A voz do rádio no Brasil
16 de Outubro de 2012, por Regina Coelho 0
Pesquisas recentes revelam que o rádio está presente em 52,1 milhões de domicílios brasileiros. Isso representa 171,9 milhões de ouvintes domiciliares e 91,3% dos lares de todo o Brasil equipados com o praticamente indispensável aparelho que propaga informações sonoras por meio de ondas eletromagnéticas. Embora hoje tenha sido suplantado pela televisão aberta, que é vista por 178,8 milhões de pessoas abrigadas em 54,2 milhões de domicílios, num total de 95,1% deles, o rádio segue firme como o companheiro diário de muita gente. E tem mais. Segundo estimativas, cerca de 80% dos automóveis, caminhões, camionetes e furgões possuem rádio AM/FM. Os números aqui mencionados são impressionantes pelo que representam num país de proporções continentais como é o Brasil, que celebra no corrente ano seus 90 anos de rádio.
Numa volta ao tempo, o 7 de setembro de 1922 ficou registrado como o dia em que foi realizada a primeira transmissão radiofônica oficial no país como parte das comemorações do Centenário da Independência. Na ocasião, o discurso do presidente da república Epitácio Pessoa foi transmitido para receptores instalados em Niterói, Petrópolis e São Paulo, através de uma antena instalada no Corcovado, Rio de Janeiro, então capital da república. Na verdade, precisamente 80 aparelhos de rádio captaram a programação daquele dia histórico. Naquele mesmo dia, além da abertura da Exposição dos 100 anos de Brasil independente, à noite, a ópera “O Guarani” (de Carlos Gomes) foi transmitida do Teatro Municipal para alto-falantes instalados no local da exposição, assombrando o público lá presente. Era o começo da primeira estação de rádio do Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Fundada por Edgar Roquete Pinto, a emissora foi doada ao governo federal em 1936, que a transformou na Rádio MEC.
O mesmo assombro diante daquela “caixa que falava” pôde ser observado aqui em Resende Costa anos depois. De acordo com meu primo Alair, um estudioso entusiasmado da história da cidade, os três primeiros rádios resende-costenses tiveram como proprietários o Abraão Hannas, o Alcides Lara (meu avô materno) e o Ozório Chaves. Tratava-se de um modelo chamado rádio-capela, de um metro de altura e um de largura, um móvel da casa, praticamente. Nos lares onde eles foram instalados, o povo fazia fila para conhecer aquela novidade. E havia o Pedro Maia, fazendeiro do Curralinho dos Paula, que, maravilhado com o aparelho e cético ao mesmo tempo, achava que tinha alguém dentro dele. Ressalte-se que, inicialmente, o preço de um aparelho e a demora na implantação de retransmissoras foram impedimento para que muitas famílias adquirissem um rádio.
Na trajetória histórica desse hoje poderoso meio de comunicação de massas (considerado agora como emissora), merece destaque a instituição, em 1935, do programa oficial do governo de Getúlio Vargas, “A Voz do Brasil”, transmitido até hoje em todo o país. Marcando época no rádio (e mais tarde na tevê), surgiu em 1941 o “Repórter Esso”, o primeiro radiojornal brasileiro. Sucesso total também tiveram os programas de auditório e seus ídolos da década de 40, a época de ouro, quando o rádio se tornou um veículo popular. Nesse cenário, as radionovelas foram um capítulo à parte, com adaptações de tramas internacionais, muitas vezes, como “O direito de nascer”, do cubano Félix Caignet, que ficou três anos no ar e chegou a ser chamada popularmente de “O direito de encher”. E bem antes de a televisão chegar ao país, o que ocorreu em 1950, o rádio já fazia suas transmissões esportivas levando o torcedor ao delírio com narrações antológicas, como as que marcaram os dois primeiros títulos mundiais para o Brasil, em 1958 (na Suécia) e 1962 (no Chile). Levar o torcedor a “ver” a partida pelo rádio é a mágica que os mestres da locução esportiva conseguem fazer.
É oportuno considerar que, apesar de ter sofrido um certo declínio em virtude do advento da televisão, o rádio no Brasil soube se adaptar aos novos tempos. E se nos seus primórdios as próprias características físicas do aparelho receptor faziam com que ele se mantivesse como um objeto de escuta coletiva em torno do qual a família se reunia, hoje ele pode ser levado facilmente a qualquer parte, até mesmo carregado no bolso do usuário. E se agora, em razão das muitas atribulações desta vida agitada, as pessoas já não se juntam mais para ouvir o rádio e conversar sobre as notícias do dia, elas o têm como a companhia fiel, seja para o trabalho, para o lazer ou para a solidão de certos momentos, especialmente o das madrugadas com seus insones ouvintes ou quase inevitáveis temores. E pensar que muitos decretaram o fim do rádio com a entrada da televisão no país, tornando-se também ela acessível à maioria dos brasileiros. Diferenças à parte ou por isso mesmo, o fato é que um não exclui a outra. Ainda bem!
Dando voz ao ouvinte, a presente matéria continua na edição de novembro próximo. Até lá!
Numa volta ao tempo, o 7 de setembro de 1922 ficou registrado como o dia em que foi realizada a primeira transmissão radiofônica oficial no país como parte das comemorações do Centenário da Independência. Na ocasião, o discurso do presidente da república Epitácio Pessoa foi transmitido para receptores instalados em Niterói, Petrópolis e São Paulo, através de uma antena instalada no Corcovado, Rio de Janeiro, então capital da república. Na verdade, precisamente 80 aparelhos de rádio captaram a programação daquele dia histórico. Naquele mesmo dia, além da abertura da Exposição dos 100 anos de Brasil independente, à noite, a ópera “O Guarani” (de Carlos Gomes) foi transmitida do Teatro Municipal para alto-falantes instalados no local da exposição, assombrando o público lá presente. Era o começo da primeira estação de rádio do Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Fundada por Edgar Roquete Pinto, a emissora foi doada ao governo federal em 1936, que a transformou na Rádio MEC.
