As sereias do córrego da Sá Bilica – parte 2
17 de Marco de 2016, por Evaldo Balbino 0
A mãe e a tia, avisadas, mandaram mensageiros para a lavoura, onde o pai e os irmãos estavam na labuta. Os homens voltaram, assustados e prestimosos. Organizaram uma busca dentro do córrego, perto da grande pedra. Nadaram mais para baixo, seguindo a correnteza. E nada de encontrar as desaparecidas.
Depois, decidindo por fazer mais um mergulho, um dos irmãos baixou mais rente da base da pedra e viu uma passagem lá no fundo das águas. Estranho não existir ali um redemoinho! As tranças dos cipós não poderiam inibir a formação do sumidouro, pois elas não seriam suficientes para impedir que as águas tragassem o que estivesse na superfície. Entre um cipó e outro havia brechas, passagens suficientes para dar força de sucção à água. Como podia ser aquilo tudo?!
O rapaz chegou com a cara mais perto daquela abertura e, de repente, foi puxado por mãos bonitas, de unhas compridas e esmaltadas. Saiu do outro lado, num mundo também subaquático e cheio de plantas.
As mãos que o tinham puxado eram de uma linda sereia. E muitas outras sereias iguais a ela nadavam ali. Bustos de mulheres atraentes e caudas de peixe astuto, todas elas davam voltas em torno de um homem com coroa de algas e pedrinhas brilhantes na cabeça. Era majestática a postura daquele homem entre mulheres, rodeado pelas beldades que lhe rendiam graças, que se curvavam ao seu redor. Ele era, sem dúvida, uma importante figura.
O homem de imediato lhe dirigiu a palavra, dizendo ser o rei das iaras e lhe perguntando por que tinha chegado tão perto do portal do seu reino. O rapaz explicou que procurava por suas duas irmãs desaparecidas e as descreveu ao rei com detalhes minuciosos: as roupas que usavam, a cor dos olhos, o tom dos cabelos etc.
O rei ouviu tudo com um sorriso sarcástico no olhar. Depois das explicações do jovem, sua alteza vociferou com autoridade, dizendo que as duas irmãs estavam ali, que já eram suas prisioneiras e que seriam esposas reais. Confiante em seu poder, não mediu as palavras ásperas dirigidas ao moço.
No entanto, o irmão defensor da família reagiu, não obedecendo às hierarquias existentes nesses mundos de nobreza. Ameaçou dizendo que vários homens da sua terra (irmãos, primos e parentes) invadiriam aquele reino e destruiriam tudo, caso o rei não retrocedesse em sua decisão.
O monarca foi esperto e resolveu negociar. Queria ganhar tempo e sabia muito bem que antes vale um pássaro na mão do que dois voando. Tendo considerado a irmã mais velha a mais bonita das duas, decidiu ficar com ela em seu reino. Disse ao rapaz que ele poderia, então, levar somente a irmã do meio naquele momento e que depois poderia voltar, com mais calma, para conversarem sobre um possível casamento entre ele, o rei, e a irmã que ficaria no seu reino.
– Voltarás aqui com teu pai e dialogaremos sobre o que será melhor para a tua irmã. Quero-a como esposa e vos darei meu reino por ela.
O moço acreditou, pegou sua irmã do meio pelas mãos, e ambos voltaram pelo portal onde ele passara.
Qual não foi a felicidade da família – que já esperava aflita –, quando viu irmão e irmã emergindo das águas!
O jovem conversou com todos, explicou o que estava acontecendo e voltou com o pai até a base da pedra para irem ao reino das sereias. Foram-se, esperançosos de que algo poderia ser feito, de que o rei desistiria do seu mau intento.
Só que, chegando os dois ao fundo do córrego, não havia mais nenhum portal. A passagem deixara de existir. E a irmã mais velha nunca mais apareceu. Sabe lá Deus qual tenha sido o seu destino.
