Contemplando as Palavras

Dia internacional da mulher

14 de Marco de 2010, por Regina Coelho 0

Todos nós conhecemos de sobra a força do apelo comercial presente em certas datas do calendário. Por si próprios carregados de emoção e significado, esses momentos são explorados exaustivamente pelo sistema capitalista em que vivemos. De recente memória, o Natal não nos deixa mentir. Anunciado e propagado como festa maior da cristandade, ele mexe com o bolso e o coração de milhões de pessoas. Misturado a tantas compras, pode surgir um desejo de ser bom, algo como fazer alguma coisa bacana por alguém, ou então simplesmente cumprir uma função social. Não dá para esquecer também o 12 de outubro, que soa como mágica para as crianças, o que faz muitos olhinhos brilharem de alegria em razão dos brinquedos, guloseimas e brincadeiras a elas especialmente oferecidos nesse dia. E como ignorar o segundo domingo de maio, o das mães, lembram-se? Afinal de contas, ninguém merece mais agradecimento e respeito do que elas, as antigas rainhas do lar, hoje sufocadas no desempenho de múltiplos papéis na sociedade. Seja lá da maneira que for, o fato é que quase todo mundo se rende ao encanto ou mesmo à imposição dessas datas.

Diferentemente dos exemplos expostos acima, há aqueles casos que não rendem dinheiro, não envolvem necessariamente cifras astronômicas, mas rendem boa discussão, como ocorre com datas tidas como não comerciais (dia do índio, da árvore, do professor, da consciência negra...).

Curiosamente, há quem questione ter que haver uma data específica para isso ou para aquilo, quando o ideal seria que as causas embutidas nessas comemorações fossem motivações naturais, diárias ou constantes. Costumam não ser. E se isso não acontece ainda, é porque precisamos de ocasiões especiais para a reflexão sobre nossas ações cotidianas.

Tudo isso me veio a propósito do Dia Internacional da Mulher. Celebrado em oito de março, ele tem origem nas manifestações femininas por melhores condições de trabalho e direito de voto, no início do século XX, na Europa e nos Estados Unidos. A data foi instituída pelas Nações Unidas em 1975, para lembrar tanto as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres, como as discriminações e as formas de violência a que muitas delas ainda estão sujeitas em várias partes do mundo.

Em se tratando do Brasil, onde a presença das mulheres no mercado de trabalho é significativa e grande parte das famílias tem comando feminino, essa situação é ainda injusta, uma vez que nossas trabalhadoras, em relação aos homens, recebem salários menores, pelo mesmo serviço. Se as mulheres ocupam atualmente parte maior das vagas nas boas instituições públicas de ensino, inclusive em cursos antes praticamente restritos aos rapazes, ou se mostram competência ao serem aprovadas em muitos dos concursos mais concorridos do país, o mesmo não ocorre na política. Nessa área, a participação das mulheres não é condizente com o tamanho do eleitorado constituído por elas. Mesmo considerando possíveis candidaturas femininas para as eleições deste ano, incluindo a presidencial, o mundo político parece não ter seduzido ainda grande parte das eleitoras brasileiras.

Um outro aspecto dessa questão diz respeito a atitudes criminosas contra as mulheres, muitas delas vítimas eternas de companheiros truculentos e covardes, quando não são simplesmente assassinadas. Nem mesmo nossa pacata Resende Costa se salva nessa estatística. Que o diga o caso da moça Daniela, só para ficar no crime mais recente. E o que dizer dos maníacos sexuais agindo com requintes de crueldade e causando pânico a todos nos locais onde agem?

Mas voltemos ao lado bonito da vida, à convivência harmoniosa entre homens e mulheres, tão diferentes entre si, ao mesmo tempo iguais como seres humanos. Voltemos ao tempo da delicadeza!



Nas águas do Rio Santo Antônio

Não posso deixar passar a oportunidade de cumprimentar o compositor Wander Morais, autor do grande sucesso que embalou o Bloco Cabeção 2010. Apresentando um ritmo contagiante, sua música caiu no agrado geral. Quanto à letra, atualíssima.

Devo dizer apenas que não me surpreendi com o feito do Wander, pois já o conheço de outros carnavais, sendo assim, testemunha do seu grande talento musical.

S.O.S. Saúde Pública

11 de Fevereiro de 2010, por Regina Coelho 0

Do inacabado e abandonado prédio do Cardiominas em Belo Horizonte, surgiu o moderno e imponente Centro de Especialidades Médicas, cenário de muitas histórias de vida que envolvem aqueles que para lá se dirigem em busca do mesmo objetivo: a recuperação da saúde ou parte dela.