O mesmo assombro diante daquela “caixa que falava” pôde ser observado aqui em Resende Costa anos depois. De acordo com meu primo Alair, um estudioso entusiasmado da história da cidade, os três primeiros rádios resende-costenses tiveram como proprietários o Abraão Hannas, o Alcides Lara (meu avô materno) e o Ozório Chaves. Tratava-se de um modelo chamado rádio-capela, de um metro de altura e um de largura, um móvel da casa, praticamente. Nos lares onde eles foram instalados, o povo fazia fila para conhecer aquela novidade. E havia o Pedro Maia, fazendeiro do Curralinho dos Paula, que, maravilhado com o aparelho e cético ao mesmo tempo, achava que tinha alguém dentro dele. Ressalte-se que, inicialmente, o preço de um aparelho e a demora na implantação de retransmissoras foram impedimento para que muitas famílias adquirissem um rádio.
Na trajetória histórica desse hoje poderoso meio de comunicação de massas (considerado agora como emissora), merece destaque a instituição, em 1935, do programa oficial do governo de Getúlio Vargas, “A Voz do Brasil”, transmitido até hoje em todo o país. Marcando época no rádio (e mais tarde na tevê), surgiu em 1941 o “Repórter Esso”, o primeiro radiojornal brasileiro. Sucesso total também tiveram os programas de auditório e seus ídolos da década de 40, a época de ouro, quando o rádio se tornou um veículo popular. Nesse cenário, as radionovelas foram um capítulo à parte, com adaptações de tramas internacionais, muitas vezes, como “O direito de nascer”, do cubano Félix Caignet, que ficou três anos no ar e chegou a ser chamada popularmente de “O direito de encher”. E bem antes de a televisão chegar ao país, o que ocorreu em 1950, o rádio já fazia suas transmissões esportivas levando o torcedor ao delírio com narrações antológicas, como as que marcaram os dois primeiros títulos mundiais para o Brasil, em 1958 (na Suécia) e 1962 (no Chile). Levar o torcedor a “ver” a partida pelo rádio é a mágica que os mestres da locução esportiva conseguem fazer.
É oportuno considerar que, apesar de ter sofrido um certo declínio em virtude do advento da televisão, o rádio no Brasil soube se adaptar aos novos tempos. E se nos seus primórdios as próprias características físicas do aparelho receptor faziam com que ele se mantivesse como um objeto de escuta coletiva em torno do qual a família se reunia, hoje ele pode ser levado facilmente a qualquer parte, até mesmo carregado no bolso do usuário. E se agora, em razão das muitas atribulações desta vida agitada, as pessoas já não se juntam mais para ouvir o rádio e conversar sobre as notícias do dia, elas o têm como a companhia fiel, seja para o trabalho, para o lazer ou para a solidão de certos momentos, especialmente o das madrugadas com seus insones ouvintes ou quase inevitáveis temores. E pensar que muitos decretaram o fim do rádio com a entrada da televisão no país, tornando-se também ela acessível à maioria dos brasileiros. Diferenças à parte ou por isso mesmo, o fato é que um não exclui a outra. Ainda bem!
Dando voz ao ouvinte, a presente matéria continua na edição de novembro próximo. Até lá!
Abreviações, abreviaturas e siglas
13 de Agosto de 2012, por Regina Coelho 0
As motos estão espalhadas hoje por toda parte. Consideradas antes um meio de transporte urbano, elas invadiram também a zona rural, substituindo muitas vezes carros e cavalos. Isso é público e notório, mas o termo “motocicleta” praticamente caiu em desuso. Por opção do falante, a forma reduzida “moto” vem ganhando espaço também entre os não tão jovens. O mesmo ocorre em abreviações como foto (fotografia), extra (extraordinário), pólio (poliomielite), quilo (quilograma), otorrino (otorrinolaringologista), endócrino (endocrinologista) e outras mais. Questão de praticidade ou de informalidade, como queiram. Em se tratando de nomes próprios, é sinal de intimidade também: Manu (Manuela), Rose (Roselene, Roseane...), Edu (Eduardo), Fred (Frederico), Lu (Luciana, Luciene, Luísa...), Belô (Belo Horizonte), Pelô (Pelourinho), Sampa (São Paulo), Floripa (Florianópolis) são uma pequena amostra disso. E até na linguagem do futebol as abreviações estão presentes no anúncio de clássicos como Fla - Flu (Flamengo x Fluminense), Gre - Nal (Grêmio x Internacional), Atletiba (Atlético Paranaense x Coritiba) e Bavi (Bahia x Vitória) formando uma composição interessante.
Também garantindo a economia de letras, é possível contar com as abreviaturas, ou seja, a redução na escrita de certas palavras, limitando-as à letra inicial ou às letras iniciais e/ou finais dos vocábulos representados graficamente. Assim, “h” é hora(s), “séc.” é século e “cel.” é coronel. Perigoso nisso é o sujeito desconhecer o código da abreviatura e ler, por exemplo, como já me garantiram ter acontecido numa cerimônia de formatura, “Ilmo” (em vez de Ilustríssimo) Fulano de Tal, dirigindo-se ao paraninfo.
