Era véspera da finalíssima Brasil e Itália, em 1970. Euforia nos dois países. A mídia italiana trazia o depoimento de dois personagens ilustres. Um deles, o técnico da seleção italiana. Ele dizia ser impossível o ataque brasileiro superar a defesa italiana. E mais: “Estudamos, exaustivamente, a maneira de jogar do ataque e de cada atacante do Brasil.” Outro personagem ilustre: um técnico do Real Madri, convidado pela televisão italiana para comentar os jogos da Copa do Mundo. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “Se o Brasil jogar quarenta por cento do que vem jogando, a Itália não terá chance alguma.” Os fatos, de um lado, fizeram valer a opinião do comentarista; de outro, deixaram o técnico italiano sem “defesa”.
De lá para cá, tudo na vida mudou muito. Na área esportiva também. Pense-se no uso da tecnologia da TV com cores: o que ela introduziu de novidade no mostrar o esporte, qualquer deles. Um dia ter a camisa de um time era uma aventura. Hoje os estádios se colorem com as cores do clube, porque cada torcedor já as traz consigo. Tudo muito mudado. E, em tantos aspectos, para melhor. Hoje não se faria mais gol “com a mão de Deus”. E a Inglaterra não teria sido campeã mundial com gol inexistente.
Do ponto de vista do “jogo”, da estratégia de jogo, da maior ou menor habilidade no trato com a bola por parte dos jogadores; da qualidade do material esportivo e dos gramados; da possibilidade de se ter vários craques num time... com tudo isso, não vale hipotetizar uma melhora ou piora na prática do futebol, pois, se colocada a questão, não se chegaria nunca a bom termo. E por quê? Porque todos esses aspectos ficam subordinados não à razão, mas à emoção com que se vive a paixão por algo que se considera importante na vida. A emoção desconsidera qualquer tipo de racionalidade que coloque a vida e suas manifestações em dúvida, quando não em risco.
Torcidas organizadas, estádios embandeirados, fogos luminosos, nuvens de fumaça invadindo o gramado, celulares fazendo apresentações luminosas, drones sobrevoando os gramados, nada de tudo isso qualifica, excepcionalmente, a participação dos torcedores, tomados que sejam de amor, de decepção, de raiva, de entusiasmo. As emoções não se enquadram em esquema algum, quando tudo é sinal de vida. E num estádio, com o próprio time em campo, tudo é plenitude de vida.
Quanta emoção vivida face a tanta beleza, grandeza, bravura. Aspectos positivos e negativos se sucederam e se sucedem. No entanto, para mim, há um lance, há um toque de bola que resta intocável.
Sei muito bem que já não se tem um meio de campo com “Andrade, Adílio e Zico”, Piazza, Dirceu e Tostão”. “Clodoaldo, Gerson e Rivelino” e tantos mais; já não se têm laterais quais Nilton Santos, Leandro, Cafu, Nelinho, Carlos Alberto; já não se vê uma “Folha Seca”; já não se fala de uma seleção de craques, apenas dois ou três incapazes de tanta coisa bonita que invadiu nossas vidas de torcedores de clubes e de nossa seleção. Mas, há uma coisa que me encanta, me encantará sempre, porque plástica, decisiva e fatal no futebol: trata-se do drible de corpo. É tão lindo, tão sublime, tão eficaz que, um dia, alguém o definiu dizendo: “o drible de corpo é quando o corpo tem a presença de espírito”. Que incrível definição identificadora dos incomparáveis Garrincha e Pelé: sublimidade pura.