Um certo padre entre nós
12 de Fevereiro de 2014, por Regina Coelho 2
Tive o privilégio de ter sido aluna do Padre Nélson durante o Ensino Médio. Estudava no antigo Colégio Nossa Senhora da Penha, no prédio que é a atual sede da prefeitura local. Sendo um dos fundadores do colégio, Padre Nélson acumulou por um tempo as funções de diretor e professor de História e Filosofia do N.S. da Penha. Lembro-me bem de sua figura de muito respeito passando pelos corredores da escola em direção a alguma sala de aula. De longe, já vinha pedindo aos alunos, nos momentos de recreio, “licencinha, licencinha”, evitando qualquer contato físico mais próximo com as pessoas. Dentro da sala, uma primeira providência dele chamava a nossa atenção: ele ia catando os pedaços de giz desprezados por outros professores, para aproveitá-los. Às escondidas, a gente achava graça naquilo, pois às vezes nem era possível ver os toquinhos entre seus dedos ao escrever no quadro. Lição de economia também, provavelmente viemos a aprender isso bem mais tarde. Quanto às aulas propriamente ditas, que conhecimento! Dependendo da necessidade do assunto, nosso professor ia desenhando, à mão livre, mapas representativos de lugares mencionados em suas explicações e que íamos conhecendo através daquele guia tão entusiasmado.
É oportuno considerar que vivíamos tempos de dificuldades com a escassez de fontes de pesquisa, situação essa que fazia muita gente se deslocar até a Casa Paroquial para fazer seus trabalhos escolares. Culto, sábio e muito bem acompanhado de seus preciosos livros, Padre Nélson, por trás de sua bonita mesa de trabalho, tinha gosto em ajudar os que o procuravam. Selecionava o material adequado, pedindo cuidado a quem fosse usá-lo e que não fizéssemos muito barulho no escritório dele.
Mais tarde, fazendo faculdade de Letras, precisei de seus conhecimentos bíblicos. Ao fazer uma análise literária do “Cântico do calvário”, de Fagundes Varela, deparei-me com a expressão “escada de Jacó” (penúltimo verso do poema), que então desconhecia. Assim, achei melhor recorrer ao meu antigo professor para um providencial auxílio. Foi aí que ele citou o Livro do Gênesis e Jacó, que em sonho via uma escada estendida até o céu. Ao descrever em detalhes essa alegoria, meu consultor me forneceu argumentação para entender a tal escada do poeta como a sua esperança de subir ao encontro da vida eterna e juntar-se ao filho precocemente falecido e a quem o texto é dedicado.
Fui também vizinha do personagem central deste artigo. No quintal da mencionada Casa Paroquial, próximo ao muro que ainda hoje cerca a propriedade, havia um imenso abacateiro pendendo muitos de seus galhos para o quintal de minha casa. Aquilo era um convite irrecusável a brincadeiras que começavam com a escalada pela árvore e reuniam alguns de meus irmãos, um ou outro sobrinho do padre e eu. Os mais corajosos conseguiam chegar até “as grimpinhas”, o ponto mais alto do belo pé de abacate. Isso para grande preocupação de meus pais, que temiam pela segurança da criançada e tinham receio de que nosso sempre sossegado vizinho se aborrecesse com aquela “invasão” à sua horta. Mas nunca o ouvimos reclamar de nada. E quando subíamos até a laje da cozinha (as meninas de casa e amigas) para tomar sol, o desespero de meu pai aumentava. Ele não achava certo que, ao chegar à janela de seu quarto, o Padre Nélson visse a gente de biquíni. Aquilo seria um desrespeito nosso, que jamais o vimos daquele ponto da casa.
Nas celebrações religiosas, ele se transformava. Era sério, severo e conservador. Na igreja, homens de um lado e mulheres de outro; nas procissões, casais juntos só se fossem casados. Mulheres usando roupas curtas, decotadas ou sem mangas, nem pensar! No confessionário, como conhecia todo mundo e éramos crianças, perguntava se tínhamos brigado com o irmão A ou com a irmã B. Por conta de nossa ansiedade típica da idade, achávamos demorada a missa que ele celebrava. Quando alguém se atrapalhava com as palavras ao fazer alguma leitura litúrgica, nosso padre dava tapinhas de impaciência na própria cabeça ou tratava logo de corrigir a pessoa.
