Nem tão sábias palavras
14 de Maio de 2012, por Regina Coelho 0
“Todo mundo elogia e tal, mas a frase mais horrível que existe é: pra sua idade você está muito bem.” Quem disse isso, ainda outro dia, foi a apresentadora Xuxa. Apresento aqui minha solidariedade à rainha dos baixinhos, ao que parece, hoje sem reinado. Sem querer me comparar a ela, apenas tentando captar o sentido de suas palavras, fica claro que aquilo que a princípio parece um elogio deve ter soado para a quase cinquentona Xuxa como um prêmio de consolação. O trecho “pra sua idade” chega a ser cruel. Então a pessoa não pode simplesmente estar muito bem?
Devo dizer que não se trata de nenhum problema com a idade, a questão está na forma disfarçada que muitos usam para insinuar que alguém é velho. Vejamos estas outras pérolas que principalmente certas mulheres maduras ouvem: “você está muito conservada”. Ou uma variação disso: “você não envelhece, até parece que está conservada em formol”. Existem também os eufemismos para os considerados feios: “fulano(a) é tão simpático(a)!” Ou então: “ele(a) é bonitinho(a)”, para muita gente é a versão light do(a) feio(a) com dó. Os gordos não escapam: “mas ele(a) tem um rosto tão bonito!” ou: “você está fortão (fortona ou sacudida)”.
Saindo do âmbito da aparência, constato ainda que certas construções linguísticas são meras formalidades, ainda que ditas muitas vezes de maneira informal. Quando, por exemplo, uma pessoa se dirige a alguém dizendo “olá, como vai?” ou “tudo bem?”, sabe que isso é só um cumprimento, sem precisar obrigatoriamente de uma resposta condizente com a pergunta. Há também uma frase quase inevitável que muita gente utiliza na tentativa de tornar mais descontraído o ambiente em que a conversa tem início. Quem recebe, muitas vezes, se vê praticamente obrigado a dizer àquele que é recebido esta educada frase: “fique à vontade”. O perigo é a pessoa levar isso bem ao pé da letra. Já imaginaram? Ou então ouvir dela, como já vi acontecer em uma festa, querer saber seriamente do anfitrião o que ele queria dizer com aquilo. Uma deselegância isso e uma quase confusão à vista.
Mas engraçado é o que acontece com um casal que conheço bem. Ao levar alguém até sua casa, seja amigo, parente ou cliente, ele costuma simplesmente pedir, logo de cara: “não repare a bagunça!”, por mais que tudo esteja arrumado. E sempre está. Dá para calcular a posterior bronca da mulher diante de tão descabido pedido dele aos que, normalmente, não veem qualquer vestígio de bagunça naquele lugar. É a famosa força do hábito.
Igualmente habitual é chegar a uma loja de roupas e/ou de calçados, mostrar interesse por algum produto e ouvir de quem nos atende a indefectível frase: “pode experimentar”. É lógico que a pessoa pode e deve experimentar o objeto de seu desejo. Dispensável, pois, a “permissão”. E quando a gente acha que a roupa não vai nos cair bem e quem quer nos convencer do contrário dispara: “não vai levar? É a sua cara!” Ou “essa roupa se parece com você”. Verdade seja dita. Nem todos agem assim. Pessoalmente falando, nem posso me queixar da forma como geralmente me tratam.
Situação constrangedora ocorre mesmo naqueles momentos em que cumprimentos formais de pesar são trocados indevidamente por manifestações de felicitação. Sei de gente que, em velório, dirigindo-se a um familiar do falecido, cumprimentou-o de forma desastrada proferindo solenemente “meus parabéns”. Acontece também de a pessoa se apoderar da fala de alguém que lhe deve um agradecimento. Em vez de ouvi-lo, afoitamente, ela diz um “muito obrigado(a)”, não dando tempo ao outro de assim proceder. Constrangimento também é perguntar por alguém julgando-o vivo e saber em seguida que esse alguém já morreu há muito tempo. E não dá para esquecer aqueles terríveis enganos a que estamos todos sujeitos quando confundimos pessoas e/ou seus acompanhantes. É o caso de encontrar, depois de anos, um conhecido, elogiar a beleza da “filha” que o acompanha e descobrir, na hora, que a moça em questão é a nova companheira dele.
Mas, de tudo que tenho ouvido ou falado ultimamente, ando meio cismada com o “no meu tempo” ou “na minha época”. Falar assim dá a impressão de que a gente já viveu o que tinha para viver. Ora, o nosso tempo é hoje. De novo, o tempo, a idade... da loba, do condor (onde dói?). Não tem jeito. É viver e envelhecer ou morrer jovem. Melhor a primeira opção, até para que se tenha tempo (mais uma vez ele) de aprender, entre tantas coisas, que, se “a palavra é prata, o silêncio é ouro”. Eis aí um sábio ditado popular segundo o qual calar é mais valioso do que falar. Dependendo das circunstâncias, no entanto, é omissão. E falar é tão bom, principalmente quando as palavras são usadas com sinceridade para declarar um amor, matar irreprimíveis saudades, pedir perdão, consolar, encorajar ou alegrar alguém. Quanto aos comentários às vezes infelizes, às frases meramente formais ou habituais e às gafes cometidas principalmente naqueles momentos em que o ideal teria sido ficar de boca fechada, é melhor reconhecer que ninguém escapa de dizer certas bobagens, inconveniências, obviedades ou até mesmo indelicadezas.
Devo dizer que não se trata de nenhum problema com a idade, a questão está na forma disfarçada que muitos usam para insinuar que alguém é velho. Vejamos estas outras pérolas que principalmente certas mulheres maduras ouvem: “você está muito conservada”. Ou uma variação disso: “você não envelhece, até parece que está conservada em formol”. Existem também os eufemismos para os considerados feios: “fulano(a) é tão simpático(a)!” Ou então: “ele(a) é bonitinho(a)”, para muita gente é a versão light do(a) feio(a) com dó. Os gordos não escapam: “mas ele(a) tem um rosto tão bonito!” ou: “você está fortão (fortona ou sacudida)”.