O menino caçula acreditava em todas essas palavras da irmã. Mesmo que a ribeira fosse um fiapinho à-toa, pouca água escorrendo entre pedras e areia, ele não duvidava de nada. O medo de afogamento afugentava seus braços e pernas inexperientes. A profundidade daquele corregozinho era um mito, uma verdade não experimentada, um fato inquestionável. Ele também nem desconfiava de que o brilho nos olhos da mana, quando os lábios contavam história tão linda, espelhava o desejo que ela mesma tinha de ser a mulher escolhida pelo rei lá nas profundezas do córrego.
As sereias do córrego da Sá Bilica – parte I
16 de Fevereiro de 2016, por Evaldo Balbino 0
O rei atirou
Sua filha ao mar
E disse às sereias:
— Ide-a lá buscar,
Que se a não trouxerdes
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias...
Quem as viu voltar?...
Não voltaram nunca!
Viraram espuma
Das ondas do mar.
Manuel Bandeira
Para menino que ainda não lia palavras escritas, as vozes eram páginas a ser lidas. Não faltavam nunca as contações de história em rodas de crianças ou à beira da cama na hora de dormir. Geralmente eram os mais velhos que ficavam no centro das atenções de um grupo infantil. A infância permanecia ávida por fatos ou invenções transplantados para discursos cheios de vida. Contando-se histórias, viviam-se horas durando a fio, de uma alegria que não se mede de jeito nenhum.
A irmã mais velha era desses adultos que tinham lá suas narrativas especiais. A mais empolgante história que ela contava era a das irmãs trabalhadoras e das sereias que habitavam o córrego da Sá Bilica.
O terreiro de terra batida da casa era grande e com muita poeira. Os homens na roça estavam colhendo e secando as palhas de feijão, que logo seriam trazidas ao terreiro para ser batidas com vara cortada de pau d’óleo. As irmãs tinham de buscar alecrim-fêmea para fazer vassoura. E depois juntariam as touceiras na ponta dum cabo, amarrariam-nas com embira forte e começariam a limpar o quintal. Cada uma começando dum canto diferente, até se encontrarem no centro, com o monte de terra e ciscos a ser recolhido e jogado no valo, depois da pequena plantação de cana, bem lá atrás dos limoeiros. Assim, com o terreiro limpo, o feijão batido não ficaria tão sujo. Daria menos trabalho na hora de ser retirado das sacas e ser escolhido por mãos laboriosas à beira da pia e do fogão.
As irmãs eram três. Saíram no meio da manhã, com o sol ainda frio, preguiçoso. Decidiram, sem nada falar com a mãe, que subiriam pelo Quebra-panela, perto da casa da Teresa do Roberto.
Lá chegando, atravessaram a pinguela vergada sobre o córrego do moinho. Ao invés de continuarem na subida, decidiram descer pela ribanceira e caminhar pelas águas, os pés pisando água mansa e fria, os corpos passando rente às pedras escuras de lodo e tempo. Fizeram como Chapeuzinho Vermelho: seguiram rota outra, mais prazerosa, sem nenhuma preocupação.
Já no córrego da Bilica, mais lá para baixo, o desejo era de mergulho com roupa e tudo na pequena lagoa formada ao lado da grande pedra, debaixo de árvores, cipós e silêncio. Alguns ramos de cipó eram tranças traiçoeiras, cabelos descendo lodosos para debaixo das águas escuras e silentes. Só o barulho de água escorrendo, batendo em seixos que despontavam do leito do córrego, líquido resvalando seu corpo na dureza das pedras, alisando-as de modo contínuo e sedutor. E as pedras gostando daquilo, daquele roçar de águas femininas e deslizantes como serpentes.
A irmã mais velha, cheia de animação, se foi primeiro. Mergulhou com seu vestido de saco branco e rendas verdes nas bordas. A irmã do meio, um pouco hesitante, de blusa listrada e saia creme, também foi logo atrás. A mais nova, com medo sem conta, detentora de tranças longas e de tremores, ficou ao lado da pedra, esperando que as irmãs voltassem. Poucos minutos de espera, e elas não voltavam. A menina foi esperando, esperando, e nada. E então a dúvida: subiria a Passagem do Meio para catar as vassouras ou voltaria à sua casa para dizer do sumiço das irmãs? O medo das ausências fraternas falou mais alto. Ela retornou para pedir ajuda.
