Contemplando as Palavras

Utilidades mil

15 de Outubro de 2013, por Regina Coelho 0

Anexos às revistas AVON, aquelas que anunciam tradicionais produtos de beleza, catálogos da mesma empresa intitulados “Moda e Casa”, da mesma forma, oferecem uma grande variedade de artigos a uma clientela presente em salões de beleza e também procurada em casa. Esse sistema de venda que dispensa loja, daí ser chamado de porta em porta e que tem as revendedoras ou consultoras como responsáveis pelo contato direto com o público consumidor, quase que totalmente feminino, movimenta cifras impressionantes. Ao mesmo tempo, garante o sustento de muita gente numa verdadeira ciranda de envolvidos com esse tipo de negócio.

Compartilho com minha amiga e comadre Moreira o gosto pelo manuseio dessas populares peças de propaganda que vendem quase tudo. Nada mais relaxante. Entregues a provas, trabalhos e leituras próprios do nosso ofício comum, líamos ou víamos aquelas alegres e sugestivas ofertas com prazer. Era uma boa pausa em meio a tanta correria por conta de nossos inúmeros compromissos profissionais. E continua sendo assim para nós duas.

Pois bem. Muito menos consumidora do que observadora, resolvi fazer uma seleção atual de produtos que me chamam a atenção por algum motivo qualquer. De cara, destaco o “Relógio Musical Pássaros”, segundo o anúncio da revista em questão, um “sucesso de vendas” no Brasil. O texto esclarece ainda que, a cada hora, uma linda melodia de diferentes pássaros, com duração de 7 a 10 segundos, poderá ser ouvida, lógico, do tal relógio. Educado, ele não soará entre 22 e 5 horas da manhã.

Pesquisando ainda no já citado “Moda e Casa” e em seus similares, descobri objetos protetores variados: para ombros (proteção feminina para alças de sutiã), de dedos (para o corte de legumes, carnes...), de canto (afixado em quinas de mesas, armários...), de porta (para não bater), de alimentos, (na verdade, uma tampa que, aberta, parece uma sombrinha). Na linha dos itens que portam coisas, há o porta-metades com “gancho para encaixar na grade da geladeira”, o porta-objetos (para variar a bolsa), o porta-fios (uma alça de elástico), o porta-trecos (deve abranger tudo) e o incrível porta-rolo de papel higiênico com revisteiro. Ao lado de produtos já consagrados como a chaleira ou a leiteira com apito e a lixeira com pedal, aparecem invencionices como a queijeira com canaleta coletora de líquidos, a almofada-bandeja para netbook, o cortador de unha com lupa, a cortina para box com visor e o avental divertido. Divertido? Nos dois modelos oferecidos, uma mulher e no outro um homem são reproduzidos em trajes sumários. No segmento infantil, é impossível não observar o troninho-elefante (o antigo peniquinho) e a joelheira-baby, “atoalhada, antiderrapante”. Que fofos!

Minha relação de artigos de utilidade doméstica compreende ainda o assento massageador, a escova de banho para as costas, a munhequeira (“espaço com fechamento em zíper para guardar dinheiro ou chave”), o descanso de talher e tampa, o separador de ovos (melhor seria se fosse o separador da clara e da gema), o aparador men (“apare pelos do nariz e da orelha”), o organizador de controle remoto e a sapatilha flex (dobrável).

Entre tantas opções de compra para isso ou para aquilo, algumas são uma roubada. Uma delas é um certo porta-notas e cartões que, minúsculo, só serve mesmo como porta-moedas. Outra coisa meio esquisita é o miniporta-foto 3x4 com ímã. E tem ainda o cortador de batata palito cujas lâminas se soltam facilmente impedindo que as batatas sejam cortadas devidamente. Deixando um pouco de lado as vendas de variedades por catálogos, é quase obrigatório citar também a alça para abrir certas latas de sardinha e, em algumas embalagens, o picotado que serviria para abri-las e não abre como exemplos de coisas que não funcionam direito. No caso do “abre fácil” mencionado na lata, pode até ser, mas quanta sujeira pode fazer! Uma boa ideia (não é a 51), em compensação, é a tampa-proteção na abertura das latas de cerveja Itaipava, ao que parece, uma exclusividade da marca.