O nosso destino agora é o setor de ortopedia, especificando melhor, o de joelho. Os corredores são amplos e funcionam como sala de espera. E que espera! Claro, há cadeiras para todos, inclusive para acompanhantes, minha situação naquele dia. Aliás, pela própria condição de quem aguarda pelo médico, é quase impossível chegar ao consultório sem a ajuda de alguém, o que faz crescer bastante o número de pessoas no local.

Iniciado o atendimento médico, cada um trata de se ajeitar em seu lugar da melhor maneira possível, enquanto aguarda sua vez de ser chamado pelo próprio especialista. Ao anunciar o nome da pessoa a ser contemplada com a consulta, ele surge à porta munido de uma lista e, verdade seja dita, de um sorriso e uma paciência constantes para todos. Isso e, evidentemente, sua competência profissional provavelmente expliquem os fartos elogios de muitos àquele médico que parece atender seus clientes por atacado, pelo menos ali, tal a quantidade de pacientes (alguns impacientes) padecendo de males tão parecidos.

Paciência é a palavra de ordem para um dia como aquele. E o que fazer para passar o tempo? Conversar é uma boa pedida, mesmo que não se conheça quem está sentado por perto. Fala-se de tudo, mas quase sempre a prosa é iniciada com o motivo de estarem ali aquelas pessoas. Aí ocorre, de lado a lado, uma série de informações sobre exames médicos, cirurgias, tratamentos e remédios do dia a dia. De repente, aquela estranha do começo da manhã virou uma velha conhecida em questão de horas. Confidências e números de celulares podem ser trocados. As pessoas mais cautelosas trocam singelas receitas culinárias. Há quem prefira contar para quem quiser ouvir os detalhes de um acidente, como o senhor que desmaiou dirigindo sua moto, que bateu no carro da frente. Os joelhos do pobre homem bateram numa boca de lobo e aí... Os prevenidos se distraem com a leitura de livros e jornais, que podem ser eventualmente emprestados. Há aqueles que simplesmente cochilam ou dormem mesmo e uma moça que faz bicos de crochê em panos de prato. A turma dos dependentes do celular marca presença. E tome falação! Lanches são trazidos da rua para os que não podem andar livremente. Um casal não se faz de rogado e reparte um almoço em marmitex que simplesmente eles abrem e pronto. Bom apetite!

Circulando entre as pessoas, as muletas e as cadeiras de rodas, uma mulher falante desfia também seus problemas ortopédicos. Espertinha, ela tira discretamente de uma sacola um creme que oferece como amostra e jura ser um alívio para dores no joelho, uma espécie do famoso “doutorzinho”. Não deu para saber se vendeu alguma coisa.

Finalmente dentro do consultório, após uma espera absurda de cinco horas e meia, eis o médico. Ainda sorridente, paciente e reservando o vocativo “minha princesa” para cada senhora atendida, ele mal consegue disfarçar um bocejo. Uma maratona que ainda não acabou. Para nós também não, porque o tratamento nem é para agora. É preciso aguardar um ano, talvez mais, o que é desumano.

A constatação parece óbvia. Nosso sistema público de saúde ainda é precário, de segunda categoria, resguardadas as devidas exceções. O cidadão brasileiro não espera um atendimento principesco, isso nem combina com a gente. Nobreza melhor é o respeito aos direitos básicos de todos nós. Saúde já!


Sobrenomes

A sociedade alemã sempre foi a mais estratificada do mundo. Desde a Idade Média, só tinham sobrenome as pessoas da nobreza, da classe militar, do clero e do alto escalão do governo. Os demais cidadãos adotavam sobrenomes indicativos das profissões que exerciam – costume passado de pai para filho. Atualmente, o exemplo mais conhecido é o de Michael Schumacher, ex-campeão mundial da Fórmula I, cujo nome quer dizer Miguel Sapateiro. Os sobrenomes alemães mais comuns são Schneider (alfaiate), Bauer (camponês), Schmidt (ferreiro), Mauer (pedreiro), Müller (moleiro) e Becker (padeiro). A referência, feita a título de curiosidade, foi provocada pelo sucesso da modelo brasileira Raquel Zimmermann, considerada a top model nº 1 ao lado de Gisele Bündchen. Zimmermann significa carpinteiro. Além de soar bem, a palavra ganha charme, força e encanto nas passarelas.
(Estado de Minas)

Do direito de sonhar ao dever de desconfiar

14 de Janeiro de 2010, por Regina Coelho 0

Toda virada de ano faz surgir uma infinidade de rituais e simpatias. Certas de que só serão felizes no ano novo (na verdade, logo, logo nada novo) se adotarem determinados procedimentos no dia 31 de dezembro, muitas pessoas preferem não arriscar a felicidade e fazem coisas no mínimo curiosas.

