Retalhos Literários

O que é do homem o bicho não come

14 de Julho de 2016, por Evaldo Balbino 0

Ilustração Elimar do Carmo.

O que é do homem o bicho não come. Assim diz o ditado, popularmente construído e aplicável de modo cruel a muitas situações da vida. E de modo atroz esse provérbio se aplicaria a uma aventura ocorrida na minha infância.

Quando eu ainda nem tinha ouvido falar em reforma agrária, acabei fazendo parte de uma peripécia relacionada a terra alheia, ou de uma reinação como gostava de escrever Monteiro Lobato. Terra alheia sim, porque até hoje não tenho nenhuma, a não ser a que se me promete de modo desavergonhado todos os dias: a de sete palmos verticais e escuros.

Antes dessa terra prometida, sem leite e sem mel, com escuridão e silêncio, vou escrevendo aqui, e vou reconstruindo o que vivi. Nesta rede tecida, colcha de um passado sempre passado a limpo, vou cobrindo minha existência, a nossa existência. Nenhum silêncio pode com essa tessitura.

E na tessitura da vida (real, concreta), eu era pequeno ainda quando fui convidado, com mais alguns amigos, pela vizinha alegre e sorrateira. Fomos convidados para ir à roça do marido dela. Entre um milharal e palhas verdes de feijão de corda, o nosso objetivo era colher melancias de dar gosto na boca. Melancias verdes por fora e vermelhas por dentro. Uma raridade naquelas bandas do Ribeirão.

E fomos os meninos como se vai uma boiada feliz atrás de pastagem certa e fácil.

Estranho foi quando passamos por debaixo da cerca de arame farpado. Indagada sobre o porquê daquilo, se não havia tranqueira ou porteira para uma passagem digna, a nossa vizinha disse levemente e descontraída que era aquele mesmo o caminho. Falou que porteiras e tranqueiras, nenhuma ali havia. Eram perigosas, facilitadoras da entrada de mãos e pernas desonestas. Assim entramos honestamente pela lavoura, numa honestidade sub-reptícia e ingênua.

As palhas de milho balançavam com o pouquinho de vento, roçavam sua textura áspera nos braços da gente, tratando com carícia rude e cheiro bom de milho verde nossos braços espertos.

Os meus braços não paravam. Num embornal, algumas espigas de milho. Haveria nele também espaço para alguns pepinos, que uma salada boa se faria em casa. As melancias eram de outro naipe. Superavam meu tamanho pequeno, e o saco trançadinho que eu levava caberia algumas delas, não muitas. Arrastar todo aquele peso ladeira acima, depois da roça, não seria brincadeira. Mas eu aguentaria carregar tudo aquilo. Afinal, o que se dá não se rejeita. Ainda mais do jeito que era dado, fácil, espontâneo. Melancia era para poucos. E a sorte não recai sobre a gente todos os dias.

Nos movimentos de todos nós, esbarrávamos ora na sombra de um, ora no encalço de outro, de vez em quando na trilha de um terceiro. Meu susto foi quando esbarrei num homem velho, petrificado e fazendo careta diante de mim. Quase gritei, mas estanquei o berro na percepção de aquilo era um espantalho, e dos bravos. Cara feia mesmo, cabelo espetado de palha seca e chapéu carcomido, roupa rasgada sem onde mais botar remendo. Era de espantar a própria sombra. Porém estava parado, e nada poderia fazer comigo, pobre menino atrás de melancias.

Mal mostrei a língua para a sentinela de cara feia, e ouviu-se um grito levado aos quatro ventos. A nossa vizinha exclamava em alto e bom tom: “Corre, gente, que Sô Tonho chegou de carabina!” Como se não bastasse o grito, um estampido ecoou em nossos ouvidos, fazendo doer coração e pernas. E o Sô Tonho foi gritando “Cambada de vagabundo! Larapiada do inferno! Cês num planta e qué cumê, seus fio sem pai!”. Como se não bastassem as palavras, o homem ia berrando e atirando para o alto com a carabina em riste.