Sol e vida em Pintópolis
13 de Janeiro de 2016, por Evaldo Balbino 3
Viajei com alguns amigos neste fim de ano para o norte de Minas. Não fomos a um lugar muito conhecido. Nada de cidades assaz mencionadas, as que governam economicamente numa região cheia de mazelas, de abandono social e econômico. Fomos a uma pequeníssima cidade de nome curioso: Pintópolis.
Às mentes férteis de plantão vou logo explicando o nome da cidade. Há bem tempo, um fazendeiro do local, por nome Germano Pinto, cedeu parte de suas terras para a edificação do lugar. Daí o nome exótico dessa urbe, mais parecendo ela um povoado, de tão pequena que é. Não, não quiseram mesmo chamar a cidadela de Germanópolis. Preferiram o sobrenome ao nome do ilustre fazendeiro. Resultou dessa preferência a alcunha de Pintópolis, que aliás chama mais a atenção das pessoas à primeira vista.
Para quem vai até lá, no entanto, o que chama atenção mesmo é a hospitalidade dos pintopolenses. Gente de boa prosa, de diversão farta. O Sol é escaldante, agressivo, mas os rostos têm um calor que não queima, uma alegria que embala e refrigera a existência.
Ali, no nosso segundo dia de estada, dois amigos e eu fomos cruzar o rio São Francisco a barco movido a motor. Queríamos buscar peixe para o almoço. O barqueiro não tinha gasolina. Procuramos um senhor que não nos conhecia, o Seu Belo. Homem idoso, sem dentes, rugas que não acabavam mais. Cabelos brancos, na cabeça e pelo corpo. Sem camisa, ele consertava no braço uma bomba d’água, num esforço para puxar água do Velho Chico. Uma água barrenta, contudo importante para a vida. O Seu Belo nos atendeu prontamente, ofertando um litro e meio de sua gasolina. Sorriso largo, mão estendida com aperto camarada em nossas mãos, aquele senhor foi logo dizendo de alma verdadeira: “Nóis arruma pro ‘cês até o que num tem, minha gente!”. Quando voltamos do outro lado do rio, levamos para o novo amigo cinco litros de gasolina em ato de agradecimento.
Os pintopolenses nos recebem com doce de baru, farinha de macaxera, carne de sol, maxixe refogado, vinho de jenipapo, creme de pequi, feijão de corda e outras guloseimas. A dona Maria, senhora que me hospedou com amor de mãe, ofertava pela manhã um café bom (com açúcar), pão de queijo, peta (um biscoito de polvilho de dar água na boca), cinco pires (um biscoitinho maravilhoso composto por cinco ingredientes) e bolo de mandioca (de verdade, estupendo; não desses com aroma artificial que compramos nas grandes cidades, os quais nem gosto de mandioca têm).
Também nos recebem aqueles cidadãos com uma linguagem sui generis de dar gosto. Nunca ouvi tanto “aculá” como em Pintópolis. “Já vou aculá mais painho”. “Cumadre Teresa ficou aculá pra mode pilá o mio”. Para expressar a dúvida de uma ação futura, usam pouco o “talvez” consagrado em nossa língua. Falam quase sempre “Cumpoca”:
– ‘Cê vai na festa, Mariinha?
– Sei não. Cumpoca eu vou.
Me disseram tanto “Dê cá ‘qui o prato, moço!” e “Dexe de cerimônia e come mais um bucado”, que acabei perdendo a vergonha e me esbaldando na comeria que ofertavam. Haja academia depois disso para perder as calorias!! Um rapaz prosador da cidadezinha até chegou a brincar comigo que a língua que eles falam é do “estadinho de Pintópolis”. E que língua bela!