Segundo a crença popular, as simpatias devem ser feitas para afastar maus fluidos, para a pessoa ter dinheiro o ano inteiro, ter paz, tranquilidade e prosperidade, para atrair ou manter um amor, para o amor voltar, para ter sorte no amor, ter felicidade, enfim.

E vocês, caros leitores, como resolveram encarar o 1º de janeiro de 2010? Andei pesquisando e fiquei sabendo de muita gente que não perde a oportunidade de receber o ano que começa cercando-se de alguns cuidados. Entre eles, usar branco e deixar a casa bem iluminada com luzes e velas para receber com muita luz o novo ano. Ou subir em um degrau de uma escada ou em uma cadeira, com o pé direito, assim que dá meia-noite, para subir na vida. Ou ainda, caso a comemoração seja na praia, a dica é entrar no mar e pular sete ondas fazendo sete pedidos, um para cada onda.

A lista do que fazer ou não no último dia do ano é longa. Estamos em janeiro. Falar disso agora já era. Independentemente de acreditar nessas coisas ou de achar tudo isso uma bobagem, o mais importante é cultivar bons pensamentos e sentimentos, manter a fé e apostar no que a gente quer. Isso deve valer para todos os dias.

Saindo do âmbito restrito das simpatias típicas do final de ano e considerando também as outras (para curar bronquite, fazer criança andar ou falar, emagrecer...), chega-se facilmente aos inúmeros golpes aplicados por toda parte. Segundo especialistas, cresce muito nesta época do ano a incidência de casos envolvendo pessoas passadas para trás, ou seja, ludibriadas pelos espertinhos de plantão. Em comum entre as duas práticas, há apenas a boa fé de quem espera ter sorte para se dar bem. No entanto, se as simpatias se mostram inofensivas (a maioria, ao que parece, segundo a sabedoria do povo, quando não funciona também não prejudica ninguém), o mesmo não se pode dizer das inúmeras modalidades de golpes rondando os cidadãos, ainda que estejam em casa, supostamente a salvo dos golpistas, mas atacados via internet ou telefone.

Fazer a vítima acreditar, por exemplo, que ganhou um prêmio é golpe manjadíssimo, mesmo assim há quem nele caia. O “sortudo” precisa apenas fazer uma doação para ajudar uma criança doente e poder receber seu merecido carro ou moto. Simples assim. Em matéria recente, o Jornal Hoje (TV Globo) transcreveu parte de um desses telefonemas fajutos. Observem: “Um quilo de alimento não perecível. Agora o senhor vai ter três opção para fazer um depósito de um valor de R$300,00, ou num valor de R$400,00, ou num valor de R$600,00. O senhor vai opcionar para fazer uma criança feliz, que sofre síndrome de dálmata”.

Sorteios sem sentido e erros de português à parte, há muitas armadilhas ardilosamente preparadas por aí à espera dos incautos, dos desprevenidos e mesmo dos gananciosos. É isso mesmo, porque muitas vezes quem se ilude com planos e promessas mirabolantes de ganho fácil espera obter vantagens extraordinárias, o que pode tirar da pessoa a condição exclusiva de vítima.

Há aquele ditado que diz que “todo dia um bobo sai de casa”. Há também um outro que afirma coisa semelhante: “é preciso que haja bobos para os ativos viverem”. Ativos, no mau sentido da palavra, já que os que são ativos na boa acepção do termo sabem que as coisas boas não batem à porta de ninguém. Elas são conquistadas, jamais oferecidas como um negócio de ocasião. Como sempre, vale a velha máxima: “quando a esmola é muita, até o santo desconfia”.



PARA REFLETIR

AUSÊNCIA


Por muito tempo achei que a ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.
E sinto-a branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade) .

Mais uma reta final

13 de Dezembro de 2009, por Regina Coelho 0

Simplesmente não dá para deixar de perceber e de viver o clima de fim de ano, de todo fim de ano, diga-se de passagem. Espalhado por toda parte, ele contagia a maioria das pessoas, que precisam mostrar fôlego para cumprir uma verdadeira maratona de atividades típicas dessa época. Nas escolas, o aperto é geral. Aqueles alunos que conseguiram garantir seus valiosos pontos ao longo do ano letivo respiram aliviados, antecipadamente vitoriosos. Outros buscam desesperadamente alcançar o mínimo exigido para aprovação. Nessa hora, contas e mais contas são feitas, refeitas e qualquer pontinho que vier é abençoado. Haja promessa também! E arrependimento pela malandragem escolar de quase todo mundo que se vê nessa situação. E o que dizer dos meus colegas professores “atolados até o pescoço” de tanto serviço? Essa parte prefiro esquecer. E os vestibulandos? Chega a ser desumana a carga de estudos a que muitos deles são submetidos. Mas também é muita pressão sobre os coitados.

