Contemplando as Palavras

Um lugar especial em Resende Costa

17 de Junho de 2015, por Regina Coelho 1

Qual é o seu lugar em Resende Costa? Veja o que foi ouvido por aí.

 

Gosto das lojas porque nelas tem um tanto de coisas – brinquedos, roupas e muito mais. Gosto dos supermercados também. Eu fico impressionada com as coisas para ver e comprar.

Ellen Bruna Silva Ribeiro, 9 – estudante

 

Nasci em Resende Costa, mas passei um bom tempo da minha infância em Belo Horizonte. Desde pequeno, meu lugar favorito na cidade são as Lajes. Sempre sinto uma vibe boa quando vou pra lá, um local perfeito para refletir e relaxar. A paisagem e a tranquilidade do lugar me proporcionam um sentimento de paz sem igual.

André Vieira Ribeiro, 17 – estudante

 

Para mim o melhor lugar em Resende Costa é a Fazenda Catimbau, de propriedade do meu avô. Sou apegada às minhas raízes e, como dizem os mais velhos, estamos ligados ao local onde nosso umbigo está enterrado. Foi lá que cresci e aprendi a gostar da natureza e dos animais, especialmente dos cavalos e também de uma boa cavalgada, o que gosto de fazer nas horas vagas. Sinto-me privilegiada por ter nascido em Resende Costa e ter tido a oportunidade de crescer nesse ambiente.

Ana Patrícia Resende Fernandes, 25 – advogada

 

Não há lugar melhor no mundo que ao lado das pessoas de que gostamos, mas a junção verão, amigos e Cachoeira dos Pintos não tem melhor. E esse sim em Resende Costa é o meu lugar – agradável, sossegado e lindo. Amo ir lá nos fins de semana para descansar e me refrescar.

Talita Roberta de Mendonça, 27 – estudante e atendente em farmácia

 

Sempre que tenho oportunidade, gosto de estar na Praça Nossa Senhora de Fátima, próxima à Matriz, pois é um lugar tranquilo e silencioso, que me traz muita paz e tem uma vista muito bonita da natureza e um por do sol maravilhoso.

Mírian Valéria de Andrade Ribeiro, 33 – dona de casa

 

Quando estou em busca de tranquilidade e silêncio, gosto de ir às Lajes e ficar admirando a paisagem. Sinto uma paz de espírito incrível.

Anna Paula Vivas Reis, 41 – comerciante

 

O meu lugar em Resende Costa é o Curralinho do Andrade, na casa dos meus sogros. É lá que eu recarrego as energias. O contato com a natureza e com os animais me revigora para enfrentar as tensões do dia a dia.

Cláudio Márcio de Matos Rocha, 42 – comerciante

 

Desde pequeno, frequento a Praça do Rosário. Hoje, bato papo com os amigos, principalmente conversando com os mais antigos. Aí vêm os papos sobre o futebol e as notícias da cidade.

Gilvacir Antônio Silva, 50 – aposentado como encarregado de obras

 

O que mais aprecio é quando estou participando das atividades e das cerimônias religiosas na Matriz e indo aonde os Corais (Mater Dei e Nossa Senhora da Penha) são convidados ou frequentando o Movimento de Cursilhos de Cristandade, com reuniões semanais. Tudo isso é uma bênção.

Heitor Evangelista dos Santos, 67 – aposentado

 

Amo Resende Costa. Sou nascida e criada aqui, por isso há vários lugares que me emocionam, porém nenhum é tão especial quanto as Lajes. Não me canso de admirar aquela beleza. Gosto muito de viajar, mas voltar ainda é mais prazeroso.

Maria Melo, 71 – comerciante aposentada

 

O lugar em que eu me sinto melhor é nas Lajes. Às vezes vou lá, depois de ir à igreja, pra enxergar aquela paisagem toda e rezar na gruta. Faço isso há muito tempo.

Jorge Teodoro de Sousa, 79 – sapateiro

 

Sinto-me melhor indo à minha fazenda. Comprei uma terra nua e lá construí tudo. Aqui na cidade, frequento mais a Ramona (Churrascaria) com a família, para tomar uma cerveja e encontrar os amigos.

