Mais um ano que se vai e o meu pessimismo só aumenta. Foram meses em que convivi com uma realidade cada vez mais caótica. Exacerbação da crise climática (fenômenos naturais cada vez mais extremos); crise no Oriente Médio que expôs cruamente a grande contradição em relação ao petróleo (maior causador do aquecimento da terra, mas que ninguém está preparado abandonar ou pagar mais caro); sensação de insegurança maior gerada pelos desdobramentos da guerra da Ucrânia (que já dura quase cinco anos); e criminalidade crescente (violência doméstica, esfaqueamentos e tiros, toneladas de drogas apreendidas, assaltos, roubos, atropelamentos etc.), com a presença cada vez maior do narcotráfico com digitais latino-americanas.
Alguns dirão que estou sendo catastrofista, mas nem tanto. Creio que o futuro da União Europeia (UE) é incerto, porque a coesão do bloco está a ser ameaçada por dentro e por fora. Afinal, tudo leva a crer que a União Europeia, que viveu comodamente sob o guarda-chuva militar dos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, tenha de transitar de uma potência civil (econômica e socialmente) para uma “potência militar” (incluindo Reino Unido e talvez Canadá), uma vez que não poderá mais confiar no compromisso dos EUA trumpista e pós-Trump para a sua defesa.
Contraditoriamente, os governos norte-americano (de Trump) e russo (de Putin) e talvez chinês (de Xi Jinping) trabalham no sentido de minar o bloco europeu, até a sua autodestruição, e de criar um mundo sob a influência de três potências, deixando a Europa desintegrada e vulnerável (países incapazes de defender a si mesmos). Muito por culpa da jocosamente denominada (Des)União Europeia que nunca teve vontade de concluir as reformas e dar o passo decisivo rumo a uma federação, o que tornaria o bloco uma verdadeira potência.
Além da já conhecida má vontade do sr. Trump em relação à NATO (Organização das Nações do Atlântico Norte, OTAN), o discurso da diplomacia russa propaga abertamente um clima hostil contra a Europa e a “metástase nazista”, numa referência à Segunda Guerra Mundial. A tática do sr. Putin é a política de provocar medo e pânico, que alia ameaças de ataque nuclear a guerra híbrida (invasões de espaços aéreos com drones de origem desconhecida, ataques a sistemas informáticos por parte hackers, guerra de fakenews etc.).
Ainda não se sabe ao certo qual será o desfecho da invasão da Ucrânia, mas dificilmente a Rússia cederá os territórios tomados. Um caminho que está sendo pavimentado através de uma parceria diabólica entre os senhores Putin e Trump. Aliás, ambos sonham com o desmantelamento da União Europeia, pois preferem tratar com países isolados e enfraquecidos. Na sua marcha belicosa, o sr. Putin prepara-se para a guerra, e assim, ao dividir a Europa, aumenta as chances de dominação, principalmente em relação aos países do Leste. E, na hipótese do fim do bloco europeu, os avanços russos sobre territórios do continente seriam contemplados com uma certa anuência para não dizer cumplicidade por parte de norte-americanos e talvez de chineses. Parece que está de volta a ideia dos “donos do mundo” - potências hegemônicas que dividiriam a terra por áreas de interesse - que já resultou em várias guerras, duas delas mundiais.
Se os senhores Putin e Trump atuam de fora no sentido de destruir a UE (basta tirar a muleta da defesa militar da Europa por parte dos EUA e deixar a Rússia livre para tramar novas invasões de territórios europeus), outro movimento acontece no interior do continente, dando força aos eurocéticos de longa data, também com apoio (inclusive financeiro) vindo das duas potências. Os extremos (de direita e de esquerda) avançam nos países europeus, ao explorar a desilusão das populações quer com o custo de vida crescente (principalmente por conta dos combustíveis), serviços públicos degradados, crise da habitação (principalmente por falta de oferta) e estados endividados, que impactam os ganhos das famílias, quer com o aumento das despesas militares (e mesmo com o apoio à Ucrânia) e com a incapacidade dos partidos de centro de resolver os problemas concretos das populações.
As sociedades estão frustradas e fraturadas. As redes sociais se tornaram a moderna praça de guerra onde os extremismos se autoalimentam e se retroalimentam para espalharem violência pelas ruas das capitais e grandes cidades; mesmo que os discursos dos manifestantes, maciçamente jovens, preguem a paz. Os partidos radicais se alimentam da insatisfação difundida, inorganicamente, nas redes sociais, e estas realimentam as estratégias de busca pelo poder destes mesmos partidos e instalação de governos iliberais e pró-russos.
Lição da Segunda Guerra Mundial
A frágil aliança – denominada “Grande Aliança” - entre Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética na Segunda Guerra Mundial só reforçou a ideia de que a antiga Rússia é pouco confiável devido às suas aspirações imperiais. Esta aliança só sobreviveu porque o presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, foi sábio e paciente – em alguns momentos, até irritante por parecer ingênuo –, na sua convivência com Josef Stalin - mesmo sabendo os propósitos expansionistas do ditador russo - em nome de um objetivo maior que era derrotar Hitler. A aliança improvável na Segunda Guerra Mundial se desfez mal acabou o conflito. Hoje, Europa e Rússia (ex-império czarista e ex-união soviética) estão em lados opostos na invasão da Ucrânia.