Nas festanças de noite, bailes regados a forró e cerveja madrugada afora. Festa do Mimoso, Virada de Ano na praça com bandas de forró e sertanejas. Tive até de ensaiar uns passos. Logo eu que não sei dançar, corpo duro que nem pedra, igualzinho a pau torto fincado na terra pra mode servir de moirão e de cerca. Pois arrisquei um gingado no meio dos terreiros batidos por pernas animadas de todas as idades. Arrisquei e não me arrependo do desengonço, que felicidade não tem preço.
Depois das saídas em Pintópolis, o jeito era chegar sonolento na casa da dona Maria e dormir. Fiquei hospedado no seu sítio, a uns 15 minutos de carro do centro da cidadezinha. Mas antes de dormir o certo era namorar, lá no canto do curral, o pé de flamboyant com sua copa frondosa e suas flores vermelho-alaranjadas.
Pela manhã, o Sol já despontava invasivo no céu. Mas os galos e os pássaros cantavam, anunciando um novo dia. E o flamboyant nos saudava alegre e forte, beijado por borboletas inquietas e multicores.
A vida é um guarda-chuva aberto
17 de Dezembro de 2015, por Evaldo Balbino 0
A briga com a irmã era rotineira. Sempre um motivo qualquer, por mais simples que fosse, desencadeava os desconcertos. Ele foi se dirigindo até ela, porque aquilo não poderia ficar como estava. A atrevida tinha passado por ele, espevitada, e dera um beliscão em seu braço. Um beliscão fininho, desses que fazem doer até mesmo a alma. Dera o beliscão e correra para debaixo da saia da mãe. Não, aquilo não poderia ficar barato mesmo.
Chegou-se a ela, ameaçando também um beliscão. Ou um chute, que este haveria de doer na canela da infame. A mãe, entretanto, não se dando conta do contexto bélico dos irmãos, houve por bem proteger a menina terrível. Ou então a progenitora tinha visto todo o ocorrido e resolvera apaziguar a guerra. No exato momento em que ele se aproximava, a mãe, brava, armou a mão para dar uma palmada no filho, para afastá-lo da beligerante tentativa de couro na irmã.
Com medo das mãos da mãe, ele se afastou num repente. Afastou-se, porque as mãos que amam também machucam.
Afastando-se para trás, sem olhar para onde ia seu corpo pequeno, acabou por bater um dos calcanhares numa bacia de água quente posta ao lado do banco de madeira.
Por que estava ali aquela bacia? E justamente com água quente? O irmão mais velho, tendo chegado da roça, a tinha colocado ali. Tomara banho na cachoeira, ao lado da lavra. Mas agora os pés estavam sujos, pela longa caminhada de volta para casa, e tinha de lavá-los. Mas por que não colocar primeiro água fria para só depois temperar com água quente? Não era assim que a mãe sempre ensinava, que as irmãs solícitas e sabidas exigiam? Mas regras foram feitas, parece, para não ser cumpridas. E o irmão mais velho se esquecera de que todo cuidado é pouco em casa onde há crianças, idosos, cães e gatos.
O menino caiu de chofre sentado na água quente. E o seu choro levantou-se pela casa. O alvoroço na cozinha foi imenso. A mãe ficou petrificada. O pai veio correndo do terreiro, mas as pernas trementes ficaram de repente paralisadas. O irmão mais velho e os demais irmãos começaram a gritar, de susto, de terror. Somente a tia Lúcia, mais forte que todos, foi capaz de fazer alguma coisa. Levantou-se do banco de madeira e pegou o sobrinho num solavanco. Ele chorando, gritando, e ela foi-lhe descendo o short, sem medo nenhum.
A peça de roupa foi saindo, ensopada. E com ela foi saindo uma pele fininha, destruída pela água quente. Como se não estivesse se incomodando com a dor do sobrinho, a tia foi fazendo tudo com decisão, sem hesitações que nada resolveriam. No seu gesto seguro, aparentemente frio e rude, residia, no entanto, muito amor. Amar com rudezas é possível. Isso é amar com pisadas fortes, com pulso firme, sabendo que a dor do momento é inevitável e que essa dor deve ser atravessada de cabeça erguida para se chegar são e salvo na calmaria do outro lado.