Luís de Resende Chaves, 85 – auditor aposentado da Receita Federal e fazendeiro

 

Os lugares mais significativos para mim são a igreja, onde me sinto bem ao lado de meus amigos do Coral, cantando e louvando a Deus. O Parque do Campo, onde faço ginástica, que me faz muito bem. E o Mirante das Lajes, para contemplar as montanhas e uma exuberante natureza.

Filomena Andrade Lourdes Resende, 85 – modista aposentada

Além das notícias

14 de Maio de 2015, por Regina Coelho 0

Para início de conversa, podem ser consideradas no mínimo interessantes as notícias abaixo. Conferindo:

 

Amigo ladrão,

Dia 06/03 às 21h, próx. este local você arrombou a porta do meu carro e robou (sic) minha mochila c/ notebook da Samsung e pen drives. Te recompenso se me devolver tudo, pois é de trabalho.

Fique tranquilo, não vou chamar a polícia.

 

Depois de ser furtado na última sexta-feira, o gerente de projetos Marco Barcelos, de 36 anos, decidiu apelar para o lado emocional para reaver os seus pertences e “chegar a um acordo com o ladrão”. Próximo ao prédio onde mora, em Contagem, na RMBH (Região Metropolitana de Belo Horizonte), o mineiro pendurou uma faixa (texto transcrito acima), na qual chama a pessoa que roubou dele de “amigo”, pedindo-lhe que lhe desse de volta seu computador, que estava dentro do carro dele, arrombado durante a noite.   Jornal Extra – 12/3/2015.

Motorista derruba moto e deixa aviso: “Sou nova na baliza, pode me ligar”

Olá,

Sem querer derrubei sua moto (sou nova na baliza). Qualquer coisa pode ligar ou mandar um WhatsApp. Número: ........ ”

Uma moradora de Santos (SP) usou uma rede social para relatar uma história curiosa. A internauta, que prefere manter sua identidade em sigilo, deixou sua moto estacionada em uma avenida do município por alguns minutos e, quando voltou, encontrou o veículo danificado, junto a um bilhete (transcrito acima). Nele, uma pessoa assumia ser responsável pelo acidente, deixando o número do celular para contato e reafirmando que reembolsaria o valor gasto no conserto. Ainda de acordo com o bilhete, a motorista dizia ser “nova na baliza”.

A dona da motocicleta conta que ligou para o número deixado, e o pai da condutora pediu para que ela (a vítima) lhe enviasse o valor gasto com o conserto. Após a internauta fazer três orçamentos em oficinas mecânicas diferentes, ele depositou o dinheiro na conta bancária dela, no mesmo dia.

Agradecida com a atitude dos dois, a dona da moto, que prefere não revelar sua identidade e a dos demais envolvidos, utilizou uma espécie de página do Facebook para publicar a foto do bilhete e sua história. “Esse é um fato que demonstra que o ser humano ainda tem dignidade e respeito pelo próximo. Fico muito agradecida pela honestidade da moça e de seu pai”, concluiu ela. 

g1.globo.com – texto adaptado 14/3/2015.

 

Confrontados os episódios (recentes) aqui narrados, o que se observa vai muito além do mero interesse que ambos podem suscitar, dado seu caráter até certo ponto inusitado. No primeiro caso, a tentativa do desesperado Barcelos de negociar com o “amigo ladrão” a devolução de sua mochila soa quase como uma concessão dele ao que lhe fizeram. Com promessa de recompensa ao gatuno caso venha a ter o que é seu de volta, o rapaz ainda tenta tranquilizá-lo, prometendo não chamar a polícia. No texto da faixa, o grau de indignação do autor é zero. Não sei dizer se sua história teve um final feliz. É bem provável que não. Diante disso, o que dizer mais? Sinal dos tempos? Talvez. Por outro lado, considerando o segundo caso, as palavras da dona da moto são o testemunho de peso de quem pôde comprovar na prática que nem tudo está perdido. E que as pessoas podem ser simplesmente corretas umas com as outras.

