútuo por conta da inexperiência dos Beatles com estúdios e de Martin com o rock’n’roll em si. À medida que os Beatles evoluem na qualidade de suas composições, George se mostra fundamental em ajudar a materializar no estúdio as ideias do quarteto e a história que melhor ilustra suas contribuições é a do clássico “Yesterday”.

Após Paul apresentar a música, Martin logo propôs gravá-la somente com o violão e um quarteto de cordas. Paul se opôs, dizendo que eles eram uma banda de rock e que não ficaria bom, mas deu um voto de confiança para Martin tentar. Como um professor, Martin mostrou a Paul como fazer um arranjo a partir dos acordes da música e esse se empolgou com o resultado final, gravando uma música que entraria para história e que seria depois imitada por vários outros grupos. Daí em diante o trabalho dos Beatles se sofistica cada vez mais até chegar no álbum lendário “Sergeant Pepper’s”, onde Martin foi mais uma vez posto à prova e contribuiu com arranjos primorosos e experimentais.

 

Por tudo isso, George Martin foi uma peça essencial da revolução musical liderada pelos Beatles, assinando, inclusive, toda a trilha instrumental do desenho “Yellow Submarine”. E continuou contribuindo com o legado do quarteto, em pleno século XXI, ao assinar a trilha sonora para o espetáculo “Love”, do Cirque du Soleil, um fantástico remix de clássicos dos Beatles que embala o show. Após seu “encantamento” em março, Paul McCartney escreveu com propriedade: “se alguém mereceu o título de quinto Beatle, esse foi George Martin.” Vá em paz, George. E se prepare para trabalhar, pois John Lennon e George Harrison devem ter muitas composições prontas esperando por um bom produtor.