Essas observações me vieram a propósito das siglas, ou melhor, da profusão delas nos dias atuais. Formadas a partir da reunião de letras ou sílabas iniciais dos vocábulos fundamentais de uma denominação ou título, elas se multiplicam por aí. Partindo daquelas que já são tradicionais e representam nomes de estados da federação (MG, RS, PA...), órgãos públicos ou não (IBGE, SESI...), tributos (IPVA, IPTU...) e afins, pelo presente momento eleitoral, ganham visibilidade obrigatória as siglas dos 30 partidos políticos brasileiros registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Dispostas às vezes em improváveis e surpreendentes coligações ou em posição de confronto, elas são ingredientes de uma encorpada sopa de letrinhas. Vejam: PMDB, PTB, PDT, PT, DEM, PC do B, PSB, PSDB, PTC, PSC, PMN, PRP, PPS, PV, PT do B, PRTB, PP, PSTU, PCB, PHS, PSDC, PCO, PTN, PSL, PRB, PSOL, PR, PSD, PPL e PEN.
Uma breve análise sobre o uso das siglas deixa claro que muitas delas estão em alta. DNA (em inglês: DeoxyriboNucleic Acid – ADN, em português: Ácido DesoxirriboNucleico), por exemplo é faladíssima. Tudo por causa do exame que leva esse nome, que é usadíssimo. BO (Boletim de Ocorrência) também. Parece que o termo já virou até sinônimo de barraco, confusão. E tem também SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), UPA (Unidade de Pronto Atendimento). MMA (Mixed Martial Arts – em português, artes marciais mistas) e GPS (Global Positioning System – em português, geoposicionamento por satélite), entre outras.
Especificamente entre os adolescentes, BV (Boca Virgem), BVL (Boca Virgem de Língua), BFF (Best Friend Forever = melhor amigo para sempre) e MP (Mente Poluída) estão bombando. Novidade pra mim foi saber que S.O.S. (Só o Olho Salva) é o comentário feito pelas meninas quando o cara é feio. Deve continuar valendo também como pedido de socorro (Save Our Souls = salve nossas almas).
Nesse universo de siglas que compõem um vocabulário à parte, destacam-se aquelas há muito consagradas pelo uso geral. Entre elas CD (Compact Disc – em português, disco compacto), DVD (Digital Versatile Disc – em português, disco digital versátil), CTI (Centro de Terapia Intensiva), UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e SUS (Sistema Único de Saúde). Outras vão surgindo sem que as pessoas delas se deem conta. Aí estão as embalagens PET (de Polietileno Tereftalato) e o TNT (Tecido Não Tecido), material usado na confecção de sacolas, toalhas de mesa, cortinas e demais peças em substituição às matérias têxteis tradicionais.
Pois é, por todos os lados estamos cercados de siglas. De nomes de famosos como JK (Juscelino Kubitschek), FHC (Fernando Henrique Cardoso), ACM (Antônio Carlos Magalhães), BB (Brigite Bardot), J. Lo (Jennifer Lopez) e PC Farias (de triste memória) a programas de tevê como o CQC (Custe o Que Custar) e o BBB (Big Brother Brasil). E de termos ligados à área médica como AVC (Acidente Vascular Cerebral), HA (Hipertensão Arterial), DST (Doença Sexualmente Transmissível), e TB (Tuberculose).
Ufa! Deu canseira fazer esse levantamento. E nem coube tudo aqui, inclusive a linguagem abreviada que se vê na internet e no celular, assunto para uma possível futura matéria.
Também garantindo a economia de letras, é possível contar com as abreviaturas, ou seja, a redução na escrita de certas palavras, limitando-as à letra inicial ou às letras iniciais e/ou finais dos vocábulos representados graficamente. Assim, “h” é hora(s), “séc.” é século e “cel.” é coronel. Perigoso nisso é o sujeito desconhecer o código da abreviatura e ler, por exemplo, como já me garantiram ter acontecido numa cerimônia de formatura, “Ilmo” (em vez de Ilustríssimo) Fulano de Tal, dirigindo-se ao paraninfo.
Essas observações me vieram a propósito das siglas, ou melhor, da profusão delas nos dias atuais. Formadas a partir da reunião de letras ou sílabas iniciais dos vocábulos fundamentais de uma denominação ou título, elas se multiplicam por aí. Partindo daquelas que já são tradicionais e representam nomes de estados da federação (MG, RS, PA...), órgãos públicos ou não (IBGE, SESI...), tributos (IPVA, IPTU...) e afins, pelo presente momento eleitoral, ganham visibilidade obrigatória as siglas dos 30 partidos políticos brasileiros registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Dispostas às vezes em improváveis e surpreendentes coligações ou em posição de confronto, elas são ingredientes de uma encorpada sopa de letrinhas. Vejam: PMDB, PTB, PDT, PT, DEM, PC do B, PSB, PSDB, PTC, PSC, PMN, PRP, PPS, PV, PT do B, PRTB, PP, PSTU, PCB, PHS, PSDC, PCO, PTN, PSL, PRB, PSOL, PR, PSD, PPL e PEN.
Uma breve análise sobre o uso das siglas deixa claro que muitas delas estão em alta. DNA (em inglês: DeoxyriboNucleic Acid – ADN, em português: Ácido DesoxirriboNucleico), por exemplo é faladíssima. Tudo por causa do exame que leva esse nome, que é usadíssimo. BO (Boletim de Ocorrência) também. Parece que o termo já virou até sinônimo de barraco, confusão. E tem também SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), UPA (Unidade de Pronto Atendimento). MMA (Mixed Martial Arts – em português, artes marciais mistas) e GPS (Global Positioning System – em português, geoposicionamento por satélite), entre outras.