O caso da moça “nova na baliza” me fez lembrar um episódio semelhante contado e vivido por minha amiga Dora Silva. Há mais ou menos três anos, estando em São João del-Rei e tendo deixado seu carro estacionado em certo ponto da cidade, ao voltar para buscá-lo, segundo suas próprias palavras, ela se surpreendeu com a presença de um rapaz que esperava por sua chegada. Dizendo ter batido no carro dela, ele a levou até a Fibra para que fossem feitos a avaliação do dano e o orçamento do reparo. Depois de passar para Dora o dinheiro correspondente ao serviço que seria efetuado pela firma, ele ainda deixou com ela seu cartão pessoal caso houvesse algum problema posterior. Mais um final feliz. 

Nos dias de hoje, com a sucessão de tantos casos escabrosos registrados por aí, mesmo aqueles tidos como menos graves como os de arrombamento (notícia 1), o comportamento ético das pessoas pode parecer a exceção à regra, mas isso não é verdade. Sem chamar a atenção, o bem acontece. Ainda bem.

 

Uma ilha perdida no oceano da razão (Machado de Assis)

15 de Abril de 2015, por Regina Coelho 0

Ano passado, foi vista passeando por algumas ruas da cidade, por vezes entrando em bares, uma mulher vestida de noiva. Não a conheço, não vi a cena protagonizada por ela, mas mesmo assim aquela situação me chamou a atenção. Fico pensando na história que pode haver por trás de alguém que, sem ser uma artista numa performance de rua, age dessa forma.

Em março de 1988, poucos dias após a morte do Padre Nélson, como era do desejo dela morrer, faleceu a Zita de Melo, nossa vizinha de sempre na Rua Gonçalves Pinto. Isso porque ela e seu irmão Álvaro já moravam ao lado do terreno onde mais tarde foi construída nossa casa. Desde quando nos lembramos deles, não eram mais jovens. Guardamos dos dois inúmeras histórias, quase todas alegres e divertidas. Mas saber que a Zita estava sendo levada para ser internada em Barbacena não era nada engraçado. Era um misto de dó, susto e tristeza vê-la de partida para lá.

Figura de destaque em Resende Costa como médico e prefeito (1935-1946), o doutor Costa Pinto marcou época aqui na primeira metade do século passado. Por intermédio de minha mãe, exímia contadora de casos, fui levada a conhecer um pouco da vida de D. Santinha. Tendo vivido parte de sua existência afastada da família devido aos constantes tratamentos de sua saúde mental, ela era casada com o doutor Costa Pinto.

Isaac Newton (1643-1727) foi um dos maiores gênios de todos os tempos. Inventor do cálculo, desenvolveu a Lei da Gravidade e construiu o primeiro telescópio refletor. Apesar do brilhantismo, era conhecido por seus transtornos mentais. Newton era uma pessoa de difícil convivência e apresentava mudanças drásticas de humor. Alguns de seus biógrafos sugerem que ele tinha transtorno bipolar e esquizofrenia.

Como se vê pelos breves relatos acima, os problemas de perturbação da mente não fazem distinção de época, de condições social e intelectual, ou de gênero, representando um desafio constante para os especialistas dessa área do conhecimento humano. E em que pesem os reais avanços observados nos tratamentos para as popularmente chamadas “doenças da cabeça”, a vida dos acometidos por elas representa ainda um estigma social a ser superado. Em outros tempos, durante séculos, pessoas com sofrimento mental eram simplesmente afastadas da sociedade, escondidas pelos familiares, e até encarceradas em casa ou submetidas a maus-tratos em hospícios de triste memória. Hoje, felizmente, a luta antimanicomial e a consequente humanização no atendimento e acompanhamento desses pacientes são um alento, pois conferem dignidade aos que vivem ou sobrevivem fora dos limites da chamada normalidade.

No Brasil, na dianteira dos estudos sobre tratamentos não violentos, a médica alagoana Nise da Silveira (1905-1999) deflagrou uma completa transformação do modelo de atendimento psiquiátrico no país. Por se opor radicalmente às terapias utilizadas até então, que incluíam eletrochoques, lobotomia (intervenção neurocirúrgica em que se extirpa parte do cérebro como forma de “acalmar” pacientes mentais, hoje em desuso) e trabalhos forçados, Nise optou pela defesa e aplicação de técnicas terapêuticas inovadoras. Uma delas envolvia a convivência dos doentes com seus prováveis animais de estimação, através dos quais os pacientes iam recuperando seu vínculo com o mundo real. Outro método desenvolvido pela psiquiatra era a terapia ocupacional ligada a atividades prazerosas para que os necessitados de seus cuidados pudessem se expressar por meio da pintura, do teatro e de trabalhos manuais como o artesanato.

