Contemplando as Palavras

Sala de aula (Final)

13 de Setembro de 2013, por Regina Coelho 0

Vista sob a ótica de quem conduzia as aulas, a vida de estudante era um capítulo à parte, com variadas formas de comprometimento em relação às atividades escolares e às responsabilidades delas decorrentes. Nesse sentido, havia quem fizesse “corpo mole” ou estivesse só de “corpo presente” na sala de aula ou tirasse o “corpo fora” dos compromissos estudantis. Em compensação, havia os que se empenhavam nos estudos de “corpo e alma”. Dia de prova quase sempre era sinônimo de tensão: o roer das unhas, santinhos colocados estrategicamente sobre as mesas de trabalho, orações piedosas, promessas em busca de uma boa nota ou de aprovação e, às vezes, o choro incontido por toda aquela situação. Na falta de estudo podia sobrar a malandragem dos que viam a “cola” como um recurso válido para um desempenho melhor. Não faltavam outras artimanhas também para a obtenção dos necessários pontos para a média. Isso da parte de alguns, é verdade, os espertinhos de sempre. Da parte de muitos, é preciso dizer, estudar era realmente a prioridade. Estudantes de nome ou de fato, isso pouco importa, numa determinada época, eu e eles estivemos juntos por uma bela causa: o ensino e a aprendizagem.

Hoje os tempos são outros. Em minhas andanças pela cidade, continuo a ver inúmeros dos agora meus ex-alunos. Há também os distantes fisicamente. Por onde andarão? Há aqueles que se tornaram colegas e/ou amigos. E ainda os falecidos, de muitos anos já passados, quando se foram tão adolescentes, e aqueles ausentes dos anos de agora.

Naqueles tempos de entusiasmo estudantil, fui testemunha em sala de aula e fora dela de grandes sonhos acalentados para quando a vida adulta chegasse. E então formamos boas parcerias de trabalho. Sem qualquer intenção de ser original, recorro a Guimarães Rosa com o propósito de reafirmar que “o mestre é aquele que de repente aprende”. E assim foi. Da convivência e da experiência no cotidiano escolar, recebi e aprendi importantes lições de vida.

P.S. Dedico essa matéria, iniciada na edição anterior, a todos os meus ex-alunos, personagens com os quais construí minha história como profissional da educação.

  

Maratona intelectual

 

“Felicidade!/ Passei no vestibular/ Mas a faculdade/ É particular.” Os versos iniciais de “O pequeno burguês”, composição de Martinho da Vila gravada pelo próprio no longínquo 1969, sintetizam com perfeição duas realidades vividas por muitos numa determinada fase da vida. De fato, é mesmo um acontecimento bastante feliz a aprovação ao vestibular, concurso instituído no Brasil em 1911 pela Reforma Rivadávia Correa. Para uma significativa parcela dos aprovados, no entanto, passada a euforia pela vitória, vem a preocupação decorrente do pagamento das mensalidades (entre outras despesas) cobradas pelas escolas particulares de ensino superior no país.

Quarenta e quatro anos depois do lançamento da música em questão, a situação nela retratada continua atual, ainda que se leve em conta a presente adoção de políticas públicas de apoio aos estudantes menos favorecidos economicamente. Acontece que, para as boas instituições de ensino superior, sejam elas públicas ou privadas, a concorrência hoje é brutal. E pior, é desleal, quando se sabe que não são oferecidas as mesmas condições de estudo para todos. Em outras palavras, em grande parte das escolas públicas brasileiras, falta ainda uma qualificação melhor no ensino de base. E a barreira a ser transposta atende pelo nome de vestibular, ou melhor, pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

Momento decisivo na vida de milhões de estudantes brasileiros, o tradicional vestibular já há alguns anos vem perdendo força com a crescente utilização de outros processos seletivos para o ingresso à faculdade. A “bola da vez” é o ENEM, superconcurso com impressionantes 7,17 milhões de inscritos em 2013, a ser realizado em 26 e 27 de outubro. Abrangendo todo o território nacional, o exame é constituído de quatro provas objetivas, cada uma com 45 questões de múltipla escolha e tratando de áreas de conhecimento do Ensino Médio. Com peso de ouro, a temida redação é exigência quase prioritária. Sobre seu sistema de correção, houve três mudanças: a proibição do deboche, a exigência do domínio da norma culta para recebimento da nota máxima e a redução da discrepância (diferença) nas notas de dois corretores para uma mesma redação. A intenção é evitar piadas e gracinhas nos textos (vide receita de “miojo” e letra do hino do Palmeiras no ENEM 2012), redações nota 1000 com erros de ortografia como “enchergar”, “rasoavel” e/ou de concordância verbal, acentuação gráfica e pontuação (em 2012 também). E haverá agora uma observância maior quanto à interpretação subjetiva dos responsáveis pela nota final de cada produção de texto. Havendo necessidade, a opção é pela média aritmética. Grosso modo, é isso.