Saindo do âmbito da aparência, constato ainda que certas construções linguísticas são meras formalidades, ainda que ditas muitas vezes de maneira informal. Quando, por exemplo, uma pessoa se dirige a alguém dizendo “olá, como vai?” ou “tudo bem?”, sabe que isso é só um cumprimento, sem precisar obrigatoriamente de uma resposta condizente com a pergunta. Há também uma frase quase inevitável que muita gente utiliza na tentativa de tornar mais descontraído o ambiente em que a conversa tem início. Quem recebe, muitas vezes, se vê praticamente obrigado a dizer àquele que é recebido esta educada frase: “fique à vontade”. O perigo é a pessoa levar isso bem ao pé da letra. Já imaginaram? Ou então ouvir dela, como já vi acontecer em uma festa, querer saber seriamente do anfitrião o que ele queria dizer com aquilo. Uma deselegância isso e uma quase confusão à vista.
Mas engraçado é o que acontece com um casal que conheço bem. Ao levar alguém até sua casa, seja amigo, parente ou cliente, ele costuma simplesmente pedir, logo de cara: “não repare a bagunça!”, por mais que tudo esteja arrumado. E sempre está. Dá para calcular a posterior bronca da mulher diante de tão descabido pedido dele aos que, normalmente, não veem qualquer vestígio de bagunça naquele lugar. É a famosa força do hábito.
Igualmente habitual é chegar a uma loja de roupas e/ou de calçados, mostrar interesse por algum produto e ouvir de quem nos atende a indefectível frase: “pode experimentar”. É lógico que a pessoa pode e deve experimentar o objeto de seu desejo. Dispensável, pois, a “permissão”. E quando a gente acha que a roupa não vai nos cair bem e quem quer nos convencer do contrário dispara: “não vai levar? É a sua cara!” Ou “essa roupa se parece com você”. Verdade seja dita. Nem todos agem assim. Pessoalmente falando, nem posso me queixar da forma como geralmente me tratam.
Situação constrangedora ocorre mesmo naqueles momentos em que cumprimentos formais de pesar são trocados indevidamente por manifestações de felicitação. Sei de gente que, em velório, dirigindo-se a um familiar do falecido, cumprimentou-o de forma desastrada proferindo solenemente “meus parabéns”. Acontece também de a pessoa se apoderar da fala de alguém que lhe deve um agradecimento. Em vez de ouvi-lo, afoitamente, ela diz um “muito obrigado(a)”, não dando tempo ao outro de assim proceder. Constrangimento também é perguntar por alguém julgando-o vivo e saber em seguida que esse alguém já morreu há muito tempo. E não dá para esquecer aqueles terríveis enganos a que estamos todos sujeitos quando confundimos pessoas e/ou seus acompanhantes. É o caso de encontrar, depois de anos, um conhecido, elogiar a beleza da “filha” que o acompanha e descobrir, na hora, que a moça em questão é a nova companheira dele.
Mas, de tudo que tenho ouvido ou falado ultimamente, ando meio cismada com o “no meu tempo” ou “na minha época”. Falar assim dá a impressão de que a gente já viveu o que tinha para viver. Ora, o nosso tempo é hoje. De novo, o tempo, a idade... da loba, do condor (onde dói?). Não tem jeito. É viver e envelhecer ou morrer jovem. Melhor a primeira opção, até para que se tenha tempo (mais uma vez ele) de aprender, entre tantas coisas, que, se “a palavra é prata, o silêncio é ouro”. Eis aí um sábio ditado popular segundo o qual calar é mais valioso do que falar. Dependendo das circunstâncias, no entanto, é omissão. E falar é tão bom, principalmente quando as palavras são usadas com sinceridade para declarar um amor, matar irreprimíveis saudades, pedir perdão, consolar, encorajar ou alegrar alguém. Quanto aos comentários às vezes infelizes, às frases meramente formais ou habituais e às gafes cometidas principalmente naqueles momentos em que o ideal teria sido ficar de boca fechada, é melhor reconhecer que ninguém escapa de dizer certas bobagens, inconveniências, obviedades ou até mesmo indelicadezas.
As filhas da Vovó
09 de Abril de 2012, por Regina Coelho 0
Integrantes de uma turma de oito irmãos, estando vivos hoje seis, Maria José de Sousa (70) e Maria do Rosário de Sousa (59), as filhas da Vovó, vieram do povoado do Brumado acompanhando a família por determinação materna. Instaladas em Resende Costa, foram impedidas de frequentar escola porque, segundo afirmam, a mãe (que era doente) achava que não podiam ir ao grupo escolar, pois, se saíssem de casa, “o carro matava”. Maria do Rosário ou Rosária (como muitos a chamam), no entanto, faz questão de dizer que sabe fazer contas. A julgar pelo organizado e conceituado trabalho que essas duas irmãs desempenham há mais de cinquenta anos como lavadeiras, elas souberam se impor como profissionais de respeito na área em que atuam.
No começo, Maria José e Maria Aparecida (uma outra irmã) lavavam as roupas da casa, mas por necessidade familiar passaram a aceitar encomendas de trouxas, todas elas levadas para a Fonte da Mina, perto de casa e local de lavação das peças. Aparecida veio a falecer e Rosária assumiu o lugar da irmã na formação de uma nova e dinâmica dupla. E bota dinamismo nisso! E muita história para contar também.
Lembrando os tempos mais difíceis ao lado dos pais (falecidos), minhas simpáticas e sorridentes entrevistadas comentam que puderam contar com a ajuda do José Alencar e da dona Rute, saudosos irmãos do Ênio Resende. Afirmam que por ocasião da compra da casa onde moraram por muito tempo, foram ajudadas também por ela. E o tamanho da gratidão e do carinho que nutrem pela lembrança de uma pessoa tão prestimosa como foi dona Rute pode ser traduzido pela maneira como as duas se referem à sua protetora: “nossa mãe”.