Corremos todos, obviamente. Embornais, pepinos, espigas de milho, e até mesmo as melancias. Tudo foi caindo e descendo morro abaixo. As melancias, nem se fala! Desciam rolando pelo terreno com a ajuda de todos os santos. Em apuros, nossa gula teve de ceder a tudo. Como diria o gato do mato lá na fábula: “antes morrer magro no mato, do que gordo no papo do gato!”. Ao passar debaixo da cerca de arame farpado, numa pose de relâmpago, ainda tive minha camisa rasgada. Era o homem gritando lá atrás, e a gente levantando poeira pelo caminho.

Nem posseiro, nem latifundiário, fui bicho assustado sim naquele dia. E até hoje sei que, sob os domínios do medo, muita coragem se tem. Coragem não para comer o que é do homem (ainda mais se for um homem armado), mas para se fugir com todas as forças possíveis. E não há cerca de arame farpado que segure um bicho acuado em fuga.

Aos mestres, com carinho – parte 03

16 de Junho de 2016, por Evaldo Balbino 0

Dona Maria da Penha (com o braço esquerdo virado para trás, a mão esquerda apoiada na região lombar e a mão direita escrevendo no quadro a giz) falava-nos de conjuntos, logaritmos, potências, matrizes, números inteiros e fracionários. Mas eu gostava mesmo era da Trigonometria. Usando o Teorema de Pitágoras, me imaginava um deus criando prédios cujas sombras se projetavam no chão. Elas desciam fazendo com o solo um elo, um pacto, uma hipotenusa se enraizando na terra firme e forte. Eu era um construtor de habitações, assim como o meu pai.

Ermínio, hoje padre Ermínio, nos ensinando que o Brasil tinha muitas riquezas naturais, porém mal distribuídas e mal exploradas.

Eli nos mostrando que a Terra gira no espaço e que os polos têm atração magnética.

Lúcia Resende falando de planaltos e planícies, de rios imensos, de faunas e floras a se perderem de vista.

O Mário Márcio, de chinelas e meias nos pés, nos falando de hidrografia, de divisões geopolíticas do mundo, das brigas de interesse pelos bens da vida terrena.

A Doralice da Emater, com suas botas e sua altura imensa (éramos todos adolescentes baixinhos), dizendo das suas terras num sotaque peculiar, da caatinga, da seca atravessando como punhal os sertões brasileiros. Não tinha como não pensar, nas aulas da Doralice, sobre João Cabral de Melo Neto, sobre a faca só lâmina da poesia desse pernambucano.

Dona Ieda Melo dizendo que toda matéria ocupa lugar no espaço e que a Terra tem camadas cada vez mais profundas.

O seu Élson dando aulas sobre o corpo humano e sexualidade; e a garotada atenta, atenta por demais, olhando para seus corpos sentados nas cadeiras, pensando nas descobertas das próprias geografias que se iam fazendo.

O César da Farmácia e as aulas de reprodução celular, de Citologia e membranas e núcleos. E uma vontade imensa de atingirmos o núcleo da vida!

A Regina Argamim descortinando conosco os reinos Animalia, Plantae, Fungi, Protista e Monera, e eu me perdendo, tal um cisquinho no mundo, no meio de tanta diversidade de vida.

A Maria José e suas piadas, os gráficos infindáveis da Química, a distribuição de elétrons por camadas que eu nunca via, o balanceamento de equações químicas de que tanto eu gostava.

A Cláudia do Sandro e o estudo do carbono, das ligações do carbono, da vida se formando em todos nós.

O Marcos desbravando a física do mundo, dizendo das leis de Newton e do princípio da conservação da matéria segundo Lavoisier. E eu em suas aulas pensando na eternidade de tudo se transformando, nada acabando nesta vida. “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. E eu também lamentando pela lei da gravidade, este apego ao chão que nos arrasta. E o professor nos dizendo que a gravidade é importante, que graças a ela os corpos celestes e nós temos segurança. Atraindo-se, os corpos não vagam a esmo, não se perdem tanto no espaço.