 

Como se vê, está em curso uma verdadeira maratona intelectual no Brasil. Uma boa preparação a todos e que vençam os melhores.

Sala de aula (Parte I)

14 de Agosto de 2013, por Regina Coelho 0

Atuei profissionalmente como professora nos Ensinos Fundamental e Médio. Foram quase 32 anos ininterruptos durante os quais convivi, evidentemente, com muitas pessoas. Entre colegas, diretores e demais funcionários das escolas por onde passei, pais de alunos e alunos, atenho-me aos últimos, os grandes protagonistas desse processo chamado educação e do presente artigo.

Começo dizendo que não tenho a mínima condição de calcular, ainda que aproximadamente, o número de alunos que tive ao longo dos anos. Sei é que passou pelas minhas aulas, primeiramente de inglês, depois de português e literatura, gente das mais variadas idades, origens e atividades. No princípio da carreira, era comum ver na sala de aula alunos mais velhos do que eu, o que foi mudando, é claro, com o passar do tempo. Havia também uma boa quantidade de meninos vindos principalmente dos povoados daqui e de lugares próximos de Resende Costa para dar prosseguimento a seus estudos. Isso ocorria pela falta da extensão de séries e do antigo segundo grau nessas localidades. E não é que até mesmo uma família de angolanos apareceu por aqui com seus filhos matriculados na Escola Conjurados? De vez em quando, para delírio de muitos, surgiam em uma ou outra turma adolescentes integrantes de algum circo instalado na cidade. Mas, do mesmo modo que davam o ar de suas graças, iam embora sem esquentar carteira, quase sempre sem que fosse possível guardar sequer seus nomes. Meninos que moravam no então Asilo São Camilo, gente de companhia, freiras e soldados também estiveram entre os inúmeros alunos que passaram pela minha vida profissional.

A julgar pelo convívio de tanto tempo com uma diversidade tão grande de tipos humanos, dá para imaginar a quantidade de histórias que vivi ou presenciei no dia a dia da sala de aula. Selecionei algumas. Contarei os “milagres”, mas omitirei os “santos”. Vamos a elas.

Certa feita, ouvi de um aluno um pedido em nome de um colega para que este pudesse ir ao banheiro. Respondi ao solicitante que gostaria que o colega necessitado de sair da sala falasse isso comigo diretamente, que ele tinha boca para falar. “Isso mesmo, eu falei com ele que a senhora não morde”, replicou o intermediário daquela conversa. De uma outra vez, estava passando pelas fileiras de carteira conferindo o inevitável e sempre diário dever de casa. Foi quando um engraçadinho, logicamente com a tarefa por fazer, passou despistadamente para uma das filas dos que já tinham mostrado o caderno. Percebendo a manobra dele, iniciei aquele sermão, dizendo-lhe que ele precisava nascer de novo para me enganar, pois, quando ele nasceu, eu já trabalhava. Foi o que bastou para um gaiato dizer: “Nossa, a senhora deve ter uns quase 40 anos”. Aconteceu também um dia que, por alguma razão qualquer, não me lembro qual foi, uma das lentes de contato que usava (ainda uso lentes) caiu no chão. Abaixei-me para procurá-la, explicando a todos o que acontecera. Então, um dos alunos que se dispuseram a me ajudar a achar a tal lente me perguntou, seriamente assustado, se eu usava aquilo para enxergar mais do que eles. Igualmente inesquecível foi o que aconteceu numa certa aula de redação. Como forma de motivar a turma para o que pretendia, coloquei para tocar a belíssima “João e Maria”, de Chico Buarque e Sivuca. Lá pelo meio da canção, uma aluna, daquelas bem espevitadas, soltou esta pérola: “Ah, credo, Regina, cê não tinha uma música melhorzinha pra trazer pra nós, não?” Fiquei desconcertada com tamanha sinceridade, achando impossível alguém não gostar daquele primor de valsinha. Isso para mim, para muitos, não para ela. E tem ainda o caso de um aluno que me abordou no primeiro dia de aula dele comigo para dizer que eu havia sido colega da mãe dele. Quis saber de quem ele era filho. Ao me responder, ele acrescentou para todos ouvirem: “a mãe falou que a senhora não deixava ninguém olhar suas provas”. Até hoje fico na dúvida se aquilo foi um elogio ou uma crítica.