Assim era ele, na verdade, Monsenhor Nélson, que, depois do almoço, gostava de dar sua volta inteira, como tantos resende-costenses. Para quem não sabe, volta inteira aqui em Resende Costa é passar pela Praça Cônego Cardoso, pelos Quatro Cantos, pela Rua Gonçalves Pinto e contornar a Praça Rosa Penido, chegando ao mesmo lugar. Durante o trajeto, os que estavam sentados nas soleiras das portas, quando ele passava, reverentes, faziam questão de se levantar. Não se tratava de um ato de submissão. Era o reconhecimento de quem via na imagem daquele homem uma natural e incontestável liderança na cidade que o acolheu como filho. Distinguindo-o fisicamente, a inseparável batina não significava apenas a sua condição de sacerdote. Por honrá-la, soube se fazer verdadeiro servo de Deus, não deixando de ser também cidadão comprometido com as causas de Resende Costa.
Receita de Ano Novo
15 de Janeiro de 2014, por Regina Coelho 0
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
Cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido);
Para você ganhar um ano
Não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
Mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
Novo
Até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
Novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota
Mas com ele se come, se passeia,
Se ama, se compreende, se trabalha,
Você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
Não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? Passa telegramas?)
Não precisa
Fazer lista de boas intenções
Para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
Pelas besteiras consumidas
Nem parvamente acreditar
Que por decreto de esperança
A partir de janeiro as coisas mudem
E seja tudo claridade, recompensa,
Justiça entre os homens e as nações,
Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
Direitos respeitados, começando
Pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
Que mereça este nome,
Você, meu caro, tem de merecê-lo,
Tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
Mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
Cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Breves considerações linguísticas
É, não tem jeito. O modismo pegou até o Barack Obama. O momento captado pelas câmeras aconteceu durante a cerimônia (ou festa?) realizada especialmente para reunir as homenagens de líderes estrangeiros à memória de Nélson Mandela. Posicionado ao lado da primeira-ministra dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt, e de David Cameron, primeiro ministro britânico, o presidente americano e seus colegas eram só sorrisos na produção de uma “selfie”. A imagem, logicamente, foi parar nas redes sociais e ganhou o mundo pela importância das pessoas nela agrupadas e, lógico, pelo inusitado da situação. Naquele ambiente pelo menos formalmente fúnebre, os três pareciam se divertir como adolescentes. Quanto ao termo em destaque, que virou a palavra do ano (de 2013) do “Dicionário Oxford”, ele é a designação da foto feita de si próprio. Como se pode ver, não são somente os anônimos os seduzidos por seus celulares quando, entre outras tantas opções de uso desses aparelhos, fotografam-se. E há um detalhe curioso nisso: muita gente aparece nessas fotos fazendo biquinho ou fazendo careta. Por que razão será?
Um outro modismo se impondo por aí está presente na forma como muitos falantes, dirigindo-se a plateias de homens e mulheres, dizem coisas assim: “Bom dia a todos e a todas!” “Obrigado a todos e a todas!” Gostaria de saber de onde saiu esse primor de linguagem. Isso não é igualdade de gêneros. É redundância. O termo “todos” já abrange todo mundo, todas as pessoas. O “todas” está sobrando.
É oportuno dizer que boas sacadas linguísticas também surgem por toda parte. Uma prova disso pode ser vista aqui mesmo em Resende Costa no nome que o Vinícius do Tinô escolheu para o seu empreendimento. “Bequim da Carne” é ótimo por duas razões. A construção “Bequim” é mineiríssima. É fato que o mineiro, ao falar, “come as sílabas finais das palavras”, não é “mês”, ops, não é mesmo? E mais, logicamente, o endereço do citado estabelecimento comercial é um beco, o popular Beco do Barbosinha (antigo, saudoso e famoso morador do lugar), oficialmente Travessa Matilde Rios.