O Camilinho e os desenhos que me davam tanto trabalho. Eu que mal conseguia fazer um gatinho: duas bolas em interseção (eis minha aplicação das lições matemáticas), dispostas uma sobre a outra verticalmente, eram um corpo redondo e desengonçado. A de baixo era mais oval e comprida (o corpo); e a de cima, mais redonda (o rosto felino). Uns risquinhos eram o bigode, duas bolinhas menores eram olhos espertos, uma barrinha vertical compunha o nariz, um parêntese deitado com as pontas para cima fazia as vezes de boca sem dentes e um cedilha fingia ser o rabinho balançando. E as casas que eu construía?! Mal saía fumaça delas. E eram primárias que só vendo!

A Tela Coelho, a Stela Vale Lara e a Ana Cláudia nos ensinando Welcome to New York; Good morning, students; We are going to the Statue of Liberty; Young people in Brazil speak Portuguese... E nossas bocas se esforçando, fazendo pantomimas, aumentando as rugas. Tudo isso no esforço de dizer palavras estrangeiras. Ainda bem que não era francês. Imaginem! Tanto biquinho entortaria ainda mais nossos lábios.

Dona Inácia entrava em sala de aula no papel de orientadora educacional. Dava aulas de como nos organizar na lida estudantil, nos ajudava a preparar os eventos de formatura. E foi com ela que, pela primeira vez na minha vida, ouvir falar do curso de Letras. Decidi, desde então, que esse era o curso que eu faria. Eu caminharia pelas letras.

 

E hoje, falando por meio das letras, o que digo é gratidão, é carinho por todos e todas os que alimentaram o meu amor pela vida e pelas palavras. É aqui um ato de agradecimento esta crônica. Mesmo que o tempo passe, o inexorável Cronos, a memória persiste firme, tecendo-se e tecendo nossas vidas.

Aos mestres, com carinho – parte 02

12 de Maio de 2016, por Evaldo Balbino 0

Tia Turca e Adenorzinho. Os textos aumentando de tamanho. As aulas de Matemática nos dizendo que na vida as coisas pesam. A arca de Noé, de Vinicius de Moraes, me dizendo que a literatura abarca tudo, que todos os animais e amores do mundo cabem numa arca. E nós somos a arca. Carregamos todas as coisas e todos os afetos do mundo.

Dona Aleluia com sua voz e letra no quadro nos dando lições de fé, de contenção, de canto para a vida ficar mais bela, mais ritmada.

Ana do Galo e as mensagens religiosas cheias de esperança.

Dona Ângela nos passando lições de assepsia, entrando vez em quando em sala para nos ensinar também o que de proveito fosse: escovar os dentes, lavar os cabelos, esfregar o corpo. Tudo para uma vida limpa e saudável.

A Cidinha da dona Nita e os presentes dados ao Elefante Basílio. Aquela história gostosa no quadro, grafada a giz, e todos nós a copiando com afinco, com atenção. E uma vontade imensa de entrar na história de Érico Veríssimo, de fazer parte daquela visita ao recém-nascido elefantezinho. E ser o próprio filhote ganhando presentes que não acabassem mais.

A Eliana do Tatita nos pedindo redações sobre Festa Junina e eu escrevendo com satisfação imensa: “A fogueira crepitava no terreiro”. Que palavra linda esta: “crepitar”! Escrevê-la era ouvir a lenha barulhando, bailando de alegria e dor ao som do calor subindo para o céu e iluminando tudo.

Fatinha Coelho nos ensinando que as vogais se irmanam e formam ditongos e que também brigam e dão vida a hiatos. Mostrando a todos nós a necessária disciplina para ler e escrever, para avançar na vida.

A Myrian do Cassiano nos dizendo de particípios regulares e irregulares. Certa vez ela pediu uma redação sobre o Dia das Mães e escrevi um texto intitulado “Ser mãe é padecer no paraíso”. Mais ou menos eu tinha roubado isso do Carlos Eduardo Novaes em sua crônica “Ser filho é padecer no purgatório”. Me empolgara com o texto do cronista e já desde aquela época fui intertextualizando com outros autores sem sequer saber o que é intertextualidade. Tão bom fazer as coisas assim, de supetão, sem altas teorias nos guiando a vida!