O rápido desmantelamento, nem bem terminada a Segunda Guerra Mundial, da aliança improvável entre as Três Potências (as democracias dos Estados Unidos e do Reino Unido e o regime revolucionário da URSS) é daqueles eventos típicos de constar de uma segunda parte do livro A Marcha da Insensatez, da historiadora Bárbara Tuchman. E a morte do presidente Roosevelt foi um dos principais fatos que levaram a esse desfecho, além da invasão da Manchúria pelo Exército Vermelho e da utilização da bomba atômica no Japão pelos norte-americanos.
O melhor livro que li sobre a Segunda Guerra Mundial (Aliados em Guerra: os rivais que derrotaram Hitler, de Tim Bouverie, 2026), permite observar que as democracias ocidentais vêm, ao longo do tempo, vacilando nas relações com os regimes imperialistas e autoritários da Rússia. Foi assim nas guerras mundiais, foi assim no período da guerra fria, foi assim nas invasões da Crimeia e da Ucrânia.
A desintegração da aliança, no contexto alargado das relações entre o Ocidente e o Oriente, não surpreendeu, na visão de Tim Bouverie. Ao se recordar de Ialta (encontro histórico em 1945 dos três grandes líderes da Aliança), Winston Churchill disse com melancolia: “Tínhamos o mundo aos nossos pés. Vinte e cinco milhões de homens às nossas ordens, na terra e no mar. Parecíamos ser amigos”.
“As diferenças políticas entre os Aliados foram sempre vastas e, indiscutivelmente, intransponíveis”, prossegue o autor. “Tendo invadido o Leste da Polônia em 1939 e anexado os países bálticos no ano seguinte, Stalin estava decidido a recuperar esses territórios quando os alemães fossem expulsos deles.” O restante já sabemos.
Lula precisa reinventar-se
Contam que um dia o economista e professor Delfim Netto (falecido em 2024) encontrou com Lula nos corredores do Congresso Nacional (ambos foram eleitos deputados em 1986) e lhe disse: “Eu sou um dos poucos no Brasil que leu inteiro o Capital de Karl Marx. Lula, se você precisar de alguma coisa, pode contar comigo”. Ao se eleger deputado constituinte em 1986, o ex-ministro da Fazenda e pai do “milagre brasileiro” na ditadura militar usara o slogan “Delfim Netto, eu era feliz e não sabia”.
Apesar de ter sido acusado pela esquerda de algoz dos trabalhadores por promover arrocho salarial, Delfim Netto tornou-se um interlocutor e conselheiro privilegiado do presidente Lula. O mesmo Delfim Netto que, enquanto ministro da Fazenda nas décadas de 1960 e 70, proferira uma célebre frase que deixou muita gente irritada. “É preciso fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo”. Era o período do chamado “milagre brasileiro” quando o PIB cresceu, em média, 10,2% ao ano, embora a herança tenha sido endividamento externo, inflação e aumento da desigualdade. Comparado com esta época, o crescimento do PIB brasileiro tem sido medíocre. Na campanha eleitoral de 2006, Lula – que havia criticado Delfim Netto durante décadas - pediu “desculpas publicamente porque ele foi um dos maiores defensores do que fizemos em políticas de desenvolvimento e inclusão social que implementei nos meus dois primeiros mandatos”.
Quando vemos o Brasil encalacrado (ou “lacrado “como diz o ex-comunista Aldo Rebelo), com cerca de 70% da população com renda familiar abaixo de R$ 3 mil reais e grande parte dos cidadãos altamente endividada, podemos reinterpretar o que Delfim Netto quis dizer. É angustiante esperar o bolo crescer para depois distribuí-lo, mas também distribuir um bolo que não cresce é promover o nivelamento por baixo.
Até parece que os chineses se inspiraram em Delfim Netto. Por vários anos, a China cresce entre 5 e 10% ano, tornando-se uma potência exportadora e a segunda economia do mundo e tirando milhões da pobreza na zona rural; embora no período da pandemia o crescimento tenha caído abaixo dos 5% e, ultimamente, o país tenha andado às voltas com crise habitacional (excesso de oferta, menor interesse na compra de imóveis, colapso de grandes incorporadoras etc.) e queda na produtividade (o que tem levado os dirigentes a estimularem a substituição de gente por robôs, gerando desemprego). E é evidente que por lá ainda há muito o que fazer, já que o PIB per capita ainda continua baixo (menos de 14 mil dólares) para o padrão dos países desenvolvidos.
Já a Índia tem apresentado um crescimento mais consistente nos últimos anos (de pouco menos de 8% em média). Como o Brasil, ambos os países pertencem aos BRICS (bloco do sul global que Rússia e África do Sul) e ainda padecem de uma distribuição de renda muito desigual.