 

Revolucionária essa doutora Nise. Pioneira também por buscar outros caminhos, certamente mais leves, nem por isso menos seguros, como forma de respeito e amparo aos discriminados em razão de sua condição de saúde. E ainda inspiradora, certamente, pois deve haver em projetos interessantes espalhados por aí muito do que ela pregava e realizava como notável profissional da psiquiatria.

De zero a mil

11 de Marco de 2015, por Regina Coelho 0

Dos dados divulgados pelo Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) sobre a última edição do Enem, chamou a atenção o grande número de candidatos que tiraram zero na prova de redação: exatamente 529.373 entre os concorrentes às vagas de acesso ao curso superior espalhadas pelo país.

Tendo trabalhado por muitos anos como professora de Português nos Ensinos Fundamental e Médio, portanto com razoável experiência nessa área, consultei os resultados oficiais do exame para comprovar o que já havia suspeitado em relação à causa principal de tão temida nota aplicada como eliminação sumária ao processo seletivo. Isso quer dizer que 217.339 redações (praticamente a metade do número apresentado acima) foram zeradas porque seus autores fugiram ao tema proposto.

A primeira questão fundamental da atividade dissertativa, modalidade exigida para o Enem, é identificar o tema a respeito do qual se vai escrever. Sem compreendê-lo, torna-se impossível desenvolvê-lo com acerto. A partir daí, é preciso tomar cuidado para evitar dois erros básicos na sua abordagem: a redução e a extrapolação. No caso aqui tratado, reduzir é abordar apenas uma parte, um elemento do tema ou um aspecto não fundamental. Ao que parece, na proposta de redação do Enem 2013, esse pode ter sido o problema dos que não se atentaram para a importância do termo “efeitos” no contexto do tema Os efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil. Como resultado, o foco, de forma equivocada, passou a ser simplesmente a Lei Seca por si mesma. Situação oposta ocorre quando a argumentação ultrapassa os limites do tema proposto, tratando de outros assuntos, extrapolando o que é demarcado. Considerando a proposta do último Enem, seria o caso, por exemplo, de a importância da alimentação na infância ou a espontaneidade das crianças ganharem destaque no texto, sem que tenham qualquer ligação direta com o tema Publicidade infantil em questão no Brasil. Como se vê, nas duas situações ocorre um distanciamento em relação ao que deve ser abordado.

Pela ótica dos vencedores, o desafio de produzir bons textos passa por caminhos já conhecidos. Entre os candidatos que foram bem sucedidos, estão alguns dos destacados pela mídia como aqueles que obtiveram nota mil na redação do Enem 2014. Como chegar lá? Sem ser uma receita mágica, muito longe de qualquer simplismo, a explicação desses 250 meninos para seu próprio sucesso pode ser assim resumida numa soma de opiniões. Confira:

  • Conhecimento das regras do Enem (até para evitar fugir do assunto ou copiar o texto motivador dado como referência, sem criar nada).

  • Dedicação e disciplina ao estudo das técnicas dissertativas e a prática delas.

  • Treinamento da escrita (norma padrão).

  • Hábito da leitura (entre outros benefícios, como ajuda para o entendimento do tema e a formulação de argumentos que fundamentem o posicionamento das ideias a defender).

Eis aí a versão dos vitoriosos de hoje para o seu triunfo nessa verdadeira batalha em que se transformou o Enem. Quanto ao meio milhão de estudantes zerados e humilhados, eles não foram ouvidos, mas sinalizaram que não estamos conseguindo avançar na educação do país como gostaríamos. Grosso modo, a julgar pelo que esses textos nota zero revelam, e uma redação é um bom diagnóstico para conhecer a competência linguística de um aluno, estamos diante de um número significativo de analfabetos funcionais. Para quem não sabe, a condição de analfabeto funcional aplica-se a indivíduos que, mesmo capazes de identificar letras e números, não conseguem interpretar e produzir textos e nem realizar operações matemáticas mais elaboradas.

