A ilha, imersa na solidão entre águas, deseja não ser pedra – deseja comunicar-se com outras terras, outros braços, outros corpos.
Sempre gostei da imagem da ilha! Creio que não seja o que há nela de solidão o que me atrai, mas sim o fato de ser banhada por águas, doces ou salgadas, não importa. E nos rios e lagos e mares existem vidas. Peixes, algas e outros seres se banham neles e neles mergulham e vivem. Pássaros aos montes, fauna e flora que florescem cotidianamente.
Gosto mais mesmo, na verdade, é do que liga a ilha a outras paragens, daquelas porções de terra sob as águas, úmidas de limo e vidas rasteiras. E também de areia, porque na vida os minerais em pó são importantes. As rochas desagregadas nos falam de inteirezas que existem mesmo nos fragmentos. Cada grânulo é ele mesmo, e isso nos basta. Pensar que alguém duma ilha pode se comunicar com outras ilhas, com outros continentes, com outros chãos firmes sob os pés humanos – isso nos dá segurança. As terras emersas são nosso porto seguro.
Sem brânquias para respirar debaixo dágua, sem bexiga natatória para a flutuação, sem outros órgãos sensoriais como a linha lateral para detectar movimentos áqueos, sem os filamentos piscianos que são pura maravilha, sem as nadadeiras e as escamas, sem a pele propícia ao viver entre água e algas sempiternamente – sem essas maravilhas somos todos inadaptados à imersão aquática permanente. Precisamos da água, mas não damos conta de habitá-la por inteiro.
Pobres macacos nus, como diria Desmond Morris, não somos da água nem das árvores nem do ar. Em nossa complexidade cultural, não deixamos de ser primatas, não somos a única espécie do planeta, nem mesmo a espécie superior. Pobres de nós! Quanta presunção nos atravessa e nos corta como fina e fria lâmina! Macacos nus, estamos mergulhados na vida e julgamos que ela está sob nosso domínio, quando na verdade tudo se nos foge.
Descemos, pois, das árvores, e perambulamos pela terra. Somos sempre ligados, porém, às alturas arbóreas e às profundezas das águas. E almejamos até os ares, como se fôssemos pássaros. E até mais do que eles, quando, por exemplo, buscamos a Lua e os píncaros alhures pelo espaço sideral imenso e assustador.
Não somos ilhas. Indubitavelmente não somos. Temos poros e precisamos de conexões. O que acontece é que há vários modos de conexão. Estar com os outros não é necessariamente posicionar-se fisicamente entre pessoas numa praça pública. Quantos seres estão nas aglomerações de pessoas e se sentem, mesmo assim, sozinhos! A solidão é questão de estado de espírito e não de afastamento de um corpo em relação a outros corpos.
Depois que li Baudelaire e outras mais vozes falando da modernidade, dos processos industriais, do crescimento dos burgos, da urbanização crescente da vida, das explosões demográficas, é que fui pescar e entender a expressão “multidão solitária”. Nesse paradoxo reside uma verdade inconsolável. Posso me sentir sozinho entre as pessoas.
É essa solidão que sinto quando, por exemplo, leio O Sentimento dum ocidental, do poeta português Cesário Verde. O autor se destaca por retratar cidades, a vida urbana, as multidões e os aglomerados no final do século XIX. Nesse poema longo, Lisboa é revisitada e descrita com suas ruas, seus mercados, suas gentes e seus contrastes, explorando-se a experiência da vida urbana moderna. De cara, nos deparamos em seu poema com o caráter soturno e melancólico da existência, mesmo urbanizada e em meio à multidão: “Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer”.
Embora contemporâneo de outros poetas da chamada Geração de Coimbra, Cesário é conhecido por sua abordagem única da cidade, fugindo do lirismo tradicional à época e abraçando o realismo cru da vida urbana. Diferencia-se ao focar na experiência do indivíduo na multidão, na dinâmica da cidade em transformação e nos detalhes cotidianos que compõem a vida urbana.
Voltemos às conexões!
Quando ouço uma música, também sou autor dela. E ajudo a compor os sons, a tecer as letras, a dizer tudo o que diz a canção. E vivo tudo o que se fala nela, o que existe porque ela existe. Do mesmo modo quando vejo um filme, assisto a uma telenovela ou a um filme. E quando leio, nem se fala! Amante da leitura, tenho nela uma companhia sem limites, e isso porque a grande multidão humana me acompanha por meio de autores, personagens e lugares. Ler é viver em conexão.
Saio assim da ilha, aquela lá do início desta crônica, e chego aos que leem estas linhas, minha/nossa lida alinhavada com as palavras. Me descubro não estar sozinho. A escrita é também uma forma de viver.