Outro exemplo interessante de criatividade encontrei em São João del-Rei, perto da atual rodoviária. Onde se lê: “Barbeleireiros” numa placa comercial, a julgar pelo nome, seria um salão de barbeiro, certo? Não só. Uma olhada de fora pelo interior do ponto mostra a prática do negócio: bar, ou melhor, lanchonete de um lado e barbearia de outro lado.
Situações como essas, aqui despretensiosamente comentadas, contribuem para reforçar o sempre lembrado preceito linguístico segundo o qual quem faz a língua são os falantes, não os gramáticos. Cabe a estes a observação e a análise do que é utilizado pelas pessoas como instrumento poderoso de comunicação num dado momento histórico.
Assim, considerada como fenômeno dinâmico, a língua passa por transformações, o que é natural. As alterações podem ocorrer tanto na grafia quanto no sentido de muitas palavras. Além disso, surgem termos novos (os neologismos), enquanto outros vão deixando de ser usados, até desaparecerem. Sobre essa última afirmação, um termo usado por Drummond no belíssimo poema que abre este artigo é um bom exemplo: “telegramas”. Posso garantir que entre os muitos jovens muitos nunca passaram ou receberam um telegrama. Nem sabem o significado dessa palavra, o que não é problema. É a vida que se transforma e transforma nossas ferramentas de comunicação.
Por falar em Natal
11 de Dezembro de 2013, por Regina Coelho 0
Fim de ano chegando, a história se repete. Sem que a gente se dê conta, já é dezembro. O espírito natalino se faz presente, literalmente também. É hora de presentear e ser presenteado. Suscetíveis ao clima do momento, abrimos nossos corações, abrindo ainda bolsos e bolsas, seduzidos pelos apelos massacrantes do mercado consumidor. A combinação é quase infalível. E então, como que tomados subitamente por sentimentos tão nobres como a bondade e a caridade, decidimos pela prática do bem em favor do próximo.
A bem da verdade, a movimentação que se observa em torno dessas causas beneficentes nem sempre tem motivações emocionais, digamos assim. A julgar pelas campanhas filantrópicas desenvolvidas por empresas e instituições, em época de Natal ou não, fica claro esse entendimento. Em razão dessas iniciativas sociais, ganham todos: os atendidos por elas e seus patrocinadores. Estes, para dizer o mínimo, ganham um forte marketing social, e isso é compreensível.
De um jeito ou de outro, é válido e necessário todo propósito ligado à promoção do bem comum. E em que pesem as críticas de alguns aos que fazem desse período de confraternização o único momento para o envolvimento em ações solidárias, é possível acreditar que isso pode ser um bom começo.
Não é o caso de esperar que as pessoas sejam capazes de gestos grandiosos o tempo todo. Isso é impossível. É o caso, porém, de saber transformar, ou melhor, querer transformar ações isoladas em atitudes consistentes e permanentes. Pequenas e cotidianas gentilezas que sejam já fazem uma grande diferença. Para melhor, é claro.
Bem a propósito disso, guardo na lembrança um episódio que passo a contar agora. No final da década de 80, submetido a uma cirurgia em São João del-Rei, meu pai recebeu, ainda na Santa Casa local, muitas visitas. Entre elas, naturalmente, estavam os familiares, os amigos mais próximos, os conhecidos de lá e de cá. Todos lhe desejando uma boa recuperação e apresentando seus préstimos à família. Foi quando a Terezinha do Didi, nossa conterrânea, filha do saudoso senhor Alcides Maia, e morando em São João até hoje, ofereceu-se para lavar as roupas pessoais de meus pais (minha mãe era a acompanhante principal do paciente). Ao dizer que aquilo era o que tinha a oferecer, enfatizando que era boa na lavação, ela nos comoveu, revelando seu melhor – generosidade em sua forma mais espontânea. Não foi preciso aceitar a oferta da Terezinha, que pode até não se lembrar desse fato, mas a gente não pode se esquecer de um gesto assim tão belo.
