Contemplando as Palavras

Salada linguística no cardápio da Copa

16 de Julho de 2014, por Regina Coelho 0

“Excuse-me, aí.” Agente de trânsito, brasileiro, abordado por repórter do jornal Folha de São Paulo que se passou por turista estrangeiro.

“Muito obrigada a ocê!” Paula Marizales, arquiteta colombiana, interrompendo seu almoço tipicamente mineiro num restaurante na Savassi, em Belo Horizonte, para conversar com repórter local, ao lhe agradecer a entrevista, arriscando imitar o sotaque mineiro.

As situações acima podem ser multiplicadas em muitas outras parecidas que se observaram no país durante a Copa de 2014 no quesito comunicação. De um lado, postam-se os donos da casa, que se viraram do jeito que puderam para receber as visitas, valendo, por exemplo, juntar o inglês com o português, mesmo sendo um teste, como no primeiro caso. Do outro lado, colocam-se os visitantes, que não fizeram por menos, incorporando, por exemplo, até regionalismos, como se vê no segundo caso.

É verdade que esse período de convivência envolvendo brasileiros e estrangeiros não se resumiu a esforços pessoais e atitudes simpáticas de lado a lado no intuito de se fazerem entender principalmente por palavras e outros artifícios como gestos e expressão facial, que são mecanismos naturais de comunicação. Desencontros linguísticos foram inevitáveis pela própria natureza globalizada do encontro de tantos falares, ainda que, nos dias atuais, tenham sido encurtadas as distâncias entre os idiomas e entre seus falantes motivadas pela própria globalização.

Quando se trata especialmente da comparação entre o português e o espanhol, idiomas tidos como próximos e falados por onze seleções do Mundial 2014 e suas torcidas – Brasil e Portugal (português), Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Espanha, Honduras, México e Uruguai (espanhol), algumas considerações são necessárias. Segundo a chilena Sara del Carmen Rojo de la Rosa, professora da Faculdade de Letras da UFMG, “brasileiros e hispanos acham que podem falar a outra língua com facilidade, mas isso é falso. Essa semelhança é como uma armadilha. A palavra exquisito, por exemplo, significa uma delícia. Se um hispano falar que a comida está exquisita, o brasileiro vai entender outra coisa”. Além disso, há os falsos cognatos, termos de ortografia idêntica ou quase, mas com significados diferentes em cada uma das duas línguas. Vejamos alguns deles com seus respectivos significados em espanhol: aceitar (pôr azeite, passar óleo), aderezo (tempero), apellido (sobrenome), cuello (pescoço), embarazada (grávida), largo (comprido) e vaso (copo). Além disso, os termos têm sutilezas semânticas muitas vezes difíceis de captar quando alguém não é nativo do país. “As palavras têm uma história cultural. Vão além do que significam no dicionário. Em português, por exemplo, quando se fala que uma mulher é bonitinha, sabemos que ela não é maravilhosa ou superbonita. Já um hispano não consegue entender isso”, explica a professora Sara de la Rosa. Na falta de um conhecimento mais aprofundado de uma ou outra língua, as pessoas costumam apelar para o “portunhol”, uma “língua” intermediária entre o português e o espanhol, o que pode complicar a boa comunicação entre os envolvidos, já que costuma ser mais difícil de ser entendido.

E como se não bastasse a mistura de línguas, uma verdadeira babel em que se transformou o Brasil nas cidades que receberam os jogos da Copa, torcedores estrangeiros e brasileiros tiveram de conviver ainda com as diferenças linguísticas regionais presentes no país. Nesse ponto, contribuímos com o “mineirês”. Na percepção do argentino Gustavo Román, que é morador de BH, “aqui (em Minas) falam rápido, cortam as palavras. Falam pela metade, tudo mais curto, reduzido”. E ele tem razão. E nós também, que assim sendo, conservamos um traço natural da nossa identidade mineira.

De tudo o que aqui foi exposto, interessa, acima de tudo, ver a Copa do Mundo como uma época de troca, de interação entre todos de alguma forma nela envolvidos, independentemente das bandeiras que carreguem. E que as barreiras linguísticas sejam sempre quebradas em nome da boa aproximação e do necessário entendimento entre as pessoas. Nesse sentido, somos todos vencedores.

