Trilha sonora

Arte coletiva e as autoras desnudadas

16 de Julho de 2014, por Renato Ruas Pinto 0

Trabalhos coletivos de músicos fazem parte do nosso cenário artístico há tempos. Antes de começar, vale fazer uma distinção entre o trabalho de uma banda e o coletivo. Adianto que essa distinção é um julgamento meu e pode estar sujeito a discussões. Uma banda é constituída de músicos trabalhando juntos, sob a mesma “bandeira”, embora normalmente possuam dinâmicas e papéis bem definidos. O Mick Jagger ou Keith Richards se comportam de forma distinta quando nos Rolling Stones ou quando atuando sozinhos. Em um coletivo também temos artistas trabalhando juntos, porém, o resultado é mais individual. Cada música tem a cara do artista e não necessariamente do grupo. Os artistas se ajudam, compõem juntos, participam uns das gravações e shows dos outros, mas preservam o seu traço mesmo em álbuns coletivos.

No Brasil vários trabalhos coletivos se notabilizaram: o álbum “Tropicália” de Caetano, Gil, Gal, Mutantes e outros talvez tenha sido o primeiro trabalho de destaque construído explicitamente nesse espírito. “Tropicália” inicialmente seria um disco com algumas músicas de cada artista. Porém, pouco antes do lançamento veio o “Sergeant Pepper’s” dos Beatles, trazendo a ideia do álbum conceitual e Caetano, Gil e companhia resolveram dar uma cara diferente para o disco e contar uma história com as canções. Ainda assim, ao se ouvir fica claro quem é quem. Outro coletivo importante viria a ser o álbum “Clube da Esquina”, fruto do trabalho de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e outros bem sintonizados entre si nas letras e músicas. Deixando de lado o fato de ser verdadeiramente um grupo, o estilo de vida dos Novos Baianos (Moraes Moreira, Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes) talvez os coloque na categoria de coletivo, já que viviam todos juntos no mesmo espaço. Por fim, o movimento da Bossa Nova não deixa de ter um quê de coletivo, tendo em vista a interação de todo o grupo nas composições, shows e discos.

Nos últimos dias um trabalho de criação coletivo me chamou a atenção, a Amostra Nua de Autoras, ou A.N.A. Nascido com o objetivo de divulgar o trabalho de novas compositoras, o coletivo A.N.A. se lançou com um espetáculo e o disco com o próprio nome. A nossa música brasileira sempre teve grandes vozes femininas na liderança como Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte e tantas outras. Porém, quando se fala de composição, o mundo que nos vem à cabeça é bem mais masculino: Tom Jobim, Chico Buarque, Djavan e por aí vai. Assim, não deixa de ser surpreendente uma reunião de oito cantoras e compositoras. Mais surpreendente, porém, é o resultado e a qualidade do trabalho. O grupo é formado por Deh Mussulini, Laura Lopes, Luana Aires, Irene Bertachini, Michelle Andreazzi, Luiza Brina, Leonora Weissmann e Leopoldina. Só conhecia até então o trabalho de Irene Bertachini, que lançou o ótimo disco autoral “Irene Preta, Irene Boa” no qual mostra um trabalho maduro e de ótima qualidade nas composições, além de bela voz. Aliás, no A.N.A. todas assinam composições e lideram vocais. E falando em vocais, ponto para os belos arranjos presentes em todo disco.

O trabalho do A.N.A. pode ser conhecido no site do grupo www.amostranuadeautoras.com) onde o disco pode ser inclusive baixado gratuitamente (ponto para o encarte com os créditos disponível em pdf).

 

No Soundcloud pode-se garimpar o trabalho solo das oito cantautoras e na Rádio ANA (https://soundcloud.com/coletivo-ana/sets/r-dio-ana) há várias músicas das integrantes. Além disso, no perfil de cada uma pode-se explorar o que andam produzindo. Estou ainda pesquisando e ouvindo com atenção e tem sido uma descoberta mais do que prazerosa. E se você, leitor ou leitora, quiser descobrir junto, irá concordar que a música brasileira vai bem, obrigado.