De volta às simpáticas revistas, elas são mesmo um sucesso. E correm de mão em mão a cada nova campanha lançada no mercado. Ofertas úteis ou nem tanto, muitas vezes compradas por impulso, sempre apresentadas por alguém ou até ignoradas por quem torce o nariz para o que é popular, certo mesmo é que é quase impossível, principalmente para a mulherada, deixar de pelo menos “dar uma olhada” naquela quantidade absurda de produtos e de fazer um pedido de compra que seja, só pra não perder o costume. Pode-se dar a isso os nomes de leve terapia ou de inofensivo consumismo.

 

Falar em utilidades do lar me fez lembrar o “Da utilidade dos animais”, belo texto de Drummond, extraído da obra “De notícias e não notícias faz-se a crônica”. A lembrança não se justifica pelo tema do presente artigo, mas pela permanente e verdadeira utilidade da leitura de CDA, no mês em que nasceu nosso poeta maior. Fica a dica. E de graça! 

Sala de aula (Final)

13 de Setembro de 2013, por Regina Coelho 0

Vista sob a ótica de quem conduzia as aulas, a vida de estudante era um capítulo à parte, com variadas formas de comprometimento em relação às atividades escolares e às responsabilidades delas decorrentes. Nesse sentido, havia quem fizesse “corpo mole” ou estivesse só de “corpo presente” na sala de aula ou tirasse o “corpo fora” dos compromissos estudantis. Em compensação, havia os que se empenhavam nos estudos de “corpo e alma”. Dia de prova quase sempre era sinônimo de tensão: o roer das unhas, santinhos colocados estrategicamente sobre as mesas de trabalho, orações piedosas, promessas em busca de uma boa nota ou de aprovação e, às vezes, o choro incontido por toda aquela situação. Na falta de estudo podia sobrar a malandragem dos que viam a “cola” como um recurso válido para um desempenho melhor. Não faltavam outras artimanhas também para a obtenção dos necessários pontos para a média. Isso da parte de alguns, é verdade, os espertinhos de sempre. Da parte de muitos, é preciso dizer, estudar era realmente a prioridade. Estudantes de nome ou de fato, isso pouco importa, numa determinada época, eu e eles estivemos juntos por uma bela causa: o ensino e a aprendizagem.

Hoje os tempos são outros. Em minhas andanças pela cidade, continuo a ver inúmeros dos agora meus ex-alunos. Há também os distantes fisicamente. Por onde andarão? Há aqueles que se tornaram colegas e/ou amigos. E ainda os falecidos, de muitos anos já passados, quando se foram tão adolescentes, e aqueles ausentes dos anos de agora.

Naqueles tempos de entusiasmo estudantil, fui testemunha em sala de aula e fora dela de grandes sonhos acalentados para quando a vida adulta chegasse. E então formamos boas parcerias de trabalho. Sem qualquer intenção de ser original, recorro a Guimarães Rosa com o propósito de reafirmar que “o mestre é aquele que de repente aprende”. E assim foi. Da convivência e da experiência no cotidiano escolar, recebi e aprendi importantes lições de vida.

P.S. Dedico essa matéria, iniciada na edição anterior, a todos os meus ex-alunos, personagens com os quais construí minha história como profissional da educação.

  

Maratona intelectual

 

“Felicidade!/ Passei no vestibular/ Mas a faculdade/ É particular.” Os versos iniciais de “O pequeno burguês”, composição de Martinho da Vila gravada pelo próprio no longínquo 1969, sintetizam com perfeição duas realidades vividas por muitos numa determinada fase da vida. De fato, é mesmo um acontecimento bastante feliz a aprovação ao vestibular, concurso instituído no Brasil em 1911 pela Reforma Rivadávia Correa. Para uma significativa parcela dos aprovados, no entanto, passada a euforia pela vitória, vem a preocupação decorrente do pagamento das mensalidades (entre outras despesas) cobradas pelas escolas particulares de ensino superior no país.

