Abrindo novos caminhos

Conversa com Doutor Tancredo

25 de Abril de 2015, por José Venâncio de Resende 0

Tiradentes (de costas) e Tancredo (ao fundo), no centro de São João del-Rei.

No centro da cidade de São João del-Rei, destacam-se duas estátuas - de Tiradentes e de Tancredo Neves -, uma de frente para a outra. Muito sugestivo! Ambos morreram no dia 21 de Abril.

Tiradentes foi enforcado, em 1792, na luta contra a opressão da coroa portuguesa, que queria arrancar mais impostos dos mineradores de ouro do Brasil, em especial de Minas Gerais, para encher seus cofres. Tancredo sacrificou sua vida, em 1985, na luta para garantir a transição da ditadura militar para a democracia, sem que houvesse retrocesso.

Se vivos estivessem, o que estariam fazendo? Uma coisa é certa: estariam lutando pelos ideais de liberdade e de justiça social, contra a corrupção (desvio do dinheiro público) e a “opressão” do Estado sobre os cidadãos (desequilíbrio entre gastos sem controle e pesada carga de impostos).

Neste artigo, publicamos uma simulação de conversa com o “Doutor Tancredo” sobre os dias tumultuados que vivemos. Para isso, contamos com a valiosa colaboração do médico Euclides Garcia de Lima Filho, o Doutor Tidinho, cuja amizade com Tancredo remonta ao convívio das famílias Garcia e Neves no início do século passado.

Preliminarmente, é preciso dizer que a juventude e ascensão profissional e política de Tancredo Neves foram alicerçadas em três pilares: família, escola e igreja. “Foi criado numa família sólida e fundamentada no amor e no respeito à autoridade”, lembra Doutor Tidinho. Frequentou o tradicional Grupo Escolar (atual Escola Estadual) João Santos e o outrora conceituado Colégio Santo Antônio, administrado pelos frades franciscanos, onde além da cultura adquirida fortaleceu sua fé e sua devoção por São Francisco de Assis. Tanto que Tancredo se tornou irmão e, posteriormente, ministro da Venerável Ordem Terceira de São Francisco.

Na sua longa e profícua carreira, foi advogado, promotor público, vereador, deputado, ministro de Estado, primeiro-ministro (parlamentarismo), senador, governador e presidente eleito. Era considerado um homem de posições firmes, mais pelo exemplo que pela palavra. Tinha a virtude mais importante da vida pública, a coragem. “Tancredo era um homem de coragem, sóbrio e discreto, porque bravura não é bravata.”*

Diante desse histórico, a uma indagação Tancredo responderia que a degradação política e social com que este País se defronta nos dias de hoje decorre da desestruturação dos três pilares de sustentação da sociedade – família, escola e religião. As pessoas que têm neste tripé o sustentáculo de sua conduta de vida seriam incapazes de se deixarem corromper pela vaidade, pelo orgulho, pela ambição e pela mercantilização das atividades profissional e comunitária, como por exemplo o exercício da política.

O momento – advertiria Tancredo - exige, mais do que nunca, simplicidade, honestidade, patriotismo e sobretudo disposição para o diálogo. E acrescentaria: é preciso ouvir a voz das ruas e praças, saber interpretar o que diz o povo; dar o exemplo, com austeridade e zelo pela coisa pública; descentralizar o poder, dando mais autonomia aos municípios (financeira e de representatividade política); resgatar a dignidade e a nobreza do exercício da política; cultivar o espírito de convivência e de tolerância.

É preciso – enfatizaria ainda Tancredo – extirpar da sociedade a mercantilização da política. Ele certamente condenaria a “prostituição” do sistema partidário e defenderia partidos políticos mais representativos das tendências ideológicas predominantes. Defenderia a redução de ministérios e cargos de confiança, bem como a profissionalização das empresas estatais. Apoiaria – por que não? – o voto distrital (que fortalece os laços entre eleitores e eleitos) e – quem sabe – o parlamentarismo (um amortecedor de crises políticas), como parte de uma reforma política dentro do espírito da Constituição de 1988.

Tancredo teve papel político decisivo em vários momentos da vida nacional – como ministro da Justiça do segundo governo (eleito) de Getúlio Vargas, primeiro-ministro no curto regime parlamentarista que viabilizou a posse de João Goulart na década de 1960 e como um dos líderes das “Diretas Já”.

