Um novo tempo...


Editorial

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O Tempo! Esse conceito abstrato, físico e filosófico, complexo demais para abarcar racionalmente, influi em nossas vidas e baliza nossos comportamentos, vem inspirando, há séculos, reflexões de filósofos, teólogos e cientistas. Neste início de ano, quando novamente retiramos a página final da folhinha do ano que terminou e iniciamos o novo calendário, façamos também nós uma modesta reflexão sobre o tempo, especialmente sobre o nosso tempo.

Tornou-se clichê a afirmação nada empírica que diz que “de alguns anos para cá o tempo está passando muito rápido”. Será que a terra acelerou o seu movimento em relação ao sol? Os dias, de repente, tornaram-se mais curtos a ponto de impactar na “velocidade do tempo”? A percepção de que o RITMO das nossas atividades cotidianas acelerou, na era das redes sociais e das novas tecnologias, é fato incontestável. O filósofo coreano Byung-Chul Han, na obra “Sociedade do Cansaço”, classifica a sociedade atual como “sociedade de desempenho”. Na visão dele, ao levar as pessoas a se autocobrar por desempenho e produtividade a todo custo, o Ocidente está criando uma doentia “sociedade do cansaço”. Acrescentaríamos que a cobrança por resultados rápidos e por desempenho extremo nos faz imaginar que o tempo está, sim, curto ou passando muito rápido, irrefreável.

Assim como desejamos, presunçosamente, controlar tudo o que nos circunda, queremos também dominar o tempo, nos assenhorar dele. Pelo menos o nosso tempo. Porém, ele sempre vence, impondo-nos derrotas, destruindo planos e projetos de vida, obrigando-nos a redefinir rotas traçadas como se não dependêssemos dele. No final, o tempo nos faz ver que é ele quem (ou que?) permite que sigamos nossos caminhos e realizemos aquilo que ousamos propor.

A derrota do homem para o tempo se dá quando reconhecemos que ele, o tempo, é o senhor das nossas vidas. Aí surge a ansiedade – causa maior de adoecimentos que revelam quão frágeis somos quando tentamos pular as etapas do tempo. Fragilidade que nos faz sentir solitários, tais como uma pequena barca à deriva num mar revolto.

A impotência frente ao tempo nos desafia, contudo, a mudar de estratégia. Ao invés de querer vencê-lo acelerando nossas ações cotidianas, almejando, a todo custo, produzir mais, trabalhar exaustivamente e buscar em tudo a perfeição a fim de atingir resultados recordes, que tal tornar o tempo nosso aliado? Se reconhecemos que não é possível zerar o cronômetro só porque é ano novo, muito menos ignorar as mazelas que desejávamos deixar para trás no ano velho, optemos por requalificar os rumos que estamos dando para nossa vida e reavaliemos as escolhas que fazemos e que impactam nos rumos da sociedade, especialmente as escolhas políticas.

É janeiro, primeiro mês de 2026. Com ele vieram também as guerras que assombraram 2025; as ameaças e investidas de governos e governantes tirânicos permanecem; o radicalismo e o fanatismo (político, religioso, ideológico) continuam a ameaçar a frágil democracia mundo afora; a fome e a pobreza permanecem vivas e latentes como uma ferida aberta.

Reconheçamos, pois, nossa pequenez ante tantos perigos que rondam o ano novo e procuremos agir como se iniciássemos um NOVO TEMPO. Vejamos o tempo não somente como uma grandeza física, mas como uma nova chance de transformar, de fazer melhor, de dar mais sabor, sentido e vida às coisas que realizamos.

Que janeiro, o mês 1 do calendário cronológico e temporal, nos seja favorável. Para as mudanças que buscamos, inspiremo-nos na poesia de Ivan Lins, que na canção “Novo Tempo”, diz: “Apesar dos perigos/Da força mais bruta/ Da noite que assusta/Estamos na luta/Pra sobreviver”.

 

André Eustáquio

Editor-chefe

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