Quarenta e quatro anos depois do lançamento da música em questão, a situação nela retratada continua atual, ainda que se leve em conta a presente adoção de políticas públicas de apoio aos estudantes menos favorecidos economicamente. Acontece que, para as boas instituições de ensino superior, sejam elas públicas ou privadas, a concorrência hoje é brutal. E pior, é desleal, quando se sabe que não são oferecidas as mesmas condições de estudo para todos. Em outras palavras, em grande parte das escolas públicas brasileiras, falta ainda uma qualificação melhor no ensino de base. E a barreira a ser transposta atende pelo nome de vestibular, ou melhor, pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

Momento decisivo na vida de milhões de estudantes brasileiros, o tradicional vestibular já há alguns anos vem perdendo força com a crescente utilização de outros processos seletivos para o ingresso à faculdade. A “bola da vez” é o ENEM, superconcurso com impressionantes 7,17 milhões de inscritos em 2013, a ser realizado em 26 e 27 de outubro. Abrangendo todo o território nacional, o exame é constituído de quatro provas objetivas, cada uma com 45 questões de múltipla escolha e tratando de áreas de conhecimento do Ensino Médio. Com peso de ouro, a temida redação é exigência quase prioritária. Sobre seu sistema de correção, houve três mudanças: a proibição do deboche, a exigência do domínio da norma culta para recebimento da nota máxima e a redução da discrepância (diferença) nas notas de dois corretores para uma mesma redação. A intenção é evitar piadas e gracinhas nos textos (vide receita de “miojo” e letra do hino do Palmeiras no ENEM 2012), redações nota 1000 com erros de ortografia como “enchergar”, “rasoavel” e/ou de concordância verbal, acentuação gráfica e pontuação (em 2012 também). E haverá agora uma observância maior quanto à interpretação subjetiva dos responsáveis pela nota final de cada produção de texto. Havendo necessidade, a opção é pela média aritmética. Grosso modo, é isso.

 

Como se vê, está em curso uma verdadeira maratona intelectual no Brasil. Uma boa preparação a todos e que vençam os melhores.

Sala de aula (Parte I)

14 de Agosto de 2013, por Regina Coelho 0

Atuei profissionalmente como professora nos Ensinos Fundamental e Médio. Foram quase 32 anos ininterruptos durante os quais convivi, evidentemente, com muitas pessoas. Entre colegas, diretores e demais funcionários das escolas por onde passei, pais de alunos e alunos, atenho-me aos últimos, os grandes protagonistas desse processo chamado educação e do presente artigo.

Começo dizendo que não tenho a mínima condição de calcular, ainda que aproximadamente, o número de alunos que tive ao longo dos anos. Sei é que passou pelas minhas aulas, primeiramente de inglês, depois de português e literatura, gente das mais variadas idades, origens e atividades. No princípio da carreira, era comum ver na sala de aula alunos mais velhos do que eu, o que foi mudando, é claro, com o passar do tempo. Havia também uma boa quantidade de meninos vindos principalmente dos povoados daqui e de lugares próximos de Resende Costa para dar prosseguimento a seus estudos. Isso ocorria pela falta da extensão de séries e do antigo segundo grau nessas localidades. E não é que até mesmo uma família de angolanos apareceu por aqui com seus filhos matriculados na Escola Conjurados? De vez em quando, para delírio de muitos, surgiam em uma ou outra turma adolescentes integrantes de algum circo instalado na cidade. Mas, do mesmo modo que davam o ar de suas graças, iam embora sem esquentar carteira, quase sempre sem que fosse possível guardar sequer seus nomes. Meninos que moravam no então Asilo São Camilo, gente de companhia, freiras e soldados também estiveram entre os inúmeros alunos que passaram pela minha vida profissional.

A julgar pelo convívio de tanto tempo com uma diversidade tão grande de tipos humanos, dá para imaginar a quantidade de histórias que vivi ou presenciei no dia a dia da sala de aula. Selecionei algumas. Contarei os “milagres”, mas omitirei os “santos”. Vamos a elas.