Especificamente entre os adolescentes, BV (Boca Virgem), BVL (Boca Virgem de Língua), BFF (Best Friend Forever = melhor amigo para sempre) e MP (Mente Poluída) estão bombando. Novidade pra mim foi saber que S.O.S. (Só o Olho Salva) é o comentário feito pelas meninas quando o cara é feio. Deve continuar valendo também como pedido de socorro (Save Our Souls = salve nossas almas).
Nesse universo de siglas que compõem um vocabulário à parte, destacam-se aquelas há muito consagradas pelo uso geral. Entre elas CD (Compact Disc – em português, disco compacto), DVD (Digital Versatile Disc – em português, disco digital versátil), CTI (Centro de Terapia Intensiva), UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e SUS (Sistema Único de Saúde). Outras vão surgindo sem que as pessoas delas se deem conta. Aí estão as embalagens PET (de Polietileno Tereftalato) e o TNT (Tecido Não Tecido), material usado na confecção de sacolas, toalhas de mesa, cortinas e demais peças em substituição às matérias têxteis tradicionais.
Pois é, por todos os lados estamos cercados de siglas. De nomes de famosos como JK (Juscelino Kubitschek), FHC (Fernando Henrique Cardoso), ACM (Antônio Carlos Magalhães), BB (Brigite Bardot), J. Lo (Jennifer Lopez) e PC Farias (de triste memória) a programas de tevê como o CQC (Custe o Que Custar) e o BBB (Big Brother Brasil). E de termos ligados à área médica como AVC (Acidente Vascular Cerebral), HA (Hipertensão Arterial), DST (Doença Sexualmente Transmissível), e TB (Tuberculose).
Ufa! Deu canseira fazer esse levantamento. E nem coube tudo aqui, inclusive a linguagem abreviada que se vê na internet e no celular, assunto para uma possível futura matéria.
Resende Costa: 1912 – 2012 (Parte final)
12 de Julho de 2012, por Regina Coelho 0
No início da década de 50, um empreendimento de vulto surgiu na cidade. Com toda pompa e circunstância, foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1952 o Salão Paroquial Padre Adelmo (C.P.P.), importante espaço multiuso idealizado por aquele que lhe empresta o nome, palco de eventos cívicos religiosos e artísticos.
Os anos 60 trouxeram boas novas na área da educação. Administrado por Miled Hannas, o município passou a contar com os serviços do Ginásio Nossa Senhora da Penha, o que corresponde hoje às quatro séries finais do Ensino Fundamental. Nas comemorações de formatura da primeira turma, em 1963, muita festa e uma curiosidade: o lançamento na cidade de “O Inconfidente” compondo parte dos festejos daquele importante momento. Atuando como diretor-redator do jornal, destacou-se o professor José Procópio da Silva, professor do ginásio e brilhante latinista. Tal feito se deveu ao empenho do prefeito Adenor de Assis Coelho, na administração de quem foi inaugurado o Grupo Escolar Conjurados Resende Costa (depois, Escola Estadual e, atualmente, Escola Municipal).
Além da importância natural que essas duas escolas passaram a ter para a vida do município, elas foram embriões de um crescimento significativo no setor com a consequente implantação do segundo grau (o Ensino Médio de hoje) em 1972 e a extensão de séries nas escolas da cidade e no Ribeirão.
Um olhar mais atento sobre a lista que encabeça a primeira parte da presente matéria com os nomes dos prefeitos e vice-prefeitos de Resende Costa revela que num curto período de seis anos a cidade teve três prefeitos: Cici Alves, Geraldo Monteiro e Aristides Coelho. O primeiro cumpriu mandato de dois anos, o que valeu no país todo com o objetivo de tornar coincidentes os mandatos eletivos. O segundo renunciou ao cargo, fato que transformou em prefeito o “Coelho” (então vice), por igual período exercido por aquele a quem sucedeu. Em contrapartida, entre 1977 a 1988, ou seja, em doze anos, o município teve dois prefeitos com mandatos de seis anos: Cici Alves novamente e sucedendo-o Gilberto Pinto. Depois disso, até o momento atual, os mandatos para o executivo municipal voltaram a ter quatro anos de duração, havendo possibilidade de o candidato disputar uma reeleição desde a disputa do ano 2000. A propósito, com tantas mudanças na legislação em se tratando de vigência dos mandatos eletivos, vez ou outra ganha força a ideia de unificação das eleições gerais e municipais, que hoje ocorrem alternadamente a cada dois anos.
Dois momentos especiais marcaram os primeiros anos da década de 80. Assim é que o surgimento da Associação Cultural Movimento Raízes e suas cinco edições anuais do “Encontro de Inverno de Resende Costa” caracterizaram um período de grande efervescência na vida cultural da cidade. Também o Jornal Novo (periódico idealizado e comandado pelo Toninho Melo Dr. Antônio Pedro, hoje promotor de Justiça na vizinha São João) foi destaque naqueles produtivos anos.
Na gestão do prefeito Camilo Lélis, o Teatro Municipal passou por uma reforma, o que acontece novamente neste ano do centenário da cidade, agora administrada pelo prefeito Adilson Resende. Paralelamente aos trabalhos de restauração do teatro, foi criada a “Fundação Casa de Cultura”, solenemente instalada no mesmo prédio e tendo como coordenadores gerais José Márcio Resende e Luiz Antônio Pinto. Este último, por sinal, como prefeito eleito na disputa seguinte, pôde concretizar muitos dos propósitos da Casa de Cultura.
No final de 2008, um sonho antigo de muitos resende-costenses virou realidade quando a cidade, sob a administração de Gilberto Pinto, pôde comemorar a inauguração do prédio da Biblioteca Municipal, bela e imponente construção erigida ao lado do casarão da Câmara Municipal, no Mirante das Lajes.