Como a maioria das pessoas, procuro desenvolver meu lado bom. Há dois anos e meio, por exemplo, pratiquei uma pequena boa ação que me rendeu eloquentes agradecimentos por parte de um casal brasileiro a quem pude ajudar. No hall de um hotel em Roma, aguardávamos o traslado para o aeroporto. Pertencíamos a grupos diferentes, eventualmente reunidos para determinados passeios, portanto, só nos conhecíamos de vista. Naquela espera ansiosa pela partida, os dois tinham uma preocupação extra: o cadeado de uma de suas malas se perdera ou estragara, qualquer coisa assim. Normalmente, já há aquela insegurança dos que despacham sua bagagem em relação a extravio e violação de malas em viagens de avião. É um absurdo isso, mas acontece com frequência. Os indefesos passageiros que tratem de proteger seus pertences como podem. No caso específico aqui narrado, para complicar, era domingo. Nas imediações, o comércio estava fechado. Com certa experiência nessas situações de viagem, por isso, prevenida, não pensei duas vezes em ceder meu cadeado reserva ao então apreensivo e depois aliviado casal. Isso fez o senhor querer comprar o bendito cadeado (no seu lugar, eu faria o mesmo). Recusei a proposta (no meu lugar, acho que ele faria o mesmo). E ficamos assim.
No dia a dia, entre os afazeres a que cada um de nós se entrega, surpreendemos e somos surpreendidos com delicadezas que nos humanizam e nos aproximam uns dos outros como semelhantes. É dessa forma que entendo e recebo mimos que muito me alegram. Como os pães de queijo que a Maria do Carmo (do Aquim), vindo pessoalmente até minha porta, trouxe para mim. Estavam tentadoramente deliciosos, Maria. Pedi ao Hamílton (da Penha) algumas mudas de gerânio e fui prontamente atendida por ele. As flores hoje estão lindas. De uma senhora do Barracão que eu mal conhecia ganhei uma planta de cravina, assim que ela soube do meu interesse por essa flor.
Tudo isso é muito bonito e é vida real, muito distante dos grandes e improváveis feitos heroicos. E não deve haver uma segunda intenção nessas e noutras tantas atitudes porque, segundo Frei Betto, “generosidade calculada é barganha”.
Beijos, abraços, sorrisos e cumprimentos contam muito, mas que não sejam só os protocolares. Declarações de amor e de amizade aos que amamos também. E principalmente a vontade de ser melhor, cada um de nós, por nós mesmos e para o bem de todos. A isso chamamos solidariedade. Um bom Natal a todos!
Plano B
13 de Novembro de 2013, por Regina Coelho 0
Falar bonito é isto
Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com os amados patos, disse-lhe:
__Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E o ladrão, confuso, pergunta:
__Dotô, eu levo ou deixo os pato?
(Dad Squarisi “Dicas de Português”, coluna publicada em 15 jornais do país, entre eles o “Estado de Minas”, de onde o texto acima e o que segue abaixo foram extraídos.)
Desafio
Pode? Não poderia. Mas pode. Folheto distribuído pelo Centro Cultural Amazonino Mendes (Bumbódromo) entrega a gregos e troianos este texto: “O Governo do Estado do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, considerando a política de popularização das ações culturais, a vocação parintinense para as artes, os municípios vizinhos do baixo Amazonas como: Barreirinha, Boa Vista do Ramos, Maués e Nhamundá, os investimentos realizados na modernização e ampliação das estruturas do Centro Cultural Amazonino Mendes e a necessidade de manter a integridade desse patrimônio e resguardar os equipamentos e acessórios instalados, transforma esse centro em espaço multiuso, destinado primeiramente ao ensino das artes e à formação de técnicos para apoio às atividades artísticas e à capacitação tecnológica de jovens e adultos com intensa atuação do Cetam e da Secretaria de Cultura”.
Ufa!
O texto tem 745 toques. E só um ponto. Testes sobre a legibilidade e a memória demonstram dois fatos. Um: o leitor retém integralmente períodos com a média de 150 toques. Com 200, guarda a primeira parte e perde a segunda. Com 250 ou mais, grande parte do enunciado se perde. Conclusão: o governo amazonense jogou dinheiro fora.