A Maria Moreira brincando conosco em sala, revisando as classes gramaticais com leveza e alegria. Foi ela quem me emprestou A carne de Júlio Ribeiro, e eu fui avançando pelas linhas naturalistas com espanto e prazer. Desde ali já fui vendo que a literatura fala de nós, de nossos desejos, de nossos fantasmas.

O José Antônio e suas aulas de literatura, ensinando-nos a ler poemas, a perceber a beleza do poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade.

A Regininha nos ajudando a adaptar Em carne viva para o teatro, levando-nos Mulheres de Atenas para ouvirmos, cantarmos e refletirmos com o Chico Buarque.

E Regina Coelho trazendo literatura, nos mostrando o Morte e vida Severina, a beleza de Fogo Morto, o erotismo das cantigas medievais de amigo; apresentando para nós reflexões sobre nossa língua, a língua que nos constrói. A mesma Regina Coelho me apresentando ao Monteiro Lobato para adultos e à sempre Adélia Prado de minha predileção.

Elzi nos falando dos Incas, Astecas e Maias, dos Australopithecus e Homo Sapiens, da sociedade agropecuária brasileira, do açúcar no Brasil, e eu me apaixonando pela história de Lampião e Maria Bonita. Vontade de uma saga de amor e fúria, de luta pelos pobres, de amor e de guerra. A mesma Elzi nos ensinando que a vaca é animal sagrado na Índia e eu insistindo que o boi também deveria ser.

Alvair do Vavá nos falando dos pigmeus da África e do processo de independência dos Estados Unidos.

Maria Lúcia Chaves e a Revolução Francesa ecoando em nossas cabeças. A leitura fascinante de História da riqueza do homem de Leo Huberman e um passeio pela decadência do Feudalismo perante as forças da mercancia. Um incômodo na minha cabeça nos estudos sobre a intolerância no mundo. O Mississipi em chamas, a Ku Klux Klan, o apartheid, a guerra civil espanhola, a dizimação dos índios em toda a América, os campos de concentração na Alemanha. Tudo isso me fazendo concentrar, me fazendo pensar nas peripécias humanas na Terra. Nos encontros e desencontros de nossa espécie.

 

Tião Melo e suas apostilas paralelas com mensagens e cálculos e mais cálculos. No livro que usávamos, o nome Benedito Castrucci me fascinava. Com seus dois “cês”, dava imponência aos nós da matemática.

O triste nível da política brasileira

19 de Abril de 2016, por Evaldo Balbino 0

"Circo" e fundamentalismos norteiam maioria na Câmara dos Deputados no Congresso Nacional

O Brasil e o mundo assistiram nestes últimos dias a uma festa de carnaval, a um teatro cheio de farsas, malícias, hipocrisias e falta de decoro. E tudo isso montado no palco da Câmara dos Deputados do Congresso Nacional. Perdoem-me os que dançam o verdadeiro carnaval das ruas; perdoem-me os artistas verdadeiros dos palcos de teatro. Entendam que aqui tomo as palavras “carnaval” e “teatro” não no sentido nobre que elas têm, mas sim no sentido de atos e comportamentos ridículos encenados por parte significativa dos deputados federais de nossa nação perante os olhos do Brasil e do mundo.

De acordo com decisão do Supremo Tribunal Federal, apenas os dois elementos contidos no relatório de solicitação de impedimento da presidente Dilma Rousseff deveriam ser considerados pelos nossos representantes na casa legislativa para debate e votação: 1) emissão, pela presidente, de seis decretos de crédito suplementar em 2015 e 2) pedalada fiscal naquele mesmo ano. No entanto, o que se viu não foi isso. Assistimos a discussões muitas vezes vazias ou sem foco, atirando para todos os lados, e fazendo isso não como um tiroteio tonto e cego, e sim no intuito de se chover no molhado, fundamentar o que não tem fundamento, para tentar escamotear algo que diversas vezes ficou claro. As intenções partidárias e espúrias se deflagraram o tempo todo sem a mínima preocupação de eufemismos e amenidades.

Durante os debates, as câmeras denunciavam um plenário muitas vezes esvaziado. Na tribuna, oradores falavam para as paredes ou para “gatos pingados” cuja boa parte geralmente nada ouvia, falando aos celulares, conversando uns com os outros, vaiando, gritando, não respeitando a voz e a vez de cada um. A Câmara somente lotou de fato na hora dos votos.