Certamente, hoje, Tancredo estaria trabalhando na “construção de pontes de convergência” entre a classe política e as lideranças das manifestações de rua. Até mesmo para preparar alguma saída alternativa a um possível fracasso da campanha pelo “impeachment” da presidente Dilma. Aliás, como na campanha das Diretas Já, quando ficou de prontidão para ser o candidato das eleições indiretas (escolha pelo Congresso Nacional), enquanto Ulisses Guimarães era o candidato dos palanques (por votação popular).

Doutor Tancredo é a voz do líder autêntico, que falta neste momento crucial da vida nacional.

*TANCREDO NEVES. O Pensamento Político Brasileiro, Fundação Ulysses Guimarães, Vol. 1. Acesso em: http://www.fundacaoulysses.org.br/uploads/acervos/10/pdf/1397141567-vol-01-tancredo-neves.pdf

Novas manifestações de rua à vista

08 de Abril de 2015, por José Venâncio de Resende 0

Foi um Março literalmente infernal, para a presidente Dilma Rousseff. Mês em que cerca de dois milhões de pessoas foram às ruas contra a corrupção, o governo e o PT (nas maiores manifestações desde as “Diretas Já”); a popularidade da presidente “recém-reeleita” caiu ao fundo do poço; o governo teve de levar o PMDB de volta ao centro do poder, depois de tentar alijá-lo; o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, “demitiu”, antes de Dilma, o ministro da “pátria educadora” Cid Gomes após bate boca no plenário; a presidente, em raro momento de humildade, reconheceu que a crise econômica decorre de erros do seu governo; vazou para a imprensa documento sigiloso, que admite uma comunicação "errática" desde a reeleição da presidente Dilma e maior rejeição ao PT; o PMDB abriu guerra contra o governo por este ter favorecido a criação de novo partido (PL) pelo ministro das Cidades, Gilberto Kassab...

Para piorar, o cenário de pessimismo decorrente da crise econômica. Indicadores negativos (inflação, impostos, gastos públicos e dólar em alta; produção, emprego e renda em queda; contas externas em deterioração; nível de confiança de empresários e consumidores em baixa; denúncias de corrupção que não acabam mais etc.) têm contribuído para que o “presidencialismo de coalizão” tenha seus alicerces abalados.

Esse é o pior momento desde o impeachment de Collor, com a conjunção das crises de governabilidade, econômica, hídrica, de energia e do sistema partidário, diz o professor de filosofia da Unicamp, Marcos Nobre. Situação esta que se pode agravar (O Estado de S. Paulo, 22/03/2015).

Só não foi pior porque a agência de avaliação de risco Standard & Poor’s deu fôlego ao governo, ao manter a nota que dá ao Brasil o grau de investimento; ou seja, o país continua a ser considerado bom pagador. Pesou na decisão a presença de Joaquim Levy no governo como avalista da austeridade. Em outras palavras, a S&P espera que o ajuste fiscal seja efetivamente executado.

O desafio de Dilma, neste segundo mandado, é evitar que o “vem pra rua” e a má vontade da sua base parlamentar não prejudiquem seus planos de correção de rumos na economia. A presidente ainda não reconquistou a cumplicidade do PMDB que quer dividir de fato o poder com ela para garantir a tal governabilidade. O partido já defende até corte de ministérios e vota independente no Congresso, para desespero do PT.

Os atritos entre o governo e seus aliados no Congresso podem dificultar o ajuste fiscal, como disse Jaime Ferreira, superintendente de câmbio da corretora Intercam. "O custo político de fazer o ajuste (fiscal) está cada vez mais alto e o mercado não gosta disso" (Reuters, 19/03/2015). E o PT questiona a política “neoliberal” de cortes de despesas, para atender seu público interno (sindicalistas, MST etc), a “onda vermelha” que promove manifestações “chapa-branca”.

A onda “verde-amarela” de 15 de Março – cujas lideranças se dizem não vinculadas a partidos - embute uma grande contradição e uma aparente omissão. Estariam os cartazes e faixas contra o governo Dilma condenando o estelionato eleitoral ou o ajuste das contas públicas? Seriam as faixas e cartazes contra a corrupção, implicitamente, um protesto a favor da reforma política para baixar os custos de campanhas eleitorais, além de leis mais duras contra políticos corruptos?