Para finalizar, lanço mão do depoimento de Sirlene Afonso, barraqueira em Copacabana, Rio, um dos redutos de torcedores do exterior durante a Copa. Seu comentário sobre o diálogo que manteve com um desses turistas resume com perfeição o alegre e caloroso espírito brasileiro de tratar as visitas. De quebra, com direito a uma leve investida no inglês e aquele tom professoral de quem tem sua própria dica e a ensina para os interessados na conversa com os estrangeiros. Vamos a ele:

“ - Um gringo veio me pedindo four (quatro) ‘caipiranha’, aí eu ri muito e disse ‘é caipirinha!’ Se falar pausadamente, eles aprendem e entendem.”

PS: No embalo da onda recente de estrangeiros passando pelo Brasil, na edição de agosto, a coluna tratará da presença deles a passeio em Resende Costa.

Papo de bola

13 de Junho de 2014, por Regina Coelho 0

Decorridos 64 anos, o Brasil volta a sediar uma Copa do Mundo, que já tem bola rolando nas 12 cidades escolhidas para receber os jogos. E é claro, nesse período de tempo, muita coisa mudou. Polêmicas e protestos envolvendo a realização desse gigantesco evento no país deixados momentaneamente de lado, quase tudo hoje é diferente. E se assim é, que no confronto final dê Brasil, diferentemente do que ocorreu no fatídico 16 de julho de 1950, quando a seleção brasileira caiu diante da seleção uruguaia em pleno Maracanã, aliás, Maracanazo (em espanhol). Esse termo foi usado pelos uruguaios em referência à partida que decidiu a Copa daquele ano a favor deles e é uma espécie de gozação dos hermanos a nós.

E foi justamente o Maracanã o maior símbolo daquela Copa. Com capacidade para receber quase 10% da população do Rio de Janeiro em 1950, conforme censo da época, o estádio foi comparado ao Coliseu (de Roma) pelo então presidente da Fifa, Jules Rimet, durante visita às obras em 1949. Cinco construtoras e 3500 operários levantaram o maior estádio do mundo em apenas 22 meses. Entre os trabalhadores estava o saudoso resende-costense Vicente (do Zé Brás), que certa vez me disse sentir o maior orgulho disso. A rapidez com que o Maracanã foi construído, que foi inaugurado ainda inacabado e cheio de andaimes (qualquer semelhança com as obras da Copa atual não é mera coincidência), fez com que muitos moradores do Rio temessem que a obra tivesse problemas estruturais e não resistisse ao primeiro jogo. Para tranquilizar a população, 3 mil funcionários foram convocados para pular simultaneamente nas arquibancadas, antes da abertura do torneio.

Histórica derrota consumada em casa, quiseram os deuses do futebol que o Brasil se sagrasse campeão longe da torcida – em 58, na Suécia, repetindo a façanha no Chile em 62 e trazendo do México, em 1970, o tricampeonato. E se até então os torcedores do Brasil acompanhavam os jogos da seleção canarinho apenas pelo rádio, em 70, a Copa do Mundo foi transmitida pela tevê, ao vivo, pela primeira vez para o país todo, via Embratel. Na ocasião, pouquíssimos e privilegiados telespectadores no Rio, em São Paulo e em Brasília puderam assistir às partidas em cores através de transmissões experimentais desse sistema.

Particularmente, guardo algumas lembranças da conquista do tri. Uma delas me remete aos dias dos jogos do Brasil. Em nossa casa, os bancos compridos da varanda eram levados para dentro de casa e colocados como arquibancadas em uma sala, diante da televisão, para receber a torcida que ali se reunia – meus pais, eu e meus irmãos, alguns vizinhos e conhecidos. Ver Pelé, Tostão e o time todo jogando era uma festa para os nossos olhos.

E não é que o Tostão, um dos maiores craques do futebol de todos os tempos, veio parar aqui em Resende Costa? Isso se deu em 1968, quando ele foi paraninfo de uma turma do antigo Ginásio Nossa Senhora da Penha. Foi aquele alvoroço na cidade a chegada dele. Pelo que se sabe, o intermediário de sua vinda a Resende Costa foi o Dr. Geraldo Magela Resende, de quem o genial jogador havia sido aluno no Municipal da Lagoinha.

Craques vão, craques vêm, mesmo havendo, para os saudosistas do futebol, carência deles atualmente no Brasil. Mas é fato que num país de tanta tradição como o nosso, em tempos de Copa do Mundo, tudo gira em torno dessa competição, assunto em pauta na maioria das conversas. O entusiasmo dos brasileiros com tudo isso, no entanto, não tem sido lá essas coisas.

