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Um referencial de vendas de livros

29 de Abril de 2026, por Regina Coelho

Na página 89 de cada edição semanal, já quase no final do conjunto de matérias que oferece aos leitores, Veja mantém, desde a década de 1970, a seção Os mais vendidos, que se consolidou ao longo dos anos como um referencial de vendas de livros no Brasil. Nela, a apresentação dos títulos das obras (com seus respectivos autores e editoras) é separada em categorias: Ficção, Não Ficção, Autoajuda e Esoterismo, Infantojuvenil, compreendendo posições de 1 a 10. O rodapé da folha traz uma relação de lugares (capitais e outras cidades de médio a grande porte e livrarias aí situadas) usados como pesquisa na formação da lista.

Sem desconsiderar o interesse e o empenho do meio editorial em ver seus produtos ocupando esse ranking tão cobiçado, é igualmente verdade que determinados fatos ligados de alguma maneira a certas publicações acabam funcionando como propaganda potente para que elas ganhem um chamariz extra na decisão do(a) leitor(a) de comprá-las. Sobre essa afirmação não faltam exemplos. Senão vejamos.

Marcelo Rubens Paiva é o autor de Ainda estou aqui, lançado em 2015, uma não ficção, precisamente uma biografia que deu origem ao filme homônimo. Estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello e dirigido por Walter Salles, o longa brasileiro de drama foi premiado com o primeiro Oscar de filme internacional para nós, em 2025. Ao chegar às telas do cinema e conquistar outras premiações no exterior, o livro de Paiva atingiu a segunda posição na lista Os mais vendidos de 2025 de Veja.

Outro caso semelhante se deu com Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Do lançamento em 2006 à aclamação pela crítica especializada, o romance da escritora mineira alcançou o Sambódromo e aguçou o interesse popular por ele, tornando-se enredo da Portela no carnaval carioca de 2024. Fácil é imaginar o grande salto de vendagem desse que é considerado um dos livros essenciais para o entendimento da história do país, mais tarde, novamente em evidência, com a entrada da autora à Academia Brasileira de Letras, em julho do ano passado.

Frequentando a já citada lista e outras, há os clássicos de sempre. Consolidados no mercado, uns e outros são destacados por trechos usados como suporte em provas do Enem e/ou citados por candidatos em suas argumentações para a temida redação. E por falar nessas obras atemporais, na categoria Infantojuvenil da lista anual 2025 da mencionada revista, o best-seller O Pequeno Príncipe (1943), do francês Antoine de Saint-Exupéry, manteve o lugar mais alto no pódio dos mais vendidos, que vem ocupando desde 2023.

Embora leve ainda a fama injusta e reducionista como “leitura de miss”, um preconceito que subestima a inteligência das candidatas, é claro, bonitas, esse campeão de vendas teria recebido do filósofo alemão Heidegger (1889-1976) a seguinte opinião: “Não é um livro para crianças, é a mensagem de um grande poeta que alivia qualquer solidão e pelo qual (livro) somos levados a compreensão dos grandes mistérios do mundo”. Fábula essa do menino de cabelo dourado que vem de um pequeno asteroide e encontra um piloto de avião perdido no deserto e que mereceu traduções que se tornaram famosas. Dom Marcos Barbosa, monge beneditino, poeta e tradutor; Mário Quintana e Ferreira Gullar, também poetas; os três já falecidos; e Frei Betto, frade dominicano e escritor, são alguns tradutores notáveis dessa obra (originalmente publicada em francês e inglês) para o português e para todas as idades.

Temos nossos clássicos. Restringindo-me à literatura infantil no Brasil, em seus primórdios, é necessário citar Monteiro Lobato (1882-1948), autor de Reinações de Narizinho e outros muitos sucessos. Particularmente pensando, destaco A Bonequinha Preta, da mineira Alaíde Lisboa de Oliveira (1904-2006). Lançada em 1938, atravessando gerações e com milhões de exemplares reeditados e vendidos desde então, a história da menina Mariazinha e sua boneca “negra como carvão” me remete à infância. Afinal de contas, O Bonequinho Doce, da mesma Alaíde, e A Bonequinha Preta (que tínhamos em casa) foram os primeiros livros que li, duas janelas que se descortinaram para mim diante do mundo extraordinário da leitura.

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