O ajuste fiscal é extremamente necessário por causa do fracasso das experimentações do primeiro mandato de Dilma (a tal “nova matriz macroeconômica”) e da “herança maldita” de seu antecessor e padrinho político, que desorganizaram completamente a economia e levaram à estagnação e à inflação. Eleitores ou não de Dilma, todos pagarão a conta; sem a certeza da “mercadoria” entregue.

Já a reforma política que se discute no Congresso Nacional neste momento, capitaneada pelo PMDB, está longe de atacar o cerne da questão: a deficiência de representatividade dos partidos e os custos das campanhas eleitorais, que geram corrupção. Foca basicamente questões como financiamento de campanhas eleitorais (preferência pelo privado), coincidência de data de realização das eleições em todos os níveis (um retrocesso), fim da reeleição (falso dilema), redução de mandato de senadores e abolição dos suplentes. Nem uma palavra sobre propostas vitais como voto distrital, redução do número de partidos e substituição do horário eleitoral dito “gratuito” por debates em rede nacional de rádio e TV.

Mas é ilusão acreditar que as manifestações de rua vão parar. Tudo indica que devem continuar, talvez até engrossadas por mais gente. O desfecho, só Deus sabe!

Digno de nota. No final do mês, a presidente Dilma indicou o professor de filosofia e ética Renato Janine Ribeiro para o Ministério da Educação. Bola dentro! E entregou a Secretaria de Comunicação Social para o tesoureiro do PT, Edinho Silva. Bola fora! (data de fechamento deste texto: 30/03/2015)

Crise econômica, credibilidade, expectativas…

05 de Marco de 2015, por José Venâncio de Resende 0

Professora Vera Rita, especialista em psicologia econômica

É sempre agradável e frutífero conversar com a professora Vera Rita de Mello Ferreira – primeira e maior especialista em psicologia econômica do Brasil – principalmente quando o local é o Parque da Água branca, na cidade de São Paulo. O momento também é oportuno, considerando que vivemos uma crise econômica (e política) que começa a bater recordes atrás de recordes negativos – uma espécie de herança maldita do petismo para o petismo.

Neste texto, procuro interpretar e sintetizar o papo que tive com a professora Vera Rita.

O quadro geral de pessimismo sobre o momento brasileiro é um mosaico que congrega fatos negativos como inflação, impostos e dólar em alta; produção, emprego e renda em queda; nível de confiança de empresários e consumidores em baixa; transações comerciais internacionais desfavoráveis ao País; denúncias de corrupção e aumentos abusivos de salários de políticos em todos os níveis da federação.

O que fazer diante desta situação? Aqui entra a opinião de Vera Rita, que trabalha com comportamento e expectativas. Tudo vai depender de como essas notícias negativas são apresentadas à população, assinala a especialista que é consultora independente, membro do NEC (Núcleo de Estudos Comportamentais da Comissão de Valores Mobiliários) e do Comitê de Pesquisa de Educação Financeira da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), além de palestrante e professora da FIPECAFI (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras). Ela refere-se, evidentemente, à comunicação oficial, já que o governo não tem controle sobre a divulgação das informações pela imprensa.

Nesta “maneira” de como apresentar as informações à população, Vera Rita levanta uma questão muito importante que é a escolha inter-temporal. Se o governo for eficiente e convincente para mostrar que a austeridade proposta no ajuste econômico (corte de despesas e aumento de impostos) é parte de um movimento de curto prazo cujo resultado seria um cenário econômico futuro mais consistente, então talvez as medidas amargas desçam “menos quadradas”. Ou parafraseando a propaganda da Skol, desçam “mais redondas”.

As pessoas têm tendência – prossegue Vera Rita - a preferir no presente coisas boas, que não causem dor nem dissabor, “sem dar muita bola para o futuro”. Isto torna mais difícil convencê-las de que o sacrifício do presente se traduzirá em bem-estar no futuro. No caso da crise atual, a tarefa é ainda mais hercúlea pois mexe com comportamento e expectativas econômicos.

De qualquer forma, a margem de manobra é estreita. Daí porque, em primeiro lugar, é preciso crença e credibilidade por parte dos responsáveis maiores pela adoção das medidas de ajuste anunciadas pelo governo, a começar da presidente Dilma. Ou seja, é preciso que as medidas comunicadas pelo ministro Joaquim Levy saiam do papel e sejam de fato implementadas, apesar das resistências e das intrigas políticas nas próprias hostes governamentais.