Quando indagadas sobre a primeira cliente (ou freguesa, melhor dizendo), citam a Margarida (do Tarcísio), que confiou a elas a lavação das roupinhas da filha Naná, na época, bebê. E vieram muitas outras, várias delas fiéis até hoje e recomendando o serviço das duas a filhas e noras. À propósito, o trabalho que as duas irmãs executam numa média semanal de oito ou nove trouxas lavadas e quase sempre passadas (opção da maioria pelas duas etapas) começa com a busca da roupa na casa da freguesa. Essa tarefa é exclusiva da Rosária já que Maria José nunca sai de casa, por nada, segundo ela, que simplesmente se acostumou a viver assim e se diz feliz dessa forma. Até dois anos atrás, as roupas eram lavadas na já citada Fonte da Mina, hoje infelizmente abandonada por todos. Por muito tempo, essas tradicionais lavadeiras cuidaram dela fazendo a capina do local e lavando a caixa d’água. Por questão de praticidade, a lavação é feita agora na casa que construíram em terreno também comprado por elas. Tudo fruto de muito esforço de ambas. E, se atualmente contam com as facilidades no uso de produtos variados para lavar e passar as peças de roupas, isso nem sempre foi assim. É verdade que tudo é lavado exclusivamente “na mão” e Rosária não hesita ao assegurar que a quantidade de trabalho não diminuiu com a popularização das máquinas de lavar. O sabão de bola (feito à base de torresmo triturado, soda cáustica e água) não é mais usado, mas as roupas brancas passam ainda pelo quarador. Isso quer dizer que as duas lavadeiras colocam esse tipo de roupa já em processo de lavagem sobre um plástico estendido no chão do quintal da casa por algum tempo, antes de enxaguar as peças. Secas e recolhidas dos inúmeros varais, as roupas são passadas. Nessa hora, reina absoluto o ferro a brasa. O elétrico, nem pensar!
Dá gosto ver as peças dobradas nas trouxas limpas e prontas para o caminho de volta a seu destino, sempre carregadas nos braços da Rosária, uma verdadeira formiguinha passando pela cidade num vaivém constante. Trouxa vai, trouxa vem, é raríssimo alguém deixar de receber alguma peça de roupa ou vir ela trocada de outra trouxa, por engano. E todo cuidado é pouco para não deixar que as roupas manchem. Para evitar que isso aconteça, nossas especialidades recomendam que as peças sejam separadas por cor (o que já é sabido) e, colocadas de molho, não devem ser esfregadas na hora. Elas recomendam ainda varais diferentes para roupas brancas e escuras. Todo cuidado é pouco também para conferir os bolsos de calças, casacos e camisas tirando deles papéis, chaves e dinheiro, muitas vezes esquecidos ali e devidamente devolvidos a seus donos.
Tantos anos de trabalho custaram à Rosária uma “inflamação” crônica no pulso direito. Maria José afirma ter se curado de uma dor antiga no braço. São os ossos do ofício. Segundo elas, ver a roupa clarinha e cheirosa é a melhor parte do serviço. A pior? “A chuva”, respondem as duas, mas sabiamente acrescentando que “tem que chover senão a gente fica sem água”.
Conhecidas em Resende Costa como “as filhas da Vovó”, quis saber delas o porquê de serem assim chamadas. A explicação é simples: Vovó era o apelido da mãe, Nair Sebastiana de Jesus. Sem dúvida, o nome que as identifica na cidade é marca de qualidade associada à excelência dos serviços prestados a tanta gente por essa dupla que sabe levar a vida com a maior dignidade. Limpeza pura!
No começo, Maria José e Maria Aparecida (uma outra irmã) lavavam as roupas da casa, mas por necessidade familiar passaram a aceitar encomendas de trouxas, todas elas levadas para a Fonte da Mina, perto de casa e local de lavação das peças. Aparecida veio a falecer e Rosária assumiu o lugar da irmã na formação de uma nova e dinâmica dupla. E bota dinamismo nisso! E muita história para contar também.
Lembrando os tempos mais difíceis ao lado dos pais (falecidos), minhas simpáticas e sorridentes entrevistadas comentam que puderam contar com a ajuda do José Alencar e da dona Rute, saudosos irmãos do Ênio Resende. Afirmam que por ocasião da compra da casa onde moraram por muito tempo, foram ajudadas também por ela. E o tamanho da gratidão e do carinho que nutrem pela lembrança de uma pessoa tão prestimosa como foi dona Rute pode ser traduzido pela maneira como as duas se referem à sua protetora: “nossa mãe”.
Quando indagadas sobre a primeira cliente (ou freguesa, melhor dizendo), citam a Margarida (do Tarcísio), que confiou a elas a lavação das roupinhas da filha Naná, na época, bebê. E vieram muitas outras, várias delas fiéis até hoje e recomendando o serviço das duas a filhas e noras. À propósito, o trabalho que as duas irmãs executam numa média semanal de oito ou nove trouxas lavadas e quase sempre passadas (opção da maioria pelas duas etapas) começa com a busca da roupa na casa da freguesa. Essa tarefa é exclusiva da Rosária já que Maria José nunca sai de casa, por nada, segundo ela, que simplesmente se acostumou a viver assim e se diz feliz dessa forma. Até dois anos atrás, as roupas eram lavadas na já citada Fonte da Mina, hoje infelizmente abandonada por todos. Por muito tempo, essas tradicionais lavadeiras cuidaram dela fazendo a capina do local e lavando a caixa d’água. Por questão de praticidade, a lavação é feita agora na casa que construíram em terreno também comprado por elas. Tudo fruto de muito esforço de ambas. E, se atualmente contam com as facilidades no uso de produtos variados para lavar e passar as peças de roupas, isso nem sempre foi assim. É verdade que tudo é lavado exclusivamente “na mão” e Rosária não hesita ao assegurar que a quantidade de trabalho não diminuiu com a popularização das máquinas de lavar. O sabão de bola (feito à base de torresmo triturado, soda cáustica e água) não é mais usado, mas as roupas brancas passam ainda pelo quarador. Isso quer dizer que as duas lavadeiras colocam esse tipo de roupa já em processo de lavagem sobre um plástico estendido no chão do quintal da casa por algum tempo, antes de enxaguar as peças. Secas e recolhidas dos inúmeros varais, as roupas são passadas. Nessa hora, reina absoluto o ferro a brasa. O elétrico, nem pensar!
