No futebol, às vezes, surgem duplas improváveis. Um técnico português que fala grosso, pensa rápido e sofre como se estivesse sempre no último minuto da prorrogação. Uma presidente que compra avião como quem troca pneu de bicicleta, mas que não hesita em atravessar uma coletiva de imprensa para elogiar o próprio comandante, sem pedir licença a protocolo, a assessor ou a formalidade alguma.
No Palmeiras, Leila Pereira e Abel Ferreira formam essa dupla fora da curva, fora da lógica, fora do roteiro comum do futebol brasileiro. Um casamento esportivo que mistura disciplina europeia com temperamento brasileiro, cobrança com carinho, trabalho com ousadia. Um par improvável que colocou o clube em mais uma final de Libertadores e, de quebra, na rota direta para o possível título do Campeonato Brasileiro 2025.
O futebol, dizem, é feito de elencos. Mas às vezes é feito também dessas conexões que parecem escritas em algum lugar entre o destino e a teimosia. Porque era preciso teimosia, e das grandes, para segurar Abel quando o mundo inteiro o convidava a seguir caminho. Era preciso ousadia para bancar investimento pesado quando a maré parecia só contrária. E era preciso coragem, a que Leila tem de sobra, para atravessar a porta de uma coletiva e, sem cerimônia, mirar as câmeras e declarar aquilo que muita gente sente, mas não diz: “O Abel é o maior técnico da história do Palmeiras”.
Mas também é verdade que só um técnico como Abel Ferreira, que disputa sua terceira final de Libertadores em 5 anos de clube, entende essa energia. Entende porque tem o mesmo fogo dentro do peito. É disciplinado como poucos, exigente como quase ninguém e emocional como todo treinador que sabe que, no Brasil, dois jogos ruins viram tempestade e cinco vitórias seguidas viram céu azul de janeiro.
A chegada à final da Libertadores não é acaso. É construção. Tijolo sobre tijolo, treino sobre treino, temporada sobre temporada. É o tipo de projeto que só sobrevive quando gestão e comando falam a mesma língua, ainda que, às vezes, um fale português de Portugal e outra fale português de “manda quem pode”.
Se essa história fosse uma fábula, seria sobre a presidente destemida, o técnico obstinado e o clube que decidiu não apenas ganhar, mas construir um jeito próprio de vencer. Uma parceria que virou identidade, que virou modelo, que virou exemplo. O futebol brasileiro terá que admitir, mesmo com ciúme, mesmo rangendo os dentes: o Palmeiras de Leila e Abel não é só um time. É um voo. E um voo com avião próprio, e que está cada vez mais difícil de alcançar.