Quantas gerações ainda vão ouvir que futebol é coisa de menino e vôlei de menina? Essa frase atravessa os anos e ainda encontra eco nas praças, nas escolas e até dentro das casas. Talvez por isso, tantas meninas desistiram cedo de jogar bola, não por falta de vontade ou talento, mas pela ausência de incentivo. E o mesmo acontece com tantos garotos com altura tão favorável para as quadras, e um incentivo tão baixo fora delas.
Eu mesma, que cresci tentando ser boa no futebol, só consegui me tornar torcedora. O esforço estava lá, a paixão também, mas a comparação com os primos, sempre estimulados, sempre aplaudidos, era inevitável. O incentivo que faltava para mim sobrava para eles. E assim, mesmo na infância, aprendi que há portas que se fecham antes mesmo de alguém tentar abri-las.
Se tivesse tido outra chance, talvez tivesse seguido por outros caminhos. Com 1,60m de altura, até mesmo o vôlei poderia ter sido mais generoso comigo. Ou talvez a ginástica, aproveitando a maleabilidade que a infância me deu e que o tempo levou. Mas não havia opções. Não como existem hoje.
Na vida adulta, acabei permanecendo perto do esporte, mas longe da prática. A natação está sendo a exceção. E, aos 30 anos, dentro da piscina, vejo como o incentivo pode começar cedo: vi crianças de dois, três anos, já aprendendo a se mover com confiança na água. E é lindo quando a gente acredita que o esporte é para todos.
Meses atrás tive a frustração de não conseguir um ingresso para a final do Mundial de Ginástica. Dois dias de espera foram suficientes para perder o espetáculo ao vivo. Mas a tristeza não durou. Deu lugar à alegria ao perceber que milhares de pessoas também queriam estar ali, vibrando, aplaudindo, reconhecendo a grandeza do esporte. Rebeca, minha querida, eu acredito que temos uma ‘efeito Rebeca’ aqui! A mesma que deu entrevista pequenininha e disse que queria ser igual à Daiane dos Santos. E teve quem acreditou, segurou a mão da Daiane e a sua. E de Jade, Lorrane, Daniele...
Resende Costa, com o crescimento do Pró-Vôlei e a chegada do Núcleo Sada, mostra que é possível sonhar diferente. Hoje, meninos e meninas têm vagas, categorias ampliadas, equipes formadas. Têm oportunidade! Acompanho os pais, que na geração deles não tinham piscina para treinar e levam os filhos hoje para as aulas de natação. Eu sonho com o dia em que escreveremos sobre mais modalidades, mais aulas, mais esportes que avançam.
Mas as dificuldades ainda existem, tanto para consolidar novas modalidades quanto para romper com os preconceitos. É preciso mais do que quadras e uniformes: é preciso quebrar estigmas. A pergunta que fica é: vamos continuar criando gerações limitadas pela ideia de que certas modalidades pertencem a um gênero? Ou vamos, finalmente, ampliar horizontes para que cada criança encontre seu lugar no esporte?
O futuro pode estar na bola de vôlei, no tatame, na piscina ou na quadra de futsal. Mas ele só será pleno quando todas as portas estiverem abertas, para meninos, meninas e para quem nunca se encaixou nos rótulos. Então, torça para seu time, vá ao campo, jogue futebol. Mas não se esqueça de ampliar horizontes, de incentivar e apoiar novas modalidades.