Minas além da Esquina

13 de Junho de 2014, por Renato Ruas Pinto 0

Toda homenagem que se preste ao Clube da Esquina é pouca pelo o que Milton Nascimento, Lô Borges e companhia fizeram pela música brasileira. Porém, não pretendo falar sobre o Clube que tornou a música mineira conhecida mundialmente. Ao menos não dessa vez, pois é impossível escrever sobre música sem dar o devido espaço àqueles músicos geniais. Gostaria de falar um pouco sobre o que se produziu depois do Clube e alguns artistas que julgo merecerem destaque. O desafio, porém, é na escolha sobre quem escolher, já que nosso estado é um grande celeiro de artistas e território livre onde coabitam estilos diversos.

Entre os compositores, um dos que julgo dos melhores do país na atualidade é o Flávio Henrique. A influência do Clube é nítida no trabalho desse músico impressionante, mas ele conseguiu ir além e apresentar um trabalho original e relevante. Como instrumentista, Flávio manda bem no violão, guitarra e piano, mas, em minha opinião, se destaca nos arranjos, sempre de alta qualidade. É um compositor sofisticado e dono de um extenso trabalho solo e parcerias com grandes compositores como Milton Nascimento, Márcio Borges e Zeca Baleiro.

Curiosamente, em seus discos solo como os excelentes “Pássaro Pênsil” ou “Aos Olhos de Guignard” ele prefere entregar os vocais para seus convidados. Já no seu novo trabalho, o quarteto Cobra Coral, ele solta a voz com seus parceiros de vocais: a excelente cantora Mariana Nunes e os músicos e compositores Kadu Vianna e Pedro Morais. O trabalho que começou como algo descompromissado ganhou fôlego, fez sucesso e rendeu um ótimo disco com o nome do quarteto. Aliás, o trabalho de Flávio Henrique com músicos novos é algo que merece nota. Na estrada desde os anos 90, Flávio pode ser considerado um veterano. Entretanto, sempre abre espaço e promove jovens artistas nos seus discos e composições. Recentemente, esteve também nas manchetes políticas após compor a ácida marchinha “Na Coxinha da Madrasta” criticando de forma inteligente um deputado estadual, que chegou a ameaçá-lo com um processo. Ele chegou a interromper a divulgação da música, mas já era tarde demais e ela tinha se tornado um viral na internet.

Das Gerais também saíram grandes intérpretes e se há uma cantora que tem toda minha admiração é a Titane. Mineira da nossa quase vizinha Oliveira, Titane é uma cantora de voz poderosa e de técnica impecável. Consegue aliar uma excelente presença de palco e interpretação cênica com um controle absoluto da voz, que vai com perfeição de um sussurro a um agudo altíssimo. Tal como Flávio Henrique, Titane também sempre apoiou e divulgou artistas novos, dando a espaço a nomes que hoje estão ganhando espaço como Makely Ka e Sérgio Pererê. O seu trabalho recente “Titane e o Campo das Vertentes”, que rendeu um excelente CD e DVD, foi justamente fruto de uma série de oficinas para jovens entre 15 e 25 anos, onde se trabalhava expressão corporal, preparação cênica e musical. Não basta fazer música, mas também criar espaços e incentivar.

Não bastasse esse trabalho belíssimo de promoção da música, Titane ainda foi responsável por um álbum que faz parte da minha lista dos melhores que a MPB produziu, o “Inseto Raro”, gravado ao vivo em Ouro Preto em 1996. Acompanhada somente pelo brilhante violonista Gilvan de Oliveira, Titane solta sua voz na interpretação de clássicos da MPB e canções com influência de tradições populares como o congado e folia de reis, aliás, tradições das quais Titane é uma grande divulgadora. Tive a felicidade de assistir ao show no seu lançamento e de estar presente na gravação em Ouro Preto. Perdi as contas de quantas vezes já ouvi o disco, mas é o tipo de álbum em que sempre causa aquele arrepio e a emoção de ouvir um detalhe novo. Para quem não conhece o trabalho de Titane, vale uma visita no seu site (http://titane.com.br/) onde se pode ouvir seus trabalhos mais recentes.

