Minha mulher, Maria Helena, e suas irmãs estão fazendo uma limpeza na casa de seus pais, onde cresceram e se multiplicaram. Há tanta coisa lá dentro, pois a moradia acolheu autêntica família mineira, conservadora dos bons costumes e das boas lembranças.
No tocante a papéis, há deles numerosos que dariam farto material para a composição de rica e significativa narrativa familiar. De minha sogra, pessedista convicta, numa terra em que a UDN era forte, encontrei um bilhete que agora transcrevo literalmente.
Paris, 9-8-64.
Meu caro Tancredo
Devia-lhe uma palavra de agradecimento desde o dia de meu embarque no Rio. Lembro-me bem que a sua foi a última mão que apertei antes de me dirigir ao avião.
Naquele instante de brutalidade a sua presença confortou-me. Aliás o que caracteriza bem a sua personalidade é a intrepidez com que enfrenta as suas e as adversidades dos amigos. Muito obrigado a você.
Creio, porém, que a democracia não é apenas aquela flor tenra a que se referia o Mangabeira. Ela terá forças para se levantar sobretudo porque sobraram homens como você que a poderão irrigar mantendo-lhe o vigor para novas arrancadas.
Um grande abraço a Risoleta e aceite o meu mais afetuoso agradecimento.
Juscelino
Fico encantado com o texto. Pessoas da grandeza de seus atores que não se envergonham de se apresentar carinhosamente, sensivelmente. Hoje, na hora da brutalidade, não há espaço para delicadezas do jaez manifestado por Juscelino. A “brutalidade” tomou lugar da sensatez. Esta se fez insensatez.
“OH! Insensatez que você fez “coração mais sem cuidado”.
É isso: “coração mais sem cuidado”. Total insensibilidade é o que vem caracterizando as atitudes de quem assume o poder supremo de julgar, e, então, o faz de maneira absolutista e, pleonasticamente, fascista.
Tancredo “INTRÉPIDO”. Desde sempre. O único a ficar com Getúlio, com Goulart, com Juscelino. Tancredo “intrépido” até no renunciar à saúde e, assim, garantir a passagem democrática.
Intrepidez, filha da sensatez.
Sensatez para não deixar que a democracia seja caracterizada por ideologias que visam a favorecer uma minoria de insensatos, desocupados, ou ocupados apenas com os próprios indecorosos objetivos.
“Intrepidez” para falar, para afrontar, para arriscar até a própria liberdade, “maior dom que dos deuses os homens receberam, e pelo qual vale a pena perder a honra e até a vida”, segundo o Quixote.
Ah! intrépidos Tancredo, Ulisses, Covas, Maciel, Teotônio, e, então, um país cheio de esperança, fundado nos ideais de uma democracia nascente e vigorosa “para novas arrancadas”.
Ah! insensatos... e, então, um país desesperançado, com sua Constituição rasgada e a democracia vilipendiada, sem futuro próximo.
Com os insensatos, a covardia, a suprema desfaçatez.
Com os intrépidos, a sensatez.