Com a história dos tapetes, Vem Me Ver faz desfile mágico na avenida


José Venâncio de Resende


Casal de mestre-sala Allehandro e porta-bandeira Karoline representando a corte portuguesa (foto Emmanuel Pinheiro)

Não foram quatro décimos (0,4) a menos (nota 179,6) que ofuscaram o brilho da Escola de Samba Vem me Ver, do bairro Tijuco, no desfile do dia 1º de março, na Avenida Presidente Tancredo Neves em São João del-Rei. A campeã do Carnaval 2025 foi a Escola de Samba Bate Paus (nota 180), seguida da Unidos de São Geraldo (179,9). A terceira colocada Vem Me Ver perdeu os décimos nos quesitos bateria (0,1), harmonia (0,2) e samba-enredo (0,1).

Apesar do terceiro lugar, a Vem Me Ver fez bonito com seus 410 componentes “transformando a avenida em um grande tear, onde cada ala é um fio, cada alegoria um bordado, cada bossa uma história. Com cores vibrantes, brilhos reluzentes e corações em festa, celebramos a arte de tecer, de criar, de resistir!”.

Para além do enredo rico em história e cultura, saltaram à vista o encantamento arrepiante da comissão de frente, o “luxo” e o “ouro” das fantasias, a suntuosidade dos palácios e cortes, a coreografia, a evolução dos passistas, a leveza dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, as alegorias e adereços e muita garra e paixão.

 

O desfile

Num desfile que durou pouco mais de meia hora, a Vem Me Ver levou para a avenida o enredo “Tapetes: do tear imortal a capital nacional”, uma viagem por diferentes épocas e continentes que mostrou o papel dos tapetes e tecidos na construção de impérios, no fortalecimento de economias e na manifestação artística dos povos. “Da Pérsia antiga à Índia, do Egito à Rota da Seda, chegamos ao Brasil, onde a tecelagem encontrou solo fértil, especialmente em Resende Costa, a Capital Nacional do Artesanato Têxtil.”

O tear “representa muito mais do que uma técnica artesanal, é um símbolo de identidade, cultura e resistência”, “carrega séculos de tradição, conectando povos, memórias e sonhos através de suas tramas”. Em Resende Costa, mãos habilidosas transformam fios em arte e fazem do tapete um pilar da economia e da cultura.

Na avenida, a comissão de frente representou o “Tear da vida”, inspirado na lenda persa “onde fios invisíveis, conduzidos por mãos divinas, tecem destinos e histórias”. Bailarinos deram vida aos fios, linhas e agulhas, recriando o movimento do tear. “Como na lenda, em que cada fio tem um propósito, o tear de Resende Costa entrelaça tradição, identidade e devoção, moldando o futuro da cidade.”

O tripé (estrutura) da comissão de frente trouxe o fio condutor do enredo, manuseado pelo artesão resende-costense Israel Wilver da Silva Carlos. Mostrou que, “mesmo após milênios de história, a arte continua e é preservada com orgulho e paixão”.

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira (Yuri Pires e Elaine Azevedo), cujos trajes evocavam a opulência da realeza, prestou homenagem à nobreza persa e à arte dos tapetes. “A tradição da tecelagem persa remonta a mais de 2.500 anos, sendo considerada uma das manifestações artísticas mais significativas do povo iraniano.” Os guardiões do casal representavam os guardas do palácio persa.

A tradicional ala das baianas, em sua indumentária luxuosa (dourado, lilás e verde), conectava a realeza persa à arte dos tapetes, símbolo de tradição e poder. “A ala exalta tanto a nobreza persa quanto a realeza do samba, unindo tradição e arte na avenida.”

O carro abre-alas transportou o público para o esplendor de um palácio persa. “No centro da cena, a Família Real Persa simboliza o luxo e a importância dos teares, tratados como tesouros da arte e da cultura.”

A segunda ala (infantil) representou a tradição dos tecelões da Índia. Destaque para os vayxias, casta de comerciantes e artesãos, que dominam a arte da tecelagem na Índia. E os elefantes, animais sagrados e enfeitados com tecidos bordados e adornos.

A terceira ala, “Cleópatra e o Tapete do destino”, faz referência à última rainha do Egito, que usou de astúcia para sobreviver. Ao tentar escapar do irmão que a queria assassinar, fugiu - escondida em um luxuoso tapete - até Júlio César. Além de remeter aos luxuosos tapetes persas e egípcios, o tear representa a força e a habilidade femininas.

A quarta ala e o segundo carro alegórico exibiram o Reino de Sabá e o Palácio de Makeda. Entre reis e nobreza, os fios da história adentram a África, no palácio de Makeda. Nobreza e os artesãos do reino, trajes inspirados nas vestimentas africanas. Tapetes ricamente tecidos na roupa dos componentes. A ala exaltou a cultura africana e sua influência milenar. O carro alegórico retratou a grandiosidade e a opulência do Império, a Rainha de Sabá, que personifica o poder feminino. Tapetes representavam luxo, sofisticação e o intercâmbio do comércio, bem como habilidade artesanal.