Além dos limites escolares, encontra-se em curso uma corrida desenfreada e generalizada em busca mesmo do quê? Bom, as festas de confraternização não podem faltar, com elas, a quase sempre presença do amigo-oculto ou secreto, quase sempre nem tão amigo assim. Vá lá, seja tudo pelo espírito de Natal. E por falar nisso, é preciso comprar os presentes (ou lembrancinhas, como queiram). E a ceia natalina? Mais compras à vista. Olhe aí uma possível ambiguidade. Refiro-me a outros gastos iminentes, não ao acerto de contas. É que o impulso de comprar pode ser irresistível levando o consumidor a empurrar o pagamento em “suaves parcelas” para o ano seguinte.

É tempo também de formaturas. E tome mais correria! Lojas cheias, compras, grande agitação pelas ruas, encontros de despedida, preparativos de viagem com a turma da escola... Ufa! Que canseira! Acabou? Claro que não! E o réveillon, você vai passar onde? Quando é que você vai para a praia? Ah, chega! Fico por aqui.



Turma da Vaquinha

Não foi possível incluir na matéria da edição 79 do JL a colaboração do Rafael (filho da Terezinha e do Zé do Socorro) sobre a sua turma, a da Vaquinha. Faço isso agora.

No início deste século, como todo resende-costense que gosta de participar de uma turma, um grupo de amigos que se encontrava todo dia na “avenida” para tomar umas cervejas ou mesmo para aprontar qualquer peripécia que resultasse em boas risadas resolveu criar uma turma de Carnaval, dessas com camisa própria e com um nome divertido. Mas qual seria? Como já era cantado pelos amigos o grito de Carnaval “picisa, num picisa, é do leitinho, é da vaquinha...”, ficou então a Turma da Vaquinha.

A concentração do grupo acontecia na lanchonete do Alessandro (Totó, Lagartão). Depois que ela fechou, o QG se transferiu para o Theatro (bar nos Quatro-cantos), que também fechou as portas. O destino seguinte foi o Bar da Maura (na “avenida”), mas, com a mudança de lugar deste, o bar do Bruxo (o Ricardo da Clarita) passou a acolher o pessoal. Só que, adivinhem! Esse ponto também fechou. Parecia maldição. Agora a turma se encontra com mais frequência no bar do Toru (o Danilo) e em outros como os do Fumega, da Maura e do Didi.

Hoje a Turma da Vaquinha tem aproximadamente 30 integrantes, que se reúnem para organizar eventos como o Pingaril (futebol no Carnaval) e o Vaks Fest, este já na quarta edição. Idas a outras cidades para exposições, festivais e encontros também ocorrem. E mesmo quando não há nenhum evento, a turma não deixa de se reunir, pois cada integrante no mês de seu aniversário tem que doar para o grupo uma caixa de cerveja, o que ajuda a garantir mais uma festa, um churrasco... “picisa, num picisa, é do leitinho, é da vaquinha...”



Nota Final

Agradeço, sensibilizada, ao padre Josué as palavras elogiosas a respeito do artigo de setembro próximo passado (“Ouviram do Ipiranga...”). Faço o mesmo em relação a Sildes (do Bacana), que tem levado nosso jornal para a escola onde trabalha, na vizinha Lagoa Dourada. É muito bom chegar às pessoas pela palavra, melhor ainda é saber que nosso trabalho pode ser útil a alguém. Espero continuar sendo merecedora da atenção e do carinho de todos vocês e dos demais leitores deste cantinho do JL.

Vá procurar a sua turma!

14 de Novembro de 2009, por Regina Coelho 0

O Carnaval e a Exposição Agropecuária, dois dos maiores eventos do calendário festivo da cidade, vêm apresentando de uns tempos para cá uma nova característica comum, ou seja, a formação de turmas organizadas, o que provoca uma saudável disputa em busca da maior animação possível. Chamadas de blocos no período carnavalesco, as inúmeras turmas que são vistas, principalmente na já famosa semana que antecede a folia oficial, capricham nas fantasias, nos nomes com que se “batizam” (“As Atrevidinhas”, “Turma da Vaquinha”, “As Inigualáveis”...). Ocorrem até mesmo coreografias e encenações mostradas em conjunto para os que preferem só ver o espetáculo. Em se tratando do nosso tradicional “rodeio”, é por ocasião da cavalgada que os grupos surgem de modo mais explícito. Geralmente, nesse caso, eles são constituídos por pessoas de uma mesma família ou por famílias amigas, por amigos de longa data ou por conhecidos que todo ano se juntam somente naquele momento especial. E há ainda os colegas de copo ou de azaração, melhor dizendo, da bebida e da paquera.