Sem deixar de considerar a importância dos fatos aqui apresentados, ressaltando ainda o caráter subjetivo do que foi selecionado, bem como sem deixar de reconhecer o mérito dos homens que em momentos distintos conduziram os destinos de Resende Costa, elejo dois símbolos ligados à sua história centenária: o Teatro Municipal e o Salão Paroquial. Na construção de ambos, a participação popular. Em mutirão, pessoas carregando pedras para a obra do teatro, que foi inaugurado sem forro, o que provocou novos esforços coletivos. O mesmo ocorrendo tempos depois, com a mobilização de tanta gente para conseguir erguer não um simples salão, mas um ousado edifício para a época.
Neste ano de comemorações do aniversário de cem anos da cidade da laje, contando com a atuação brilhante da Banda de Música Santa Cecília (corporação mais antiga que a própria Resende Costa, uma vez que foi fundada em fins do século XIX), registre-se a homenagem de reconhecimento da coluna a todos os cidadãos de bem deste município tão querido.
Nascer ou não em Resende Costa, viver e/ou trabalhar aqui ou fora daqui guardando no coração sentimentos de amor e orgulho por esta cidade são formas de conferir nossa verdadeira identidade resende-costense e sustentar a sensação que temos de pertencimento a esta terra.
Os anos 60 trouxeram boas novas na área da educação. Administrado por Miled Hannas, o município passou a contar com os serviços do Ginásio Nossa Senhora da Penha, o que corresponde hoje às quatro séries finais do Ensino Fundamental. Nas comemorações de formatura da primeira turma, em 1963, muita festa e uma curiosidade: o lançamento na cidade de “O Inconfidente” compondo parte dos festejos daquele importante momento. Atuando como diretor-redator do jornal, destacou-se o professor José Procópio da Silva, professor do ginásio e brilhante latinista. Tal feito se deveu ao empenho do prefeito Adenor de Assis Coelho, na administração de quem foi inaugurado o Grupo Escolar Conjurados Resende Costa (depois, Escola Estadual e, atualmente, Escola Municipal).
Além da importância natural que essas duas escolas passaram a ter para a vida do município, elas foram embriões de um crescimento significativo no setor com a consequente implantação do segundo grau (o Ensino Médio de hoje) em 1972 e a extensão de séries nas escolas da cidade e no Ribeirão.
Um olhar mais atento sobre a lista que encabeça a primeira parte da presente matéria com os nomes dos prefeitos e vice-prefeitos de Resende Costa revela que num curto período de seis anos a cidade teve três prefeitos: Cici Alves, Geraldo Monteiro e Aristides Coelho. O primeiro cumpriu mandato de dois anos, o que valeu no país todo com o objetivo de tornar coincidentes os mandatos eletivos. O segundo renunciou ao cargo, fato que transformou em prefeito o “Coelho” (então vice), por igual período exercido por aquele a quem sucedeu. Em contrapartida, entre 1977 a 1988, ou seja, em doze anos, o município teve dois prefeitos com mandatos de seis anos: Cici Alves novamente e sucedendo-o Gilberto Pinto. Depois disso, até o momento atual, os mandatos para o executivo municipal voltaram a ter quatro anos de duração, havendo possibilidade de o candidato disputar uma reeleição desde a disputa do ano 2000. A propósito, com tantas mudanças na legislação em se tratando de vigência dos mandatos eletivos, vez ou outra ganha força a ideia de unificação das eleições gerais e municipais, que hoje ocorrem alternadamente a cada dois anos.
Dois momentos especiais marcaram os primeiros anos da década de 80. Assim é que o surgimento da Associação Cultural Movimento Raízes e suas cinco edições anuais do “Encontro de Inverno de Resende Costa” caracterizaram um período de grande efervescência na vida cultural da cidade. Também o Jornal Novo (periódico idealizado e comandado pelo Toninho Melo Dr. Antônio Pedro, hoje promotor de Justiça na vizinha São João) foi destaque naqueles produtivos anos.
Na gestão do prefeito Camilo Lélis, o Teatro Municipal passou por uma reforma, o que acontece novamente neste ano do centenário da cidade, agora administrada pelo prefeito Adilson Resende. Paralelamente aos trabalhos de restauração do teatro, foi criada a “Fundação Casa de Cultura”, solenemente instalada no mesmo prédio e tendo como coordenadores gerais José Márcio Resende e Luiz Antônio Pinto. Este último, por sinal, como prefeito eleito na disputa seguinte, pôde concretizar muitos dos propósitos da Casa de Cultura.
No final de 2008, um sonho antigo de muitos resende-costenses virou realidade quando a cidade, sob a administração de Gilberto Pinto, pôde comemorar a inauguração do prédio da Biblioteca Municipal, bela e imponente construção erigida ao lado do casarão da Câmara Municipal, no Mirante das Lajes.
Sem deixar de considerar a importância dos fatos aqui apresentados, ressaltando ainda o caráter subjetivo do que foi selecionado, bem como sem deixar de reconhecer o mérito dos homens que em momentos distintos conduziram os destinos de Resende Costa, elejo dois símbolos ligados à sua história centenária: o Teatro Municipal e o Salão Paroquial. Na construção de ambos, a participação popular. Em mutirão, pessoas carregando pedras para a obra do teatro, que foi inaugurado sem forro, o que provocou novos esforços coletivos. O mesmo ocorrendo tempos depois, com a mobilização de tanta gente para conseguir erguer não um simples salão, mas um ousado edifício para a época.
Neste ano de comemorações do aniversário de cem anos da cidade da laje, contando com a atuação brilhante da Banda de Música Santa Cecília (corporação mais antiga que a própria Resende Costa, uma vez que foi fundada em fins do século XIX), registre-se a homenagem de reconhecimento da coluna a todos os cidadãos de bem deste município tão querido.