Certa feita, ouvi de um aluno um pedido em nome de um colega para que este pudesse ir ao banheiro. Respondi ao solicitante que gostaria que o colega necessitado de sair da sala falasse isso comigo diretamente, que ele tinha boca para falar. “Isso mesmo, eu falei com ele que a senhora não morde”, replicou o intermediário daquela conversa. De uma outra vez, estava passando pelas fileiras de carteira conferindo o inevitável e sempre diário dever de casa. Foi quando um engraçadinho, logicamente com a tarefa por fazer, passou despistadamente para uma das filas dos que já tinham mostrado o caderno. Percebendo a manobra dele, iniciei aquele sermão, dizendo-lhe que ele precisava nascer de novo para me enganar, pois, quando ele nasceu, eu já trabalhava. Foi o que bastou para um gaiato dizer: “Nossa, a senhora deve ter uns quase 40 anos”. Aconteceu também um dia que, por alguma razão qualquer, não me lembro qual foi, uma das lentes de contato que usava (ainda uso lentes) caiu no chão. Abaixei-me para procurá-la, explicando a todos o que acontecera. Então, um dos alunos que se dispuseram a me ajudar a achar a tal lente me perguntou, seriamente assustado, se eu usava aquilo para enxergar mais do que eles. Igualmente inesquecível foi o que aconteceu numa certa aula de redação. Como forma de motivar a turma para o que pretendia, coloquei para tocar a belíssima “João e Maria”, de Chico Buarque e Sivuca. Lá pelo meio da canção, uma aluna, daquelas bem espevitadas, soltou esta pérola: “Ah, credo, Regina, cê não tinha uma música melhorzinha pra trazer pra nós, não?” Fiquei desconcertada com tamanha sinceridade, achando impossível alguém não gostar daquele primor de valsinha. Isso para mim, para muitos, não para ela. E tem ainda o caso de um aluno que me abordou no primeiro dia de aula dele comigo para dizer que eu havia sido colega da mãe dele. Quis saber de quem ele era filho. Ao me responder, ele acrescentou para todos ouvirem: “a mãe falou que a senhora não deixava ninguém olhar suas provas”. Até hoje fico na dúvida se aquilo foi um elogio ou uma crítica.

Sala de aula também é lugar para debates acalorados sobre temas da atualidade. Acreditando nisso e apostando no empenho e no entusiasmo das turmas, testemunhei muitos momentos de alto nível no embate das ideias entre colegas. Do meu gosto pessoal uma outra aposta foi o lançamento do “Revelação 92”. Uma turma pequena de 8ª série, a montagem de um jornal-mural, trabalho extraclasse voluntário e sem nota no diário, e o talento dos alunos se revelando na produção das matérias.

Alunos, alunos aos montes, mas cada um era alguém único. Talvez por isso mesmo era impossível evitar alguns conflitos entre eles, entre mim e alguns deles. Na soma geral, prevaleceu a harmonia entre nós. Calados, tagarelas, nervosos, desligados, amorosos, dissimulados, nervosos, aplicados, espirituosos... eles formavam um vasto mosaico de personalidades tão diferentes.

(A matéria continua em setembro.)

Laços de afeto

09 de Julho de 2013, por Regina Coelho 0

__ O que você faria se estivesse na selva e aparecesse uma onça na sua frente?

__ Dava um tiro nela.

__ E se você não tivesse uma arma de fogo?

__ Furava ela com minha peixeira.

__ E se você não tivesse uma peixeira?

__ Pegava qualquer coisa, como um grosso pedaço de pau, para me defender.

__ E se você não encontrasse um pedaço de pau?

__ Subia numa árvore.

__ E se não tivesse nenhuma árvore por perto?

__ Saía correndo.

__ E se suas pernas ficassem paralisadas de medo?

Nisso, o outro perdeu a paciência e explodiu:

__ Peraí! Você é meu amigo ou amigo da onça?

Da piada transcrita acima, uma conversa entre dois caçadores, teria surgido a expressão “amigo da onça” para designar quem não é amigo de verdade, quem age com falsidade em relação a outra pessoa.

Do “amigo-urso” deve-se também manter uma boa distância, pois a conotação do termo não é das melhores. Segundo a história, na verdade uma fábula de La Fontaine, um urso e um homem tornaram-se muito amigos. Certo dia, o homem estava dormindo. E uma mosca pousou-lhe no nariz. Para proteger o amigo, o urso atirou uma pedra em direção ao inseto e, sem medir sua força, acertou a testa do homem, deixando-o morto. Exagero à parte para esse final trágico, a expressão que faz alusão ao atabalhoado animal refere-se àquele que está sempre ao lado de alguém e que um dia não se mostra tão amigo como até então aparentava ser.