Sucesso mesmo são os álbuns de figurinhas dos jogadores das seleções participantes espalhados por aí, uma verdadeira febre entre os fãs da prática de colecionar figurinhas (ou cromos) e completar os tradicionais álbuns. Logo, logo, começam a aparecer os bolões esportivos feitos de modo informal, principalmente pela molecada. A esse respeito, meu irmão Elmo me contou ter sido um desses garotos na Copa de 1962, ao organizar um bolão para o Brasil X Tchecoslováquia (atual República Tcheca e Eslováquia), jogo da primeira fase disputado no dia 2 de junho, com o placar de 0 X 0, que não foi bancado por apostador algum. Mas, segundo o Elmo, nosso pai não permitiu que ele ficasse com o dinheiro todo do bolão, convencendo-o a repassar para a Conferência de São Vicente de Paula a porcentagem anteriormente destinada a quem acertasse o resultado do tal jogo. Coisas de um vicentino daqueles bem convictos.

Ainda e finalmente no campo dessas curiosidades, segue abaixo a lista dos slogans que vão rodar pelo país afixados aos ônibus das 32 equipes do Mundial 2014:

Alemanha

Um país, um time, um sonho.

Argélia

Guerreiros do deserto no Brasil.

Argentina

Não somos um time, somos um país.

Austrália

Socceroos: pulando nosso caminho para a glória.

Bélgica

Espere o impossível.

Bósnia

Dragões no coração, dragões em campo.

Brasil

Preparem-se o hexa está chegando!

Camarões

Um leão sempre será um leão.

Chile

Chi, chi, chi, le, le, le, Viva Chile!

Colômbia

Aqui não viaja uma equipe, viaja um país.

Coreia do Sul

Vamos nos divertir, Vermelhos!

Costa do Marfim

Elefantes rumo ao Brasil.

Costa Rica

Minha paixão é futebol, minha força é meu povo, meu orgulho é Costa Rica.

Croácia

Com fogo em nossos corações, pela Croácia, todos por um.

Equador

Um compromisso, uma paixão, um coração. Isto é por você, Equador.

Espanha

Dentro de nossos corações, existe a paixão de um campeão.

Estados Unidos

Unidos por um time, guiados pela paixão.

França

Impossível não é uma palavra em francês.

Gana

Estrelas Negras: aqui para iluminar o Brasil.

Grécia

Os heróis jogam com os gregos.

Holanda

Homens de verdade vestem laranja.

Honduras

Somos um povo, uma nação, cinco estrelas no coração.

Inglaterra

O sonho de um time, as batidas do coração de milhões.

Irã

Honra da Pérsia.

Itália

Vamos pintar o sonho da Copa do Mundo de azul.

Japão

Samurai, chegou a hora de lutar.

México

Sempre unidos, sempre astecas.

Nigéria

Só juntos podemos vencer.

Portugal

O passado é história, o futuro é a vitória.

Rússia

Ninguém pode nos capturar.

Suíça

Estação final: 13/07/2014 – Maracanã.

Uruguai

O sonho de três milhões... Vamos, Uruguai!

 

 

E viva a voz!

15 de Maio de 2014, por Regina Coelho 0

dos atributos relacionados ao ser humano, a voz situa-se entre os mais marcantes. Isso porque cada pessoa possui uma voz única e especial. É como se fosse uma impressão digital. É claro que existem vozes parecidas, principalmente entre parentes mais próximos. Cabem aqui os imitadores de vozes de famosos ou de amigos. Nesse caso, a imitação costuma vir acompanhada de todo um trabalho de composição envolvendo gestos, expressão facial, vestuário e, é lógico, a voz. Quando se trata de imitar um artista cantando, isso tudo já foi observado, sem contar o texto pronto, ou melhor, a letra da música decorada, o que parece facilitar as coisas. Mais complicado deve ser “criar” a fala de alguém, com seu discurso característico e suas marcas próprias nem sempre tão óbvias, como a ondulação da voz, a velocidade dela ou a preferência inconsciente por certas expressões. Certo mesmo é que essa habilidade é muito interessante, um dom exercido com maestria por muitos, aqui em Resende Costa também, é claro.

Bem próximo de nós, dando vida ao Jornal das Lajes, o André (nosso editor-chefe), pode ser apontado como um bom imitador. Fazendo dobradinha com ele nas sessões das segundas-feiras promovidas pela Turma do Baú (no sítio do Dr. Luiz), o Duda (meu primo) não deixa por menos. Sei que o Bacarini e o João Magalhães (colega do jornal) são dois dos imitados pela dupla. Segundo o Duda, para compor o, digamos assim, personagem, a inspiração vem na hora e é uma homenagem ao imitado, que muitas vezes não gosta nada dessa brincadeira.