Sala de aula também é lugar para debates acalorados sobre temas da atualidade. Acreditando nisso e apostando no empenho e no entusiasmo das turmas, testemunhei muitos momentos de alto nível no embate das ideias entre colegas. Do meu gosto pessoal uma outra aposta foi o lançamento do “Revelação 92”. Uma turma pequena de 8ª série, a montagem de um jornal-mural, trabalho extraclasse voluntário e sem nota no diário, e o talento dos alunos se revelando na produção das matérias.

Alunos, alunos aos montes, mas cada um era alguém único. Talvez por isso mesmo era impossível evitar alguns conflitos entre eles, entre mim e alguns deles. Na soma geral, prevaleceu a harmonia entre nós. Calados, tagarelas, nervosos, desligados, amorosos, dissimulados, nervosos, aplicados, espirituosos... eles formavam um vasto mosaico de personalidades tão diferentes.

(A matéria continua em setembro.)

Laços de afeto

09 de Julho de 2013, por Regina Coelho 0

__ O que você faria se estivesse na selva e aparecesse uma onça na sua frente?

__ Dava um tiro nela.

__ E se você não tivesse uma arma de fogo?

__ Furava ela com minha peixeira.

__ E se você não tivesse uma peixeira?

__ Pegava qualquer coisa, como um grosso pedaço de pau, para me defender.

__ E se você não encontrasse um pedaço de pau?

__ Subia numa árvore.

__ E se não tivesse nenhuma árvore por perto?

__ Saía correndo.

__ E se suas pernas ficassem paralisadas de medo?

Nisso, o outro perdeu a paciência e explodiu:

__ Peraí! Você é meu amigo ou amigo da onça?

Da piada transcrita acima, uma conversa entre dois caçadores, teria surgido a expressão “amigo da onça” para designar quem não é amigo de verdade, quem age com falsidade em relação a outra pessoa.

Do “amigo-urso” deve-se também manter uma boa distância, pois a conotação do termo não é das melhores. Segundo a história, na verdade uma fábula de La Fontaine, um urso e um homem tornaram-se muito amigos. Certo dia, o homem estava dormindo. E uma mosca pousou-lhe no nariz. Para proteger o amigo, o urso atirou uma pedra em direção ao inseto e, sem medir sua força, acertou a testa do homem, deixando-o morto. Exagero à parte para esse final trágico, a expressão que faz alusão ao atabalhoado animal refere-se àquele que está sempre ao lado de alguém e que um dia não se mostra tão amigo como até então aparentava ser.

Perigoso como o próprio fogo é o “fogo amigo”. Traduzida do inglês “friendly fire”, trata-se de uma expressão eufêmica utilizada militarmente em relação a ataques de aliado a aliado ou de inimigo a inimigo. O aviador militar e político italiano Ítalo Balbo foi uma das vítimas notáveis do “fogo amigo”. Balbo foi abatido por engano pela artilharia antiaérea italiana durante a Segunda Guerra Mundial. Daí para a política fagulhas se alastraram, ou melhor, essa forma de expressão passou a nomear a atitude pouco amistosa de um político em se tratando de um correligionário ou aliado. Em outras palavras, isso seria o equivalente a dizer que “quem tem um amigo desses não precisa de inimigo”. Para completar essa série de tipos não exatamente amigáveis, não dá para esquecer o “amigo do alheio” ou ladrão, como sugere o eufemismo.

Por outro lado, há o “feijão amigo” nome que se dá ao caldo de feijão encorpado, amassado ou batido, de preferência muito bem temperado e incrementado com linguiça, bacon, torresmo e afins. E criou-se em São Paulo o “Clube do Feijão Amigo”, uma associação de amizade e confraternização ligada ao segmento turístico. Em atividade desde 1980, o Clube hoje congrega “feijoeiros” no Brasil e no exterior.

