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“Pai, afasta de mim este cálice”

29 de Outubro de 2025, por João Bosco Teixeira

Me tem sido difícil manter esta coluna.  É que, a despeito de eu querer escrever “de um ponto de vista”, minha vista está voltada para tantos pontos que o dia a dia de nossas vidas nos tem oferecido. Não têm faltado mil insinuações de pontos de vista para uma consideração particular sobre cada um deles. E isso não me deixa esquecer: “Pai, afasta de mim este cálice...”

Tenho andado cansado, não tanto pela quase nona dezena de vida que vou levando. Não. É pela tristeza de ver e sentir vilipendiada uma dimensão da vida pela qual tantos de nós lutamos: o povo qual fonte e razão de ser de uma existência comunitária, de uma nacionalidade, isto é, o povo como única fonte e sustentáculo de um regime democrático.

Poucas datas têm sido tão lembradas como o 8 de janeiro. E com razão, pois ele estabeleceu um novo paradigma de democracia para o Brasil. Paradigma de uma democracia ensandecida, levada a efeito por um grupo que nunca teve o respaldo popular para implantá-la no país. 

Democracia ensandecida que leva a uma nova e absurda leitura da Constituição, leitura que justificou o golpe de Estado dado pelo poder supremo, que se tornou soberano, a ponto de adjudicar a si a função de investigador, de promotor, de juiz, e, então,  aplicar penas de assassinos para manifestantes; forjar certidões; orgulhar-se de, nas audiências de custódia, dar a cada um o que lhe era de direito, isto é, a prisão; soltar vendedor ambulante, comprovada sua inocência, mas, ainda assim, com a obrigação do uso de tornozeleira eletrônica; prender aposentada de 74 anos por vinte e um dias, sem qualquer motivação ajuizada; acessar documentos particulares sem autorização; manter preso cidadão necessitado de assistência médica, mesmo que recomendada por órgão pertinente; tudo isso apenas para falar de alguns absurdos jurídicos.

Para o dia oito, e com o dia oito, uma força tarefa se instalou dentro do órgão superior, que passou a praticar verdadeiro golpe à democracia, com a abolição do direito e do processo penal, substituído pela “ordem dada, ordem cumprida”, máxima absolutista, característica da mentalidade fascista. No órgão superior, tudo tem ocorrido conforme previsto e planejado.

 

Verdadeira selvageria e tirania

Uma nota particular. Anistia para quem matou, para quem sequestrou, para quem assaltou banco e, sobretudo, PARA QUEM TENCIONAVA IMPLANTAR NO PAÍS UMA DITADURA DO PROLETARIADO. Para esses a anistia foi possível, pois tratou-se de um golpe frustrado. Agora, dizem tantos “superiores”, também tratou-se de um golpe frustrado. Portanto, anistia. Não, agora não, mesmo sabendo-se que a maioria absoluta dos participantes dos atos do dia 8 não cometeu crime algum. Entendam lá os deuses do Olimpo.  

Tudo isso me traz à memória: “Pai, afasta de mim este cálice de vinho tinto de sangue... Tanta mentira, tanta força bruta”.

Já não há quem fale, escreva ou cante versos tão candentes... Seus autores, sabe lá Deus, o que pensam daqueles dias em que comprometeram a própria vida. Hoje, não se sabe que compromissos têm. Parece, tornaram-se crianças...

Comentários

  • Author

    Parabéns pelo artigo professor, uma pena a sociedade não ter dado ouvidos ao alertas sobre os perigos que o ativismo judicial para a democracia brasileira, que luta a cada dia para se consolidar.


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