Classificada formalmente como infantil, feminina adulta ou masculina adulta, a voz humana ganha dos próprios falantes outras qualificações bem curiosas. Nesse sentido, há, por exemplo, a voz de taquara rachada (desagradável ao ouvido, desafinada), a esganiçada (estridente, um pouco como o ganido de um cão), a de veludo (macia), a cavernosa (profunda, como se saísse de uma caverna), o vozeirão (muito grave e forte) e a voz sexy ou sensual, entre tantos outros tipos.

A propósito dessa última classificação, há quem afirme ser a voz elemento importante na conquista amorosa. Será verdade? Na minissérie Hilda Furacão, adaptada por Glória Perez do romance homônimo de Roberto Drummond (saudoso escritor mineiro) e exibida pela Globo em 1998, essa situação é mostrada exemplarmente. Os envolvidos são Emecê (Sérgio Loroza) e Gabriela M. (Tereza Seiblitz). Ele, um radialista, deixa a mocinha do interior fascinada pela beleza de sua voz. Julgando-se apaixonada, ela passa a lhe telefonar. Tudo caminha para um encontro amoroso. Emecê, rapaz tímido e gordo, contrata Aramel, o Belo (Thiago Lacerda) para representá-lo. O desenlace dessa história? É melhor conferir o trabalho da autora.

Deixando de lado a ficção e relativizando a importância da voz nas questões amorosas ou ainda desconsiderando-a, o mesmo não se pode dizer em relação a uma parcela significativa da população que depende diretamente da voz para trabalhar. É muita gente ganhando a vida no gogó. São repórteres, apresentadores de TV, cantores, atores, dubladores, professores, operadores de telemarketing, locutores...

Sem perder tempo, destaco nominalmente três representantes dessa turma aí acima: Paulo Goulart, José Wilker e Luciano do Valle. Além do indiscutível talento profissional que os marcou, eles se destacaram também por uma qualidade comum incomparável: a beleza vocal com a qual encantaram nossos ouvidos. Por triste coincidência, quase ao mesmo tempo, recentemente esse trio de vozes personalíssimas se calou para sempre. Ficamos, assim, sem o brilhantismo do Paulo Goulart e do Wilker na narração de documentários em muitas propagandas institucionais. E sem a competência do Luciano na locução inconfundível de inúmeras transmissões esportivas da tevê. Que pena!

Assim é a vida, com suas vozes que continuam a ecoar por todas as partes. Na fala ou no canto, todas elas são legítimas, mas não se pode negar que as vozes que cantam se tornam especiais. Se afinadas e bonitas, tanto melhor. Fica valendo, porém, o direito de todo mundo a soltar a voz. No banheiro, nos canteiros de obras, nos shows, nos estádios, nos cultos, nas festas...

 

Nesse embalo todo, não posso perder a oportunidade de parabenizar a Elzi, que trabalha para a Aleluia (minha vizinha), pelas vezes que eu a ouvi cantar de forma tão linda. Muito bom também foi escutar, num desses dias perdidos no calendário, o Camilo “Bananeira” cantando com toda segurança a Ave Maria de Gounod, ao passar bem cedo em frente à minha casa. Outro momento interessante é proporcionado pela dupla Lourenço e Leonel. Em programa da Rádio Inconfidentes, eles comandam animada cantoria ao vivo alegrando nossas manhãs de sábado com vozes de verdade, sem truques ou estrelismos tão comuns hoje.

Sob censura (Final)

16 de Abril de 2014, por Regina Coelho 0

O clima de Copa do Mundo já está literalmente no ar. Das muitas propagandas alusivas ao evento exibidas atualmente pela tevê, algumas belíssimas como a da Sadia, com a criançada que ainda não viu o Brasil campeão pedindo o título, ou outras com o onipresente técnico Felipão, a do cartão Mastercard tem um quê de passado representado pela música que compõe a peça. Com adaptação aos dias de hoje, por exemplo, sem os “noventa milhões em ação” do início da letra, o Pra frente, Brasil, de Miguel Gustavo, que foi o verdadeiro hino que embalou a torcida brasileira na conquista da Copa de 70 no México, aparece com destaque.