Sugestão
A Secretaria de Cultura do Amazonas transforma o Centro Cultural Amazonino Mendes em espaço multiuso. Trata-se de passo importante do governo do estado na direção da política de popularização das ações culturais. Com ele, cria-se espaço para o ensino das artes e a formação de técnicos aptos a apoiar as atividades artísticas e a capacitação tecnológica de jovens e adultos.
(Dito o principal, suprimi, por minha conta, os detalhes.)
Estórias com Moacyr
Moacyr Scliar estava preocupado porque seu filho adolescente não lia. O menino vivia no computador. Mas ler que era bom, nada. O pai escritor, volta e meia, insistia: “Filho, você precisa ler”. Não tinha jeito. Um dia, Moacyr resolveu radicalizar: escreveu um livro e lascou lá que era dedicado ao filho. Chegou em casa com o exemplar saído do forno da editora, entrou pressuroso, bateu na porta do quarto do filho... Lá estava o adolescente diante do computador. O pai então anuncia o presente:
__Filho, olha o livro que teu pai acabou de publicar, é dedicado a ti.
O garoto nem tirou os olhos do computador e disse ao pai:
__Tu não podias fazer um resumo, tchê?
(Affonso Romano de Sant’Anna, em sua coluna publicada no “Estado de Minas” de 9 de dezembro de 2012.
Escritor gaúcho, Moacyr Scliar era formado em medicina, tendo trabalhado como médico especialista em saúde pública e professor universitário.
Em texto postado quando o amigo se foi, Affonso Romano comenta ter participado em Porto Alegre de programa de rádio homenageando Scliar. Na ocasião, entre casos e depoimentos, um bonito poema de Affonso Romano foi mencionado para ser dedicado àquele que partira. Aqui vai ele):
Eles estão se adiantando
Eles estão se adiantando, os meus amigos
Sei que é útil a morte alheia
Para quem constrói seu fim.
Mas eles estão indo, apressados,
Deixando filhos, obras, amores inacabados
E revoluções por terminar.
Não era isto o combinado.
Alguns se despedem heroicos,
Outros serenos. Alguns se rebelam.
O bom seria partir pleno.
O que faço? Ainda agora
Um apressou seu desenlace.
Sigo sem pressa. A morte
Exige trabalho, trabalho lento
Como quem nasce.
Envolvida no trabalho de revisão do “Memórias do antigo Arraial de Nossa Senhora da Penha de França da Laje, atual cidade de Resende Costa”, do resende-costense Juca Chaves, a ser lançado brevemente, acionei meu Plano B para compor o presente artigo. Para isso apropriei-me de alguns textos alheios com os devidos créditos e breves explicações minhas colocadas entre parênteses.
Em tempo – A obra em questão é parte integrante da Coleção Lageana, projeto desenvolvido pela AMIRCO (Associação dos Amigos da Cultura de Resende Costa).
Utilidades mil
15 de Outubro de 2013, por Regina Coelho 0
Anexos às revistas AVON, aquelas que anunciam tradicionais produtos de beleza, catálogos da mesma empresa intitulados “Moda e Casa”, da mesma forma, oferecem uma grande variedade de artigos a uma clientela presente em salões de beleza e também procurada em casa. Esse sistema de venda que dispensa loja, daí ser chamado de porta em porta e que tem as revendedoras ou consultoras como responsáveis pelo contato direto com o público consumidor, quase que totalmente feminino, movimenta cifras impressionantes. Ao mesmo tempo, garante o sustento de muita gente numa verdadeira ciranda de envolvidos com esse tipo de negócio.
Compartilho com minha amiga e comadre Moreira o gosto pelo manuseio dessas populares peças de propaganda que vendem quase tudo. Nada mais relaxante. Entregues a provas, trabalhos e leituras próprios do nosso ofício comum, líamos ou víamos aquelas alegres e sugestivas ofertas com prazer. Era uma boa pausa em meio a tanta correria por conta de nossos inúmeros compromissos profissionais. E continua sendo assim para nós duas.