Depois, na cama, o menino não queria consolo. Passaram-lhe clara de ovo no bumbum e lhe deram beijos mais fartos. A mãe até fez no forno, iglu levantado com tijolo, biscoitos em forma de bonecos – e isso para acalentar a dor do filho. E ele resmungão, aproveitando a agonia sentida para usufruir da explícita e cuidadosa proximidade da família.
Na manhã do dia seguinte, o irmão mais velho decidiu-se amoroso. Pegou o carrinho de mão do pai, forrou o fundo do carrinho com manta limpa e macia e colocou ali, deitado de banda, o irmãozinho convalescente. Depois abriu sobre o maninho uma sombrinha grande da mãe e o levou até a venda do Tino, lá no Ribeirão de Cima. Levou-o para comprarem pirulitos guarda-chuva.
O garoto aceitou feliz e com cara triste. Afinal, estava melhorando de uma queimadura e não podia esbanjar alegria, esnobar felicidade por ser tão bem cuidado. Tinha de dizer que doía, deixar-se abraçar pelos que tinham piedade dele. Até gemidos faziam parte de tudo. A queimadura doía mesmo. Mas, mesmo se não doesse, ele teria de fazer cara de choro, expressão e gesto de lamento. Entregou-se aos braços do irmão, segurou com vontade a sombrinha da mãe (protegendo-se do sol forte que fazia) e deixou-se conduzir, inválido, estrada acima. Iria para diante do balcão da venda, uma vitrine cheia de guloseimas e vida.
Na volta, o carrinho descendo seguro pelas mãos fortes do irmão, e o menino lambendo com vontade um pirulito. Ao seu lado, numa sacolinha de plástico transparente, vários outros pirulitos faziam fila para atender gula tão grande. Embalados em papel alumínio amarelo, num tom brilhante de dar felicidade, os guarda-chuvinhas estavam fechados, misturando-se amorosos e contentes por satisfazer o gosto de criança machucada. E um desejo maravilhoso de abri-los com gulosice, mas também com cuidado para que as pontinhas não se quebrassem. Nenhum pedacinho da guloseima poderia se perder.
O menino abriria as embalagens e sentiria o doce chocolate se ofertando à sua dor e à sua boca sobre o carrinho. Os guarda-chuvinhas seriam abertos, como a vida se abre amorosa e bela sobre nós. Viver é tão bom, o menino sentia. Viver é tão bom, apesar das coisas ásperas da vida.
Cavas e estradas
19 de Novembro de 2015, por Evaldo Balbino 0
Os tratores a que chamávamos de patrolas escavavam novos caminhos. E as estradas estendiam-se mais rasas do que as cavas de antanho, mais dadas à luz do dia do que os antros de penumbra e assombrações.
As cavas eram antigas, e nós as amávamos como coisas terríveis e necessárias são amadas. Aqueles caminhos côncavos eram nossas únicas possibilidades. E ai dos meninos mandados sozinhos à venda do Tibúrcio lá no Ribeirão de Cima ou à venda do Nélson no Ribeirão de Baixo. Geralmente isso era mais de noite, hora do escuro em que vinha a lembrança de que as lamparinas estavam secas, sem querosene que alumiasse as trevas. E eram muitas as virgens loucas, as que se gabavam de esperar pelo esposo, mas que sempre estavam desguarnecidas sem o combustível para a luz. E quem pagava pelas loucuras desses adultos desatentos, virgens desmiolados, eram as crianças. Eram as crias que tinham de enfrentar a boca da noite para aluminar toda a família.