Em segundo lugar, é preciso convencer a sociedade de que tais medidas, ao trazer limitações econômicas e de expectativas no curto - e talvez médio - prazo, venham a ter impacto favorável num prazo mais longo, em termos de retorno ao crescimento, de preferência de forma sustentável tanto ambiental, social e economicamente quanto de acordo com os parâmetros da realidade (não dar o passo maior do que a perna, pois a conta virá mais cedo ou mais tarde).

“Este é o desafio”, enfatiza Vera Rita. Ela espera que a experiência atual (de austeridade, ano difícil etc.) seja um aprendizado para todos, na medida em que possa estimular a criatividade, a resiliência e a percepção de que é possível superar as dificuldades. “Isso é o que traz um fortalecimento verdadeiro para a população e também para quem faz as formulações de políticas públicas.”

De acordo com Vera Rita, esta é uma oportunidade para lembrar as pessoas que os recursos são finitos. “A experiência do crédito (abundante e com prestações a perder de vista) pode ter deixado esta percepção camuflada.” Este é o momento de as pessoas reorganizarem o orçamento, as contas e os hábitos; de descobrirem novas fontes de satisfação que não sejam necessariamente ligadas ao consumo, acrescenta. “Isso pode ser uma experiência muito interessante porque a pessoa descobre que pode ter uma autonomia ao deixar de depender exclusivamente de dinheiro, de prazer atrelado ao consumo.”

De minha parte, não sou tão otimista por não acreditar que a presidente Dilma e o PT  estejam de fato empenhados em convencer a sociedade de que um ajuste econômico doloroso - mais do que uma medida neoliberal - seja realmente pré-condição para o Brasil ter um futuro promissor. Até porque venderam a ilusão do consumo sem limites, "financiado" pelos ventos favoráveis do crescimento mundial e desatrelado de medidas como estímulo à poupança interna e redução do custo Brasil para garantir investimentos na produção, bem como de educação de qualidade que prepare, além de profissionais qualificados, cidadãos conscientes inclusive na gestão financeira de suas vidas. Quaisquer mudanças favoráveis no cenário internacional são suficientes para que abandonem o barco da austeridade em nome do projeto de poder.

Ah, sim! E agora tem a "lista do Janot" (procurador-geral da República, Rodrigo Janot) enviada ao STF, que servirá de combustível para radicalizações políticas, comportamentos oportunistas e todo tipo de chantagens por parte dos políticos atingidos. O ajuste econômico tera de vencer mais esta barreira.

 

Novas referências para uma visão renovada do Brasil, de nossa cidade e nossa região

30 de Dezembro de 2014, por José Venâncio de Resende 1

Belmonte, terra de Cabral, poderá ser o elo entre Minas Gerais (Brasil) e Galiza e Olivença (Espanha).

Viver fora do Brasil, ainda que parte do ano, nos proporciona um distanciamento confortável para acompanhar o cotidiano do País.

Ao mesmo tempo, acentua a sensação de insegurança, especialmente nas grandes cidades brasileiras. Muitos dizem que não temos guerras, terremotos, tsunamis, tornados… Mas se esquecem de que as milhares de mortes provocadas por uma violência sem limites são equivalentes a uma espécie de guerra civil permanente.

Acentua a nossa intolerância contra a inflação alta. A maior perversidade da inflação, tolerada pelo governo em patamares elevados, é que come, de maneira perceptível, parte considerável dos valores mensais dos menores salários e rendimentos.

Acentua a certeza de que é preciso exercer um combate sem tréguas contra a corrupção. A corrupção é um câncer que corrói as entranhas do Estado, ao desviar recursos públicos de suas funções essenciais e aumentar os custos (e afetar a qualidade) dos serviços públicos. Atingiu tal proporção em termos globais que recentemente, num congresso de juízes em Portugal, um magistrado chegou a afirmar que o século 21 será a vez do poder judiciário.

Acentua a nossa crença de que o Brasil precisa urgentemente de uma reforma política com “p” maiúsculo. Implantação do sistema distrital e do voto livre, fim do horário político “gratuito” na TV e moralização do sistema de financiamento de campanhas políticas podem contribuir para baixar o custo das campanhas eleitorais.