 

Focalizamos dois grandes artistas das Gerais “pós-Clube”, mas esse é só o começo. A música em Minas mantém uma produção de altíssimo nível e a cada dia novos artistas surgem acrescentando mais qualidade ao que temos para ouvir. Como disse lá na minha estreia da coluna, a música realmente vai bem.

Cheio de dedos

15 de Maio de 2014, por Renato Ruas Pinto 0

Na coluna de estreia falei da necessidade de abrir espaço para a música nova, mas não posso fazer isso antes de escrever sobre um artista que considero um dos mais geniais da geração pós Chico Buarque, Caetano e companhia, e que nunca teve o devido reconhecimento do grande público e mídia: o Guinga. Não que Guinga seja um total desconhecido ou um injustiçado, porém, a sua fama sempre ficou restrita a uma crítica especializada ou pessoas realmente fãs de MPB.

Guinga não é um artista novo e despontou para a música muito cedo. Com apenas 17 anos – e ainda assinando com seu nome, Carlos Althier – classificou uma música para o II Festival Internacional da Canção da Globo em 1967, a mesma edição que revelou Milton Nascimento com "Travessia". Depois disso, continuou seu trabalho de compositor e violonista, tendo várias músicas gravadas por artistas consagrados como Chico Buarque, Elis Regina, Ivan Lins, Leila Pinheiro e outros. Também acompanhou em palco ou estúdio nomes como Cartola, Beth Carvalho e Clara Nunes. Porém, demorou a se dedicar integralmente à música, dividindo seu tempo com a profissão de dentista. Apenas há poucos anos deixou de lado as brocas e o consultório. Junte-se a isso o fato de, nos primeiros anos de carreira, evitar o palco para apresentar o próprio trabalho - nem mesmo em bares ou pequenas casas - e talvez se consiga explicar o porquê de Guinga nunca ter tido a exposição merecida.

A relação com o palco é de fato curiosa. Apesar de anos dedicados à música e de ser reconhecido – e disputado – no meio artístico pela qualidade das suas composições, Guinga só subiu ao palco para um show seu em 1989, quando já tinha mais de 20 anos de dedicação à arte. E, diga-se de passagem, o show só aconteceu porque foi organizado e promovido por amigos músicos que consideravam um absurdo o artista nunca ter tido a devida proeminência. A partir daí, Guinga começou a gravar o próprio trabalho e lançou alguns discos impressionantes. Carioca da gema, o samba é sua língua materna, mas transita com elegância por outros estilos como o baião e bolero. Guinga trouxe para a MPB uma sofisticação na melodia e harmonia que, em minha opinião, não se via desde Tom Jobim. Além disso, Guinga é um violonista virtuoso e faz justiça ao título do seu álbum de 1996, "Cheio de Dedos", que escolhi pra título desta coluna.

 

Tive a felicidade de ver Guinga ao vivo em duas oportunidades e suas apresentações são verdadeiras declarações de amor à música e ao violão. Além disso, é impressionante a emoção que ele transmite ao público, seja cantando ou executando seus belos temas instrumentais. Compositor brilhante, instrumentista virtuoso e grande intérprete: receita de satisfação para quem ouve. Com boa parte dos seus álbuns ainda disponíveis, seja no bom e velho CD ou para download no iTunes, fica o convite para conhecer aquele que eu considero um dos maiores compositores da MPB. Além disso, há vários vídeos no Youtube onde se pode vê-lo executando suas músicas. E pra quem já conhece, vale sempre rever o trabalho genial desse grande artista.

