O coreto da praça de Monte Azul parecia flutuar sobre o mormaço daquela tarde de sábado. O casamento da prima Zulmira era o evento do século na grota, um desfile de ternos de tergal brilhantes e vestidos de cetim que pinicavam a alma. Com meus sete anos e os joelhos ralados, eu observava tudo do alto de um caixote de vinho. O mundo dos adultos é um teatro de sombras, e tia Odete era a protagonista daquele drama rural.
O sol de março castigava as ladeiras, e o cheiro de porco assado se misturava ao perfume barato das convidadas. Odete, a caçula de uma prole de doze filhas, sempre teve o dom de transformar um batizado em um funeral e um casamento em uma guerra civil. O estopim foi um pedaço de asa de frango. O marido, tio Onofre, um homem cuja paciência era proporcional à sua barriga de chope, cometeu o erro fatal de oferecer a iguaria à vizinha de mesa antes de servir a esposa.
– Você me desonrou, Onofre! – o grito de tia Odete cortou a música caipira como uma navalha em seda velha.
O silêncio caiu sobre a grota. Tia Odete, com seu vestido cor de rosa-choque, começou a marchar em direção à ribanceira que margeava a propriedade. O terreno descia íngreme até o riacho seco, um despenhadeiro de barro vermelho e urtiga.
– Vou acabar com tudo! – ela berrava, jogando o buquê (que nem era dela) no chão. – A vida é um fardo de espinhos! Vou tomar veneno de rato! Vou me atirar no abismo e vocês vão chorar sobre meu cadáver!
Acompanhei a procissão de curiosos, fascinado. Na minha cabeça de criança, imaginava se o veneno de rato tinha gosto de groselha. A tia subiu no topo da ribanceira, descabelada, o rímel escorrendo como rios de petróleo pelo rosto redondo. Balançava os braços, fazendo uma performance digna de ópera mambembe.
Atrás dela, com os braços cruzados e uma expressão de quem assiste a um comercial chato, estava tia Eunice, a irmã mais velha, que era o oposto do drama; era feita de sarcasmo. Enquanto a família tentava acalmar a caçula, a primogênita apenas bocejava, ajustando os óculos no nariz.
– Ai, meu Deus, Odete vai se matar! – gritava a avó, quase desmaiando.
– Pois morra mesmo, minha irmã – disparou Eunice, com uma voz cortante que silenciou os soluços de Odete por um segundo. – Morra logo, que a gente ainda quer comer o bolo! Você está precisando mesmo de um descanso eterno, e nós de um pouco de paz.
Tia Odete arregalou os olhos, a boca aberta em um “O” perfeito de indignação.
– Você está me mandando morrer, Eunice? – soluçou, dramatizando a traição.
– Estou facilitando as coisas. Se quiser, eu dou um empurrãozinho pra ajudar na queda. Mas pula logo, porque esse seu show de todo feriado já perdeu a audiência. O veneno de rato tá ali na despensa, quer que eu busque com um copo d'água ou vai purinho mesmo? – tia Eunice sorria de um jeito ácido, aquele sorriso de quem trocou as fraldas da mana e sabia que ela tinha medo até de lagartixa.
– Você é um monstro! – tia Odete gritava para o vale, enquanto se agarrava a um pé de mamona para não escorregar de verdade.
– Sou prática, Odete. Você faz essa tempestade em copo d'água desde que perdeu a boneca de pano aos cinco anos. O Onofre só deu um frango pra comadre, mulher! Deixa de ser ridícula. Pula ou volta pro baile, que o doce de leite está acabando!
Eu olhava para tia Eunice com uma admiração nova. Ela era a guardiã da realidade. Tia Odete, percebendo que o sarcasmo da irmã ganhava mais público do que o seu martírio, começou a descer da ribanceira com a dignidade de uma rainha deposta, limpando o vestido sujo de terra.
– Eu vou voltar – anunciou soluçando baixo –, mas só porque não quero estragar a festa da Zulmira com o meu sangue.
– Sei – murmurou tia Eunice, voltando-se para o salão. – É o medo de encontrar o capeta e ele te devolver por excesso de drama.
A festa continuou. O casamento seguiu entre risos e fofocas. Tia Odete comeu três pedaços de bolo e tia Eunice continuou vigiando a vida com seus olhos de lince. E eu, ali no meu canto, aprendi que na família o amor às vezes se manifesta através de um “morra logo”, dito por quem sabe que temos vida demais para nos apagarmos por tão pouco. E quanta vida!