Naquele ano, o Brasil vivia tempos da ditadura militar, que soube tirar proveito do tricampeonato ganho em junho. A população era massificada pela propaganda institucional nos meios de comunicação, que ou eram ameaçados pela censura, ou patrocinavam aquele regime de exceção com programas muito bem elaborados como o Amaral Neto, o repórter e os programas de Flávio Cavalcanti, entre outros, com audiência de até dez milhões de telespectadores em horário nobre, número muito expressivo para a época. Marcada por um forte tom de aventura, por imagens impactantes e pela exaltação patriótica e ufanista dos temas abordados, a atração comandada por Amaral Neto teve duração de 15 anos (1968-1983). Sobre Flávio Cavalcanti, apresentador-símbolo da TV nos anos 70, com registro de 70% de audiência e representando um terço do faturamento da TV Tupi, sabe-se que ele ficou conhecido também pela sua ligação com a doutrina política que orientou o regime militar, mesmo tendo tido alguns problemas com o mesmo.

O propósito de enaltecer as maravilhas e a grandeza do país era reforçado por canções de ufanismo como Eu te amo, meu Brasil (com Dom e Ravel) e Este é um país que vai pra frente (com Os incríveis), entre tantas. Slogans ostentados em objetos e em carros não deixavam dúvida sobre o recrudescimento do período. Brasil – ame-o ou deixe-o e Quem não vive para servir ao Brasil não serve para viver no Brasil são dois famosos exemplos disso.

Do outro lado desse cenário de aparências, a situação era bem diferente. Trabalhando sob censura, artistas vinculados à produção musical enfrentavam sérias dificuldades na aprovação de suas músicas. “A cada 12 canções que eu fazia, 7 eram censuradas”, queixa-se hoje o cantor e compositor Odair José, autor da então ousada Pare de tomar a pílula. Segundo os censores, suas músicas iam contra a moral e os bons costumes, preceitos considerados sagrados pelos militares. Um caso curioso foi a censura imposta a Waldick Soriano por Torturas de amor, música barrada provavelmente apenas pelo título, muito bonita por sinal, e que começa assim: hoje que a noite está calma / e que minh’alma esperava por ti / apareceste afinal / torturando este ser que te adora... O problema estava na palavra “torturas”. No caso, nada a ver, ao que parece, com a situação daquele momento político.

Se a mão pesada da censura não poupava nem os compositores do chamado gênero brega, que eram tidos como alienados, o controle sobre os politicamente mais engajados, por certo, era ainda mais rigoroso. Como estratégias de resistência e de protesto, alguns desses artistas se viram obrigados a lançar mão de ambiguidades (duplo sentido nas letras) e de metáforas para a aprovação de seus textos junto aos censores. Em Cálice, composição de Chico Buarque e Gilberto Gil, o próprio título pode ser entendido como “cale-se”, numa referência à falta de liberdade de expressão naqueles sombrios anos. No contexto da letra, o mesmo termo sugere sofrimento em verso inspirado nas palavras de Jesus: “Pai, afasta de mim este cálice”. Na exemplificação do sentido metafórico ou figurativo apreendido de muitas letras, a comovente O bêbado e o equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, é a síntese perfeita de um país vivendo difíceis anos de autoritarismo.

 

Em 1968, o III Festival Internacional da Canção entrou para a história da MPB pela tônica de protesto ao regime militar, tanto nas canções como na reação do público. Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, venceu o festival, a despeito das vaias da plateia, que preferia Pra não dizer que não falei de flores (ou Caminhando), de Geraldo Vandré, que ficou em segundo lugar. Também intérprete da canção que incitava o povo a reagir e não esperar acontecer (Vem, vamos embora / que esperar não é saber / quem sabe faz a hora / não espera acontecer...), tornando-se um símbolo contra a ditadura, Vandré foi perseguido pelo regime, sendo obrigado a exilar-se.

Sob censura (I)

12 de Marco de 2014, por Regina Coelho 0

Conforme acepção extraída do Dicionário Houaiss de língua portuguesa, entende-se basicamente por censura o “exame a que são submetidos trabalhos de cunho artístico ou informativo, geralmente com base em critérios de caráter moral ou político, para decidir sobre a conveniência de serem ou não liberados para apresentação ou exibição ao público em geral”.