Depois, durante a votação, o circo perigoso (de levar a um riso que é choro e lamento) ficou de fato mais evidente. A oposição, desmantelando a democracia, foi apresentando por boa parte de seus membros comportamentos nada dignos de parlamentares. Risos, gritos, ofensas, homenagens a familiares demonstrando claramente que interesses privados valem mais do que os eleitores deste país, fundamentalismos de dar medo, referências a supostos “ataques à família brasileira perpetrados pelo governo”, elogios à ditadura e a torturadores (vide as palavras fascistas de Jair Bolsonaro), encenação da violência militar (vide Eduardo Bolsonaro que ofereceu aos militares de 1964 seu “sim” pelo impeachment e fez gestos bélicos como se estivesse, em plena Câmara, portando armas de fogo).

Em todos esses discursos, nada de humanismo e tudo de intolerância. Índios, negros, gays, pobres, sem-terras e classes trabalhadoras foram constantemente apontados como protegidos dos “assistencialismos do governo” e as crianças nas escolas como vítimas das “tentativas de perversão” quanto ao sexo por parte de cartilhas escolares dos governistas. O lema “Tchau, querida”, propagandeado pela oposição ao governo, sempre se dirigia à presidente da república. Porém, logo após a fala do deputado Jean Wyllys, homossexual declarado que luta pelos direitos dos grupos LGBT no Brasil, alguém ao seu redor gritou com ele, descaradamente, um “Tchau, querida” que transbordou homofobia pelos poros e desconhecimento do que são de fato as múltiplas representações de gênero. Infelizmente o deputado Wyllys, num enfrentamento com Jair Bolsonaro, acabou perdendo a paciência e dando uma cusparada no defensor das forças ditatoriais sob alegação de ter sido ofendido.

A predominância da bancada evangélica também se comportou de modo triste e equivocado. Usando o nome de Deus em vão, em nome de uma suposta moral e dos bons costumes, alardeou interesses privados e uma intransigência para com as diferenças. Aqui mais uma vez não generalizo, porque há evangélicos no país e deputados evangélicos na própria Câmara que, mesmo não abrindo mão de sua fé religiosa, não misturam Estado e Igreja, reconhecem a laicização do Estado conquistada há tempos e, portanto, não apresentam discursos antidemocráticos e bitolados. O Jornal El País da Espanha ironizou todo o processo e com muita razão. Com a manchete “Deus derruba a presidenta do Brasil”, assinada por María Martín, o periódico afirma, nesta segunda-feira, dia 18/04/2016, que “Deputados justificam seus votos em Deus, na moralidade e a família: o motivo real da votação é esquecido”. Mostrando que estamos com um dos congressos mais conservadores desde 1985, o jornal sugere que “que ninguém leu o relatório com os fundamentos jurídicos que justificariam o crime de responsabilidade para a queda de Dilma – ou, pelo menos, ninguém se esforçou em demonstrá-lo”. E termina com ironia o periódico, numa referência ao fato de que temos um congresso “cheio de fundamentalistas religiosos e que possui o maior percentual de deputados com familiares políticos desde as eleições de 2002”: “Após quase cinco horas de votação, Deus e os netos dos deputados derrubaram a presidenta do Brasil”.

Este texto que ora escrevo pode ser tomado como carta aberta – e indignada – de um cidadão e cristão brasileiro a boa parte das Excelências da Câmara dos Deputados do Congresso Nacional. Sou cidadão sim, pois vivo numa sociedade de que participo com dignidade, pagando meus impostos, respondendo prontamente às leis do meu país, vivendo nesta nação com civilidade, respeitando a todas as pessoas à minha volta. Cristão também sou, pois nasci e fui criado num lar que me apregoou Cristo e o Deus cristão desde cedo. Do mesmo modo que eu poderia ter nascido em outra cultura e ter aprendido outros nomes de Deus.