Na quinta ala, a rota da seda apareceu como o caminho dourado dos tapetes e sua difusão pelo mundo. Caminho milenar que impulsionou o comércio e a disseminação dos tapetes originários do Oriente, levando luxo e beleza, cultura e história. Movimentos remetiam ao vaivém dos mercadores, ao trabalho minucioso dos tecelões e à difusão dessa arte pelos quatro cantos do mundo.

 

Corte portuguesa

O segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira (Allehandro José e Karoline Vitória) representou com elegância o novo destino tecido pela corte portuguesa, o esplendor da família real e a tradição dos tapetes que adornavam os palácios lusitanos. A chegada de  D. João VI e sua comitiva ao Brasil, o início de uma nova era, na qual arte, cultura e identidade se entrelaçam como fios em um grande tear. Os giros do casal são prenúncios da fundação do Arraial da Lage (atual Resende Costa), onde os tapetes que forravam os salões da nobreza encontrarão solo fértil na criatividade mineira.

A bateria (com seus 100 componentes) do mestre Moisés Ângelo prestou homenagem às grandes navegações portuguesas e à fundação do antigo Arraial da Lage. “Entre os diversos elementos culturais trazidos pelos colonizadores, destacam-se os tapetes portugueses, conhecidos por seus padrões e cores vibrantes. A fundação de Resende Costa, em 1749, com a construção da Capela de Nossa Senhora da Penha de França, tornou a cidade um importante centro de produção artesanal têxtil. A indumentária da bateria remeteu às caravelas, celebrou o manto tijucano e festejou a herança têxtil que se enraizou em Resende Costa.

 

Do rural ao urbano

As sexta e sétima alas referiram-se ao tear rural e ao tear urbanizado, respectivamente. O tear rural nasceu no povoado dos Pintos, em Resende Costa. “Ao desfilar, a sexta ala valoriza a harmonia entre o tecer dos fios e o cultivo da terra, celebrando aqueles que, com suas mãos, constroem a riqueza cultural e econômica de Resende Costa.” Já o tear urbano representa o momento em que o artesanato ganha força no centro de Resende Costa, transformando-se na principal atividade econômica da cidade. “A ala celebra essa transição, destacando a força do trabalho coletivo que fez do tear um símbolo de identidade e desenvolvimento para toda a cidade.”

A oitava ala, “O tear abençoado”, mostra como o tear se consolidou “como patrimônio de Resende Costa, elevando a cidade ao título de Capital Nacional do Artesanato Têxtil, sob a proteção de Nossa Senhora da Penha de França, padroeira do município.” Na coreografia, as meninas “erguem cartas que formam, de um lado, o símbolo da cidade, e do outro, os tapetes de rua com a estampa da padroeira, tradição que enfeita Resende Costa em devoção à sua protetora”.

O terceiro carro alegórico, em alusão à Capital Nacional, homenageia Resende Costa, “a estrela da noite e norte central do enredo”. “Adornado com cores douradas, o carro simboliza o luxo e a preciosidade do artesanato local. Elementos como trançados, fios e tecidos elaborados compõem o cenário, evidenciando as técnicas tradicionais transmitidas através das gerações.”

Na traseira do carro, destaca-se a imagem de Nossa Senhora da Penha de França, padroeira de Resende Costa desde a inauguração da igreja matriz em 1749. “A presença da Virgem representa a fé e a proteção divina que acompanham a comunidade, reforçando os laços religiosos e culturais dos habitantes.” Na alegoria, destacam-se o brasão de armas da cidade homenageada, bem como duas telas com a pintura da “Jornada dos Mártires”, de Antônio Parreiras, que ressaltam a prisão de José de Resende Costa (Pai) e José de Resende Costa (Filho).

A letra e a melodia do samba-enredo são de autoria de Juninho Pezão e Wesley Pacote. Os intérpretes foram Wesley Pacote, Carlos (Cotonete), Júnior Lima e Betinho Chagas. No cavaco, Carlinhos Júnior; e no violão, Álvaro Maia.                

Para o artesão Israel Wilver, “foi uma experiência incrível. A energia, a paixão contagiante e cada passo na avenida mostravam o amor envolvido, a dedicação e o orgulho de representar Resende Costa”. Essa homenagem “foi uma maneira de valorizar nossas riquezas, nossas tradições e o trabalho de cada um que faz parte dessa história, levando o nome da cidade ainda mais longe e trazendo ótimos frutos”.

Veja mais imagens do desfile no Instagram da GRES Vem Me Ver.

A íntegra do desfile da Vem Me Ver pode ser conferida em https://www.facebook.com/radiosaojoaodelrei/videos/1873037980133854?locale=pt_BR

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