Pois bem. Muito menos consumidora do que observadora, resolvi fazer uma seleção atual de produtos que me chamam a atenção por algum motivo qualquer. De cara, destaco o “Relógio Musical Pássaros”, segundo o anúncio da revista em questão, um “sucesso de vendas” no Brasil. O texto esclarece ainda que, a cada hora, uma linda melodia de diferentes pássaros, com duração de 7 a 10 segundos, poderá ser ouvida, lógico, do tal relógio. Educado, ele não soará entre 22 e 5 horas da manhã.
Pesquisando ainda no já citado “Moda e Casa” e em seus similares, descobri objetos protetores variados: para ombros (proteção feminina para alças de sutiã), de dedos (para o corte de legumes, carnes...), de canto (afixado em quinas de mesas, armários...), de porta (para não bater), de alimentos, (na verdade, uma tampa que, aberta, parece uma sombrinha). Na linha dos itens que portam coisas, há o porta-metades com “gancho para encaixar na grade da geladeira”, o porta-objetos (para variar a bolsa), o porta-fios (uma alça de elástico), o porta-trecos (deve abranger tudo) e o incrível porta-rolo de papel higiênico com revisteiro. Ao lado de produtos já consagrados como a chaleira ou a leiteira com apito e a lixeira com pedal, aparecem invencionices como a queijeira com canaleta coletora de líquidos, a almofada-bandeja para netbook, o cortador de unha com lupa, a cortina para box com visor e o avental divertido. Divertido? Nos dois modelos oferecidos, uma mulher e no outro um homem são reproduzidos em trajes sumários. No segmento infantil, é impossível não observar o troninho-elefante (o antigo peniquinho) e a joelheira-baby, “atoalhada, antiderrapante”. Que fofos!
Minha relação de artigos de utilidade doméstica compreende ainda o assento massageador, a escova de banho para as costas, a munhequeira (“espaço com fechamento em zíper para guardar dinheiro ou chave”), o descanso de talher e tampa, o separador de ovos (melhor seria se fosse o separador da clara e da gema), o aparador men (“apare pelos do nariz e da orelha”), o organizador de controle remoto e a sapatilha flex (dobrável).
Entre tantas opções de compra para isso ou para aquilo, algumas são uma roubada. Uma delas é um certo porta-notas e cartões que, minúsculo, só serve mesmo como porta-moedas. Outra coisa meio esquisita é o miniporta-foto 3x4 com ímã. E tem ainda o cortador de batata palito cujas lâminas se soltam facilmente impedindo que as batatas sejam cortadas devidamente. Deixando um pouco de lado as vendas de variedades por catálogos, é quase obrigatório citar também a alça para abrir certas latas de sardinha e, em algumas embalagens, o picotado que serviria para abri-las e não abre como exemplos de coisas que não funcionam direito. No caso do “abre fácil” mencionado na lata, pode até ser, mas quanta sujeira pode fazer! Uma boa ideia (não é a 51), em compensação, é a tampa-proteção na abertura das latas de cerveja Itaipava, ao que parece, uma exclusividade da marca.
De volta às simpáticas revistas, elas são mesmo um sucesso. E correm de mão em mão a cada nova campanha lançada no mercado. Ofertas úteis ou nem tanto, muitas vezes compradas por impulso, sempre apresentadas por alguém ou até ignoradas por quem torce o nariz para o que é popular, certo mesmo é que é quase impossível, principalmente para a mulherada, deixar de pelo menos “dar uma olhada” naquela quantidade absurda de produtos e de fazer um pedido de compra que seja, só pra não perder o costume. Pode-se dar a isso os nomes de leve terapia ou de inofensivo consumismo.
Falar em utilidades do lar me fez lembrar o “Da utilidade dos animais”, belo texto de Drummond, extraído da obra “De notícias e não notícias faz-se a crônica”. A lembrança não se justifica pelo tema do presente artigo, mas pela permanente e verdadeira utilidade da leitura de CDA, no mês em que nasceu nosso poeta maior. Fica a dica. E de graça!