 

Sinal de alerta ligado para a realidade presente, é tempo de repensar nossas práticas educativas em favor de resultados menos vexatórios para o Brasil. Para começar, para os futuros candidatos por que não seguir as dicas de quem se deu tão bem este ano obtendo nota máxima na redação? Está dado o recado.

Nossos outros olhos

11 de Fevereiro de 2015, por Regina Coelho 0

“__ Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...

E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.

__ Olha agora!

Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...”

Da novela Campo Geral (de Guimarães Rosa), gênero literário narrativo situado entre o conto e o romance, foi extraído o trecho acima. O senhor em questão é doutor Lourenço, médico recém-chegado ao sertão que descobre a miopia do menino Miguilim. Usando os óculos do doutor, ele passa a enxergar com perfeição tudo a seu redor. O momento é mágico para Miguilim.

De uma simplicidade encantadora, a cena retratada por Rosa (teria ele sido sua própria inspiração de garoto míope?) revela uma realidade comum a muitos: a condição dos dependentes de óculos de grau. Como é sabido, a escola costuma ser o local em que essa situação fica mais evidente, pois o quadro (ou lousa), ou melhor, o que está escrito lá representa para os alunos um inevitável teste de averiguação da visão de tantos olhos em busca da leitura de letras e números. Comprovada a deficiência visual, sendo talvez a miopia (dificuldade de enxergar bem de longe) a mais comum delas, os óculos são prescritos e providenciados. Então, uma nova vida começa, no mínimo, com uma mudança que está literalmente na cara da pessoa e, muitas vezes, com alguns percalços na convivência diária e constante com tão necessário objeto inadequadamente chamado de acessório pelos outros. Para nós, os míopes, nossos óculos são essenciais.

Em assim sendo e descartando a cirurgia de correção do problema, ficar sem os óculos (ou sem as lentes de contato) corresponde a passar por apuros. Praticar esportes, por exemplo, o futebol, sem ver direito a bola, os colegas, os adversários, o juiz e as traves do gol deve ser horrível. Não identificar pessoas conhecidas no outro lado da rua é o fim. Não ler placas de rua ou de carro, anúncios ou mensagens em faixas e outdoors, idem. Para aqueles que não conseguem viver sem os seus “olhos de vidro”, perdê-los ou vê-los quebrados vira um drama. Especificamente quanto aos mais vaidosos, incluídas aí principalmente as mulheres, há os que preferem não enxergar nada a ter que usar óculos de grau.

Hoje, felizmente, estilosos e confortáveis, esses companheiros quase inseparáveis de quem tem miopia, hipermetropia, astigmatismo, presbiopia e outros tipos de doenças oculares costumam ser um símbolo positivo da personalidade de seus donos, incluindo celebridades e personagens do momento (Jô Soares, Bill Gates, o fictício Harry Potter...). E são vistos ainda como item de moda. Ou, conforme garante uma ala masculina, sendo uma peça que confere a certas mulheres um poderoso ar sexy. Será? Num passado recente, no entanto, usar óculos era motivo de vergonha, principalmente para crianças e adolescentes, pois significava ser destacado negativamente, zoado pela turma e virar alvo de piadinhas sem graça e apelidos como “quatro oio”, olho de fundo de garrafa, farol de carro e nerd.

 

Um olhar sobre a história dos óculos no Brasil permite afirmar que eles surgiram entre nós no século XVI graças à colonização portuguesa, sendo usados principalmente por religiosos (em sua maioria, jesuítas), funcionários da Coroa (servidores da corte de Portugal), colonos abastados e homens de letras. Situação completamente diferente nos dias atuais, é impressionante o número de brasileiros usando óculos de grau por aí. Oportunamente, recorro à inspirada letra do compositor Herbert Viana em Óculos (1984), cujos versos finais podem definir com clareza o modo como essa gente toda deve se ver: “Eu não nasci de óculos... / Eu não era assim... / Por trás dessa lente tem um cara legal”.