Acentua a convicção de que não existe outro caminho que não o de investir forte na educação e eliminar as amarras (burocrática e tributária) ao empreendedorismo. Afinal, é sempre bom lembrar que o Estado nada produz; quem produz riqueza são os empreendedores e seus empregados qualificados; o Estado beneficia-se deste resultado na forma de tributos, que deve aplicar de maneira justa, austera e sensata em benefício dos cidadãos, e não da máquina pública esfomeada.

Acentua o nosso sonho de uma guinada na diplomacia comercial brasileira. O País precisa assinar acordos comerciais bilaterais (com Estados Unidos, União Europeia, países do Pacífico etc.) para se integrar nas grande cadeias produtivas mundiais e aumentar o fluxo de mercadorias industrializadas que geram mais emprego e renda.

Acentua a nossa crença de que é preciso preservar o que ainda resta da floresta amazônica para o bem não apenas dos brasileiros mas também da própria humanidade. Os reservatórios vazios e risco de maior escassez de água e energia estão aí para se contrapor ao discurso de alguns de que o mundo desenvolvido destruiu tudo e agora quer nos impor a manutenção intacta das florestas.

Além de observar o Brasil de posição privilegiada, desenvolvi o meu trabalho de colaborador do Jornal das Lajes em Lisboa. Muita gente, certamente, deve perguntar: que interesse tem Portugal para um jornal de uma cidade pequena como Resende Costa? Eu responderia tranquilamente que tem tudo a ver. Afinal, Resende Costa já é conhecida nacionalmente, mundialmente, e o Jornal das Lajes faz parte deste processo; hoje, reforçado pela internet e, em particular, pelas redes sociais.

Nunca é demais lembrar que a globalização acabou por valorizar o local e o regional. A presença permanente na internet e, em particular, nas redes sociais propaga as “marcas” do jornal, da cidade e da região no vasto mundo da língua portuguesa. Este é um fenômeno que os próprios empresários (artesãos, industriais e comerciantes) deveriam levar em conta.

Destaco, neste período em Lisboa, a descoberta de movimentos sociais pelo fortalecimento da língua portuguesa no Estado da Galiza (berço do nosso idioma) e em Olivença (“cidade portuguesa” no Estado da Extremadura), ambas na Espanha, cujas reportagens estão publicadas no site do Jornal das Lajes. A este movimento está associado o crescente interesse de aproximação dessas regiões com os países que falam o português, em especial o Brasil, o que pode abrir uma enorme perspectiva em termos cultural e comercial.

Outra descoberta fantástica foi a cidade de Belmonte, terra de Pedro Álvares Cabral e uma das mais antigas comunidades judaicas de Portugal (ver reportagem no site do Jornal das Lajes). O jornalista e coordenador do Gabinete e Museu Judaico, José Levy Domingos, e outras lideranças locais estão buscando viabilizar um acordo de cooperação entre Portugal e Brasil, que estimule o fluxo cultural, econômico-social e turístico tendo Belmonte como centro de atração.

Quem sabe em futuro próximo possam ocorrer não apenas atividades literárias, intercâmbio cultural, visitas aos monumentos históricos e apreciação da gastronomia dos dois países como também exposição de artesanato das várias regiões brasileiras, inclusive de Resende Costa, no Museu dos Descobrimentos de Belmonte?

Isto é apenas uma pequena amostra de que o potencial de aproximação entre cidades, regiões e países é uma árvore que pode gerar muitos frutos. O estreitamento de vínculos entre países e povos deve estar permanentemente no nosso radar.

Aproveito para desejar um ano de 2015 repleto de novas oportunidades e realizações para todos.   

A Galiza, o galego-português e a busca por independência

08 de Dezembro de 2014, por José Venâncio de Resende 1

Interior da Catedral de Santiago de Compostela, Galiza,Espanha.

Semana passada, entrevistei a professora moçambicana Marisa Mendonça - que assumiu em Outubro a diretoria executiva do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (ILLP), vinculado à Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) - sobre o novo acordo ortográfico. Mas foi inevitável a pergunta sobre como integrar a Galiza na CPLP. Ela me respondeu que o IILP-CPLP vem acompanhando o processo em curso na Galiza, de recuperação e reconhecimento do galego-português.

