As formiguinhas do artesanato que labutam em Jacarandira


Economia

José Venâncio de Resende/Emanuelle Ribeiro0

Espaço onde Vanusa trabalha e passa a maior parte do dia (Fotos Emanuelle Ribeiro)

Uma rotina diária de mais de 16 horas de trabalho no tear, de segunda a sábado. O domingo ela tira para limpar duas casas. “Vai ser assim até construir a minha casa”, conta a tecedeira Vanusa Coelho de Andrade, 27 anos, uma das “formiguinhas” do artesanato resende-costense no distrito de Jacarandira, distante 42 Km de Resende Costa.

Tímida, porém bem-humorada, Vanusa recebeu a reportagem do JL, com a condição de não ser fotografada. Um detalhe: carregava pendurada no pescoço a máscara branca de proteção, uma raridade entre as tecedeiras. A máscara é um equipamento que deveria ser obrigatório por proteger contra o pó dos retalhos.

No cubículo onde Vanusa trabalha horas seguidas, está instalado o tear, além da matéria-prima usada durante o processo de tecelagem. É difícil acreditar que ela consiga entrar naquele local por uma portinha estreita, entupida quase até a metade de novelos de tiras de retalhos.

Vanusa estudou em Passa Tempo (18 km de Jacarandira) até a oitava série, quando a partir de 2006 trocou a sala de aula pelo tear. O que não mudou muito foi o horário de levantar; saía 5 horas da manhã para estudar e agora começa a rotina de trabalho às 4 horas.

A artesã começou a tecer por conta própria vendendo para eventuais compradores, em geral descendentes de famílias de Jacarandira que moram fora, ou mesmo amigos dessas pessoas. Tanto que até hoje tem três teares, dos quais dois (para tapetes xadrez e zebrinha) para uso próprio. Mas esbarrou na dificuldade de acesso à matéria-prima (retalho). Então, Vanusa passou a tecer para Ricardo Resende, da Tuca Artesanato em Resende Costa. Ela é uma das cerca de oito tecedeiras de Jacarandira que trabalham para Ricardo, recebendo por tapete produzido. O empresário fornece os novelos prontos ou tiras de retalho para picar e enrolar. A mãe de Vanusa, dona Sara, ajuda picando e enrolando o retalho: “Ela só não tece porque tem problema de coluna”, conta Vanusa.

Vanusa produz a média de 60 tapetinhos xadrezes (tamanho padrão) por dia, ou cerca de 1500 unidades por mês. A produção correspondente a três semanas é recolhida uma vez por mês por Ricardo. “Levando em conta o número de tapetes que tece, Vanusa é uma tecedeira diferente. Além de muitos, são de boa qualidade. Poucos conseguem isso”, declarou Ricardo.



Tuca Artesanato em Jacarandira

Antes da atuação de Ricardo em Jacarandira, já havia tecedeiras no distrito, as quais trabalhavam por conta própria. Há cerca de três anos, Ricardo recebeu o contato de uma tecedeira, a qual mostrou interesse em produzir para a Tuca Artesanato. Suzana Angélica Luz, 26 anos, aprendeu a tecer com a cunhada e logo quis trabalhar com o artesanato, abrindo as portas para a atuação da empresa de Resende Costa em Jacarandira. “Tudo começou quando uma delas, a Suzana, teve o interesse em trabalhar com a gente, daí pra frente foi só aumentando, tanto em tecedeiras quanto em enroladeiras de retalho”, explicou Ricardo.

Suzana tem uma jornada de trabalho bem mais amena: de 6h30 da manhã às 16 horas, de segunda a sexta. Ela produz cerca de 30 tapetes por dia, entregando a cada três semanas aproximadamente 450 unidades. Seus pais ajudam a picar e enrolar o retalho que ela recebe de Ricardo.

Liliane Resende, também da Tuca Artesanato, conta que o interesse partiu primeiramente dos tecelões, mas levar o artesanato para a zona rural é uma maneira também de ajudar os trabalhadores financeiramente e, ainda, valorizar a produção de artesanato nos povoados.

 

A atuação da Tuca Artesanato vai além de Jacarandira. A empresa conta com artesãos em outros povoados, como Ribeirão, Cajuru, Matatu, Boa Vista, Curralinho dos Paulas, dos Maias e Andrade, Tabuado, dentre outros. “O artesanato na zona rural é uma forma de ajudar na renda familiar, visto que é um dinheiro a mais e uma atividade diferente da lida no campo”, concluiu Ricardo.

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