Nascer ou não em Resende Costa, viver e/ou trabalhar aqui ou fora daqui guardando no coração sentimentos de amor e orgulho por esta cidade são formas de conferir nossa verdadeira identidade resende-costense e sustentar a sensação que temos de pertencimento a esta terra.
Resende Costa: 1912 – 2012
13 de Junho de 2012, por Regina Coelho 0
| PERÍODO | PREFEITO | VICE |
| Até 1935 | Francisco Mendes deResende | - |
| 1935-1946 | José Vilela daCosta Pinto | - |
| 1945 | Pedro Muzzi do Espírito Santo | - |
| 1945 | Padre Nelson Rodrigues Ferreira | - |
| 1945 | José Vilela daCosta Pinto | - |
| 1946 | Alcindo Resende | - |
| 1946 | Sebastião Lara | - |
| 1946-1947 | José Gabriel de Resende | - |
| 1947-1950 | Antônio de Souza MaiaJúnior | Olíndio Argamin de Freitas |
| 1951-1954 | Geraldo Monteiro de Oliveira- 1º mandato | Antônio da Silva Barbosa |
| 1955-1958 | Antônio (Honório) de Resende - 1º mandato | José Augusto dos Reis |
| 1959-1962 | Miled Hannas | José da Conceição Vale |
| 1963-1966 | Adenor de Assis Coelho | José Benedito de Sousa |
| 1967-1970 | Antônio (Honório) de Resende - 2º mandato | Plestes de Oliveira Resende |
| 1971-1972 | Ocacyr Alves de Andrade - 1º mandato | José Celso da Silva |
| 1973-1974 | Geraldo Monteiro de Oliveira- 2º mandato (incompleto) | Aristides Coelho dos Santos |
| 1975-1976 | Aristides Coelho dos Santos - (posse do vice) | - |
| 1977-1982 | Ocacyr Alves de Andrade - 2º mandato | Marcos de Oliveira Neto |
| 1983-1988 | Gilberto José Pinto- 1º mandato | Aquim Coelho de Resende |
| 1989-1992 | Camilo Lélis de Resende Chaves | José Asterak Moreira |
| 1993-1996 | Luiz Antônio Pinto | João de Paiva Filho |
| 1997-2000 | José Rosário Silva | Silvério Nivaldo de Assis |
| 2001-2004 | Gilberto José Pinto- 2º mandato | Antônio Aparecido de Sousa |
| 2005-2008 | Gilberto José Pinto- 3º mandato | Paulo César Fortuna Dias |
| 2009-2012 | Adilson Avelino de Resende | João de Paiva Filho |
Neste junho de 2012, o centenário de emancipação política de Resende Costa, como não poderia deixar de ser, é pauta quase inevitável. Optei por fazer uma abordagem despretensiosa ligada às pessoas cujos nomes constam na relação acima na condição de prefeitos e vice-prefeitos por esses cem anos. A análise crítica sobre cada momento histórico fica a cargo dos especialistas no assunto ou estudiosos da história do município. Fico com particularidades que julguei interessantes, especialmente aquelas relacionadas à educação e à cultura. Possíveis imprecisões em datas e nomes bem como omissão de fatos se devem à escassez de fontes fidedignas e à limitação normal de espaço no Jornal das Lajes.
Diante do exposto, mãos à obra. Considerando os dois primeiros mandatários, é possível observar o longo período de permanência deles no poder, especialmente o do coronel Mendes. Eleito inicialmente presidente da primeira Câmara Municipal, tornou-se, na prática, chefe do Executivo. Entre seus incontáveis feitos, destaque para a criação do Grupo Escolar Assis Resende (hoje Escola Estadual Assis Resende), da Biblioteca Pública Municipal e a edificação do Teatro Municipal, que fez de Resende Costa, à época, um dos poucos municípios mineiros a abrigar um teatro. Sucessor e homem de confiança de Mendes Resende, doutor Costa Pinto cumpriu dois mandatos (nomeado e eleito) e foi um verdadeiro mecenas. Com o patrocínio da municipalidade, possibilitou a vinda de inúmeras e qualificadas companhias artísticas à cidade. É oportuno assinalar ainda a fundação do Grêmio Literário, espaço instalado nos “Quatro Cantos” (hoje o imóvel é propriedade do Luizinho Chaves) e a movimentação de alguns valorosos grupos teatrais como fatos importantes no contexto cultural das primeiras décadas do século XX.
Em relação aos anos 40, louve-se o idealismo de alguns resende-costenses para a criação de alguns jornais: “O Papagaio”, “A Araponga” (sugestivos os nomes, não?) e “O Resende Costa”, periódicos altamente literários, portanto, distantes da linha convencional de jornais. Destaco também o Cine Santa Teresa, empreendimento arrojado para a época, instalado no prédio do Teatro Municipal, cenário de anteriores exibições cinematográficas.