A proximidade do aniversário de 50 anos do Golpe Militar de 31 de março de 1964 no Brasil coloca em pauta o termo em questão para lembrar o período de 21 anos marcado, entre outros aspectos, pelo cerceamento à liberdade de expressão. Nesse sentido, uma severa política de censura imposta a jornais, revistas, livros, peças de teatro, novelas, filmes, músicas e outras formas de expressão artística foi empreendida principalmente no governo Médici (1969 - 1974), período conhecido como os “anos de chumbo” por ser considerado o mais repressivo dos governos militares.

Ressaltando que inicialmente poucos jornais se opuseram ao golpe, havia a censura prévia, que era exercida de duas formas. Ou uma equipe de censores instalava-se permanentemente na redação dos jornais e das revistas para decidir o que poderia ou não ser publicado, ou os veículos de comunicação eram obrigados a enviar antecipadamente o que pretendiam publicar à Divisão de Censura do Departamento de Polícia Federal, em Brasília. Para driblar os censores, a mídia impressa lançava mão de algumas estratégias. “O Estado de S. Paulo”, por exemplo, que em 1964 apoiara o que considerava um movimento militar legítimo, passou a ser censurado mais tarde pela mudança de posição em relação ao mesmo regime. O recurso para tal arbitrariedade foi a denúncia cifrada através da publicação de poemas de Camões e receitas culinárias no lugar das notícias proibidas. Usando humor e irreverência, “O Pasquim”, semanário editado de 26 de junho de 1969 a 11 de novembro de 1991 e reconhecido por seu papel de oposição ao regime militar, marcou época. Em novembro de 1970, a redação inteira do jornal foi presa depois que o hebdomadário (como o semanário se definia) publicou uma sátira do célebre quadro “Independência ou morte”, de Pedro Américo.

Problemas sociais e econômicos também tinham divulgação restrita, de modo a que fosse evitado qualquer estrago à imagem do país. Prova disso foi a censura imposta ao noticiário referente à epidemia de meningite que ocorreu no Brasil em 1974. Para fazer valer ainda mais seus métodos de repressão, o governo se utilizava da pressão econômica retirando dos órgãos de imprensa que o contrariavam a publicidade das empresas estatais. Em 1970, o “Jornal do Brasil” perdeu 15% de sua receita, sendo obrigado a “negociar” com os militares, isto é, a amenizar sua postura crítica em relação ao poder. Nesse embate velado, um personagem e seu bordão determinavam o tom prevalecente na época. Armando Falcão era o homem do “Nada a declarar”, frase que caracterizou sua relação com a imprensa. Como ministro da Justiça do governo Geisel (1974 - 1979), ele se recusava a comentar qualquer assunto considerado confidencial, polêmico ou delicado. De sua criação, a Lei nº 6339, de 1º de julho de 1976, logo batizada de “Lei Falcão”, passou a limitar o acesso dos candidatos ao rádio e à televisão no horário eleitoral, transformando-o numa mera apresentação de breves currículos individuais. A ideia era impedir as críticas ao governo e o consequente avanço da oposição.

Assim como a imprensa, o teatro e a música popular também estiveram na mira da Divisão de Censura. No entanto, por ter se tornado o veículo de comunicação de maior público nas décadas de 1960 e 1970, a televisão, em especial, não pode deixar de ser considerada, particularmente no que se refere às novelas, seu produto mais popular. Submetidos à censura prévia, os capítulos tinham cenas cortadas e trechos alterados, sendo praticamente reescritos pelos censores, o que resultava muitas vezes na adulteração do sentido original que o autor tinha pretendido lhes dar. Sinalizando a radicalização no setor, a primeira versão de “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, foi simplesmente proibida em 1975.

 

A desobediência às regras do governo podia resultar no afastamento ou na demissão de funcionários, o que aconteceu com um superintendente de produção e programação da TV Tupi (hoje extinta), por ter mostrado no ar, durante um capítulo da novela “O Profeta”, de Ivani Ribeiro, a figura de D. Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, que militava ativamente na luta pelo respeito aos direitos humanos. A vigilância sobre a programação dos canais de tevê chegou a atingir o irreverente apresentador Chacrinha e suas famosas e rebolativas chacretes. Uma praxe da época abrindo as apresentações na televisão era a exibição de um certificado de censura contendo os dados da empresa de comunicação responsável pelo programa a ser mostrado. O documento vinha rubricado pelos censores de plantão. Entre eles, Solange Hernandes (e sua famosa tesoura), um dos nomes mais emblemáticos da censura no país. Era essa gente que cortava tudo o que julgasse ofensivo ao governo ou contrário à moral e aos bons costumes. Sob a ótica deles, é claro.