De apelo bem mais popular é a brincadeira do “amigo oculto”. Fim de ano chegando, é quase impossível deixar de participar de pelo menos um encontro desses, também conhecido como “amigo secreto” ou “amigo invisível”. Igualmente popular é o uso do vocativo “amigo” ao abordar alguém para pedir alguma informação ou solicitar algum serviço ao garçom, ao frentista... Criado pelo poeta Manuel Bandeira no poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, há ainda o fictício “amigo do rei”, símbolo não fictício do relacionamento mantido, talvez, por questionáveis interesses.

No âmbito das relações afetivas, o “amigo de infância” é sempre lembrado, o “amigo do peito” é aquele especialmente “guardado” no coração de alguém. À afirmação de que a amizade é o amor sem sexo contrapõe-se o entendimento de que a amizade-colorida é a pegação entre amigos. E se para muitos “o cão é o melhor amigo do homem”, o sempre irreverente Vinícius de Moraes (1913-1980), cujo centenário de nascimento se comemorará em outubro próximo, elegeu o uísque como o seu cachorro engarrafado.

Aspecto interessante a ser considerado é a amizade na adolescência, momento em que os vínculos fora da família vão se formando. Surgem as turmas, muitas vezes se desfazendo para o surgimento de outros grupos. Enquanto duram essas relações, pela intensidade com que são vividas, parecem eternas. Os adolescentes que vivem isso hoje têm os seus BFFs (Best Friends Forever, ou seja, Melhores Amigos Para Sempre). Hoje também, via internet, os “amigos” podem ser adicionados aos montes.

Amigos de verdade? De acordo com o ditado popular, esses a gente conta no dedo. Quanto ao “Amigos, amigos, negócios à parte”, a concordância é quase geral. O mesmo não se pode dizer do polêmico “mulher de amigo meu para mim é homem”, provérbio, é claro, brasileiro. No que diz respeito à frase “Aos amigos tudo, aos inimigos, os rigores da lei” (palavras atribuídas ao presidente Getúlio Vargas), a discordância deve ser quase total.

Todas essas considerações servem de pretexto para lembrar o “Dia do Amigo”, que se comemora dia 20 próximo. Muito mais do que uma data, a ocasião é um convite à celebração desse nobre e prazeroso sentimento. De tantas músicas que são verdadeiros hinos à amizade, destaco “Amizade sincera” de Renato Teixeira. Vale a pena ouvi-la. Abraço amigo!

Caminho de volta

11 de Junho de 2013, por Regina Coelho 0

Nem toda ligação que as pessoas têm com a sua cidade de origem é feliz. Aliás, às vezes ela nem mesmo existe. Isso acontece, por exemplo, quando alguém simplesmente nasce em um lugar e dali é levado, sem o tempo necessário de criar identificação com a terra natal, não tendo com ela, portanto, qualquer afinidade ou intimidade. É compreensível que assim seja. Diferente disso é a situação de quem se afasta deliberada e definitivamente de sua cidade de nascimento renegando ou esquecendo suas origens. Como cada um tem lá a sua trajetória pessoal de vida e os seus motivos para proceder desse ou daquele jeito, é preferível não discutir as decisões alheias.

Em sentido inverso desse afastamento, prevalece o sentimento de amor à terra, lugar que vê a gente nascer, crescer e, muitas vezes, ir embora, quase sempre com o desejo de um dia voltar de vez. É o que acontece com tantos por toda parte, em Resende Costa também.

É o caso de Antônia de Paiva (a Antônia da Preta e neta da Chiquinha), 58 anos. Morando em São Paulo, ela trabalhou como doméstica, ajudante geral, babá e enfermeira prática. Foram 36 anos durante os quais as vindas a Resende Costa se resumiam a uma visita anual. Em relação a esse tempo todo, Antônia lembra que houve uma vez em que ficou ausente da terra natal por dois anos, cidade considerada por ela pequena, não muito evoluída quando se mudou daqui. A família e os amigos são citados por ela ao ser indagada a respeito do que mais lhe fazia falta em seus tempos de vida na maior cidade do país. Sobre a decisão de voltar, a explicação é simples e direta: “ter um pouco mais de tranquilidade e fugir da agitação da grande cidade”. Antônia elege o Grupo Escolar Assis Resende, hoje Escola Estadual Assis Resende, como um lugar especial para ela em Resende Costa. E por quê? “É o lugar onde passei parte da infância e da adolescência e abriu as portas de um mercado de trabalho para mim”, responde.

