O amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão
/ Tem que morrer pra germinar / Plantar nalgum lugar /
Ressuscitar no chão / Nossa semeadura / Quem poderá
fazer aquele amor morrer / Nossa caminhadura / Dura
caminhada / Pela noite escura
Gilberto Gil – Drão
Esta imagem vegetal, etérea e mineral não me vem à toa. Somos casados com a natureza das plantas, dos minerais e de tudo o mais que nos transcende e é ao mesmo tempo imanente em nós. Nenhum animal se desconecta do que ele é, nem mesmo o humano que muitas vezes acredita ingenuamente ser filho duma selva de pedra. Nossos pensamentos nos levam aqui, ali, lá e alhures. Transportam-nos a lugares onde as ideias vivem, têm medo, sentem saudades e sonham futuros. Mesmo pedras, temos poros.
Tudo o que inventamos tem base real. Nossos pés plantados, refeitos de poesia e sonho, ganham ares alados: voam sem fim dentro da finitude. E assim levamos a vida. Entre perdas e ganhos, vamos germinando e morrendo – vivendo.
Por isso se escrevem tratados filosóficos, se fazem poemas, se registram narrativas inteiras, se aprecia a arte em suas múltiplas faces. Escrevo, por exemplo, esta estorinha muito verdadeira:
Em meio a uma densa floresta em festa, entre musgos e folhas caídas, encontrava-se uma árvore majestosa, porém cansada. Seus galhos se sentiam pesados, o tronco envelhecido e as folhas fazendo-se murchas. Era como se a vida pulsante que um dia a preenchera agora se dissipasse lentamente em meio a tanta vida. A árvore abatida suspirava profundamente, com um gemido quase imperceptível. Cada respiração era um esforço, um ato de persistência diante da exaustão que a consumia. Seu sopro era lento, fraco, carregado de uma melancolia que ecoava pelo entorno sombrio cheio de folguedos.
A vida brinca, apesar da morte, e isso porque a morte só existe porque ela, a vida imensa e tanta, também existe.
As criaturas da floresta percebiam a tristeza da árvore esgotada e se aproximavam com cuidado, como que em respeito à sua dor silenciosa de um leve rumor. As folhas balançavam em uma dança serena e bela, e até mesmo o vento sussurrava palavras de consolo. Os pássaros cantavam melodias suaves e surdas.
O canto, até mesmo o triste, é sempre alegre.
A despeito da vida, e por causa dela mesma, a árvore esfalfada apenas cerrava os olhos, em um cansaço profundo e antigo. Ela sabia que fazia parte do ciclo da vida, que havia dado tudo de si para abrigar os seres da floresta, para purificar o ar e para manter a harmonia do ecossistema. E agora, era hora de descansar.
Apesar da tormenta, serenar é preciso.
E assim sua respiração extenuada foi se tornando lentamente mais suave, mais leve. Os galhos se recolheriam, um a um secando-se aos poucos. As folhas cairiam suavemente ao chão, devagar, devagar. Seriam tapete e húmus; esterco para vidas ali mesmo, naquele momento, e nos futuros incertos. E, no último suspiro, a árvore se despediria, deixando para trás sua essência, sua força e sua beleza eterna, como um legado de amor à natureza. O seu legado sempre vida – sempre-viva.
Isto é uma alegoria, e é verdade e não é lamento.
Quando adquiri o meu lotezinho em minha cidade natal, isso em plena pandemia no ano de 2020, meu pai ficou feliz e seus olhos brilharam ainda mais. Porque eu lhe disse que demoraria muito para construir uma pequena casa. Um dia... bem longe... E solicitei a ele que cuidasse dos poucos 220m2 e das plantas que lá habitavam. Meu desejo era afastá-lo da construção civil, protegê-lo do vírus à época mortífero. Era só um lote, mas isso, juntamente com as atividades de marcenaria no quintal da nossa casa, ocuparia o seu corpo e a sua mente.
Pedi-lhe que plantasse um pé de tamarilho, ou tomate de árvore como também é conhecido, esse enigmático e poderoso fruto que atravessou a minha infância inteira. Os meus o chamam de cajá, nome equivocado que não consta nos livros de Botânica. Cajá é outro tipo de fruto.
Meu pai imediatamente providenciou a muda e, quando retornei à cidade, lá estava o meu pezinho de tamarilho. Plantado e crescendo a todo o vigor. Amei aquela arvorezinha abençoada pelas mãos de meu pai, lavrador desde sua mais tenra infância. As plantas o amavam, e com ele cresciam felizes de existir.
Quase cinco anos depois (eu ainda não sabia disto), meu pai já teria partido deste mundo. O pé de tamarilho está lá no lote, firme. Cercado de cuidado pelos meus olhos gulosos de infância.
Nunca sabemos do amanhã; por isso vivemos agora refestelados de existência.