Dá gosto ver as peças dobradas nas trouxas limpas e prontas para o caminho de volta a seu destino, sempre carregadas nos braços da Rosária, uma verdadeira formiguinha passando pela cidade num vaivém constante. Trouxa vai, trouxa vem, é raríssimo alguém deixar de receber alguma peça de roupa ou vir ela trocada de outra trouxa, por engano. E todo cuidado é pouco para não deixar que as roupas manchem. Para evitar que isso aconteça, nossas especialidades recomendam que as peças sejam separadas por cor (o que já é sabido) e, colocadas de molho, não devem ser esfregadas na hora. Elas recomendam ainda varais diferentes para roupas brancas e escuras. Todo cuidado é pouco também para conferir os bolsos de calças, casacos e camisas tirando deles papéis, chaves e dinheiro, muitas vezes esquecidos ali e devidamente devolvidos a seus donos.
Tantos anos de trabalho custaram à Rosária uma “inflamação” crônica no pulso direito. Maria José afirma ter se curado de uma dor antiga no braço. São os ossos do ofício. Segundo elas, ver a roupa clarinha e cheirosa é a melhor parte do serviço. A pior? “A chuva”, respondem as duas, mas sabiamente acrescentando que “tem que chover senão a gente fica sem água”.
Conhecidas em Resende Costa como “as filhas da Vovó”, quis saber delas o porquê de serem assim chamadas. A explicação é simples: Vovó era o apelido da mãe, Nair Sebastiana de Jesus. Sem dúvida, o nome que as identifica na cidade é marca de qualidade associada à excelência dos serviços prestados a tanta gente por essa dupla que sabe levar a vida com a maior dignidade. Limpeza pura!
Ciladas linguísticas
13 de Marco de 2012, por Regina Coelho 0
“A língua trai. Num piscar de olhos, trocamos letras, confundimos significados, ignoramos flexões, pisamos concordâncias, esnobamos regências. Pior: organizamos as palavras de tal forma que nossas frases transmitem recados diferentes dos que pretendemos. Dá-se, então, o que Mário Quintana explicou: “A gente pensa uma coisa, escreve outra, o leitor entende outra, e a coisa propriamente dita desconfia que não foi dita”.
É o caso da faixa exibida em frente a charmoso salão de beleza unissex. Ansiosa por aumentar a clientela, a proprietária anunciou: “Corto cabelo e pinto”. O resultado foi o contrário do esperado. Os homens sumiram. As mulheres rarearam. O que houve? Concretizaram-se as palavras do poeta gaúcho.
O xis da questão é o “e”. A conjunção liga classes iguais: substantivo + substantivo (Maria e Paulo), adjetivo + adjetivo (bonito e elegante), pronome + pronome (eu e ele), verbo + verbo (trabalho e estudo). Os clientes leram dois substantivos (cabelo + pinto). Já imaginou? Ninguém quis correr riscos. Os senhores protegeram o pênis. As mulheres foram solidárias.
A pobre comerciante se deu conta da cilada. Arrancou a faixa com a mensagem ambígua. No lugar, pendurou esta: Corto e pinto cabelo. Viva! O “e”, agora, liga dois verbos – cortar e pintar”.
Extraído da coluna de Dad Squarisi “Dicas de Português”, que o Estado de Minas publica às quartas-feiras e aos domingos, o texto acima me remete a um aspecto interessante da língua: a oralidade, o que faz valer muitas vezes aquela máxima de que “o que se diz (e o que se escreve também, acrescento eu) é o que se entende”. Decorrem daí incontáveis situações de mal-entendidos com certa dose de humor até.
O escritor mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo, já teve a oportunidade de repassar a seus leitores o caso de uma fiel que, segundo lhe contaram, rezava assim a ave-maria: “Ave, Maria, cheia de graça. O Senhor é convosco. Benditas suas avós entre as mulheres...” Ele também se lembra de ter caído na mesma armadilha. Isso porque quando era criança, afirma que costumava cantar assim, de maneira convicta, o seguinte trecho do Hino Nacional: “Verás que um filisteu não foge à luta...” Também tenho minha contribuição a dar nesse sentido. Criança como Sant’Anna, ia se aproximando o Natal. E em casa, como preparação para os festejos daquele período, músicas alusivas à data eram tocadas na radiola da família. Numa delas havia um texto que era recitado assim: “Natal é Jesus na cadência dos hinos, orando e pedindo por nossos destinos”. Naquela época, eu teimava, seriamente convencida do que ouvia, em recitá-lo assim: “Natal é Jesus na cabeça dos índios, orando e pedindo bonecos vestidos”.
Já recentemente, estive envolvida num episódio no mínimo curioso. Fui a uma oficina de eletrodomésticos em São João del-Rei levando um liquidificador para o devido conserto. Atendida por um jovem rapaz, fui encaminhada por ele a um outro lugar onde eu deveria ler na placa do endereço indicado a palavra “uálita”. Levei alguns bons segundos para decifrar aquele estranho nome como “Walita”, marca bastante conhecida no mercado (pelo menos para muitos), desde 2004 associada à Philips.
Verdadeira piada virou o trecho da música “Noite do prazer”, de Cláudio Zoli. O trecho original “A madrugada, a vitrola rolando um “blues”, tocando um B. B. King sem parar” foi transformado por semelhança fonética em “trocando de biquíni sem parar”. O nome do cantor e guitarrista americano simplesmente desapareceu na versão popular.
Existe ainda o que é dito com competência a exemplo de calça “jeans”, feira “hippie” e strip-tease, mas esbarra na escrita registrada assim: calça “dins”, feira “ripe” e “estripitismo”, alguns dos muitos casos que observei pessoalmente. É simples entender isso. Ler e escrever são habilidades posteriores à da fala, que ocorre de modo natural e intuitivo. A escrita é resultado de uma aprendizagem explícita e consciente. Em outras palavras, muito do que se fala por aí só é ouvido e repassado como chega aos ouvidos. Daí a ocorrência de manifestações linguísticas orais como levantar “a lepra” (a lebre), cordão “bilicado” (umbilical), certidão “de opa” (de óbito) e tantas outras.
