O momento era de estarmos assistindo a um debate construtivo de ideias e projetos para o país. Ao contrário disso, o que se vê em profusão nos meios de comunicação são notícias de escândalos envolvendo autoridades de proa da República. As personagens da vez são o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e o procurador-geral da República Paulo Gonet. Vieram à tona nas últimas semanas revelações bombásticas de conversas - capturadas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso na operação Compliance Zero - que envolvem Moraes e Gonet.
O que será concluído das entrelinhas desses diálogos é assunto que certamente extrapolará o período eleitoral. O que preocupa, no entanto, é a repercussão desse escândalo na campanha e no resultado das eleições que se avizinham. A cada nova rodada de pesquisas de intenções de votos inquire-se sobre qual candidato à Presidência da República foi mais ou menos impactado por novas revelações do caso Master e seus desmembramentos.
Lula, que tenta o quarto mandato como presidente da República, e Flávio Bolsonaro, que almeja ser herdeiro do espólio eleitoral do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso e inelegível, não raro têm seus nomes envolvidos, direta ou indiretamente, em algum escândalo. Lula vem sendo confrontado pelas acusações impetradas a seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, suspeito de exercer tráfico de influência no escândalo do INSS. Flávio Bolsonaro, por sua vez, ainda não apresentou justificativas convincentes sobre o pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro para supostamente patrocinar o filme Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As revelações dos diálogos entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que não deixam de repercutir nas campanhas dos principais postulantes à Presidência da República, chamam atenção para um fato preocupante na política brasileira: a banalização da corrupção. Num país onde, utopicamente, a moral fosse vista como elemento essencial e constitutivo da atividade política, episódios como esses que envolvem supostos desvios de conduta moral por autoridades de alto escalão do governo seriam motivos suficientes para renúncias de cargos, impeachment e banimento da vida pública. Infelizmente não é o caso no Brasil. Por aqui, ainda vigora o antigo e triste adágio “rouba, mas faz”. O cidadão brasileiro parece ter-se acostumado com a chaga da corrupção a ponto de tratá-la como algo “normal” na política e até mesmo em atividades do cotidiano. É o famoso “jeitinho brasileiro”, que nada tem de louvável. Tal comportamento não contribui para o aprimoramento da ética na cidadania. Pelo contrário, a banalização da corrupção macula o princípio máximo que vaticina ser a política a atividade essencial para a promoção do bem-comum na sociedade. Para atingir esse propósito a ética necessita ser imperativo universal, não devendo permitir relativizações. E aos postulantes de cargos públicos, a conduta moral proba deve arvorar-se como condição sine qua non.
As eleições 2026 mostram que estamos ainda muito distantes de alcançar a qualidade desejada na cena política. A poucos dias do primeiro turno do pleito, o que menos se viu até agora foram propostas para os desafios urgentes que o país enfrenta, sobretudo em educação, segurança pública, saúde e infraestrutura. Ora, se não conseguimos debater temas antigos como esses, o que esperar dos candidatos quando a pauta for as novas matrizes energéticas, a IA (inteligência artificial), exploração de terras raras e o aquecimento do planeta? As lideranças políticas que vêm se destacando no tabuleiro eleitoral não estão preparadas para debater os desafios globais emergentes, para os quais o Brasil não pode virar as costas.
É triste constatar que o Brasil vivencia mais um período eleitoral que o levará a lugar nenhum. A política não será renovada; a polarização continuará dando as cartas, adoecendo o país e inibindo o surgimento de novas e preparadas lideranças capazes de inverter qualitativamente o quadro de decrepitude que envolve as instituições políticas da República.
Se quisermos, enfim, virar o jogo, comecemos por fazer uma escolha pela ética na política. O brasileiro não pode continuar achando que ser político corrupto é algo “normal”. A virtude, no sentido de virtú da moral filosófica, deve ser o fundamento básico para o comportamento de cidadãos que envergam o peso da responsabilidade de dirigir as instituições que representam a República, sobretudo o STF, guardião máximo da Constituição Federal.
André Eustáquio
Editor-chefe