Perigoso como o próprio fogo é o “fogo amigo”. Traduzida do inglês “friendly fire”, trata-se de uma expressão eufêmica utilizada militarmente em relação a ataques de aliado a aliado ou de inimigo a inimigo. O aviador militar e político italiano Ítalo Balbo foi uma das vítimas notáveis do “fogo amigo”. Balbo foi abatido por engano pela artilharia antiaérea italiana durante a Segunda Guerra Mundial. Daí para a política fagulhas se alastraram, ou melhor, essa forma de expressão passou a nomear a atitude pouco amistosa de um político em se tratando de um correligionário ou aliado. Em outras palavras, isso seria o equivalente a dizer que “quem tem um amigo desses não precisa de inimigo”. Para completar essa série de tipos não exatamente amigáveis, não dá para esquecer o “amigo do alheio” ou ladrão, como sugere o eufemismo.

Por outro lado, há o “feijão amigo” nome que se dá ao caldo de feijão encorpado, amassado ou batido, de preferência muito bem temperado e incrementado com linguiça, bacon, torresmo e afins. E criou-se em São Paulo o “Clube do Feijão Amigo”, uma associação de amizade e confraternização ligada ao segmento turístico. Em atividade desde 1980, o Clube hoje congrega “feijoeiros” no Brasil e no exterior.

De apelo bem mais popular é a brincadeira do “amigo oculto”. Fim de ano chegando, é quase impossível deixar de participar de pelo menos um encontro desses, também conhecido como “amigo secreto” ou “amigo invisível”. Igualmente popular é o uso do vocativo “amigo” ao abordar alguém para pedir alguma informação ou solicitar algum serviço ao garçom, ao frentista... Criado pelo poeta Manuel Bandeira no poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, há ainda o fictício “amigo do rei”, símbolo não fictício do relacionamento mantido, talvez, por questionáveis interesses.

No âmbito das relações afetivas, o “amigo de infância” é sempre lembrado, o “amigo do peito” é aquele especialmente “guardado” no coração de alguém. À afirmação de que a amizade é o amor sem sexo contrapõe-se o entendimento de que a amizade-colorida é a pegação entre amigos. E se para muitos “o cão é o melhor amigo do homem”, o sempre irreverente Vinícius de Moraes (1913-1980), cujo centenário de nascimento se comemorará em outubro próximo, elegeu o uísque como o seu cachorro engarrafado.

Aspecto interessante a ser considerado é a amizade na adolescência, momento em que os vínculos fora da família vão se formando. Surgem as turmas, muitas vezes se desfazendo para o surgimento de outros grupos. Enquanto duram essas relações, pela intensidade com que são vividas, parecem eternas. Os adolescentes que vivem isso hoje têm os seus BFFs (Best Friends Forever, ou seja, Melhores Amigos Para Sempre). Hoje também, via internet, os “amigos” podem ser adicionados aos montes.

Amigos de verdade? De acordo com o ditado popular, esses a gente conta no dedo. Quanto ao “Amigos, amigos, negócios à parte”, a concordância é quase geral. O mesmo não se pode dizer do polêmico “mulher de amigo meu para mim é homem”, provérbio, é claro, brasileiro. No que diz respeito à frase “Aos amigos tudo, aos inimigos, os rigores da lei” (palavras atribuídas ao presidente Getúlio Vargas), a discordância deve ser quase total.

Todas essas considerações servem de pretexto para lembrar o “Dia do Amigo”, que se comemora dia 20 próximo. Muito mais do que uma data, a ocasião é um convite à celebração desse nobre e prazeroso sentimento. De tantas músicas que são verdadeiros hinos à amizade, destaco “Amizade sincera” de Renato Teixeira. Vale a pena ouvi-la. Abraço amigo!

Caminho de volta

11 de Junho de 2013, por Regina Coelho 0

Nem toda ligação que as pessoas têm com a sua cidade de origem é feliz. Aliás, às vezes ela nem mesmo existe. Isso acontece, por exemplo, quando alguém simplesmente nasce em um lugar e dali é levado, sem o tempo necessário de criar identificação com a terra natal, não tendo com ela, portanto, qualquer afinidade ou intimidade. É compreensível que assim seja. Diferente disso é a situação de quem se afasta deliberada e definitivamente de sua cidade de nascimento renegando ou esquecendo suas origens. Como cada um tem lá a sua trajetória pessoal de vida e os seus motivos para proceder desse ou daquele jeito, é preferível não discutir as decisões alheias.

Em sentido inverso desse afastamento, prevalece o sentimento de amor à terra, lugar que vê a gente nascer, crescer e, muitas vezes, ir embora, quase sempre com o desejo de um dia voltar de vez. É o que acontece com tantos por toda parte, em Resende Costa também.

