Na página 89 de cada edição semanal, já quase no final do conjunto de matérias que oferece aos leitores, Veja mantém, desde a década de 1970, a seção Os mais vendidos, que se consolidou ao longo dos anos como um referencial de vendas de livros no Brasil. Nela, a apresentação dos títulos das obras (com seus respectivos autores e editoras) é separada em categorias: Ficção, Não Ficção, Autoajuda e Esoterismo, Infantojuvenil, compreendendo posições de 1 a 10. O rodapé da folha traz uma relação de lugares (capitais e outras cidades de médio a grande porte e livrarias aí situadas) usados como pesquisa na formação da lista.
Sem desconsiderar o interesse e o empenho do meio editorial em ver seus produtos ocupando esse ranking tão cobiçado, é igualmente verdade que determinados fatos ligados de alguma maneira a certas publicações acabam funcionando como propaganda potente para que elas ganhem um chamariz extra na decisão do(a) leitor(a) de comprá-las. Sobre essa afirmação não faltam exemplos. Senão vejamos.
Marcelo Rubens Paiva é o autor de Ainda estou aqui, lançado em 2015, uma não ficção, precisamente uma biografia que deu origem ao filme homônimo. Estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello e dirigido por Walter Salles, o longa brasileiro de drama foi premiado com o primeiro Oscar de filme internacional para nós, em 2025. Ao chegar às telas do cinema e conquistar outras premiações no exterior, o livro de Paiva atingiu a segunda posição na lista Os mais vendidos de 2025 de Veja.
Outro caso semelhante se deu com Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Do lançamento em 2006 à aclamação pela crítica especializada, o romance da escritora mineira alcançou o Sambódromo e aguçou o interesse popular por ele, tornando-se enredo da Portela no carnaval carioca de 2024. Fácil é imaginar o grande salto de vendagem desse que é considerado um dos livros essenciais para o entendimento da história do país, mais tarde, novamente em evidência, com a entrada da autora à Academia Brasileira de Letras, em julho do ano passado.
Frequentando a já citada lista e outras, há os clássicos de sempre. Consolidados no mercado, uns e outros são destacados por trechos usados como suporte em provas do Enem e/ou citados por candidatos em suas argumentações para a temida redação. E por falar nessas obras atemporais, na categoria Infantojuvenil da lista anual 2025 da mencionada revista, o best-seller O Pequeno Príncipe (1943), do francês Antoine de Saint-Exupéry, manteve o lugar mais alto no pódio dos mais vendidos, que vem ocupando desde 2023.
Embora leve ainda a fama injusta e reducionista como “leitura de miss”, um preconceito que subestima a inteligência das candidatas, é claro, bonitas, esse campeão de vendas teria recebido do filósofo alemão Heidegger (1889-1976) a seguinte opinião: “Não é um livro para crianças, é a mensagem de um grande poeta que alivia qualquer solidão e pelo qual (livro) somos levados a compreensão dos grandes mistérios do mundo”. Fábula essa do menino de cabelo dourado que vem de um pequeno asteroide e encontra um piloto de avião perdido no deserto e que mereceu traduções que se tornaram famosas. Dom Marcos Barbosa, monge beneditino, poeta e tradutor; Mário Quintana e Ferreira Gullar, também poetas; os três já falecidos; e Frei Betto, frade dominicano e escritor, são alguns tradutores notáveis dessa obra (originalmente publicada em francês e inglês) para o português e para todas as idades.
Temos nossos clássicos. Restringindo-me à literatura infantil no Brasil, em seus primórdios, é necessário citar Monteiro Lobato (1882-1948), autor de Reinações de Narizinho e outros muitos sucessos. Particularmente pensando, destaco A Bonequinha Preta, da mineira Alaíde Lisboa de Oliveira (1904-2006). Lançada em 1938, atravessando gerações e com milhões de exemplares reeditados e vendidos desde então, a história da menina Mariazinha e sua boneca “negra como carvão” me remete à infância. Afinal de contas, O Bonequinho Doce, da mesma Alaíde, e A Bonequinha Preta (que tínhamos em casa) foram os primeiros livros que li, duas janelas que se descortinaram para mim diante do mundo extraordinário da leitura.