Também de volta à terra natal depois de morar por 40 anos em Belo Horizonte, o professor aposentado Ênio Resende, 75 anos, afirma ter deixado Resende Costa para estudar, pois aqui não havia colégio. No início, segundo ele, chegou a ficar dezoito meses sem vir em casa, tendo chorado muito, admite, por sentir falta da família. Como estudante, passou a frequentar a cidade nas férias. E passou a vir para cá quinzenal ou semanalmente quando já trabalhava. Isso nos tempos em que atuou no Banco Minas Gerais e no Colégio Municipal de Belo Horizonte, que era um conjunto de quatro unidades – São Cristóvão, Marconi, Salgado Filho e Honorina de Barros, tendo passado por todas. Sempre ligado ao meio rural e já envolvido com o Parque do Campo, importante associação que havia fundado juntamente com um grupo de ruralistas, Ênio optou pela volta à cidade, momento em que deu início à promoção de leilões rurais. E há um lugar especial para ele aqui: a Laje de Cima, pela beleza de sua paisagem e pelas recordações de infância. “Aqui estão minhas raízes, minha família”, resume Ênio em poucas palavras o muito que essa terra representa em sua vida.

Também na música e na literatura, referências à terra natal são comuns. Em “Último pau de arara”, a resistência do sertanejo nordestino em ficar em seu torrão é mostrada por Fagner no verso “Só deixo meu Cariri no último pau de arara”. Roberto Carlos é o cara que em “Meu pequeno Cachoeiro” declara seu amor a Cachoeiro do Itapemirim (ES) em versos saudosos como: “Recordo a casa onde eu morava/ o muro alto, o laranjal, ...”. Na obra literária de Mário de Andrade, o berço paulistano do escritor é figura recorrente. O verso “São Paulo, comoção de minha vida...”, que abre o poema “Inspiração”, é só um exemplo disso. E havia Itabira na vida do poeta Carlos Drummond. Seu belíssimo poema “Confidência do itabirano”, muito mais do que uma lembrança sentimental, é uma síntese perfeita da personalidade desse mineiro excepcional. “Alguns anos vivi em Itabira/ Principalmente nasci em Itabira/ Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. (...)” “Itabira é apenas uma fotografia na parede/ Mas como dói!” Versos como esses revelam o amor incondicional de Drummond por sua terra.

Felizmente para Antônia e Ênio, sem ser apenas uma fotografia na parede, Resende Costa é o berço aconchegante desses novos tempos. Mesmo assim, um ano e quatro meses depois, ela confessa que ainda não está adaptada à cidade, que considera parada (Para quem viveu em São Paulo então...) e deixa a desejar na área da saúde. Ele fica triste quando alguém fala em colocar um mirante sobre a caixa d’água da Copasa, na Laje de Cima. “Que BURRICE! A Laje é um mirante. Precisa é tirar a caixa d’água, que é a NOTA ZERO da cidade”, afirma Ênio, indignado. E propõe: “Vamos nos sentar em bancos, conversar com amigos e contemplar o pôr do sol”. Deve ser o da Laje, que é belíssimo, não é mesmo?

E que ninguém duvide do amor que nossos entrevistados sentem por Resende Costa.

Só por curiosidade

15 de Maio de 2013, por Regina Coelho 0

Notícias dos muitos acidentes que ocorrem nas nossas cidades e estradas são comuns nos jornais. Quando veiculadas na televisão, causam na gente um impacto maior, talvez pela força das imagens em movimento ali mostradas. Mas, por incrível que pareça, há pouco tempo, foi vendo num noticiário uma dessas tragédias, ou melhor, o resultado dela, que tive a atenção despertada por uma cena específica dentro daquela cena principal: curiosos fotografavam e filmavam o triste acontecimento. Em número expressivo e munidos de seus inseparáveis celulares, eles pareciam ser a polícia ou mesmo a própria imprensa registrando tudo como se estivessem agindo no cumprimento de um dever de ofício.