Ser cristão de “mente aberta”, antenado com as questões culturais mais amplas, é não seguir estatutos ultrapassados de civilizações que não apresentavam ainda os avanços democráticos que hoje conquistamos. Diversos dos códigos de vigilância e punição atribuídos ao Moisés bíblico e aos arroubos depreciativos de, por exemplo, um Paulo em suas cartas, devem ser lidos em seus tempos e não atualizados de modo fundamentalista como muitos fazem hoje em nome de Deus. Tais leituras descontextualizadas apresentam uma ignorância tamanha, não fazem distinção entre o discurso e a coisa discursada, tomam a palavra pelo fato, confundem o sagrado com suas representações. E nessa confusão, acabam por acreditar que seus dogmas são melhores do que os dogmas alheios. Muitos desses deputados falavam “em nome de todos os cristãos do Brasil”. Eu, cristão, não me sinto representado por falas que ferem um dos princípios basilares do cristianismo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Se não há respeito pelo próximo, não há amor.

Minha salvação – no sentido espiritual, ético, social, político – foi ter aprendido ao longo da vida que o sagrado e os discursos que tentam representá-lo não se confundem. Daí o meu respeito, inclusive, por todos os tipos de religião. Quando se respeita a vida, todas as formas de vida que não oprimem outras possibilidades de existência, aí sim estamos libertos, estamos salvos; aí sim demonstramos respeito e ética.

Diversos deputados, inclusive o próprio Eduardo Cunha com seu sarcasmo e cinismo, disseram várias vezes: “Que Deus tenha misericórdia deste país”. De fato, precisamos mesmo da misericórdia divina. Não podemos aceitar uma Câmara presidida por um réu da Lava Jato, uma Câmara composta em sua grande parte por muitos fazedores de pantomima demagoga e patética, uma Câmara que se constrói (também em sua grande parte) em bases fundamentalistas e antidemocráticas. Nada mais nos resta em termos de sonho, num país onde boa parte dos membros da instituição legislativa federal não sabe nos representar com decoro e dignidade, mas fazendo apenas carnaval e partidarismo sórdido.

Encaremos a dura realidade, peçamos mesmo misericórdia a Deus (sem falsidades) e lutemos contra os golpes à democracia. Lutemos nas ruas, nos movimentos sociais, votando e educando as pessoas para não votarem em fundamentalistas e corruptos. Muitas vezes merecemos os governantes que temos: votamos por escusos interesses econômicos, por valores religiosos, partidários e familiares. Votamos em quem é da nossa cidade ou da nossa região, simplesmente por apego (interessado ou afetivo) aos ditames da conterraneidade. E não buscamos informações, e não analisamos as ideologias que guiam os discursos dos candidatos. Se a maioria da população fizesse o contrário de tudo isso, aí sim faríamos valer a democracia e não permitiríamos que uma elite economicamente minoritária transformasse a Câmara dos Deputados e o Brasil num espaço de cooptação da maioria, de lavagem cerebral dos muitos que não constroem a própria opinião ou que a constroem guiando-se por interesses próprios e não coletivos.

Diz o velho ditado, em si preconceituoso, mas com certa verdade: “Na terra de cegos, quem tem um olho é rei”. Por enquanto, pelo visto, ainda poucos têm o olho para enxergar.

Aos mestres, com carinho – parte 01

14 de Abril de 2016, por Evaldo Balbino 0

Ilustração Elimar do Carmo

Jesus e Laura. Tia Jusceia e tia Lúcia do João Bosco. Dona Dilma, Regina Azevedo e João Bosco do Zé Mendonça. Tia Turca e Adenorzinho. Dona Aleluia, Ana do Galo e dona Ângela. Cidinha da dona Nita. Dona Eliana, a do Tatita. Fatinha Coelho, Myrian do Cassiano, Maria Moreira, José Antônio, Regininha e Regina Coelho. Elzi, Alvair do Vavá e Maria Lúcia Chaves. Tião Melo e dona Maria da Penha. Ermínio, Eli, Lúcia Resende, Mário Márcio e Doralice da Emater. Dona Ieda Melo, seu Élson, César da Farmácia, Regina Argamim, Maria José, Cláudia do Sandro e Marcos. Camilinho. Tela Coelho, Stela Vale Lara e Ana Cláudia. Dona Inácia.