É evidente que esses festejos agregam um mundo de pessoas que se esbaldam, de preferência, cada qual na sua turma, o que é natural. Mas é claro também que existem os avulsos, o bloco do eu-sozinho. O que vale mesmo é a diversão.

Festas à parte, chamam a atenção especialmente os mais variados tipos de turma que se formam e se reúnem ao longo do ano, ou melhor, dos anos.

A turma do João Bosco (da Lúcia Melo), que não tem nome, é um bom exemplo disso. Conversando com ele, não pude deixar de me surpreender com a informação de que o futebol que eles praticam religiosamente de segunda a sexta-feira, entre 6h30m e 7h30m, acontece há exatos 25 anos. Do grupo que se reuniu em 84, constam nomes como os do padre Raimundo, do Sargento Lopes e do Dr. Paulo (médico), que não participam mais dessa hora esportiva. Como forma de garantir a atividade diária (leia-se problema com chuva), a transferência do Clube Lajes para o ginásio do Varginha foi uma das medidas adotadas por esses atletas matinais. Uma outra providência foi a adoção de regras próprias para o jogo, em que não há goleiro, por exemplo, e o gol só vale dentro da área. Uma curiosidade: algumas jogadas levam nomes de pessoas que já participaram do grupo. “Jogada Bacarini” e “jogada Chichico” são algumas delas. A explicação para isso? Perguntem ao atleticano João Bosco. E para completar, além do próprio João, são integrantes da turma as seguintes pessoas: Agenor, Guinho (da Elaine), Orozimbo, Dudu, Fernando Pacote e filhos, Antônio Gabriel Pacote, Leandro do Tomé, Leandro Pires, Gláucio, Fernando Mendes e sobrinhos (Diego e Danilo), “Oreia”, “Chamel”, Geraldo J.A. e filhos, João Barbantinho, o Carlos Augusto (filho do Carlinhos do Jair) e Elker.

Passo a bola agora, ou melhor, a palavra, para o meu primo Duda, fiel frequentador de uma outra tribo. Escalado por mim, ele revela “dados sobre a Turma do Baú colhidos em mais uma segunda-feira etílica”. Segundo o mesmo, as reuniões começaram em 95, sempre na noite de folga do Dr. Luiz (médico), que na época havia adquirido um sítio (local dos encontros) na localidade do Baú, perto do povoado dos Pintos. As intenções da turma: tomar uns goles, bater papo e comer um frango ensopado. Os pioneiros dessa iniciativa foram, além do anfitrião, o João Bosco do Zé Mendonça, o Edgar do Joel, o Tomás, o Mário da Pensão (o famoso Julinho) e o Nei da CEMIG. Vários foram os que já estiveram no Baú e que o frequentam até hoje, como o Rosalvo, João, Paulinho, Sávio e Chiquinho (todos irmãos do Dr. Luiz), o Ernane do Sô Ananias, o André do Pimpa, o Adriano e o João Magalhães e o filho deste, o Danilo, o João do Galo, o Guilherme da Ana, os sobrinhos do dono da casa, várias duplas de estagiários do Programa de Internato Rural da UFMG e muitos outros. E a Confraria do Baú conta também com a presença do Rei Roberto Carlos, o Iracy do Ivan, que comanda, de vez em quando, umas cantorias com a galera, tocando acordeon.

O companheiro João Magalhães desenvolveu uma teoria para tentar entender o que acontece nessas reuniões: a teoria dos três estágios. No primeiro, ao chegar, as pessoas começam a discutir temas sérios da cidade, do país e da vida: política, economia, filosofia e até mesmo religião. No segundo, fala-se de causos e coisas típicas de Resende Costa, de hoje e do passado não muito distante. Já no terceiro, com a gradação alcoólica exacerbada, parte-se para a esbórnia, quando não dá para escrever dada do que se fala, pois, na verdade, quem passa a falar é ela (a pinga) e não as pessoas.

Como se pode ver, as motivações para esses e outros encontros podem ser esportivas, etílicas e/ou gastronômicas, humanitárias, religiosas... Isso nem interessa muito. Se não houver um motivo, ele pode ser inventado. O importante é que a gente encontre pela vida aqueles de quem vamos querer estar próximos confirmando afinidades e criando preciosos laços de afeto.