Diplomática e cautelosa, a professora Marisa disse que aguarda o posicionamento do governo espanhol, uma vez que a CPLP trabalha com Estados e não pode ferir a soberania nacional. E acrescentou: “Sabemos que há uma série de conversações sobre como conduzir esse processo. É necessário dar-se o tempo que a complexidade do processo exige.”

Quase ao mesmo tempo, recebi mensagem de Camilo Nogueira, engenheiro industrial, licenciado em ciências econômicas, deputado três vezes (1981-93 e 1997-99) no Parlamento da Galiza e um mandato no Parlamento Europeu (1999-2004). Segundo Camilo, os nacionalistas galegos reivindicam a identidade entre o galego e o português, o galego-português, e trabalham por esse reconhecimento oficial.

No Parlamento Europeu, Camilo falava em galego “sem qualquer problema, aproveitando a oficialidade do português”. Já, no Congresso espanhol, suas colegas deputadas são proibidas de fazer pronunciamento em galego. “O Estado espanhol nem sequer reconhece o galego-português, negando uma riqueza evidente. (…) Esquece que, através do Brasil, também se fala o galego-português nascido na Galiza histórica.”

Por isso, Camilo não parece muito otimista. Acha que a Galiza deve inspirar-se na Catalunha, no País Basco e na Escócia, e lutar pela independência. “A Galiza quer separar-se de um império europeu.”

Tanto que, quando o encontrei na Galiza, Camilo acabava de voltar de um evento em Barcelona - era uma manifestação dos independentistas catalães, que reunira dois milhões de pessoas para reivindicar o direito de decidir sobre o futuro da Catalunha; o seu direito de autodeterminação para configurar-se como Estado na União Europeia. Recentemente, Camilo esteve de novo em Barcelona, a convite do “partido amigo” Esquerra Republicana de Catalunya, ou Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), que poderá governar a província (estado, para nós brasileiros) a partir das próximas eleições.

Seja o movimento social pela regeneração do galego-português, seja a luta pela independência da Galiza, o fato é que entidades como a Associaçom Galega da Língua (AGAL)*, a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP)** e o Parlamento de Galicia*** terão papel cada vez mais importante neste processo.

Um pouco de história

O movimento nacional galego surgiu no século XIX (1846), como os da maioria dos atuais Estados europeus, ao fio da soberania popular e frente à monarquia Borbon, relata Camilo Nogueira. Apesar do caráter diferenciado da Galiza, as monarquias ou ditaduras espanholas negaram a sua personalidade e o auto-governo.

A língua própria foi proibida na Galiza desde 1500, prossegue Camilo. No entanto, conservava-se em Portugal e se expandia por outros continentes, mantendo-se inequivocamente nas classes populares. Igualmente, evoluía-se o galego-português do Brasil.

A Galiza foi assim marginada, de tal maneira que, se em 1800 tinha cinco vezes mais população que a atual província de Madrid, podendo chegar a ter sete milhões de habitantes, hoje ficou reduzida a três milhões. Entre 1860 e 1920, forçadas pelo poder espanhol, três milhões de pessoas tiveram que emigrar para a América e outro um milhão para países europeus. Apesar de tudo, a Galiza resistiu como nação e hoje tem um perfil econômico relativamente avançado...

Apesar da imposição do castelhano para eliminar a língua galega, esta é conhecida pela quase totalidade da população e falada habitualmente pela maioria, assegura Camilo. O castelhano é conhecido por todos, mas não pode fazer desaparecer o galego, o galego-português.

Durante a Segunda República (1931-1936), os nacionalistas galegos, com o apoio da esquerda republicana estatal, conseguiram um Estatuto de Autonomia, lembra Camilo. “Depois de 40 anos de Ditadura, conseguimos de novo o Estatuto de Autonomia, com uma certa autonomia política e econômica, com o galego como língua oficial, sendo o castelhano co-oficial. Agora, os nacionalistas galegos reivindicam a soberania como Estado na União Europeia.”****

*Associaçom Galega da Língua ( http://www.agal-gz.org/corporativo/ )

**Academia Galega da Língua Portuguesa ( http://academiagalega.org/ )

***Parlamento de Galicia ( http://www.parlamentodegalicia.es/sitios/web/default.aspx )

****Veja mais sobre a Galiza em  http://www.jornaldaslajes.com.br/integra.php?i=1479