Retomando a discussão sobre a língua, é preciso reconhecer que estamos todos, em maior ou menor escala, sujeitos a seus caprichos. E todo cuidado é pouco, principalmente quando determinados modismos aparecem sob o disfarce de fala chique. A praga do gerundismo é um exemplo disso: “Nós vamos estar passando o problema para vocês”. Cilada! Ninguém merece ouvir esse tipo de construção linguística. Xô, gerundismo!
É o caso da faixa exibida em frente a charmoso salão de beleza unissex. Ansiosa por aumentar a clientela, a proprietária anunciou: “Corto cabelo e pinto”. O resultado foi o contrário do esperado. Os homens sumiram. As mulheres rarearam. O que houve? Concretizaram-se as palavras do poeta gaúcho.
O xis da questão é o “e”. A conjunção liga classes iguais: substantivo + substantivo (Maria e Paulo), adjetivo + adjetivo (bonito e elegante), pronome + pronome (eu e ele), verbo + verbo (trabalho e estudo). Os clientes leram dois substantivos (cabelo + pinto). Já imaginou? Ninguém quis correr riscos. Os senhores protegeram o pênis. As mulheres foram solidárias.
A pobre comerciante se deu conta da cilada. Arrancou a faixa com a mensagem ambígua. No lugar, pendurou esta: Corto e pinto cabelo. Viva! O “e”, agora, liga dois verbos – cortar e pintar”.
Extraído da coluna de Dad Squarisi “Dicas de Português”, que o Estado de Minas publica às quartas-feiras e aos domingos, o texto acima me remete a um aspecto interessante da língua: a oralidade, o que faz valer muitas vezes aquela máxima de que “o que se diz (e o que se escreve também, acrescento eu) é o que se entende”. Decorrem daí incontáveis situações de mal-entendidos com certa dose de humor até.
O escritor mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo, já teve a oportunidade de repassar a seus leitores o caso de uma fiel que, segundo lhe contaram, rezava assim a ave-maria: “Ave, Maria, cheia de graça. O Senhor é convosco. Benditas suas avós entre as mulheres...” Ele também se lembra de ter caído na mesma armadilha. Isso porque quando era criança, afirma que costumava cantar assim, de maneira convicta, o seguinte trecho do Hino Nacional: “Verás que um filisteu não foge à luta...” Também tenho minha contribuição a dar nesse sentido. Criança como Sant’Anna, ia se aproximando o Natal. E em casa, como preparação para os festejos daquele período, músicas alusivas à data eram tocadas na radiola da família. Numa delas havia um texto que era recitado assim: “Natal é Jesus na cadência dos hinos, orando e pedindo por nossos destinos”. Naquela época, eu teimava, seriamente convencida do que ouvia, em recitá-lo assim: “Natal é Jesus na cabeça dos índios, orando e pedindo bonecos vestidos”.
Já recentemente, estive envolvida num episódio no mínimo curioso. Fui a uma oficina de eletrodomésticos em São João del-Rei levando um liquidificador para o devido conserto. Atendida por um jovem rapaz, fui encaminhada por ele a um outro lugar onde eu deveria ler na placa do endereço indicado a palavra “uálita”. Levei alguns bons segundos para decifrar aquele estranho nome como “Walita”, marca bastante conhecida no mercado (pelo menos para muitos), desde 2004 associada à Philips.
Verdadeira piada virou o trecho da música “Noite do prazer”, de Cláudio Zoli. O trecho original “A madrugada, a vitrola rolando um “blues”, tocando um B. B. King sem parar” foi transformado por semelhança fonética em “trocando de biquíni sem parar”. O nome do cantor e guitarrista americano simplesmente desapareceu na versão popular.
Existe ainda o que é dito com competência a exemplo de calça “jeans”, feira “hippie” e strip-tease, mas esbarra na escrita registrada assim: calça “dins”, feira “ripe” e “estripitismo”, alguns dos muitos casos que observei pessoalmente. É simples entender isso. Ler e escrever são habilidades posteriores à da fala, que ocorre de modo natural e intuitivo. A escrita é resultado de uma aprendizagem explícita e consciente. Em outras palavras, muito do que se fala por aí só é ouvido e repassado como chega aos ouvidos. Daí a ocorrência de manifestações linguísticas orais como levantar “a lepra” (a lebre), cordão “bilicado” (umbilical), certidão “de opa” (de óbito) e tantas outras.
Retomando a discussão sobre a língua, é preciso reconhecer que estamos todos, em maior ou menor escala, sujeitos a seus caprichos. E todo cuidado é pouco, principalmente quando determinados modismos aparecem sob o disfarce de fala chique. A praga do gerundismo é um exemplo disso: “Nós vamos estar passando o problema para vocês”. Cilada! Ninguém merece ouvir esse tipo de construção linguística. Xô, gerundismo!
No rastro da onça
13 de Fevereiro de 2012, por Regina Coelho 0
Desde a Idade da Pedra, o ser humano adora se cobrir com peles de animais exóticos. Felizmente, a Revolução Industrial da virada do século XX fez surgirem estampas felinas pintadas em tecido, sem a necessidade de abate aos animais em questão. Verdade é que as estamparias de zebra, cobra e onça, principalmente, são um clássico da moda. Entra estação, sai estação e elas têm se mantido em alta. No topo dessa preferência quase exclusivamente feminina, a estampa de oncinha é aposta certa nos detalhes das roupas, em peças inteiras, calçados, acessórios (cintos, brincos, broches, lenços, pulseiras, bolsas...) e uma infinidade de outros itens.
Onças pintando nos looks, as “oncinhas” estão por aí colocando as garras de fora. O estilo nada discreto faz lembrar a força e o exotismo das onças de fato e confere às adeptas desse modismo presença física marcante, como acontece com quem o inspira.
Pessoalmente falando, essa não é minha praia, ou melhor, minha selva ou meu estilo. Muito menos tenho ligação alguma com bichos e nunca tive qualquer bichinho de estimação. Respeito-os, mas chego a ter fobia em relação a muitos deles. Paradoxalmente, mantenho, desde criança, uma certa atração no que diz respeito à vida dos grandes animais selvagens, entre eles a onça (o jaguar ou jaguara, que em tupi-guarani significa “o que mata com um salto”).