Com a ditadura do Estado Novo (1937-1945), os prefeitos (nova designação para os governantes municipais) passaram a ser nomeados pelos interventores dos estados. 1945 foi um ano politicamente tenso para Resende Costa. Em 24 de novembro de 45, assumiu o poder doutor Pedro Muzzi (primeiro juiz municipal). Sobre esse momento de indefinição constitucional assim se expressou o Padre Nelson, que chegou a tomar posse como prefeito de Resende Costa: “Verificando-se pouco depois que os snrs. Juízes, por serem Juízes Eleitorais, não podiam ser prefeitos, foi o Vigário da Paróquia, não sem muita relutância nossa, indicado para responder pelo expediente da Prefeitura até o dia 3 de Dezembro. Devido à permanência do tempo, não houve consultas ao Snr Arcebispo, mas sim, ao Rev.mo Forânea, que concordou aceitássemos a indicação. Fomos empossado como Prefeito no dia 28 de Novembro. Passadas as eleições de 2 de Dezembro, passamos a Prefeitura ao Snr. Prefeito Dr. Costa Pinto, no dia 3 de Dezembro às 12 horas”. (Livro do Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Penha). Com a renúncia do Dr. Costa Pinto em 14 de junho de 1945, foi nomeado prefeito, Alcindo Resende, então secretário da Prefeitura e que permaneceu no cargo até novembro de 1946, retirando-se voluntariamente. Ato contínuo, em reunião presidida pelo Padre Nelson no Teatro Municipal, às 19 horas do dia 1º de novembro de 1946, foi indicado o nome do Dr. Sebastião Lara (médico), por maioria dos votos, para ocupar a cadeira de chefe do executivo municipal.
No que diz respeito à permanência do senhor José Gabriel de Resende como prefeito, dona Aparecida (filha dele, esposa do Élcio Maia) me revelou que, por pressão de um grupo de correligionários liderados por Tancredo Neves, o pai se viu obrigado a aceitar aquele encargo até 1947.
(A matéria continua em julho.)
Nem tão sábias palavras
14 de Maio de 2012, por Regina Coelho 0
“Todo mundo elogia e tal, mas a frase mais horrível que existe é: pra sua idade você está muito bem.” Quem disse isso, ainda outro dia, foi a apresentadora Xuxa. Apresento aqui minha solidariedade à rainha dos baixinhos, ao que parece, hoje sem reinado. Sem querer me comparar a ela, apenas tentando captar o sentido de suas palavras, fica claro que aquilo que a princípio parece um elogio deve ter soado para a quase cinquentona Xuxa como um prêmio de consolação. O trecho “pra sua idade” chega a ser cruel. Então a pessoa não pode simplesmente estar muito bem?
Devo dizer que não se trata de nenhum problema com a idade, a questão está na forma disfarçada que muitos usam para insinuar que alguém é velho. Vejamos estas outras pérolas que principalmente certas mulheres maduras ouvem: “você está muito conservada”. Ou uma variação disso: “você não envelhece, até parece que está conservada em formol”. Existem também os eufemismos para os considerados feios: “fulano(a) é tão simpático(a)!” Ou então: “ele(a) é bonitinho(a)”, para muita gente é a versão light do(a) feio(a) com dó. Os gordos não escapam: “mas ele(a) tem um rosto tão bonito!” ou: “você está fortão (fortona ou sacudida)”.
Saindo do âmbito da aparência, constato ainda que certas construções linguísticas são meras formalidades, ainda que ditas muitas vezes de maneira informal. Quando, por exemplo, uma pessoa se dirige a alguém dizendo “olá, como vai?” ou “tudo bem?”, sabe que isso é só um cumprimento, sem precisar obrigatoriamente de uma resposta condizente com a pergunta. Há também uma frase quase inevitável que muita gente utiliza na tentativa de tornar mais descontraído o ambiente em que a conversa tem início. Quem recebe, muitas vezes, se vê praticamente obrigado a dizer àquele que é recebido esta educada frase: “fique à vontade”. O perigo é a pessoa levar isso bem ao pé da letra. Já imaginaram? Ou então ouvir dela, como já vi acontecer em uma festa, querer saber seriamente do anfitrião o que ele queria dizer com aquilo. Uma deselegância isso e uma quase confusão à vista.
Mas engraçado é o que acontece com um casal que conheço bem. Ao levar alguém até sua casa, seja amigo, parente ou cliente, ele costuma simplesmente pedir, logo de cara: “não repare a bagunça!”, por mais que tudo esteja arrumado. E sempre está. Dá para calcular a posterior bronca da mulher diante de tão descabido pedido dele aos que, normalmente, não veem qualquer vestígio de bagunça naquele lugar. É a famosa força do hábito.
Igualmente habitual é chegar a uma loja de roupas e/ou de calçados, mostrar interesse por algum produto e ouvir de quem nos atende a indefectível frase: “pode experimentar”. É lógico que a pessoa pode e deve experimentar o objeto de seu desejo. Dispensável, pois, a “permissão”. E quando a gente acha que a roupa não vai nos cair bem e quem quer nos convencer do contrário dispara: “não vai levar? É a sua cara!” Ou “essa roupa se parece com você”. Verdade seja dita. Nem todos agem assim. Pessoalmente falando, nem posso me queixar da forma como geralmente me tratam.
Situação constrangedora ocorre mesmo naqueles momentos em que cumprimentos formais de pesar são trocados indevidamente por manifestações de felicitação. Sei de gente que, em velório, dirigindo-se a um familiar do falecido, cumprimentou-o de forma desastrada proferindo solenemente “meus parabéns”. Acontece também de a pessoa se apoderar da fala de alguém que lhe deve um agradecimento. Em vez de ouvi-lo, afoitamente, ela diz um “muito obrigado(a)”, não dando tempo ao outro de assim proceder. Constrangimento também é perguntar por alguém julgando-o vivo e saber em seguida que esse alguém já morreu há muito tempo. E não dá para esquecer aqueles terríveis enganos a que estamos todos sujeitos quando confundimos pessoas e/ou seus acompanhantes. É o caso de encontrar, depois de anos, um conhecido, elogiar a beleza da “filha” que o acompanha e descobrir, na hora, que a moça em questão é a nova companheira dele.
