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Picumã nos bons modos

01 de Julho de 2026, por José Mauricio de Carvalho

A tarde caía com a lentidão de um doce de leite apurando no fogo. No interior das Minas Gerais, o tempo não corre e se arrasta de prosa.

Nessa tarde durando sempre, visitamos a casa da comadre Lurdinha. Minha mãe subira o morro incansável para o sagrado ritual do café. Fora armada com sua paciência de santa e dois filhos a tiracolo: eu, com os meus cinco anos de pura curiosidade sem modos; e minha irmã, a afilhada de sete anos que já carregava a pose de quem entende de etiqueta.

A cozinha de dona Lurdinha era um templo escuro de fumaça e mistério. O fogão a lenha era uma locomotiva de tijolos e trabalhava incansável a todo vapor. O cheiro de lenha de eucalipto misturava-se ao aroma do café acabado de coar no pano, criando-se ali uma atmosfera que oscilava entre o rústico e o místico. O que me fascinava, porém, não era o que estava sobre a chapa de ferro, e sim o que pairava acima de nossas cabeças, grudado nas telhas e nos caibros.

O teto daquela cozinha estava todo “enfeitado”. Décadas de fumaça e teias de aranha haviam transformado a cobertura de barro e madeira em um santuário de fuligem. O picumã acumulado ali era mais do que sujeira: fazia-se textura orgânica, densa, que pendia em estalactites escuras e aveludadas. Para os olhos de uma criança de cinco anos, aquela massa cinzenta e viscosa, que balançava leve com o bafo de ar quente subido do fogão, tinha uma semelhança inegável com algo muito familiar, porém proibido em mesas onde se podia comer o bocado bom de cada dia.

Eu não aguentei. Entre um gole de leite e um pedaço de queijo, apontei o dedo inquiridor (e mais do que isso, inquisidor) para o alto, quebrando a harmonia das fofocas adultas:

– Olha, mãe! Credo... tem picumã no telhado!

O silêncio envergonhado que se seguiu ficou mais denso que a própria fuligem. Minha mãe arregalou os olhos vexados, buscando um buraco no chão de terra batida para se esconder. Minha irmã, a afilhada exemplar de sete anos, fingiu – eu acho – que não era da mesma linhagem genética que a minha. Mas a reação mais memorável veio da dona da casa.

Comadre Lurdinha não era mulher de meias palavras. Não tinha eira nem beira na língua, e o freio de sua educação havia se rompido ainda na infância. Parou de tomar o café, olhou para o teto, depois olhou para mim com um olhar que misturava desprezo e uma honestidade brutal. Sem pestanejar, disparou o petardo impiedoso:

– Se tem picumã na teia, limpa você!

A resposta veio como um coice de mula desembestada. A cara de minha mãe, quase tendo o brilho vermelho-vivo a laranja das brasas do fogão, tentou sorrir um sorriso amarelo que mais parecia uma careta de dor diante da franqueza da comadre. A visita, que deveria durar inteira até o pôr do sol, foi abreviada pela “urgência de ver o feijão no fogo em casa”.

Saímos de lá em passos rápidos, descendo o morro sob o sol poente. O caminho de volta foi o palco da verdadeira aula de etiqueta e bons modos. Minha mãe, mestre na arte de corrigir sem traumatizar, parou à sombra de uma jabuticabeira. Abaixou-se, ficando na minha altura, e com uma voz que era um misto de mel e autoridade, começou o sermão amoroso:

– Meu filho, o picumã é coisa de casa antiga, mas existem certas sujeiras que a gente não comenta na casa dos outros. A casa da comadre é o castelo dela. Se o telhado tem fumaça ou qualquer outra coisa que sua imaginação veja, o seu silêncio é que deve falar.

– Mas, mãe, parecia mesmo... – tentei argumentar.

– Não importa o que pareça – ela interrompeu, limpando meu rosto com o canto da barra do vestido. – Ter bons modos é saber que a verdade, às vezes, é uma visita indesejada. A gente olha, mas não aponta. A gente sente, mas não descreve. O mundo é cheio de picumã, meu amor; o que não podemos é faltar com cortesia.

Naquele dia aprendi que a fumaça e a aranha fazem o picumã no teto, mas que a falta de educação faz o estrago no coração das comadres. E, principalmente, aprendi que, diante de uma mulher como a dona Lurdinha, com uma xícara de café na mão e nenhuma paciência no juízo, o melhor tipo de gente que podemos ser é o tipo que fica calado.

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