Histórias envolvendo onças chamam minha atenção. Lembro o saudoso Euclides da Marta, que me contou, certo dia, ter perdido um irmão, segundo ele, “pras bandas do Mato Grosso”, provavelmente devorado por uma pintada. Registro também o relato pessoal de quem, estando no Pantanal mato-grossense, me garante ter visto um belo exemplar desse felino, bom nadador que é, atravessando o rio, atingir a margem dele e sumir, sem dar tempo de um registro fotográfico à altura daquele momento único. Coisas de arrepiar!
Surpreendente é a história da fazendeira Beatriz Rondon, 69. Por trás da máscara de protetora da fauna, ela promovia safáris em sua fazenda recebendo caçadores, a maioria deles estrangeiros, que pagavam 30 mil dólares para matar onças pintadas. Denunciada em 2011 através de um vídeo enviado anonimamente à Polícia Federal, a proprietária da Fazenda Santa Sofia, que fica no município de Aquidauana, no Pantanal do Rio Negro, é vista nas imagens caçando e abatendo duas onças: uma parda e uma pintada.
É espantoso saber que a dona de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN, como é classificada a “Santa Sofia”, propriedade de 35 mil hectares) era citada como um exemplo de guardiã da fauna, principalmente das onças pintadas. Fico tentada a chamar essa caçadora em pele de ambientalista de “amiga da onça”, que em linguagem figurada significa amiga falsa. Levando essa expressão ao pé da letra, no entanto, concluo que amiga da onça é tudo o que ela não é.
E mencionando essa expressão popular, constato que, linguisticamente, a onça está bem presente no nosso dia a dia. Vejamos: quem ainda não disse que alguém “virou uma onça” em um certo momento? Ou então que determinado sujeito está com um “bafo de onça” daqueles? Ou mesmo que não se deve “cutucar a onça com vara curta”? E quando se sabe que é “hora da onça beber água”? Assim dizendo: “hora da onça beber água”, e não, como determina a norma culta “hora de a onça beber água”. É fato que hoje já não se fala em “leite de onça”, bebida preparada com cachaça e leite condensado, mas muitos lançam mão do “tempo do onça” quando se referem a uma época distante. É interessante ainda observar como muita gente não se dá conta de que carrega no bolso ou na bolsa, através da estampa que ilustra as atuais notas de 50 reais, a personagem desta matéria.
Habitando o imaginário dos inúmeros contadores de histórias ou vivendo em florestas e em ambientes abertos como o Pantanal e o Cerrado, a onça é o maior predador das Américas, não existindo, portanto, outro animal acima dele na cadeia alimentar. Apesar do porte avantajado, é ágil e arisca. Mergulha, salta, corre, sobe em árvores e tem os sentidos muito aguçados. Não mia como a maioria dos felinos, emitindo uma série de roncos muito fortes que são chamados de esturros. Quando caça aves, porém, sabe imitar o seu pio para atraí-las. É capaz ainda de seguir a sua vítima por horas, sem ser notada. Quanta esperteza!
Pesquisando sobre o tema aqui tratado, observei que há uma boa bibliografia a utilizar. Destaco o livro “Jaguar: o rei das Américas”, do ecólogo Evaristo Eduardo de Miranda e da jornalista Liana John (Editora Metalivros). A obra se divide em duas partes e reúne aspectos históricos, ecológicos, mitos e significados culturais relacionados a esse animal, com foco voltado para a urgência na preservação da espécie, já reduzida à metade.
Poder (não por acaso, “Jaguar” é marca de carro que sugere velocidade e potência) e beleza (porte e pelagem admiráveis) são atributos das onças e talvez expliquem o fascínio que elas podem exercer sobre os humanos.
Onças pintando nos looks, as “oncinhas” estão por aí colocando as garras de fora. O estilo nada discreto faz lembrar a força e o exotismo das onças de fato e confere às adeptas desse modismo presença física marcante, como acontece com quem o inspira.
Pessoalmente falando, essa não é minha praia, ou melhor, minha selva ou meu estilo. Muito menos tenho ligação alguma com bichos e nunca tive qualquer bichinho de estimação. Respeito-os, mas chego a ter fobia em relação a muitos deles. Paradoxalmente, mantenho, desde criança, uma certa atração no que diz respeito à vida dos grandes animais selvagens, entre eles a onça (o jaguar ou jaguara, que em tupi-guarani significa “o que mata com um salto”).
Histórias envolvendo onças chamam minha atenção. Lembro o saudoso Euclides da Marta, que me contou, certo dia, ter perdido um irmão, segundo ele, “pras bandas do Mato Grosso”, provavelmente devorado por uma pintada. Registro também o relato pessoal de quem, estando no Pantanal mato-grossense, me garante ter visto um belo exemplar desse felino, bom nadador que é, atravessando o rio, atingir a margem dele e sumir, sem dar tempo de um registro fotográfico à altura daquele momento único. Coisas de arrepiar!
Surpreendente é a história da fazendeira Beatriz Rondon, 69. Por trás da máscara de protetora da fauna, ela promovia safáris em sua fazenda recebendo caçadores, a maioria deles estrangeiros, que pagavam 30 mil dólares para matar onças pintadas. Denunciada em 2011 através de um vídeo enviado anonimamente à Polícia Federal, a proprietária da Fazenda Santa Sofia, que fica no município de Aquidauana, no Pantanal do Rio Negro, é vista nas imagens caçando e abatendo duas onças: uma parda e uma pintada.
É espantoso saber que a dona de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN, como é classificada a “Santa Sofia”, propriedade de 35 mil hectares) era citada como um exemplo de guardiã da fauna, principalmente das onças pintadas. Fico tentada a chamar essa caçadora em pele de ambientalista de “amiga da onça”, que em linguagem figurada significa amiga falsa. Levando essa expressão ao pé da letra, no entanto, concluo que amiga da onça é tudo o que ela não é.