Mas, de tudo que tenho ouvido ou falado ultimamente, ando meio cismada com o “no meu tempo” ou “na minha época”. Falar assim dá a impressão de que a gente já viveu o que tinha para viver. Ora, o nosso tempo é hoje. De novo, o tempo, a idade... da loba, do condor (onde dói?). Não tem jeito. É viver e envelhecer ou morrer jovem. Melhor a primeira opção, até para que se tenha tempo (mais uma vez ele) de aprender, entre tantas coisas, que, se “a palavra é prata, o silêncio é ouro”. Eis aí um sábio ditado popular segundo o qual calar é mais valioso do que falar. Dependendo das circunstâncias, no entanto, é omissão. E falar é tão bom, principalmente quando as palavras são usadas com sinceridade para declarar um amor, matar irreprimíveis saudades, pedir perdão, consolar, encorajar ou alegrar alguém. Quanto aos comentários às vezes infelizes, às frases meramente formais ou habituais e às gafes cometidas principalmente naqueles momentos em que o ideal teria sido ficar de boca fechada, é melhor reconhecer que ninguém escapa de dizer certas bobagens, inconveniências, obviedades ou até mesmo indelicadezas.
Devo dizer que não se trata de nenhum problema com a idade, a questão está na forma disfarçada que muitos usam para insinuar que alguém é velho. Vejamos estas outras pérolas que principalmente certas mulheres maduras ouvem: “você está muito conservada”. Ou uma variação disso: “você não envelhece, até parece que está conservada em formol”. Existem também os eufemismos para os considerados feios: “fulano(a) é tão simpático(a)!” Ou então: “ele(a) é bonitinho(a)”, para muita gente é a versão light do(a) feio(a) com dó. Os gordos não escapam: “mas ele(a) tem um rosto tão bonito!” ou: “você está fortão (fortona ou sacudida)”.
Saindo do âmbito da aparência, constato ainda que certas construções linguísticas são meras formalidades, ainda que ditas muitas vezes de maneira informal. Quando, por exemplo, uma pessoa se dirige a alguém dizendo “olá, como vai?” ou “tudo bem?”, sabe que isso é só um cumprimento, sem precisar obrigatoriamente de uma resposta condizente com a pergunta. Há também uma frase quase inevitável que muita gente utiliza na tentativa de tornar mais descontraído o ambiente em que a conversa tem início. Quem recebe, muitas vezes, se vê praticamente obrigado a dizer àquele que é recebido esta educada frase: “fique à vontade”. O perigo é a pessoa levar isso bem ao pé da letra. Já imaginaram? Ou então ouvir dela, como já vi acontecer em uma festa, querer saber seriamente do anfitrião o que ele queria dizer com aquilo. Uma deselegância isso e uma quase confusão à vista.
Mas engraçado é o que acontece com um casal que conheço bem. Ao levar alguém até sua casa, seja amigo, parente ou cliente, ele costuma simplesmente pedir, logo de cara: “não repare a bagunça!”, por mais que tudo esteja arrumado. E sempre está. Dá para calcular a posterior bronca da mulher diante de tão descabido pedido dele aos que, normalmente, não veem qualquer vestígio de bagunça naquele lugar. É a famosa força do hábito.
Igualmente habitual é chegar a uma loja de roupas e/ou de calçados, mostrar interesse por algum produto e ouvir de quem nos atende a indefectível frase: “pode experimentar”. É lógico que a pessoa pode e deve experimentar o objeto de seu desejo. Dispensável, pois, a “permissão”. E quando a gente acha que a roupa não vai nos cair bem e quem quer nos convencer do contrário dispara: “não vai levar? É a sua cara!” Ou “essa roupa se parece com você”. Verdade seja dita. Nem todos agem assim. Pessoalmente falando, nem posso me queixar da forma como geralmente me tratam.
Situação constrangedora ocorre mesmo naqueles momentos em que cumprimentos formais de pesar são trocados indevidamente por manifestações de felicitação. Sei de gente que, em velório, dirigindo-se a um familiar do falecido, cumprimentou-o de forma desastrada proferindo solenemente “meus parabéns”. Acontece também de a pessoa se apoderar da fala de alguém que lhe deve um agradecimento. Em vez de ouvi-lo, afoitamente, ela diz um “muito obrigado(a)”, não dando tempo ao outro de assim proceder. Constrangimento também é perguntar por alguém julgando-o vivo e saber em seguida que esse alguém já morreu há muito tempo. E não dá para esquecer aqueles terríveis enganos a que estamos todos sujeitos quando confundimos pessoas e/ou seus acompanhantes. É o caso de encontrar, depois de anos, um conhecido, elogiar a beleza da “filha” que o acompanha e descobrir, na hora, que a moça em questão é a nova companheira dele.
Mas, de tudo que tenho ouvido ou falado ultimamente, ando meio cismada com o “no meu tempo” ou “na minha época”. Falar assim dá a impressão de que a gente já viveu o que tinha para viver. Ora, o nosso tempo é hoje. De novo, o tempo, a idade... da loba, do condor (onde dói?). Não tem jeito. É viver e envelhecer ou morrer jovem. Melhor a primeira opção, até para que se tenha tempo (mais uma vez ele) de aprender, entre tantas coisas, que, se “a palavra é prata, o silêncio é ouro”. Eis aí um sábio ditado popular segundo o qual calar é mais valioso do que falar. Dependendo das circunstâncias, no entanto, é omissão. E falar é tão bom, principalmente quando as palavras são usadas com sinceridade para declarar um amor, matar irreprimíveis saudades, pedir perdão, consolar, encorajar ou alegrar alguém. Quanto aos comentários às vezes infelizes, às frases meramente formais ou habituais e às gafes cometidas principalmente naqueles momentos em que o ideal teria sido ficar de boca fechada, é melhor reconhecer que ninguém escapa de dizer certas bobagens, inconveniências, obviedades ou até mesmo indelicadezas.