Quando a venda do Tibúrcio já não mais existia, abriu lá em cima, no topo do Ribeirão, a venda do Tino. E eu tinha medo de ficar grande como os meus irmãos, os que iam de noite buscar querosene para a família e rolo de fumo para nosso pai lá no Tino. Se me mandassem subir aquela cava funda e escura, eu morreria de terror. Logo ali, onde meu avô vira certa vez o Cavalo de Três Pernas e onde muitos diziam já ter visto a Luz da Pedra? Deus que me livrasse de tamanhas aparições!
Já as estradas do Ribeirão, as que iam sendo abertas pelas patrolas, essas sim renovavam nossas forças, davam-nos coragem nunca antes possuída. As estradas ficavam mais perto do céu, da proteção de Deus, da luz parca ou forte das estrelas e da Lua. Por elas passamos a andar com mais calma, com um medo mais suportável.
As estradas tinham, por outro lado, seus contratempos. Com o advento delas, também advieram denúncias daquelas vidas que, nas cavas, escondiam-se em práticas não aceitas pela comunidade do Ribeirão. Adultérios, fornicações as mais diversas, namoros escondidos à luz do dia – tudo isso era fato dentro das cavas, as que eram verdadeiros esconderijos para aqueles que não agiam de acordo com as normas. Com bordas altas, ribanceiras cheias de ramas e de ninhos de cocota, as cavas acobertavam aquelas vidas em desvio que prosseguiam seus rumos escondidos. As cavas eram senhoras alcoviteiras. Não faço aqui nenhum julgamento, mas antes reconheço nas senhoras cavas os refúgios a tornarem suportáveis e mais equilibradas as tensões da vida naquela época.
Mesmo denunciadoras, as estradas iam renovando as nossas vidas com novos caminhos, o cheiro de terra gostoso, as cavas virando passado entre matos e relva virgens. As estradas, mesmo fofoqueiras, eram amigas. Há pessoas assim, não há? Falam mais do que devem, ficam à janela olhando vidas e delas dando conta aos quatro ventos. São essas pessoas das quais se diz que, quando morrerem, terão dois caixões: um para o corpo e outro para a língua. No entanto são pessoas amorosas, coração derretido: muito falam, mas também muito amam. Assim eram as estradas, principalmente para os meninos, que passaram a fazer delas os caminhos mais suaves, menos aterrorizadores.
Eu mesmo cheguei a subir muitas vezes, entre o Ribeirão do Meio e o Ribeirão de Cima, a estrada ali construída. Adeus, cava dos meus temores! Adeus, subidas no escuro entre matos para comprar, na venda do Tino, sabão ou pirulitos guarda-chuva! É verdade que, mesmo na estrada, eu ia de olhos desconfiados, retinas meio viradas para o lado direito, o lado da cava. Sempre o medo de surgir dali uma fera. De cobra eu não tinha medo. Cobras não têm pernas e não correriam atrás de mim. Surgiria, também e talvez, um fantasma. Quem sabe o Cavalo de Três Pernas ainda não vivia ali e poderia, de repente, aparecer para mim como um dia aparecera ao meu avô? Meu corpo de menino ia para a venda, mas os olhos eram vigilantes, espertos. O seguro sempre morre de velho! Não é assim que se diz?!
Também, menino, eu fugia por essa estrada nas minhas traquinagens. Depois de uma bagunça bem-feita (que ninguém é de ferro, muito menos uma criança), meus pais ou irmãos começavam a fazer cara feia. Suas bocas crispadas gritando diante de tamanha peraltice, os braços gesticulando ferozes, as mãos agitadas ameaçando palmadas. Diante dessas pantomimas de adultos, corriqueiras e conhecidas, eu escapava com pernas ligeiras e felizes:
– Onde é que ocê vai, minino? Volta aqui, seu diabo!
– Vou pra bem longe, minha gente!
– Vai pra onde, oxente!
– Vou pra “Goropa”, uai!
Mal eu sabia que a Europa era tão longe das terras do interior mineiro. Ainda mais naquela época em que os meios de condução eram parcos e caros para todos nós. As estradas eram longas e iam para os longes, do mesmo modo profundo e extenso das cavas.