E mencionando essa expressão popular, constato que, linguisticamente, a onça está bem presente no nosso dia a dia. Vejamos: quem ainda não disse que alguém “virou uma onça” em um certo momento? Ou então que determinado sujeito está com um “bafo de onça” daqueles? Ou mesmo que não se deve “cutucar a onça com vara curta”? E quando se sabe que é “hora da onça beber água”? Assim dizendo: “hora da onça beber água”, e não, como determina a norma culta “hora de a onça beber água”. É fato que hoje já não se fala em “leite de onça”, bebida preparada com cachaça e leite condensado, mas muitos lançam mão do “tempo do onça” quando se referem a uma época distante. É interessante ainda observar como muita gente não se dá conta de que carrega no bolso ou na bolsa, através da estampa que ilustra as atuais notas de 50 reais, a personagem desta matéria.
Habitando o imaginário dos inúmeros contadores de histórias ou vivendo em florestas e em ambientes abertos como o Pantanal e o Cerrado, a onça é o maior predador das Américas, não existindo, portanto, outro animal acima dele na cadeia alimentar. Apesar do porte avantajado, é ágil e arisca. Mergulha, salta, corre, sobe em árvores e tem os sentidos muito aguçados. Não mia como a maioria dos felinos, emitindo uma série de roncos muito fortes que são chamados de esturros. Quando caça aves, porém, sabe imitar o seu pio para atraí-las. É capaz ainda de seguir a sua vítima por horas, sem ser notada. Quanta esperteza!
Pesquisando sobre o tema aqui tratado, observei que há uma boa bibliografia a utilizar. Destaco o livro “Jaguar: o rei das Américas”, do ecólogo Evaristo Eduardo de Miranda e da jornalista Liana John (Editora Metalivros). A obra se divide em duas partes e reúne aspectos históricos, ecológicos, mitos e significados culturais relacionados a esse animal, com foco voltado para a urgência na preservação da espécie, já reduzida à metade.
Poder (não por acaso, “Jaguar” é marca de carro que sugere velocidade e potência) e beleza (porte e pelagem admiráveis) são atributos das onças e talvez expliquem o fascínio que elas podem exercer sobre os humanos.
Você é qual?
10 de Janeiro de 2012, por Regina Coelho 0
Em novembro do ano passado, foi realizado o Encontro Nacional de Gêmeos no Espaço Unibanco de Cinema (centro de São Paulo). Organizado pelo Sindicato dos Gêmeos e tendo como mote o adequadíssimo dito popular “cara de um, focinho do outro”, o evento recebeu o que os promotores chamam de GPS – gêmeos, parentes e simpatizantes.
Não participei do encontro paulista, até porque não tenho irmã gêmea, mas tenho toda simpatia por iniciativas dessa natureza. Em se tratando da reunião dos gêmeos, não pude deixar de lembrar as várias duplas de alunos que tive nessa condição. Havia aquelas que, por serem constituídas de irmã e irmão ou de irmãos fraternos ou bivitelinos (diferentes entre si) não chamavam tanto a atenção das pessoas na escola. A situação se complicava, pelo menos para mim, quando encontrava pela frente gêmeos idênticos. Por mais que os coitados ou os colegas mais familiarizados com eles tentassem me mostrar alguma mínima diferença entre um(a) e outro(a), na hora de me dirigir a eles nunca sabia com quem estava falando. Acho que alguns deles se divertiam com isso. Outros, provavelmente, deviam se irritar com trocas indevidas de nomes ou eventuais xingamentos. E acho ainda que havia os que, às vezes, por uma razão ou outra, se passavam pelos seus respectivos clones e disso se aproveitavam. Como desmascará-los?
Lembranças escolares à parte, o fato é que os gêmeos univitelinos destacam-se na multidão. Quando são famosos como Paulo (cinco minutos mais velho) e Chico Caruso, talentosos chargistas e caricaturistas, isso é um mero detalhe ou inclinação familiar, como queiram. O mesmo se pode dizer dos jovens profissionais da gastronomia já citados pelo meu colega Cacau (Cláudio Ruas) na edição 101 deste jornal – Fernando e Juliano Basile. E Giselle Bündchen, quem diria!, tem uma irmã gêmea. Patrícia é a versão anônima da irmã. Outra dupla interessante é formada por Bia e Branca Feres, atletas do nado sincronizado para o qual a semelhança física é fundamental. Igualdade ou quase isso então, melhor ainda.
Entre meus ex-alunos gêmeos, busquei a colaboração de Luciana e Luciene Cardoso, 36, respectivamente, professora e pequena empresária, para o depoimento abaixo.
“Somos gêmeas univitelinas (geradas na mesma placenta) Ciene nasceu primeiro. Eram 6h30 da manhã do dia 31 de outubro de 1975. E após 15 minutos, nasceu Ciana. Nossa mãe não sabia que eram duas meninas!!! E o parto foi feito por nossa avó paterna e uma parteira na Boa Vista, zona rural de Resende Costa.
Crescemos e aprendemos juntas muitas coisas boas e ruins da vida. Temos uma pessoa com quem podemos contar a qualquer hora e em qualquer momento da vida. Compreendemos uma à outra e temos uma relação de amizade, confiança e respeito.
Temos como desvantagens as comparações: comparação física (Quem é a mais gorda? Quem é mais bonita? Quem é mais alta? Fica pertinho uma da outra pra gente ver as diferenças?! Isso é muito chato!!!); comparação de personalidade (Qual é a Rute e qual é a Raquel? Ou seja, quem é boa e quem é ruim? Quem é mais séria?); comparação intelectual (Quem é mais inteligente?)
Na verdade, somos pessoas muito parecidas, porém diferentes. Cada uma tem o seu jeito de ser. Mas, há momentos em que isso acontece: quando trocamos roupas, em fotos, em vídeos e então temos a sensação estranha de nos vermos uma na outra.
Quando éramos crianças, nossos pais nos confundiam muito. Lembramos que uma vez nossa mãe deu umas palmadas na Luciana achando que era na Luciene; nosso pai também deu umas chineladas na “pobre” da Luciana achando que era a Luciene.
Quando éramos adolescentes nos interessávamos pelos mesmos rapazes. Resultado: uma se fez passar pela outra para roubar uns beijinhos do namorado da outra!!! Uma vez pedi a Ciana para terminar com um namoradinho que eu não queria mais. Ela fingiu ser Eu, mas o menino tentou beijá-la e no mesmo instante ela gritou: __ Cieneeee!!! Vem aqui???? O fulano está te chamando!!!