De imediato, deixei de acompanhar a matéria propriamente dita para tentar entender a motivação daquelas pessoas totalmente entregues na busca pelos melhores ângulos de um cenário pra lá de horroroso. É sabido que até uma simples ocorrência de trânsito costuma atrair a atenção dos que estão próximos ou não tão próximos do ocorrido. E dependendo da gravidade do acidente, o público presente pode crescer assustadoramente. Tudo bem. Normalmente, não é possível alguém ficar alheio ao que acontece ao seu redor. É compreensível que a gente se interesse pelos dramas humanos e não fique indiferente ao sofrimento dos envolvidos nessas situações. É aceitável que até mesmo por curiosidade as pessoas queiram ver o local do sinistro. Mas daí saírem de seus carros para conseguir o registro de um acontecimento trágico como quem fotografa ou filma um passeio, uma festa, um ponto turístico ou uma pessoa famosa é coisa, no mínimo, estranha.

Isso é o que se pode chamar de curiosidade mórbida ou, se preferirem, a atração pelo espetáculo, termo este que, segundo o dicionário Aurélio, pode significar “tudo o que chama a atenção, atrai e prende o olhar”, mesmo que o episódio seja infeliz ou perverso. Não se trata, portanto, da curiosidade humana em si, condição inerente a todos, que é o desejo de ver ou conhecer algo até então desconhecido. Isso deve explicar a inevitável e saudável curiosidade infantil repleta de porquês, como e o que é isso ou aquilo já na primeira etapa da vida. Há também a categoria da vizinha curiosa, aquela que dá notícia de tudo o que acontece nas casas próximas à sua e parece nunca dormir. Ao captar o menor sinal de movimento, lá está ela, sempre pronta para ver, escutar ou perguntar algo. Informação em primeiríssima mão sobre os outros ou sobre qualquer coisa é com ela mesma.

Reparem que usei “vizinha curiosa” no feminino. É que as más línguas, acho que as masculinas, espalham por aí que a curiosidade é uma característica mais acentuada nas mulheres. Será? Isso me remete à série de livros “O Guia dos Curiosos”, do jornalista Marcelo Duarte. O primeiro trabalho desenvolve o tema de um modo geral. Os outros sete livros apresentam temáticas especiais. São elas: esporte, invenções, Brasil, sexo, língua portuguesa, jogos olímpicos e... mulheres. Segundo o autor, “O Guia das Curiosas” (em parceria com Inês de Castro) foi escrito “só para mulheres e quem gosta de mulheres”.

A título de curiosidade também, vem à tona aquela crença que enfatiza a curiosidade que matou um gato como a moral da história. Ao que parece, esse ditado se originou na Europa, numa época em que as pessoas não gostavam muito de gatos. Era o fim da Idade Média. Acreditava-se que os gatos, especialmente os pretos, traziam má sorte. Com o intuito de acabar com eles, havia gente que fazia armadilhas usando como iscas coisas estranhas que chamavam a atenção dos bichanos curiosos. Mesmo cautelosos por natureza, a curiosidade diante daquilo que os atraía levava-os a se dar mal. Nesse caso, ser curioso pode ser visto como algo perigoso e negativo.

Em tempos de invasão permitida da privacidade com a vida das pessoas escancarada por todos os lados, fica até difícil não se deixar levar pela curiosidade. Afinal de contas, é muita informação, um verdadeiro bombardeio de notícias, fotos, vídeos e mensagens rondando diariamente nossa vida. Nisso tudo, há muito lixo também, e o que é pior: o desrespeito aos limites estabelecidos pela ética social.

Xeretas, bicudos, intrometidos, candinhas, intrusos ou bisbilhoteiros postos de lado, exalto a boa curiosidade, aquela intrigante condição humana que os pesquisadores, por exemplo, têm de sobra e graças à qual descobertas científicas e inventos extraordinários se tornam realidade. Uma simples prova disso é a existência do Botox. Do uso terapêutico da toxina botulínica como uma alternativa eficaz para o tratamento não cirúrgico do estrabismo ao uso cosmético para a melhora das rugas (entre outras utilizações), o caminho da descoberta desse poderoso aliado, principalmente, de muitas mulheres, se fez pela observação, pelo espírito curioso do oftalmologista americano Alan B. Scott. Bendita seja a curiosidade que produz o conhecimento voltado para o lado bom da vida.