A música brasileira vai bem, obrigado

16 de Abril de 2014, por Renato Ruas Pinto 0

Desde que me entendo por gente, ouço reclamações sobre a qualidade da música brasileira. Bons eram os artistas do passado, mas, pelo visto, nem eles eram poupados nos comentários, pois já não produziam no mesmo nível. E o tempo passa e o comentário não muda. De tempo em tempo uma nova moda surge na mídia – funk carioca, sertanejo universitário e outras tantas que chegam e somem na mesma velocidade – e as críticas ganham força, lamentando a decadência da música. Porém, discordo do fato de que a qualidade da música brasileira esteja caindo. Afinal, se assim o fosse, ela teria se extinguido há tempos. O fato é que a produção continua em alto nível.

Vamos aos fatos: artistas populares – aqueles que caem no gosto da massa – sempre existiram. Em todos os tempos sempre houve um grupo de artistas que movimentava a maior parte da população em oposição a um grupo pequeno, dito “de qualidade”. Se hoje se reclama do funk carioca ou algo que o valha, no passado os criticados foram o Sidney Magal, o Agnaldo Timóteo, algum grupo de lambada ou mesmo o Waldick Soriano. Então me parece que o gosto popular sempre andou descompassado de um gosto supostamente sofisticado. Mas ainda assim boa música continuou sendo produzida.

Essa sensação de queda da qualidade, porém, não é sem razão. Ao ligar o rádio ou assistir a programas de TV vemos cada vez mais os espaços tomados por artistas populares e pela moda da época. A tecnologia digital na música afetou profundamente a indústria fonográfica e a acertou em cheio com a pirataria. Primeiro com o CD e a facilidade de se fazer cópias. Depois veio o mp3 e similares e, a partir de então, qualquer música ou álbum ficou ao alcance de um download. A partir daí, as apostas em novos artistas ficariam restritas, com raríssimas exceções, àqueles nos quais o retorno comercial fosse garantido. Por outro lado, a revolução digital também traria benefícios, facilitando a gravação e a divulgação do trabalho de vários artistas fora do circuito comercial.

Em um passado não muito distante, a gravação de um disco era um trabalho hercúleo para qualquer artista ou banda independente. Poucos e caros estúdios disponíveis e a dificuldade de distribuição eram grandes empecilhos para criação e divulgação. O barateamento da tecnologia permitiu montar em casa estúdios de vários canais e de boa qualidade, o que permite ao músico fazer uma boa pré-produção ou mesmo toda a gravação no próprio estúdio. A divulgação também ficou mais fácil e o mesmo download que facilita a pirataria permite ao artista independente divulgar seu trabalho, seja através de site ou blog próprio, plataformas como o Youtube e redes sociais focadas em música como o MySpace ou o SoundCloud. Plataformas comerciais permitem não só divulgar, mas também ganhar com o trabalho e artistas independentes têm se valido do iTunes e Deezer para vender de músicas a discos completos ou ganhar por acesso às suas músicas.

Então o problema seria com a música ou com a falta de bons artistas? Não creio. É a falta de espaço no rádio ou TV para trabalhos que não sejam estritamente comerciais. Precisamos ficar de olho no que rola na grande rede para pescar boa música. E ainda por cima com a conveniência de escutar o que se quer e quando se quer, sem nada imposto por gravadora, canal de TV ou rádio.

 

Após diversas colaborações com o Jornal das Lajes, fui honrado com um convite para assumir a produção de uma “coluna musical”. Espero nas próximas edições provar, como afirmo na abertura dessa coluna, que não só a música brasileira, mas também o rock e o pop continuam em forma e ainda podem nos emocionar. E espero a contribuição do leitor, afinal, o universo da música é muito grande para que alguém sozinho consiga estar antenado em tudo. A contribuição pode vir através do espaço para comentários no site do jornal ou no perfil do JL no Facebook, enviando sugestões de artistas e músicas. Não faltará espaço para os clássicos também, afinal, nossas vitrolas não podem sobreviver sem eles. E é nessa mistura do novo com suas origens e influências que vamos falando de música. Até a próxima.