Outra situação foi quando eu, Ciana, entrei na faculdade e a Ciene havia terminado seu curso. As amigas dela acharam que eu era ela. Vieram correndo me abraçar e dar as boas vindas. E eu, que não as conhecia, fiquei sem saber o que fazer: se abraçava ou falava que eu não era a Ciene e sim a Ciana. “Foi muito engraçado!!!” Na realidade, somos sempre confundidas tanto por adultos como por crianças e acabamos passando por situações engraçadas e às vezes constrangedoras.
A ligação entre nós é mesmo muito especial. É muito maior que a ligação entre os outros irmãos e até mesmo entre a nossa mãe. A nossa relação é tão intensa e tão bonita que não conseguimos ficar longe uma da outra por muito tempo. Temos que nos falar todos os dias nem que seja por telefone. Sentimos falta uma da outra. Tudo o que sentimos e vivemos é compartilhado, somos cúmplices. Enfim, é uma ligação de amor, afeto, carinho, compreensão, dedicação, amizade e respeito”.
Nota: por absoluta afinidade, minhas entrevistadas optaram por produzir um só texto.
Não participei do encontro paulista, até porque não tenho irmã gêmea, mas tenho toda simpatia por iniciativas dessa natureza. Em se tratando da reunião dos gêmeos, não pude deixar de lembrar as várias duplas de alunos que tive nessa condição. Havia aquelas que, por serem constituídas de irmã e irmão ou de irmãos fraternos ou bivitelinos (diferentes entre si) não chamavam tanto a atenção das pessoas na escola. A situação se complicava, pelo menos para mim, quando encontrava pela frente gêmeos idênticos. Por mais que os coitados ou os colegas mais familiarizados com eles tentassem me mostrar alguma mínima diferença entre um(a) e outro(a), na hora de me dirigir a eles nunca sabia com quem estava falando. Acho que alguns deles se divertiam com isso. Outros, provavelmente, deviam se irritar com trocas indevidas de nomes ou eventuais xingamentos. E acho ainda que havia os que, às vezes, por uma razão ou outra, se passavam pelos seus respectivos clones e disso se aproveitavam. Como desmascará-los?
Lembranças escolares à parte, o fato é que os gêmeos univitelinos destacam-se na multidão. Quando são famosos como Paulo (cinco minutos mais velho) e Chico Caruso, talentosos chargistas e caricaturistas, isso é um mero detalhe ou inclinação familiar, como queiram. O mesmo se pode dizer dos jovens profissionais da gastronomia já citados pelo meu colega Cacau (Cláudio Ruas) na edição 101 deste jornal – Fernando e Juliano Basile. E Giselle Bündchen, quem diria!, tem uma irmã gêmea. Patrícia é a versão anônima da irmã. Outra dupla interessante é formada por Bia e Branca Feres, atletas do nado sincronizado para o qual a semelhança física é fundamental. Igualdade ou quase isso então, melhor ainda.
Entre meus ex-alunos gêmeos, busquei a colaboração de Luciana e Luciene Cardoso, 36, respectivamente, professora e pequena empresária, para o depoimento abaixo.
“Somos gêmeas univitelinas (geradas na mesma placenta) Ciene nasceu primeiro. Eram 6h30 da manhã do dia 31 de outubro de 1975. E após 15 minutos, nasceu Ciana. Nossa mãe não sabia que eram duas meninas!!! E o parto foi feito por nossa avó paterna e uma parteira na Boa Vista, zona rural de Resende Costa.
Crescemos e aprendemos juntas muitas coisas boas e ruins da vida. Temos uma pessoa com quem podemos contar a qualquer hora e em qualquer momento da vida. Compreendemos uma à outra e temos uma relação de amizade, confiança e respeito.
Temos como desvantagens as comparações: comparação física (Quem é a mais gorda? Quem é mais bonita? Quem é mais alta? Fica pertinho uma da outra pra gente ver as diferenças?! Isso é muito chato!!!); comparação de personalidade (Qual é a Rute e qual é a Raquel? Ou seja, quem é boa e quem é ruim? Quem é mais séria?); comparação intelectual (Quem é mais inteligente?)
Na verdade, somos pessoas muito parecidas, porém diferentes. Cada uma tem o seu jeito de ser. Mas, há momentos em que isso acontece: quando trocamos roupas, em fotos, em vídeos e então temos a sensação estranha de nos vermos uma na outra.
Quando éramos crianças, nossos pais nos confundiam muito. Lembramos que uma vez nossa mãe deu umas palmadas na Luciana achando que era na Luciene; nosso pai também deu umas chineladas na “pobre” da Luciana achando que era a Luciene.
Quando éramos adolescentes nos interessávamos pelos mesmos rapazes. Resultado: uma se fez passar pela outra para roubar uns beijinhos do namorado da outra!!! Uma vez pedi a Ciana para terminar com um namoradinho que eu não queria mais. Ela fingiu ser Eu, mas o menino tentou beijá-la e no mesmo instante ela gritou: __ Cieneeee!!! Vem aqui???? O fulano está te chamando!!!
Outra situação foi quando eu, Ciana, entrei na faculdade e a Ciene havia terminado seu curso. As amigas dela acharam que eu era ela. Vieram correndo me abraçar e dar as boas vindas. E eu, que não as conhecia, fiquei sem saber o que fazer: se abraçava ou falava que eu não era a Ciene e sim a Ciana. “Foi muito engraçado!!!” Na realidade, somos sempre confundidas tanto por adultos como por crianças e acabamos passando por situações engraçadas e às vezes constrangedoras.
A ligação entre nós é mesmo muito especial. É muito maior que a ligação entre os outros irmãos e até mesmo entre a nossa mãe. A nossa relação é tão intensa e tão bonita que não conseguimos ficar longe uma da outra por muito tempo. Temos que nos falar todos os dias nem que seja por telefone. Sentimos falta uma da outra. Tudo o que sentimos e vivemos é compartilhado, somos cúmplices. Enfim, é uma ligação de amor, afeto, carinho, compreensão, dedicação, amizade e respeito”.
Nota: por absoluta afinidade, minhas entrevistadas optaram por produzir um só texto.