É o caso de Antônia de Paiva (a Antônia da Preta e neta da Chiquinha), 58 anos. Morando em São Paulo, ela trabalhou como doméstica, ajudante geral, babá e enfermeira prática. Foram 36 anos durante os quais as vindas a Resende Costa se resumiam a uma visita anual. Em relação a esse tempo todo, Antônia lembra que houve uma vez em que ficou ausente da terra natal por dois anos, cidade considerada por ela pequena, não muito evoluída quando se mudou daqui. A família e os amigos são citados por ela ao ser indagada a respeito do que mais lhe fazia falta em seus tempos de vida na maior cidade do país. Sobre a decisão de voltar, a explicação é simples e direta: “ter um pouco mais de tranquilidade e fugir da agitação da grande cidade”. Antônia elege o Grupo Escolar Assis Resende, hoje Escola Estadual Assis Resende, como um lugar especial para ela em Resende Costa. E por quê? “É o lugar onde passei parte da infância e da adolescência e abriu as portas de um mercado de trabalho para mim”, responde.

Também de volta à terra natal depois de morar por 40 anos em Belo Horizonte, o professor aposentado Ênio Resende, 75 anos, afirma ter deixado Resende Costa para estudar, pois aqui não havia colégio. No início, segundo ele, chegou a ficar dezoito meses sem vir em casa, tendo chorado muito, admite, por sentir falta da família. Como estudante, passou a frequentar a cidade nas férias. E passou a vir para cá quinzenal ou semanalmente quando já trabalhava. Isso nos tempos em que atuou no Banco Minas Gerais e no Colégio Municipal de Belo Horizonte, que era um conjunto de quatro unidades – São Cristóvão, Marconi, Salgado Filho e Honorina de Barros, tendo passado por todas. Sempre ligado ao meio rural e já envolvido com o Parque do Campo, importante associação que havia fundado juntamente com um grupo de ruralistas, Ênio optou pela volta à cidade, momento em que deu início à promoção de leilões rurais. E há um lugar especial para ele aqui: a Laje de Cima, pela beleza de sua paisagem e pelas recordações de infância. “Aqui estão minhas raízes, minha família”, resume Ênio em poucas palavras o muito que essa terra representa em sua vida.

Também na música e na literatura, referências à terra natal são comuns. Em “Último pau de arara”, a resistência do sertanejo nordestino em ficar em seu torrão é mostrada por Fagner no verso “Só deixo meu Cariri no último pau de arara”. Roberto Carlos é o cara que em “Meu pequeno Cachoeiro” declara seu amor a Cachoeiro do Itapemirim (ES) em versos saudosos como: “Recordo a casa onde eu morava/ o muro alto, o laranjal, ...”. Na obra literária de Mário de Andrade, o berço paulistano do escritor é figura recorrente. O verso “São Paulo, comoção de minha vida...”, que abre o poema “Inspiração”, é só um exemplo disso. E havia Itabira na vida do poeta Carlos Drummond. Seu belíssimo poema “Confidência do itabirano”, muito mais do que uma lembrança sentimental, é uma síntese perfeita da personalidade desse mineiro excepcional. “Alguns anos vivi em Itabira/ Principalmente nasci em Itabira/ Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. (...)” “Itabira é apenas uma fotografia na parede/ Mas como dói!” Versos como esses revelam o amor incondicional de Drummond por sua terra.

Felizmente para Antônia e Ênio, sem ser apenas uma fotografia na parede, Resende Costa é o berço aconchegante desses novos tempos. Mesmo assim, um ano e quatro meses depois, ela confessa que ainda não está adaptada à cidade, que considera parada (Para quem viveu em São Paulo então...) e deixa a desejar na área da saúde. Ele fica triste quando alguém fala em colocar um mirante sobre a caixa d’água da Copasa, na Laje de Cima. “Que BURRICE! A Laje é um mirante. Precisa é tirar a caixa d’água, que é a NOTA ZERO da cidade”, afirma Ênio, indignado. E propõe: “Vamos nos sentar em bancos, conversar com amigos e contemplar o pôr do sol”. Deve ser o da Laje, que é belíssimo, não é mesmo?

E que ninguém duvide do amor que nossos entrevistados sentem por Resende Costa.