Isso não é simplesmente uma lista de nomes. São alcunhas que plantam em mim muita memória. Cada palavra aqui escrita foi pronunciada várias vezes em minha vida. Esses nomes com seus especificadores percorreram minha vida afora sempre. Falados e ouvidos, escritos em cartas no Dia dos Pais, no Dia das Mães ou nas capas dos meus cadernos escolares.

Jesus, nome tão bonito e sagrado aos meus ouvidos desde a primeira infância, é nome do filho de Deus, é nome de Deus e é também o nome do meu pai. Conhecido pelas ruas de Resende Costa como Didi do Ribeirão ou Didi Pedreiro, ele é quem me gerou no ventre de minha mãe, quem desde cedo me deu exemplos de vida, de honestidade, de atitudes humanas eivadas de amores e furores. Humano, com seus rompantes de braveza e flores de amor, sempre me ensinou a viver com dignidade e respeito.

Laura, nome com aura em si mesmo colocada, uma coroa de vida engendrada sobre mim. Seu útero deu ao mundo dez filhos. Eu, o oitavo embrião vindo desta mulher amorável e às vezes dura quando necessário. Mulher forte no trato com a vida, como forte sempre foi também meu pai. Os dois progenitores, amando os dois rebentos que se foram muito cedo desta vida, e amando cotidianamente os oito filhos que ainda permanecem na faina de viver. O amor é tanto, que se estende como sombra protetora sobre genros, noras e netos. Amor sem medidas.

Didi e Laura, meus pais, de mãos dadas comigo, me ensinando a construir e a tecer vontades de vida plena. O pedreiro e a tecelã, e lições de tecelagem e construção, tessitura e argamassa, sendo aprendidas por mim. A luta para criar os filhos, a perda de dois deles, colchas e casas sendo construídas porque a vida tem urgência de abrigo, calor e carinho. Genitores de amor, braveza, brados e carícias.

Os demais nomes citados também caminharam comigo. Caminharam e caminham. Nos bancos das escolas Estadual Assis Resende e Conjurados Resende Costa, escutei suas vozes, suas broncas, sua paciência cotidiana no ofício de ensinar, de cobrar lições todos os dias, de demonstrar exemplos de competência e ética. Quase nada me sai da lembrança. As orações subordinadas, a tabela periódica, o relevo brasileiro, a ida do homem à Lua, as equações do segundo grau com duas variáveis, a Citologia, a reprodução da vida, a perestroika e a glasnost, o Capitalismo, o Socialismo, a Guerra Fria. E como era difícil o “What’s your name?” saindo incipiente e torto de nossas bocas aprendizes! O diagrama de Linus Pauling, que não sei se ainda é estudado nas escolas. As palavras denotativas, a sintaxe e o emaranhado de palavras nos livros, em minha cabeça e nas minhas mãos.

Tia Jusceia e tia Lúcia do João Bosco me ajudando nos andaimes rudimentares da linguagem. As primeiras letras. As cartilhas pelas quais eu viajava vendo que a ave voa, a ave do Vavau; vendo a vida que ia, a vida escorrendo de alegria e tempo. Tempo de aprender. A cidadezinha sem poluentes. Os desenhos, os textos, o corpo humano em aprendizagem e vivência. A indomável e importante água nos matando a sede e nos fazendo importantes por sabê-la inodora, incolor e insípida. E uma vontade tamanha de dizer às professoras que não era bem isso, que a água tem gosto de água, tem cor de água, tem cheiro de água. Um cheiro de vida e frescor, uma cor de frio gostoso matando a sede, um gosto de felicidade amainando cansaços. E a água da chuva caindo em nossas vidas pelas ruas de Resende Costa.

Dona Dilma, Regina Azevedo e João Bosco do Zé Mendonça. Nossas corridas debaixo de um grande ipê no pátio da escola, as partidas de queimada e a bola girando alta e forte, batendo em nossos braços e pernas com vontade. Minhas chinelas Havaianas esquecidas debaixo da árvore e sumidas para sempre. Isso no tempo em que muitas crianças pouco tinham para vestir e calçar. Os exercícios no pátio, e suor que não acabava mais.